O instrumento de coleta de dados escolhido para esta pesquisa foi a entrevista, “[...] por ser um procedimento no qual você faz perguntas a alguém que, oralmente, lhe responde” (VERGARA, 2009, p. 52). Considerou-se a entrevista o instrumento mais adequado a ser aplicado na pesquisa, por se tratar de um universo
de pessoas deficientes visuais, com particularidades e individualidades a serem consideradas.
Hubner (2004, p. 52) observa que “As entrevistas, por exemplo, são utilizadas quando se quer obter a informação diretamente do indivíduo e aprofundar questões perguntando-lhe a razão pela qual as respondeu”. A autora sugere que se utilize um roteiro para a entrevista, como garantia de que o entrevistador não se perca e consiga manter o foco da entrevista, para que a coleta de dados não seja prejudicada, considerando que naquele momento o entrevistador precisa ter a preocupação de manter um bom relacionamento com o entrevistado e deixá-lo à vontade para responder às perguntas. Sugere também que o número de perguntas seja limitado para evitar o cansaço do indivíduo e para não tomar o seu tempo. É preciso considerar as características de cada indivíduo.
Seguindo as recomendações da autora, no pré-teste desta pesquisa, fez-se uma análise das perguntas e sentiu-se a necessidade de reduzir o seu número para maior conforto dos entrevistados.
Para Gil (2011), num estudo de caso, a entrevista é adequada por permitir aprofundamento das respostas. O autor conceitua a entrevista como uma técnica de coleta de dados em que o investigador se apresenta frente ao investigado e lhe formula perguntas, com o objetivo de obtenção dos dados que interessam à investigação. É uma forma de interação social. Como vantagem aponta: a possibilidade de obtenção de dados referentes aos mais diversos aspectos da vida social, podendo-se obter um aprofundamento de dados acerca do comportamento humano; os dados obtidos na entrevista são sucetíveis de classificação e quantificação. Quanto às desvantagens, aponta os custos de aplicação, que podem envolver treinamento de pessoal, transporte, distância, a falta de motivação para responder às perguntas, a incompreensão dos significados das perguntas, o fornecimento de respostas falsas, a influência exercida pelo aspecto pessoal do entrevistador e de suas opiniões pessoais sobre as respostas.
A entrevista informal, por meio da qual se obtém uma visão geral do problema pesquisado, é a menos estruturada possível deixando o entrevistado livre para se expressar. A focalizada é também livre, mas tem um determinado foco de interesse, enfoca um tema específico. A entrevista por pautas apresenta certo grau de estruturação, já que se guia por um relação de pontos de interesse que o entrevistador vai explorando ao longo de seu curso.
As entrevistas estruturadas desenvolvem-se a partir de uma relação fixa de perguntas, cuja ordem e redação permanece invariável para todos os entrevistados, que são geralmente em grande número. São mais rápidas por serem estruturadas e, quando são totalmente estruturadas, aproximam-se do questionário.
Tradicionalmente as entrevistas são realizadas face a face, mas nas últimas décadas vem sendo desenvolvida outra modalidade, a entrevista por telefone. Essa forma de entrevista tem como vantagens o baixo custo, a facilidade na seleção da amostra, rapidez, maior aceitação dos moradores das grandes cidades, que temem abrir suas portas para estranhos, a possibilidade de agendar o momento mais apropriado para a realização da entrevista, e a facilidade de supervisão do trabalho dos entrevistados. Como limitações a entrevista por telefone tem a interrupção da entrevista pelo entrevistado, menor quantidade de informações, a impossibilidade de descrever as características do entrevistado ou as circunstâncias em que se realizou a entrevista, pois alguns entrevistados podem não ter telefone ou não ter seu nome na lista (GIL, 2011).
As entrevistas podem ser realizadas individualmente ou em grupo. No caso do grupo focal, o número de participantes é de 6 a 12 e a reunião é conduzida pelo pesquisador ou por uma equipe. São muito utilizadas em estudos exploratórios e também para investigar um tema em profundidade, como ocorre nas pesquisas qualitativas.
