Considerando então que a técnica inclui os instrumentos a utilizar na recolha de dados, iremos socorrer-nos (no nosso estudo) do questionário, da entrevista semi- estruturada e da análise documental.
2.1. Documentos
A recolha de informação através de documentos é necessária em qualquer investigação e constitui uma tarefa difícil e complexa que exige do investigador paciência e disciplina (Pardal e Correia, 1995, p.74).
Na utilização deste método de recolha de informação devem ter-se em atenção algumas regras: definir claramente o objecto de estudo; formular devidamente a hipótese; detectar o nível de imparcialidade das fontes; comparar apenas o comparável.
Parece que muitas vezes se identifica a análise documental com a análise de conteúdo, mas esta aproximação só pode ser verdadeira se estiver integrada na análise categorial ou temática (Bardin, 1977, p. 45). Assim, para Chaumier a análise documental é uma operação ou um conjunto de operações visando representar o conteúdo de um documento sob uma forma diferente da original, a fim de facilitar num estado ulterior, a sua consulta e referenciação (cit. por Bardin, 1977, p. 45).
Todavia, nesta aproximação entre a análise de conteúdo e a análise documental existem algumas diferenças que Bardin nos apresenta do seguinte modo (1977, p. 46):
a documentação trabalha com documentos; a análise de conteúdo com mensagens (comunicações). A análise documental faz-se principalmente por classificação-indexação; a análise categorial temática é, entre outras, uma das técnicas da análise de conteúdo. O objectivo da análise documental é a representação condensada da informação, para consulta e armazenagem; o da análise de conteúdo, é a manipulação das mensagens (conteúdo e expressão desse conteúdo), para evidenciar os indicadores que permitem inferir sobre uma outra realidade que não a da mensagem .
Esta diferenciação procura clarificar cada uma destas análises. Contudo, como nos diz também Bardin (ibidem),
a operação intelectual: o recorte da informação, ventilação em categorias segundo o critério da analogia, representação sob forma condensada por indexação, é idêntico à fase de tratamento das mensagens de certas formas de análise de conteúdo .
Jardins de Infância da Rede Pública: Entre a Administração Central e Local
Assim, a análise documental aspira ser um instrumento de recolha de informação de que o investigador dispõe e que pretende,
fornecer informação complementar e, até certo ponto, pode esporadicamente substituir a observação directa e a conversa ou entrevista informal no fornecimento de descrições de actividades e, especialmente, de depoimentos utilizáveis na caracterização das opiniões, expectativas, quadros de valores e visões do mundo dos sujeitos sociais (Costa, 1986, p. 141).
O tipo de documentos a analisar serão os planos de actividade elaborados pela autarquia.
2.2. Entrevista
A entrevista é uma técnica de recolha de dados de larga utilização na investigação e que apresenta algumas vantagens e desvantagens.
As vantagens desta técnica podem ser consideradas as seguintes: obtenção de uma informação mais rica e não exigência de um informante alfabetizado.
As desvantagens desta técnica caracterizam-se principalmente por limitar a recolha de informação e pela fraca possibilidade de aplicação a grandes universos (Pardal e Correia, 1995, p. 64).
A nossa opção pela entrevista a autarcas e presidentes de conselhos executivos prende-se com o facto desta possibilitar uma obtenção mais rica de informação e por contemplar um universo de respondentes relativamente pequeno.
A construção da entrevista, na perspectiva de Pardal e Correia (ibid, p. 65), obedece a critérios tais como: conhecimento das teorias existentes a respeito do objecto de estudo, clarificação deste, elaboração de um sistema conceptual e definição das variáveis a operacionalizar.
As entrevistas irão ser realizadas individualmente e procuraremos criar um clima de abertura com os entrevistados. Usaremos gravação e transcrição das opiniões mais significativas para o nosso estudo.
A estrutura da entrevista pode ser de dois tipos: entrevista estruturada e não estruturada. Aparece ainda uma variante no limite destes dois tipos que é a entrevista semi- estruturada que, nem é inteiramente livre e aberta, nem orientada por um leque inflexível de perguntas estabelecidas à priori. O entrevistador possui um referencial de perguntas-
Jardins de Infância da Rede Pública: Entre a Administração Central e Local
guia, que serão lançadas de acordo com o desenrolar da conversa e da oportunidade (Pardal e Correia, 1995, p. 65).
A nossa escolha irá recair, essencialmente, numa entrevista semi-estruturada que permita orientar o diálogo com representantes de autarquias e presidentes de conselhos executivos de forma não rígida, possibilitando-lhes assim manifestar a sua opinião de forma aberta. Na nossa entrevista, existem ainda questões que se reportam à caracterização pessoal. As questões da entrevista serão previamente elaboradas.
Os objectivos que pretendemos alcançar com a nossa entrevista dirigida ao representante do poder local prendem-se com as percepções deste sobre a partilha de competências entre a administração central e a administração local em relação ao pré- escolar no que concerne:
a) À organização do Jardim de Infância;
b) Ao actual papel do Município que assume uma maior intervenção na educação de infância;
c) Tutelas do Jardim de Infância;
d) Ao papel que a autarquia exerce na coordenação da oferta no seu Concelho; e) À relação existente entre a Autarquia e os Agrupamentos de Escola;
f) À participação nos Órgãos de Gestão dos Agrupamentos de Escola; g) Ao financiamento autárquico dos Jardins de Infância;
h) À organização da Autarquia em pelouros.
