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650 Bridge Architectural Overview

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Até meados da década de 1980, a pintura se manifestava de forma tímida na arte evangélica brasileira. Apesar das pinturas em templos não ser algo recente nas denominações do Protestantismo Histórico de Missão, a pintura aparecia nos altares, vitrais e em algumas dependências das igrejas.

Já no cenário artístico evangélico contemporâneo, com o crescimento das igrejas neopentecostais como a IARC em São Paulo, da Igreja Batista da Lagoinha (IBL) em Belo Horizonte, da expansão do movimento e do mercado gospel, a pintura, como também as outras demais artes que são abordadas nesta pesquisa, passaram a ganhar maior expressividade nos espaços religiosos e nos templos.

Figura 62 Pintura em altar de Igreja Figura 63 Altar Assembleia de Deus

Fonte: (Jackson Coelho, 2017) Fonte: (Fatima Correa, 2017)

Com temáticas relacionadas a natureza (plantas e animais — fig.62), símbolos religiosos — como a bíblia, cruz, pomba (fig.63 que representa o Espírito Santo na tradição cristã), narrativas bíblicas e textos bíblicos, a pintura passa a ser ressignificada, ganhando espaço dentro e fora dos espaços religiosos evangélicos.

Dentro do cenário artístico evangélico contemporâneo, observa-se que a produção artística tem transposto os limites dos templos e espaços religiosos. Com isso, a arte cristã evangélica passou a se destacar não somente nos espaços religiosos, como também passou a ocupar os espaços públicos das cidades. Desta forma, destaca-se dois tipos de pintura evangélica: a arte privada (dentro dos espaços religiosos evangélicos e templos) e da arte pública (expressa nas ruas, praças e paredes residenciais e comerciais). No caso da arte privada, a influência de igrejas neopentecostais como a IARC71, a Bola de Neve

Church (BDN)72, Igreja Monte Sião (IMS)73, HillSong SP (HS)74 voltadas para o público jovem, corroboraram para a implementação da pintura tanto privada quanto pública. Para citar uma dessas denominações, abordou-se a Bola de Neve Church75.

A Bola de Neve Church (BDN)76 é liderada pelo apóstolo Rinaldo Seixas Pereira

(Rina). Formado em Marketing, oriundo da IARC, foi diácono, líder do ministério de

71 Ver: http://www.renasceremcristo.com.br/ 72 Ver: http://boladeneve.com/

73 Ver: http://mtsiao.com.br/

74 Ver: https://hillsong.com/pt/saopaulo/

75 A BDN não é o objeto específico deste item, mas utiliza-se desta denominação como influenciadora pelo

discurso jovem, ‘descolado’ dos modelos tradicionais protestantes no quesito de vestuário, práticas de esportes radicais e da absorção de diversas tribos culturais, entre elas dos skatistas e grafiteiros.

76 A abreviação utilizada (BDN) é a mesma criada por (MARANHÃO Fº, 2013) em A grande onda vai te pegar: Marketing, espetáculo e ciberespaço na Bola de Neve Church.

evangelismo e posteriormente a deixou para fundar sua própria igreja, conforme justifica em seu blog pessoal: “seguindo a orientação do Senhor e com a concordância do Apóstolo Estevam Hernandes, fundou a Bola de Neve Church, em 2000”. (Bola de Neve, 2017).

Figura 64 Igreja BDN Figura 65 Púlpito da BDN Figura 66 Fachada Bola de Neve - GRU

Fonte: (Evangélico na Sociedade, 2014) Fonte: (Derpilandia, 2012) Fonte: (Foursquare, 2018)

Desde seu surgimento, a BDN explora os elementos visuais na comunicação da igreja, incluindo a pintura. Incorporando esportes radicais e tribos culturais como o surf, o skate, bodyboarding¸ paraglider (como pode ser visto na fig. 64 da fachada da BDN) e grafiteiros, a BDN teve grande repercussão na juventude evangélica brasileira. Criou a imagem que marca a sua identidade visual desde sua fundação: a apropriação de uma prancha de surf como púlpito e que também é utilizada na fachada da igreja (fig.65), que se tornou uma inserção imagético-simbólica nas mais de 50 igrejas espalhadas pelo Brasil e em diversos países. Atrelado ao uso do idioma inglês, Bola de Neve church/ In Jesus

we trust, a BDN tem o intuito de despertar identificações com movimentos de juventude,

consumo e moda dos paradigmas estadunidenses com a utilização de anglicismos, como afirma Eduardo Meinberg “ Os anglicismos são uma forma da BDN se aproximar de seu público, acostumado com o linguajar característico de games, sites, roupas de marca, etc.” (MARANHÃO Fº, 2013, p. 232). A BDN juntamente com a IARC, também são igrejas que estão debaixo do guarda-chuva das igrejas que se apropriaram de locais anteriormente destinados a shows e espetáculos (fig.66), transformando seus espaços internos através de pinturas contemporâneas através de um estilo de pintura artística que tem se destacado no meio evangélico e tem fomentado essa expansão, que é o grafite. Veremos a seguir como essas mudanças e inserções neste tipo de arte, reflete diretamente nas artes evangélicas contemporâneas fora dos espaços religiosos através da utilização dos espaços públicos.

