6.4 Preuve du théorème B
6.4.3 Conclusion de la preuve du théorème B
O PT não consegue o número mínimo de filiações para obter o diretório Estadual e com isso não participa das eleições em 1982 dentro do Estado de Alagoas. O balanço que cada um dos entrevistados faz sobre o fracasso diverge em alguns pontos específicos, mas todos concordam que foi danoso para o Partido não participar das eleições e uma perda política importante nesse primeiro momento. Todos concordam com a frustração que se
143 CHAGAS, Juary. Nem classe trabalhadora, nem socialismo - O PT das origens aos dias atuais. São Paulo: Sundermann, 2014. p.86
144 "O PT elegeu oito deputados federais, 12 estaduais e 117 vereadores em todo o país, além de alcançar importantes votações para os governos dos estados, destacando-se a votação de Lula, embora derrotado, para o governo do Estado de São Paulo." REIS, Daniel Aarão. Ditadura e democracia no Brasil: do golpe de 1964 à
constituição de 1988. Rio de Janeiro: Zahar, 2014. p. 511-512
145 REIS, Daniel Aarão. Ditadura e democracia no Brasil: do golpe de 1964 à constituição de 1988. Rio de Janeiro: Zahar, 2014. p. 508
146 O jornal Em Tempo, órgão da corrente Democracia Socialista, travou diversas polêmicas com Brizola e seu socialismo moreno, dentro do contexto destes embates pela influência do movimento operário.
abateu sobre a militância. Adelmo opina que há inclusive um componente ideológico nesse fracasso:
...a gente tinha que ter dezenove cidades para ter o diretório Estadual. A gente conseguiu esse índice, só que perdemos, fomos barrados no tribunal regional eleitoral que alegava que nossa documentação não tava completa. Acho que foi mais por questões ideológicas mesmo. E a gente não fez, em 80, não participou das eleições em 82, mas participamos das eleições seguintes, e até hoje nós estamos aqui em Alagoas. (Adelmo dos Santos)
Observa-se a insistência de Adelmo em um componente ideológico externo ao PT para legalizar o Partido. O dirigente político afirma que o índice foi obtido, mas o Partido dos Trabalhadores foi barrado no Tribunal Regional Eleitoral por questões ideológicas. Adelmo, reiteradamente opinando que havia adversários ideológicos anti-petistas, apazigua em sua memória o fracasso do partido, transferindo a responsabilidade dessa derrota em um "outro", um inimigo do PT. Ricardo Coelho discorda da avaliação de Adelmo e afirma que o número mínimo de assinaturas não conseguiu ser obtido. Ele afirma que mesmo não abrindo o diretório os militantes do PT deram apoio a outras candidaturas alinhadas aos interesses populares:
Infelizmente não, porque havia uma exigência de um, de organizar um mínimo de diretórios, se eu não me engano eram vinte na época e nós não conseguimos organizar os vinte diretórios, organizamos só dezesseis, e por isso o Partido de 82, em 82 o Partido não participou das eleições aqui em Alagoas, eu acho que só quatro Estados, não me lembro bem, não teve participação do PT, foi aqui, Roraima e o Acre, não o Acre já houve, alguns Estados lá do norte e... um... Mato Grosso, mas de modo geral é... Alagoas não participou de modo geral não, Alagoas não participou das eleições de 82, o PT, alguns... alguns militantes foram apoiar candidatos chamados da Frente Popular dentro do PMDB, que eram ligados ao PCB, ao PCdoB ou que eram de esquerda independente como Ronaldo Lessa, Selma Bandeira que tinham vindo de outras organizações de esquerda da época da ditadura e... a maioria, uma boa parte, também não apoiou ninguém, defendeu voto nulo. Mas nós não participamos das eleições de 82 foi uma das nossas grandes frustrações, aqui em Alagoas na criação do Partido foi não ter participado das eleições de 82. (Ricardo Coelho)
Vemos um choque entre memórias individuais claro. Não há convergência entre as avaliações. Enquanto Adelmo credita a uma conspiração ideológica a não regulamentação do Partido, Ricardo Coelho afirma que simplesmente não se efetivou a constituição do mínimo
de diretórios efetivados, o que não impediu que diversos militantes construíssem individualmente candidaturas do PCB e do PCdoB, o que revela que essa rivalidade acirrada no movimento narrada anteriormente poderia ser suspensa em nomes de alianças episódicas.
