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Aqui me refiro aos participantes da investigação como aqueles que se ‘dispuseram a apoiar’. Ponho essa expressão em destaque, porque se tratou de uma conquista gradativa na aproximação da pesquisadora com os estudantes de uma turma da EJA, engajados em atividades de confecção de roupas, no interior de um município do agreste pernambucano. Moradores da zona rural, eles foram convidados a serem acompanhados por uma pesquisadora no decorrer das suas atividades de produção fabril, para que ela pudesse observar e compreender práticas de numeramento nos diálogos estabelecidos entre eles, nas suas atividades profissionais e, também, no contexto escolar, durante as aulas de matemática.

O estranhamento daquele grupo de estudantes em razão da presença de uma pesquisadora na sua sala de aula, e mais ainda no seu lugar de trabalho, refletiu-se em um certo ‘descaso’ com a minha demanda, seguido da ‘negação’ de que seriam pessoas com o perfil que eu buscava. Isso requisitou atitudes de aproximação, pois somente a

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convivência selaria um processo interativo, aberto, dialógico.

No contato com essas pessoas, eu relembrava Ullmann (1975), que, no seu livro Mutações, refere-se a duas modalidades de mutação: uma mutação acidental e uma mutação deliberada. Interessei-me em rever a posição dessa autora e em adotá-la ao falar das vidas das pessoas com as quais convivi e de cuja vida comunitária participei. Particularmente, interessei-me quando essa autora pontuou que o importante seria escrever sobre momentos, que considerava dádivas, bons e maus momentos. Entendi que seria essa a perspectiva que me caberia adotar numa investigação de cunho etnográfico, como a que eu me dispunha a empreender, que requereria de mim registrar momentos vividos, às vezes confortáveis, outras vezes, nem tanto.

Cheguei à Escola Maria Felix de Lima, no Juá, norteada pela informação de que, naquela turma da EJA à qual me apresentaria, todos os estudantes trabalhavam em confecção de roupas e moravam naquela comunidade. No entanto, no meu primeiro contato com as pessoas já se revelou uma mutação não acidental, porque não foram circunstâncias próprias daquele momento que sugeriram as mudanças: tratou-se de uma mutação deliberada pelo próprio contexto – a evasão escolar que reduziu a turma de quarenta e dois estudantes matriculados para doze frequentando regularmente. E, como iniciei a pesquisa de campo no segundo semestre de 2010, no primeiro semestre de 2011, deparei-me com apenas oito daqueles que eu acompanhara na escola e em seus trabalhos no ano anterior (2010). Quatro alunas não efetuaram a renovação da matrícula no ano seguinte (2011), alegando a incompatibilidade de conciliar trabalho, escola e atividades domésticas (como mãe e esposa).

O termo Mutação, neste trabalho, foi tomado na acepção de mudança, como compreendido por Liv Ullmann, reportando-nos às vidas que foram subtraídas do nosso contato no ambiente escolar, e, alterando, portanto, o caminho da pesquisa. Eu os encontrava agora apenas nas facções, compartilhando com seus colegas os afazeres próprios das tarefas que executavam. Cessava, a partir de então, a possibilidade de vê- los posicionarem-se nas interações da sala de aula e, nesse contexto, explicitarem vias de diálogo com os modos de matematicar escolares.

Assim como Liv Ullmann, compreendo que há mutações acidentais e outras que são deliberadas. As mutações, que a conformação da sala de aula e, com isso, os

meus procedimentos de produção de material empírico sofreram, porém, não posso considerá-las como uma mutação acidental. Embora não se tratasse de uma “opção literal” dos sujeitos (nem dos alunos, de deixarem a escola e nem minha de encontrar a sala esvaziada), não se constituía numa surpresa tal processo de esvaziamento. Tratava- se de uma imposição própria do sistema econômico capitalista, o qual reduz a pessoa à condição de produtor, de assujeitado, não de sujeito de direitos, dentre os quais o direito à educação. Legalmente, este direito lhe é garantido, mas, operacionalmente, é negado. Portanto, constituía uma mutação deliberada pelo sistema, não sendo, repito, uma opção do sujeito, mas uma decisão que é preciso assumir, porque o direito à vida – e a responsabilidade pela sobrevivência – sobrepõe-se aos demais.

Tornaram-se meus companheiros na investigação quatro alunas e quatro alunos, com idade compreendida entre 16 e 55 anos, estudantes com frequência regular na sala de aula e nos espaços laborais: são eles os sujeitos desta pesquisa aos quais, para preservação de sua identidade, conferi, nomes fictícios. Optei por dar a cada um deles o nome de uma pedra em razão da escolha que fizeram dos chaveiros que eu trouxera de Minas Gerais para presenteá-los, quando lá retornei para encontro com a orientadora e também respeitando a opinião deles. Cada chaveiro era adornado por uma pedra diferente, e cada um escolheu o seu. Essa nomeação me pareceu bem apropriada porque sentia, além do encantamento de cada um e cada uma pela pedra escolhida, a referência também à fortaleza, à resistência e ao brilho associados às pedras – que eu reconhecia em cada um daqueles sujeitos na luta pela condução de suas vidas.

