Uma vez que acredito que determinadas questões somente podem vir à tona a partir da exemplificação de alguns exercícios específicos, será abordada, agora, a máscara neutra em seus aspectos práticos e, desta forma, poderemos perceber com mais nitidez a sua eficácia pedagógica.
Os dois exercícios, que apresento a seguir, pertencem a uma etapa preliminar que se fez
necessária por dois motivos: o primeiro atende à necessidade de “entrar” na máscara neutra o
mais rapidamente possível para diminuir a carga de expectativa e ansiedade após a sua apresentação, e serve, também, para medir o grau de conforto ou desconforto que cada estudante sente ao vestir a máscara neutra pela primeira vez e, deste modo, servirá de alerta para dosar o tempo dado a cada estudante para a realização dos exercícios seguintes. Em
106Esta imagem de um ator “côncavo”, utilizada por Ariane Mnouchkine (MNOUCHKINE; 2010: 63), significa
estar aberto a novas propostas e experimentações. Esta metáfora era muito utilizada, nas oficinas de máscaras balinesas de que participei com os professores Stephane Brodt e Ana Cláudia Teixeira.
segundo lugar, realizo outro exercício que se tem mostrado de grande utilidade para a introdução à máscara neutra e se tornou, em meu trabalho, um instrumento proveitoso para que os estudantes tomem consciência das suas características cotidianas de utilização do seu próprio corpo e compreendam melhor o sentido de esvaziamento ou despersonalização que, como veremos, conduz à ideia de um corpo universal.
4.6.1 O primeiro contato com a máscara neutra.
Vejamos a proposta do primeiro exercício que realizo no treinamento com a máscara neutra: de costas para a platéia, virar para frente, olhar para a cadeira, andar até ficar na sua frente, sentar-se, olhar o espaço, olhar para a classe e, com o olhar, escolher um dos colegas, logo levantar-se e andar em direção a ele107.
Como a máscara é vestida de costas para a classe, a ação de virar-se para a platéia já fornece material suficiente para compreender a força contida neste objeto que amplifica a sua presença no espaço cênico. Assim, o estudante percebe com mais nitidez, o peso do seu corpo, como se modifica a sua respiração e o faz tomar consciência dos incontroláveis movimentos involuntários do seu corpo, dos seus olhos e da sua mente. Isto já acontece geralmente nesta primeira ação de virar-se para a platéia, quando o exercício apenas começou.
O exercício acima é realizado pela turma inteira sem que se faça, ainda, nenhum comentário individual. Assim que todos os estudantes realizaram a primeira rodada, conversamos sobre as primeiras impressões. Esta conversa é muito importante e nela se percebe que a neutralidade é um conceito muito amplo, pois cada pessoa tem a sua maneira de ser neutro, portanto não se trata de um padrão fixo. Não há fórmulas. Contamos com algumas práticas que se apresentam, inicialmente, como pistas valiosas. Nenhum professor pode nos ensinar a descobrir o que está dentro de nós, no entanto, para isto podemos ser ajudados.
Ao vestir a máscara neutra, percebemos a relutância em abandonar nossos gestos recorrentes que caracterizam nosso “eu” cotidiano. Travamos, assim, uma luta consciente contra a
107 Este exercício me foi transmitido pessoalmente pela bailarina, atriz e cantora Mônica Tavares em encontros
para trocas de experiências que realizamos em diversas oportunidades. Pela sua simplicidade tem se tornado muito útil para o contato inicial do estudante.
necessária despersonalização e, por mais que entendamos que devemos nos despir temporariamente da nossa Persona social, ficamos vulneráveis perante nós mesmos.
Percebemos também, nesta primeira experiência, a importância da concentração como um sustentáculo do trabalho do ator. Sem ela nossas energias se dispersam, o que nos afasta da possibilidade de vivenciar o aqui/agora. Estar em cena com verdadeira presença é um ato de entrega em que o nível de compromisso, concentração ou atenção cênica não é uma escolha
pessoal que permita gradações mais ou menos esmeradas, deve ser, “antes de tudo, a completa concentração de toda a natureza do ator”. (STANISLAVSKI, 1989: 14)
4.6.2 Passos preliminares.
O segundo exercício se inicia sem a máscara e é realizado em duplas. Podem ser trabalhadas três ou quatro duplas, que dividem simultaneamente o mesmo espaço de acordo com a capacidade da sala e o número de máscaras de que se disponha. No entanto, cada dupla será independente da outra, embora todas sigam as mesmas orientações. É aconselhável que as duplas sejam formadas com estudantes com biótipos parecidos, todavia, isto não é indispensável108.