Decidindo-se pela entrevista, optou-se pela entrevista semi-estruturada, com perguntas abertas e fechadas, baseando-se em um roteiro para orientação, cobrindo os tópicos referentes à situação contemplada nesta pesquisa. Quanto à estruturação, foram seguidas as classificações de May (2004), que define as entrevistas como estruturadas, semi-estruturadas, não estruturadas, em grupo e focais, e de Gil (2011), que as define como: estruturadas (com perguntas fechadas), informais (com perguntas abertas), focalizadas, por pautas, face a face e por telefone.
A escolha do instrumento de coleta de dados é fundamental para a pesquisa, sendo este o material específico que se vai utilizar para a aplicação da técnica, e, para que seja definido de forma satisfatória, os objetivos da pesquisa devem ter sido definidos de forma clara. Para a sua validação, deve-se utilizar do pré-teste para que ele seja aplicado com segurança na coleta definitiva dos dados. Se for modificado, deverá novamente passar pelo pré-teste. É importante o planejamento da aplicação
do instrumento para que se possa prevenir problemas, como o tempo para se locomover, para se fazer contatos etc. Deve-se planejar também o tratamento dos dados e o tempo gasto na pesquisa como um todo para que o projeto seja bem sucedido (TOMANIK, 2004). Nesta pesquisa foram aplicados três pré-testes para a validação das perguntas.
Nesta pesquisa, as entrevistas com os usuários residentes no DF foram feitas com a presença física da pesquisadora e do entrevistado, e, com os usuários residentes fora do DF, foram realizadas por telefone e pelo Skype.
Na condução da entrevista, Gil (2011) dá algumas orientações. É preciso ter habilidade nessa condução, conhecer um pouco a personalidade humana e preparar um roteiro para melhor se orientar. No roteiro, deve-se considerar como iniciar a entrevista, quanto tempo será gasto, como proceder em caso de recusa, em que locais e circunstância será realizada. As questões devem ser redigidas de forma clara e com cuidado para não causar constrangimentos ao entrevistado, e deve-se tentar manter o seu interesse.
O contato inicial é muito importante e, para que o entrevistador seja bem recebido, deve ser feito com atenção. Deve-se conversar amistosamente sobre outros temas que sejam interessantes antes de iniciar a entrevista. A seguir deve-se explicar a finalidade da entrevista, o objetivo da pesquisa, o nome da entidade, sua importância para a comunidade e a importância da colaboração do entrevistado. É preciso que o entrevistador sinta o momento do entrevistado.
Na formulação das perguntas, devem ser observados os seguinte fatores: as perguntas dever ser feitas apenas quando o entrevistado estiver pronto; as primeiras perguntas não devem causar negativismo; deve ser feita uma pergunta de cada vez; as perguntas não devem deixar implícitas as respostas; deve-se ter atenção às questões mais importantes para que sejam bem respondidas; e, quando o entrevistado não entender a pergunta, deve-se explicar cuidadosamente, pois muitas vezes é questão de desatenção e não de má formulação da pergunta.
Deve-se dar estímulo a respostas completas, evitar o “não sei” e utilizar indagações como “Poderia contar um pouco mais a respeito?”, “Qual a sua idéia em relação a esse ponto?”. A manutenção do foco na entrevista é importante, embora, para dar mais descontração, se possa conversar sobre outros assuntos. Em relação às questões delicadas, o entrevistador deve estar bastante atento para evitar constrangimentos, e estas perguntas devem ser feitas quando o entrevistado estiver
mais ambientado com o entrevistador. As respostas devem ser registradas com anotações ou com o uso do gravador, logo após a entrevista e após o consentimento do entrevistado. Tanto o início como o enceramento da entrevista devem se dar em momento de cordialidade, e deve ser encerrada enquanto o entrevistado mantém ainda o interesse em conversar sobre o assunto, devendo ser evitada a ruptura brusca da conversa.
Goldenberg (2007) cita que as entrevistas e os questionários podem ser estruturados de diferentes maneiras, podendo ser rígidamente padronizados, com perguntas abertas (resposta livre, não limitada por alternativas apresentadas) e fechadas (as respostas estão limitadas às alternativas apresentadas). Eles podem ser assistemáticos, solicitar respostas espontânes e, por entrevista projetiva, utilizar recursos audiovisuais para estimular a resposta. A autora apresenta pontos importantes na entrevista, que são a personalidade e a atitude do pesquisador, os quais interferem no tipo de resposta. Outro ponto é garantir o anonimato do entrevistado e o fato de o entrevistador ser apresentado por alguém de confiança do entrevistado, o que vai refletir na imagem do entrevistador e portas poderão se abrir ou se fechar.