Os nomes dos homens e das mulheres, colaboradores neste estudo, são nomes de pedras que, em português, são palavras masculinas e femininas. Assim, os quatro primeiros sujeitos que figuram no Quadro I (Ágata, Esmeralda, Safira e Turquesa) são mulheres. Os outros quatro (Diamante, Topázio, Rubi e Cristal) são homens. Faço essa advertência para evitar inserir os artigos antes dos nomes, uma vez que, no dialeto nordestino, os nomes próprios não são antecedidos por artigo definido, mesmo quando gozamos de intimidade com as pessoas. Descrevo a seguir, por alto, aquelas pessoas com quem realmente pude contar para a realização do estudo, representando-as com a imagem da pedra que a nomeou.

Ao transcrever as interações que, neste estudo, apresento com a finalidade de exibir situações do campo empírico e analisá-las, optei por identificar-me utilizando

o pronome pessoal eu, uma vez que os estudantes oscilavam nos modos de chamar-me. Diziam professora quando estávamos na escola; usavam meu apelido Val, quando me encontrava nas facções ou noutros lugares daqueles sítios. Como, dada a natureza de meu trabalho, não cabe procurar dissimular, em minhas análises, meu envolvimento pessoal com os sujeitos e as interações, achei mais adequado identificar, assim (e não com a palavra “pesquisadora”), minha participação nas interações.

Saliento, porém, que nesta tese, “o singular” foi utilizado quando a referência foi feita às minhas experiências pessoais no processo de condução da pesquisa e nas referências à minha atuação enquanto pesquisadora. Faço esse comentário, por reconhecer a relevância da colaboração das minhas orientadoras nesse percurso, sobretudo, apoiando-me do desenho metodológico e na análise dos dados empíricos produzidos na investigação.

QUADRO I – Caracterização dos participantes Preciosas pessoas que colaboraram com a pesquisa

ÁGATA Uma jovem de 17 anos, solteira, que na facção desempenha a função de costureira com muita competência. Por dispor de mais experiência no que faz, está sempre disponível a ajudar as colegas orientando-as quando necessitam. Ela confessa gostar de matemática e é bem dedicada ao estudo. Esse bom desempenho na matéria e também no exercício de sua função na facção leva colegas a recorrerem a ela para tirar dúvidas. ESMERALDA Uma jovem de 19 anos, solteira, que atua na área de costura e também

desenvolve a função de caçaco. Na escola confessou ter dificuldade em compreender matemática. Mas sempre está atenta, esforçando-se para aprender. Tanto para enfrentar dificuldades no desempenho do seu trabalho na facção, quanto para compreender o que se ensina na escola, ela recorre a Ágata, procurando explicação.

SAFIRA

Uma senhora com 36 anos, casada, mãe de duas filhas que na facção desempenha a função de costureira, mas está disponível para realizar o serviço que for necessário.

Na aula de matemática, confessa ter dificuldade para entender os conteúdos ensinados, Por isso, valorizou bastante a proposta de estudos em grupo com as colegas.

TURQUESA Uma senhora com 55 anos, merendeira numa escola municipal que, nas horas vagas trabalha aprontando peças. Ela reconhece que precisa usar muita matemática no exercício de sua função de merendeira e demonstra orgulhar-se desse trabalho.

DIAMANTE Um jovem com 19 anos, que trabalha no corte de peças e também domina a função de modelista (embora ali não exercendo essa função), e de costureiro. Daquele grupo parece ser o operário mais preparado para atuação nas mais variadas funções da facção. É muito curioso propondo questões que envolvem informática, o automatismo das máquinas, um campo ainda não dominado por ele.

TOPÁZIO Um jovem com 21 anos, que faz travetagem. É responsável pela facção onde trabalha, o que lhe exige domínio da matemática na administração tanto da produção, quanto da contabilidade exigida na administração dos pagamentos. Gosta de matemática, mas reconhece que se esforça para compreender, que não é matéria fácil. Reconhece também que no trabalho ele orienta, mas na escola é orientado.

RUBI Um jovem com 17 anos, que bate botão e também é caçaco. Desempenha seu trabalho com satisfação, embora esteja consciente de que, para conseguir ampliar sua renda, só dedicando-se a muitas horas de serão. Gosta de matemática, mas sabe que precisa esforçar-se bem para entender a matéria.

CRISTAL Um jovem com 16 anos, que trabalha como caçaco e bate botão. Está sempre propondo uma parceria de trabalho com o colega Rubi na facção onde estão vinculados. Não parece gostar de dedicar-se às tarefas da escola. Mas, no trabalho, ele propõe atividades com o colega Rubi, sugere serões, etc.