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1.7 Vers une distinction entre délétion et disomie

1.7.1 Aspects morphologiques et comportementaux

Segundo Walford (2008), o acesso ao campo é um processo de negociação e estabelecimento de confiança mútua que pode ser rescindido a qualquer momento pelos pesquisados. Esse autor afirma ainda, que o acesso é reconhecidamente um processo difícil e sua complexidade pode requerer alguns compromissos por parte do pesquisador, não só para ganhar, mas para manter o processo de acesso ao campo. Com esse entendimento, planejei um projeto que focalizasse a história da cultura material, dentro dos domínios da vida cotidiana da comunidade quilombola.

O projeto teve como objetivo a coleta, a organização, a análise e a disponibilização das histórias e memórias das relações da vida humana com a materialidade que a cerca.

No dia marcado para apresentação do projeto para determinados membros da comunidade, estavam presentes as acadêmicas do curso de Pedagogia de uma faculdade

próxima à comunidade, grupo denominado de “as universitárias”, e os adolescentes do

Projovem, perfazendo um total de 35 pessoas.

A reunião aconteceu no galpão da escola da comunidade. Fazia um calor intenso, mas todos estavam atentos à proposta de implementação de um projeto na área de História. Demonstrei todas as ações do projeto, que teria como produto final um pequeno documentário de suas tradições culturais, baseadas em histórias contadas pelos sujeitos históricos da comunidade quilombola. Ao final dessa apresentação, perguntei se tinham gostado; alguns ficaram calados e outros responderam que sim, mas todos concordaram em participar do projeto. Fiquei intrigada com uma aceitação assim, tão tranquila, de todos ali presentes. Não consegui perceber, naquele momento, se aquela aceitação seria pelo fato de o coordenador estar presente ou se realmente gostaram da proposta de realização de um documentário a respeito da comunidade. De acordo com Tura (2011), nos primeiros contatos há a tensão gerada na interação entre observador e observado e os sujeitos tende a mostrar um comportamento ou apresentar um discurso que lhes pareça ser do agrado ou da expectativa do observador. Por outro lado, pode-se ver também como o pesquisador se envolve na busca de elementos que o ajudem a interpretar o que está acontecendo ali, como propor algo que seja de efetivo interesse da comunidade a ser pesquisada e, ao mesmo tempo, que possa criar condições para a realização da pesquisa.

A escolha dos dias dos encontros para a execução do projeto fez emergir outra tensão, em decorrência das datas e dos horários para as próximas reuniões, já que algumas das universitárias não concordaram com as datas propostas e cogitaram não participar, mas chegou-se a uma conclusão que foi acatada por todas: os encontros seriam aos domingos pela manhã. Ocorreu-me a dúvida se as universitárias estariam empenhadas realmente em participar de um projeto aos domingos pela manhã, que não lhes traria recompensas imediatas, dado que, nas minhas experiências como professora universitária, qualquer possibilidade de marcar um encontro com as acadêmicas aos domingos era totalmente rejeitada por quase todos da turma.

Apesar de não ter confirmado o primeiro encontro de domingo, ao chegar ao local, na hora marcada, deparei-me com a presença de todas as universitárias, demonstrando seu interesse pelo projeto.

O projeto intitulado “Comunidade Quilombola Paineiras: memórias e histórias”

teve como objetivo principal a coleta e a organização dessas histórias e memórias num pequeno documentário sobre suas tradições culturais, baseadas em histórias contadas pelos sujeitos históricos da comunidade de Paineiras. O trabalho de coleta de informações foi realizado pelos próprios integrantes da comunidade. Foram, ao todo, quatro encontros entre estudos, oficinas e apresentação da coleta de dados realizada pelo grupo. Uma parte interessante do projeto foi a apresentação da história local e da cultura material a partir de utensílios usados pelos membros da comunidade. Essas apresentações foram gravadas e editadas, transformando-se num vídeo da comunidade, conforme previa o projeto.

Figura 6: Capa do vídeo da comunidade de Paineiras. Fonte: Acervo da pesquisadora.

O vídeo foi apresentado a toda a comunidade por ocasião da formatura dos adolescentes do Projovem, tendo uma ótima aceitação dos que participaram diretamente do projeto e da comunidade quilombola em geral. Nesse evento, depois da apresentação do vídeo, constatei a satisfação do líder da comunidade, por sua fala, quando disse que

eu tinha me transformado em uma ‘pesquisadora quilombola’. Fiquei emocionada e

senti-me como parte da comunidade, incorporando-me aos grupos daquela comunidade de maneira muito peculiar, participando da reconstrução da sua história, mas tendo uma posição definida como pesquisadora, conforme afirma Tura: “a grande transformação ocorre no momento em que o pesquisador verifica que o campo o acolhe, que ele começa a fazer parte do grupo, o que não exclui a situação de ter bem delimitada sua

posição no espaço social” (TURA, 2008, p. 194).

Finalizado esse projeto, dei continuidade ao processo de imersão no campo de pesquisa, investigando, como já dito, sobre as práticas de leitura e de escrita no uso do computador e da internet. Acredito que novas maneiras de ganhar acesso ao campo surgirão em decorrência de maior tempo de permanência no campo e de um relacionamento mais próximo com os participantes da pesquisa, visto que o acesso nunca é total, podendo ser considerado como um processo contínuo, no qual o pesquisador é gradualmente habilitado para passar de uma permissão inicial e estabelecer uma relação menos restritiva e de maior confiança com os pesquisados (WALFORD, 2008). Após a descrição e a análise do processo de negociações para ganhar acesso ao campo, passo a descrever o processo de imersão no campo de pesquisa, o cotidiano da comunidade através das tradições e religiosidade em Paineiras