A autora aponta como vantagens da entrevista: poder coletar informações de pessoas que não sabem escrever (as pessoas tem mais motivação para falar do que para escrever); apresentar maior flexibilidade para garantir a resposta desejada; permitir acesso a assuntos complexos, como as emoções; permitir maior profundidade e estabelecer relação de confiança e amizade entre pesquisador e pesquisado, o que pode propiciar o surgimento de novos dados. Como desvantagens, a autora considera: a influência do entrevistador sobre o entrevistado; a perda da objetividade com o crescimento da amizade; a exigência de mais tempo, atenção e disponibilidade do pesquisador; a dificuldade de se comparar as respostas, pois o pesquisador depende do que o pesquisado quer falar ou ocultar.
Goldenberg (2007) dá orientações para a elaboração da entrevista e sobre o comportamento do entrevistador. Na elaboração da entrevista, devem ser observados os seguintes aspectos: decidir que informação será buscada (dados de história pessoal: idade, educação, empregos; dados de comportamento; dados sobre outras pessoas; sentimentos, valores, razões, fatores objetivos e subjetivos); decidir o conteúdo da pergunta; questionar a sua utilidade e quem vai respondê-la; verificar se tem condições de resposta (as perguntas devem ser claras, diretas e
estimuladoras); decidir se a entrevista vai conter perguntas abertas e/ou fechadas; aplicar o pré-teste e, após, reelaborar ou não as perguntas. Quanto ao comportamento do entrevistador, este deve despertar confiança e ser bastante amistoso, cuidar para não despertar antagonismos, ser o mais neutro possível, estar o mais bem preparado possível sobre o assunto, não repetir questões, respeitar as limitações e o tempo do entrevistado, e iniciar com perguntas mais fáceis de serem respondidas (GOLDENBERG, 2007).
Marconi e Lakatos (2010) classificam o questionário na observação direta extensiva e o definem como um instrumento de coleta de dados, constituído por uma série ordenada de perguntas, que devem ser respondidas por escrito e sem a presença do entrevistador. Apresentam como vantagens do questionário: permite economia de tempo e pessoal; atinge um maior número de pessoas; possibilita respostas mais rápidas e precisas, mais liberdade nas respostas em razão do anonimato, mais tempo para responder, menos influência do pesquisador. Para as autoras, as desvantagens do questionário são: percentagem pequena de questionários que voltam; vêm muitas perguntas sem respostas; não pode ser aplicado a analfabetos; a devolução tardia prejudica o calendário ou sua utilização;nem sempre é o escolhido quem responde às questões, invalidando o questionário; falta de ajuda na não compreensão das questões.
Na observação direta intensiva, apresentam as técnicas da observação e da entrevista. A observação utiliza os sentidos na obtenção de determinados aspectos da realidade, pode ser assistemática, consiste em recolher e registrar os fatos da realidade sem que o pesquisador utilize meios técnicos especiais ou precise fazer perguntas diretas, sistemática, e realiza-se em condições controladas para responder a propósitos preestabelecidos. Na observação não participante, o pesquisador toma contato com a comunidade, mas sem integrar-se a ela. Já na observação participante, ele se integra à comunidade. A observação individual se dá com um pesquisador e um pesquisado e, quando em equipe, se dá por um pesquisador e um grupo a ser pesquisado. A observação na vida real é feita no ambiente real, registrando-se os dados à medida que forem ocorrendo, sem a devida preparação. A observação em laboratório se dá em condições controladas.
Definem a entrevista como o encontro entre duas pessoas, a fim de que uma delas obtenha informações a respeito de determinado assunto, mediante uma conversação de natureza profissional. Tem como objetivo principal a obtenção de
informações do entrevistado, sobre determinado assunto ou problema. Apresenta as seguintes vantagens: pode ser utilizada por todos os segmentos da população, alfabetizados e não alfabetizados; há a oportunidade de esclarecer perguntas; oferece oportunidade para avaliar atitudes, condutas; dá a oportunidade para a obtenção de dados que não se encontram em fontes documentais e que sejam relevantes ou significativos; permite que os dados sejam quantificados. Como limitações, as autoras consideram: a dificuldade de expressão de ambas as partes; a incompreensão do significado das perguntas que pode levar a uma falsa interpretação; a influência do entrevistado pelo entrevistador nas suas opiniões; a demora na realização e a dificuldade de ser realizada; a retenção de dados importantes por parte do entrevistado com receio que sua identidade seja revelada; e o pequeno grau de controle sobre uma situação de coleta de dados. Essas desvantagens podem ser minimizadas pelo pesquisador usando o seu bom senso.