Curiosamente, Alice Anabuki, quando questionada se a militância do PT participou de alguma outra campanha, para algum candidato de outro Partido, responde apenas que "não, não", e disse que: "... a gente sempre se manteve um pouco fiel à política de independência de classe." Aqui opera mais uma vez um esquecimento que corrobora com a visão do Partido "classista", "puro ideologicamente". Mantendo-se fiel à independência de classe, na memória de Alice o PCB e o PCdoB, ligados ao MDB não poderiam ter sido apoiados. Mais uma vez, a coerência narrativa é mantida em nome de uma identidade política.
O depoimento de Adelmo dos Santos, porém, encontra-se com o de Ricardo Coelho em diversos pontos. Divergindo da narrativa apresentada por Alice de que os militantes petistas não se engajaram em nenhuma campanha eleitoral:
É, em 82 a gente, é... não conseguiu, é, legalizar o Partido junto à justiça eleitoral. Eram necessários quinze... dezenove diretórios municipais para que a gente pudesse fazer a convenção e a partir daí tivesse condições para disputar as eleições. Não foi possível, o TRE disse que a gente não seguiu a legalização, que exigia várias, várias condições para que o Partido fosse legalizado. Então, como não houve a legalização a gente, o Partido se diluiu em várias candidaturas, passou a apoiar várias candidaturas à deputado estadual da época. Eduardo Bonfim, Selma Bandeira, é... Mendonça Neto, Ronaldo Lessa e cada um seguiu seu destino. Então nós apoiamos candidatos que naquela época tinham, estavam em confronto com os militares e nós estávamos começando a sair do regime totalitário, essa foi a razão por qual o Partido não participou das eleições, em função disso aí do TRE. (Adelmo dos Santos)
Curioso que o argumento de Adelmo dos Santos é contraditório com o que se acreditava na época tratar-se da abertura política proposta pelos militares. Uma das observações levantadas pela esquerda -- especialmente aquela que estava sob o guarda-chuva do MDB -- era a de que a criação de novos partidos "dividiria as oposições". Nesse sentido, é contraditório que o TRE tenha proibido a criação do PT, já que esta divisão enfraqueceria a classe trabalhadora.147
Ricardo Coelho faz o balanço dessa experiência de frustração, apresentando um tema que vai se repetir no balanço final do PT, a baixa capilaridade no movimento operário, além
do já mencionado embate com o PCdoB nos movimentos urbanos. Vem à tona também uma outra problemática, a inexperiência dos ativistas no trato com a legalidade:
A avaliação é que nós vivemos um... uma pouca representatividade política, aqui no Estado, nós não conseguimos, não havia em Alagoas, um grande movimento sindical organizado, então, de trabalhador, então nós não conseguimos, é... nos enfronhar bem dentro desse movimento e onde havia movimento mais de classe média, que era movimento sindical mais de classe média, que era médico, engenheiro, bancário, outros segmentos, o PCdoB era muito forte aqui no Estado. O fato do PCdoB ser muito forte aqui em Alagoas prejudicou a nossa participação em 82. Agora também houve incompetência nossa, parte legal nós não tínhamos muita experiência. Os sindicalistas não tinham experiência nessa parte legal, ata de convenção, filiação, isso houve uma incompetência também. Agora, o fato do PCdoB ser muito forte em Alagoas também nos prejudicou. (Ricardo Coelho)
Nesta fala, Ricardo sumariza três elementos que dificultaram essa legalização:
a) A incompetência no trato legal;
Diferente da avaliação de Adelmo, aqui aparece um elemento prático-organizativo básico. Sem experiência política para além da vida sindical, os dirigentes teriam cometido erros no processo que inviabilizaram a legalização do Partido.
b) A ausência de bases operárias;
Repete-se elemento que analisamos no capítulo anterior: o PT alagoano não possuía a capilaridade que tinha entre os Trabalhadores de outras regiões do país. Esse elemento objetivo, dentro da narrativa, seria um empecilho quase que determinante à construção do Partido.
c) A força do PCdoB;
Ainda nessa estruturação de memória a partir do outro que era o PCdoB, a memória de Ricardo Coelho traz novamente para consideração a força desse Partido no Estado e sua rivalidade com o PT. Esses enfrentamentos nos parecem importantes para a constituição da identidade do Partido dos Trabalhadores no Estado.