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1. LE COURANT DE LA VIE

1.2. Connaissance et action

Neste trabalho a análise que segue63 procura entender a peça não como um esboço,

protótipo ou uma pré-criação de outra peça e sim como uma obra madura para a época em que

foi escrita. Esta separação entre as obras que serviram de preparação, as maduras do período

áureo, e as e declínio é o que tem reforçado a imagem de Williams como um dramaturgo de

três fases distintas.

Esse tipo de engano tem consequências, pois a fase madura do autor é aquela em que

mais facilmente as peças podem ser associadas ao realismo psicológico, isto é, a uma

categoria de peça propagada como universal e na qual o que há de mais profundo é o lado

psicológico dos personagens. Em seu livro Staging depth: Eugene O´Neill and the politics of

psychological discourse, Joel Pfister afirma que há quem defenda a ideia de que os

personagens de The iceman cometh (O entregador) e Long day´s journey into night (Longa

jornada noite adentro), por exemplo, são o resultado do domínio dramatúrgico do autor para

aperfeiçoar um realismo psicológico que dará ao leitor/espectador uma compreensão do

universal (daquilo que é inerentemente ao humano) através de detalhes concretos dos

personagens.

O próprio autor, porém, adverte para o risco de se interpretar tais peças pela via do

realismo psicológico, pois há “[...] o risco de ignorar o fato de que, para O´Neill, o que

constitui o realismo psicológico estava fundado em noções especificamente históricas e

ideológicas do universal, do humano, e da 'complexidade da autoconsciência'.”64 (PFISTER,

1995, p. 257).

63 A análise nesta subseção é apenas indicativa, pois o aprofundamento nesse tópico requer abordagem e

metodologia que não fazem parte deste trabalho. Fica registrada a sugestão para futuros trabalhos na área de literatura comparada.

64 “[...] the risk of ignoring the fact that O'Neill's sense of what constitutes psychological realism was

founded on historically and ideologically specific notions of the universal, of the human, and of 'complexity of self-consciousness'."

Essa constatação de Pfister sobre a obra de O´Neill pode ser estendida à obra de

Williams. Citando as três peças mais canônicas de Williams, em ordem cronológica, temos:

The glass menagerie, A streetcar named desire e Cat on a hot tin roof. Porém, a maior parte

da produção do autor, como já bem notou Iná Camargo Costa (2001, p. 130 – vide subseção

1.4), fica sistematicamente fora das discussões. Para mencionar um exemplo de como a

operação ideológica de achatamento das peças que as rotula de realismo psicológico acontece,

é útil relembrar aquela que catapultou o autor ao estrelato. The glass menagerie, que se passa

na memória de Tom Wingfield, seu protagonista-narrador, se utiliza de vários recursos que

fogem completamente ao realismo, como flashbacks, legendas e narração. Isso não impede

que a peça ainda seja considerada calcada no realismo psicológico, não se levando em conta

que os recursos utilizados pelo autor ajudam a construir a dimensão histórica da peça. O

mesmo acontece em grau semelhante às outras duas peças citadas.

É comum a crítica apontar que Moony e Jane são protótipos de personagens que mais

tarde Williams recriaria em peças longas. Tais comentários visam sempre a distinguir que os

protótipos são inferiores e que os personagens maduros é que carregam o talento criativo do

autor. Em seu ensaio “A educação escritural ou o outro Flaubert”, Leyla Perrone-Moisés

(2006, p. 67) analisa o modo como a crítica tem lidado com a obra do autor francês Gustave

Flaubert, cuja obra mais conhecida é Madame Bovary:

Procura-se freqüentemente, na obra de juventude de Flaubert, os anúncios de sua futura perfeição. Tendo a obra de maturidade como alvo e modelo, apontam-se e perdoam-se as imperfeições das primeiras obras, valorizando nestas apenas aquilo que ilumina a gênese das grandes obras por vir. […] Na literatura, como na vida, o adolescente deve ser ultrapassado pelo homem maduro, o aprendiz deve ceder lugar ao mestre; tudo é uma questão de educação sentimental ou estilística.

Perrone-Moisés afirma, na sequência, que Flaubert retomava os mesmos assuntos,

comparações e cenas, sendo a obra do autor um exemplo para o estudo de evolução e

evolucionista (PERRONE-MOYSES, 2006, p. 68-69). O ensaio de Perrone-Moisés é valioso

por mostrar a possibilidade e as vantagens de uma leitura em que a obra seja analisada per se,

sem que as obras posteriores – geralmente canônicas – sejam o foco privilegiado da análise. A

análise de Moony´s kid... (assim como das outras peças da coletânea) se pauta nesse

entendimento não evolucionista. Porém, para esta subseção, propõe-se discutir as peças

canônicas sem que o foco incida sobre elas, ao contrário, chamando a atenção para o que as

primeiras peças já ofereciam como elemento de permanência (o que Perrone-Moysés chama

de “já e sempre”).