Ressaltam a importância da preparação da entrevista e dão algumas orientações. Deve-se planejar a entrevista com o foco no objetivo a ser alcançado. Se possível, é importante o conhecimento prévio do entrevistado, para saber o grau de conhecimento dele sobre o assunto, marcar com antecedência hora e local, para garantir que será recebido, garantir ao entrevistado o segredo de suas confidencias e de sua identidade, fazer contato com os líderes, além de fazer conhecimento prévio do campo e organizar roteiro com as questões importantes.
As autoras colocam como diretrizes para se obter êxito na entrevista o cuidado com o contato inicial, devendo ser mantida uma conversação amistosa, explicando-se a finalidade da pesquisa, seu objeto, relevância e ressaltando a necessidade da sua colaboração. É importante manter a confiança do entrevistado e levá-lo a ficar à vontade. Deve-se fazer uma pergunta de cada vez e perguntar primeiro o que não tenha possiblidade de recusa. Toda pergunta que sugira resposta deve ser evitada. Quanto ao registro das respostas, estas devem ser anotadas no momento da entrevista, sendo o uso do gravador ideal, com o consentimento do entrevistado. A entrevista deve terminar em clima de cordialidade para que o pesquisador, se necessário, possa voltar para obter novos dados.
As respostas devem atender aos requisitos de validade, que é a comparação com respostas de outros entrevistador, relevância, importância em relação aos objetivos da pesquisa, especificidade, clareza, profundidade, que diz respeito aos sentimentos e pensamentos do entrevistado, e extensão, que diz respeito à
amplitude da resposta (MARCONI e LAKATOS, 2010). Em comparação com o questionário, este é mais impessoal e o retorno da coleta mais difícil e mais indicado para pesquisas quantitativas.
Para Richardson (2012), existem vários instrumentos de coleta de dados que podem ser utilizados para obter informações acerca de grupos sociais. O autor destaca o questionário como sendo o mais utilizado. A informação obtida por meio de questionário permite observar as características de um indivíduo ou grupo. Para ele, o questionário é uma entrevista estruturada.
Quanto às entrevistas, o autor divide-as em: estruturadas, não estruturadas ou entrevistas em profundidade, não diretivas, guiadas e dirigidas.
As entrevistas não estruturadas podem ser classificadas em entrevistas de pesquisa, de seleção e as de aconselhamento. As entrevistas de pesquisa não estruturadas têm como objetivos:
1. Obter informações do entrevistado, seja de fato que ele conhece, seja de seu comportamento;
2. Conhecer a opinião do entrevistado, explorar suas ativiade e motivações;
3. Mudar opiniões ou atitudes, modificar comportamentos.
As entrevistas estruturadas se assemelham aos questionários, pois trazem perguntas fechadas. A não diretiva permite ao entrevistado desenvolver suas opiniões e informações da maneira que ele estimar conveniente, a guiada permite ao entrevistador utilizar um guia de temas a ser explorado durante a entrevista e a entrevista dirigida desenvolve-se a partir de perguntas precisas, pré-formuladas e com uma ordem pré-estabelecida.
Na introdução da entrevista, deve-se dizer ao entrevistado o que se pretende e por que se está fazendo a entrevista. Devem ser esclarecidos os objetivos e a natureza do trabalho, assegurado o anonimato e sigilo das respostas, deve-se indicar que ele pode questionar algumas perguntas e sentir-se livre para interrupções, solicitar a colaboração nas respostas e ressaltar que suas opiniões e experiências são interessantes. Deve ser pedida autorização para a gravação da entrevista, explicando o motivo da gravação. As entrevistas devem ser transcritas e analisadas de imediato.
Baseando-se nas leituras e análise dos autores acima citados, foi escolhido como instrumento mais adequado a ser aplicado nesta pesquisa a entrevista semi-
estruturada, decidindo-se por utilizar a abordagem sense-making para a elaboração das perguntas, uma das abordagens alternativas de estudo de usuários.