Os objectivos que pretendemos alcançar com os resultados da nossa entrevista dirigida a presidentes dos conselhos executivos relacionam-se com as percepções destes sobre a partilha de competências entre a administração central e a administração local em relação à educação pré-escolar no que concerne:
a) À organização do Jardim de Infância; b) Às tutelas do Jardim de Infância;
c) À participação das Educadoras de Infância nos Órgãos de Gestão dos Agrupamentos de Escola;
d) À relação existente entre a Autarquia e os Agrupamentos de Escola;
e) Ao papel actual do município que assume uma maior intervenção na educação. Para analisar os dados obtidos com as entrevistas utilizaremos a análise de conteúdo categorial, com vista a um confronto com os resultados a obter nos questionários. Embora
Jardins de Infância da Rede Pública: Entre a Administração Central e Local
o número de entrevistados seja suficiente, consideramo-lo reduzido e socorrer-nos-emos desta análise por nos parecer a mais adequada para o desenvolvimento do estudo efectuado.
A técnica de análise de conteúdo analisa comunicações. Neste sentido, procuramos pôr em evidência a respiração de uma entrevista não directiva (Bardin, 1977, p. 31), mas semi-estruturada.
As entrevistas não directivas que elaborámos e aplicámos, quer aos representantes dos conselhos executivos quer ao representante da autarquia, podem ser apreciadas no anexo I.
2.3. Questionário
O inquérito por questionário, enquanto instrumento de recolha de informação, será a técnica de recolha de dados mais utilizada no âmbito da investigação sociológica, segundo Pardal e Correia (1995, p. 51). Ao optarmos pelo questionário temos consciência das suas vantagens e desvantagens.
Assim, podemos dizer que o questionário se caracteriza por apresentar as seguintes vantagens: pode ser administrado a uma amostra lata do universo, pois a sua utilização na obtenção de informação de um número reduzido de pessoas que, através das técnicas de amostragem, se torna estatisticamente representativo de um conjunto mais vasto (Ferreira, 1986, p. 167); é barato; garante o anonimato; não precisa de ser respondido de imediato (Pardal e Correia, 1995, p. 51)
No entanto, temos também de considerar as seguintes desvantagens: não é aplicável a analfabetos, a inquiridos com dificuldade de compreensão das questões; o inquirido pode ler todas as questões antes de responder, o que não é conveniente e facilita a resposta em grupo, perturbando a informação; o seu uso só é viável em universos homogéneos; pode ainda ocorrer atraso na devolução (ibid., p. 52).
No nosso caso recorremos ao questionário para inquirir pais e educadoras de infância.
Ao elaborar um questionário multidimensional no sentido da recolha de dados acerca da forma como a comunidade educativa percepciona a partilha de competências entre a administração central e a administração local em relação à educação pré-escolar,
Jardins de Infância da Rede Pública: Entre a Administração Central e Local
vamos preocupar-nos em utilizar uma linguagem acessível aos nossos respondentes, na precisão das questões, cada uma delas limitada a um só problema, com a obtenção, em alguns casos, do mesmo tipo de informação, através de diferentes questões e com a garantia do anonimato.
Ao elaborar os nossos questionários temos consciência que pretendíamos apenas recolher a opinião de uma amostra da população.
O ponto de partida é constituído por uma população determinada, formada por unidades que compõem o campo de análise abrangido pelo inquérito, de que se extrai um subconjunto representativo, a amostra, constituído por elementos seleccionados de acordo com certos critérios de representatividade (Lima, 1981, p. 12).
São esses os critérios que devemos seleccionar. Assim, distribuiremos questionários a todas as Educadoras de Infância do Concelho em estudo, por considerarmos que são um universo pequeno. Serão distribuídos também, oito questionários em cada Jardim de Infância, que cada educadora entregará aleatoriamente a Encarregados de Educação.
O nosso questionário será composto por duas partes diferentes, contendo perguntas fechadas, de escolha múltipla de avaliação e estimação e uma aberta.
A pergunta é aberta quando permite plena liberdade de resposta . A pergunta é fechada quando limita o informante à opção por uma de entre as respostas apresentadas . A pergunta é de escolha múltipla quando configura tendencialmente uma modalidade fechada, permitindo ao inquirido a escolha de uma ou várias respostas de um conjunto apresentado . As perguntas de escolha múltipla podem ser em leque, aberto ou fechado ou de avaliação ou estimação (Pardal e Correia, 1995, pp. 54-59).
Consideramos igualmente que o nosso questionário deverá conter duas partes: uma que procure caracterizar os indivíduos inquiridos, e outra formada por questões que nos possibilitarão reunir informações acerca do nosso estudo.
Os objectivos que pretendemos alcançar com os resultados do nosso questionário dirigido a pais prendem-se com as percepções dos pais sobre a partilha de competências entre a administração central e a administração local em relação ao pré-escolar no que concerne:
a) À organização do Jardim de Infância; b) Às tutelas do Jardim de Infância; c) À participação;
Jardins de Infância da Rede Pública: Entre a Administração Central e Local
e) À relação existente entre o Jardim de Infância e a Autarquia.
Os objectivos que vamos ter em conta na elaboração do nosso questionário dirigido às Educadoras de Infância prendem-se com as suas percepções sobre a partilha de competências entre a administração central e a administração local em relação ao pré- escolar no que concerne:
a) À organização do Jardim de Infância; b) Às tutelas do Jardim de Infância; c) Ao perfil profissional;
d) À participação;
e) À relação existente entre Autarquias e Agrupamento de Escolas; f) À relação existente entre o Jardim de Infância e a Autarquia.
Para a análise das respostas obtidas no questionário, vamos aplicar uma estatística descritiva: cálculo de frequências, modas e, quando for possível, médias e medianas (desvios padrões).
Com o recurso à estatística inferencial, procuraremos não referir certezas, mas conclusões decorrentes, pois encontrar-nos-emos em face de resultados prováveis.
Os questionários que elaborámos e aplicámos, quer a Educadores de Infância quer a Encarregados de Educação, podem ser apreciados no anexo I.