Vale a pena destacar alguns pontos referentes a tais comparações. Por exemplo, de que

Moony é um dos primeiros esboços de Stanley Kowalski, de A streetcar named desire. Para

além de dizer que o tipo físico e atitudes reforçam o semelhante sex appeal de ambos, a

diferença vital entre eles está no fato de que são trabalhadores de épocas distintas: Moony

enfrenta as dificuldades e a falta de perspectiva trazidas pela Depressão; Stanley acredita na

oportunidade de ascender à classe média no contexto do pós-guerra. Aproveitar do

personagem Moony as características físicas para ligá-lo como protótipo de Stanley é reduzir

a complexidade do personagem e da peça a fim de valorizar os canônicos Stanley e A

streetcar named desire.

Moony por vezes é entendido como um protótipo do também sonhador Tom

Wingfield, principalmente pela relação que ambos têm com as fábricas nas quais trabalham. A

diferença entre ambos é que Tom Wingfield tenta escapar da situação ao abandonar o emprego

e a família (mãe e irmã) enquanto Moony permanece com a mulher e o filho. Abandonar a

casa ou permanecer nela em nada modifica a situação que os oprime. Tom não obtém mais

que um escape, e Moony pelo menos temporariamente se resigna ao aceitar ficar em casa.

Moony, portanto, é mais que o protótipo de um futuro personagem canônico. Ele representa a

condição de mobilidade, submete-se, afinal tem um filho recém-nascido para criar. Tom, por

sua vez, sabe que abandonar o lar significará um transtorno econômico para a mãe e a irmã,

mas ambas são adultas e capazes de encontrar um caminho para seguirem suas vidas – ainda

que este seja o da dependência do pouco que o Estado vai lhes prover.

Seguindo o mesmo critério, comumente se entende Jane como uma pré-Amanda

Wingfield. A indagação de Amanda em The glass... sugere certa similaridade com a de Jane

em Moony's kid...:

AMANDA: Mas – por que – por que, Tom – você é tão inquieto? Onde você vai toda noite?

TOM: Eu – vou ao cinema.65

Tanto Tom quanto Moony são seres insatisfeitos com o pouco que as condições de

trabalho e a prospecção de um futuro interessante têm a lhes oferecer. Ambas, portanto,

questionam aquilo que não está de acordo com a entrega ao sistema que os oprime: o desejo

de mudança. Há em ambas uma resignação em relação às forças opressoras simplesmente

porque ambas acreditam que não adianta lutar contra elas.

Amanda afirma que experienciara as graças e dádivas de um passado encantador

repleto de pretendentes, antes que o advento dos encontros apontado por David E. Kyvig

(2004, p. 132-133 – vide subseção 2.5) começasse a se inserir na cultura. Se suas histórias são

verdadeiras ou não, o que importa é o fato de que esse é o passado que idealiza e do qual

ressente não mais fazer parte. Amanda se adaptou à realidade ao se casar com um marido que

não podia lhe proporcionar tais benesses, sendo depois abandonada por ele e obrigada a

administrar o lar, contando apenas com o salário do filho e as vendas de assinatura de revista

que realizava.

Ao contrário de Amanda, Jane não teve – ou não imaginou – um passado glorioso e ao

se casar com Moony larga o emprego – ela é uma trabalhadora como o marido – na ilusão de

65 “AMANDA: But – why – why, Tom – are you always so restless? Where do you go to, nights?

que ele lhe proporcionasse uma vida melhor. Fica claro desde o início da peça, que ela não

mais se alimenta dessa ilusão e já está integrada à realidade, sabendo bem como as condições

materiais afetam a ambos.

Assim, a resignação de ambas em relação à impossibilidade dos sonhos de Tom e

Moony nada mais é do que o resultado da observação prática delas sobre o que o futuro árduo

lhes reserva. Elas não são as algozes de seus homens (filho e marido), mas entendem os

efeitos que seus sonhos podem provocar na vida familiar. As duas creem que o adversário

deles é muito mais forte e não tem chance de perder.

Jane chega a dizer que Moony é lunático como o pai, a quem ele puxou. Moony reage

dizendo que ele não era lunático e sim esperto, pois ele fugiu da família. O paralelo neste caso

é com o personagem Sr. Wingfield, marido de Amanda e pai de Tom e de Laura em The glass

menagerie.

Os chamados protótipos e esboços parecem se firmar, portanto, por meio de uma

classificação depreciativa que estimula com firmeza as obras canônicas já estabelecidas em

detrimento de possibilitar uma releitura de peças com vigor próprio. Dado o caráter

situacional das peças em um ato, não é possível rotulá-las de realismo psicológico, uma vez

que frequentemente o arco de mudança interna dos personagens não sofre alterações. Assim, é

mais produtivo – para a crítica, evidentemente – taxá-las de experiências juvenis, não

reconhecendo seu valor intrínseco. Portanto, nas análises desta tese, procura-se entender

Tennessee Williams, para usar as palavras de Perrone-Moisés (2006, p. 68) sobre os escritos

adolescentes de Gustave Flaubert, “[...] não como o virtual e o imperfeito, mas como um