O estudante A caminha pelo espaço, mantendo seu jeito normal de caminhar, e o seu andamento deve ser constante. O estudante B caminhará atrás dele a uma distância necessária para observar o parceiro dos pés à cabeça, acompanhando-o com o movimento dos olhos, sem a necessidade de movimentar o pescoço para, assim, começar a reproduzir, em seu próprio corpo, o andar, a postura corporal, o andamento e todo e qualquer detalhe que seja capaz de corporificar. Ao ouvir um determinado comando, B deverá parar em um ponto estratégico da sala, sem abandonar as características físicas já conquistadas, e continuará observando de todos os ângulos possíveis para incorporar os novos detalhes de A que continuará se deslocando pela sala. A um novo comando, A passará na frente de B para que ele possa continuar seguindo-o na sua caminhada. A um novo comando A se deslocará lateralmente e diminuirá o seu andamento para deixar B passar à sua frente. B, sem modificar-se em nada,
108 Este exercício é produto da adaptação de exercícios de observação bastante explorados na pedagogia teatral,
lhe apresentará a virtual fisicalização da sua imagem. Observando B, como um espelho que se desloca à sua frente, A deverá reconhecer aquelas características pessoais que nada tem a ver com a ideia de neutralidade que foram levantadas no primeiro exercício e realizará as mudanças corporais necessárias. Sem realizar nenhuma parada será realizado novamente o mesmo procedimento do início. Assim, a um novo comando, B se deslocará lateralmente e diminuirá o andamento para deixar passar A, já com suas novas características físicas. B deverá olhar para A sem guardar nenhum vestígio corporal da etapa anterior e deverá, em face das mudanças acontecidas, proceder à fisicalização de forma a imaginar que o seu corpo agora é uma enorme lupa que amplia cada detalhe que percebe em A. De modo geral, na etapa final desta nova sequência, em que se repetem os mesmos procedimentos da etapa anterior, A andará atrás de B consideravelmente mudado na direção da economia. A continuará andando pela sala e sem alterar em nada as suas características físicas e o seu andamento, deixará que lhe seja calçada uma máscara neutra no rosto. A partir deste estágio, o estudante deverá, atendendo aos comandos, realizar em intervalos de tempos por ele determinados, entre outras ações, as seguintes: parar e retomar a caminhada; parar, levantar um braço e abaixá-lo e retomar a caminhada; parar, levantar os dois braços e abaixá-los e retomar a caminhada; parar, agachar-se e levantar-se e retomar a caminhada; parar, olhar em uma determinada direção e retomar a caminhada nesta direção. Cada ação deverá ser totalmente concluída para ser iniciada a seguinte e se deverá procurar um tempo justo para realizar cada ação (nem rápido nem lento) para que esta não sugira nenhuma intenção nem denote nenhuma atitude particular, estado físico ou psicológico. Finalmente, dirigindo-se a um dos cantos da sala deverá permanecer em pé, observando o exercício já iniciado há algum tempo pelas novas duplas.
Na parte inicial deste exercício, o estudante percebe uma boa parte das suas características pessoais para lidar com o seu corpo cotidiano ao andar no espaço, tomando consciência, em alguns casos, dos desalinhamentos corporais adquiridos no dia a dia. A partir da ideia de
“espelhamento” que se reflete no corpo do outro colega, é preparada a caminhada inicial para
a despersonalização necessária para compreender o conceito de neutralidade e, desta forma, recuperamos o eixo de equilíbrio corporal. Devemos, neste momento, tomar muito cuidado para não deixar que se desenvolva a ideia, bastante comum entre os estudantes, de que as características próprias são interpretadas como defeitos pessoais. Ao contrário, a despersonalização em cena preservará a sua individualidade em uma situação de representação e, se é verdade que são percebidos alguns vícios posturais, a correção destes,
faz parte de uma tomada de consciência corporal que esta máscara promove de forma muito clara e objetiva. Por outro lado, outros estudantes percebem características que demonstram economia e equilíbrio já na primeira caminhada, o que facilita o primeiro contato com a máscara neutra. A seguir, é discutido com os estudantes o seu desempenho após ter vestido a máscara e abordamos as questões relacionadas ao tempo justo para a realização de ações que se encaminhem na direção da neutralidade. Assim, procuramos perceber, por contraste, que ações realizadas num tempo muito lento ou executadas com um ímpeto repentino, denotam intenções que (mesmo que não seja esta a intenção do estudante), conduzem a imaginação do espectador a interpretá-las como intenções, com as quais essas ações assumem conteúdos dramáticos que criam um fundo psicológico.