2.3.1 O caso do grafiteiro Léo Shun.

O grafite (do italiano, Graffiti), que significa fazer frases ou desenhos em muros ou paredes de locais públicos. A origem do grafite moderno remonta os movimentos de contracultura da década de 1960, passando pela contestação ideológica e política, juntamente com os movimentos de afirmação identitária. Inicialmente, na Europa, o grafite surgiu como manifestação política que posteriormente se espalhou pela América. Já nos Estados Unidos, ele é utilizado como expressão de afirmação das comunidades negra e latina. Posteriormente, a cultura Hip-Hop incorporou o grafite ao movimento, se constituindo uma forma de divulgação de encontros, festas e eventos destes grupos e comunidades. (LAZZARIN, 2007).

Figura 67 Púlpito grafitado Figura 68 Grafite durante culto Figura 69Logotipo Léo Shun

Fonte: (Gospel Prime, 2018) Fonte: (Gospel Prime, 2018) Fonte: (Facebook, 2018)

Leonardo, conhecido no meio do grafite como Léo Shun, era pichador. Converteu- se em 2002 e em 2003 conheceu o Grafite. Sua marca visual é a figura de um cachorro (fig.69), que foi criada em homenagem a seu falecido cachorro. Após sua conversão, teve o propósito de passar a mensagem evangélica através da arte grafitando púlpitos (fig.67) e pintando telas durante cultos (fig.68). Com o objetivo de chamar a atenção de pichadores, fez por vários lugares do Rio de Janeiro uma ‘pichação’ do cachorro pela cidade, mas com um diferencial em relação às pichações dos espaços públicos; a utilização legal dos espaços mediante autorização dos proprietários e donos. Desta forma, chamou a atenção de pichadores que começaram a se interessar pelo seu estilo de vida e passaram a pedir ajuda para Léo, no intuito de abandonarem a prática da pichação

(considerada ilegal por ser sem autorização) e passando a serem grafiteiros (grafitarem locais de forma legal e com autorização) conforme descreve:

Vários pichadores têm migrado da pichação para o grafite [...] as vezes a gente se prende tanto a tá louvando a Deus, adorando a Deus dentro de uma igreja, dentro de uma congregação e se esquece um pouco das comunidades, das ruas... sabe... dos lugares onde realmente precisa da presença de Deus. (Thiago Pires, 2011).

Figura 70Grafite em parede de rua – Léo Shun Figura 71Grafite Evangelístico

Fonte: (Missão Gospel, 2013) Fonte: (Gospel Mais, 2018)

Neste contexto, Léo Shun utiliza o grafite como mecanismo de evangelização nas ruas e nos muros (fig.70). A linguagem visual é criativa usando figuras como a lâmpada, o plugue que sinaliza o encaixe num coração que possui uma tomada. De forma metafórica e humor a mensagem é disseminada com fins de atingir o público jovem em geral. Há também encontros como o Mutirão de grafite evangelista (fig.71) realizado no Rio de Janeiro que têm por finalidade promover a arte e evangelizar os simpatizantes do grafite para se aproximarem do evangelho “com o objetivo de fortalecer a cultura cristã protestante e as suas interações” (Missão Gospel, 2013).

Apesar da presença de líderes religiosos dentro do grafite, como os pastores grafiteiros Antônio Duque de Souza Neto, o Tota e Anderson Hope (o Hope) que são pertencentes a igrejas pentecostais (Jornal Estadão, 2014), a sua prática como diversas outras manifestações artísticas, encontra dificuldades com o preconceito das igrejas evangélicas. Uma das causas é a má fama da pichação. Isso segundo Léo Shun, tem sido um motivo de resistência por parte das igrejas em relação a pintura do grafite: “ No começo houve uma certa resistência do pastor, mas eu tive apoio de um membro que ajudou bastante e conseguiu um espaço dentro da igreja para realizar a oficina” (Gospel Mais, 2018). Posteriormente, Léo também realizou um grafite dentro de uma igreja como

uma forma de “expressão de adoração a Deus”. Neste sentido, se percebe que o grafite se apresenta como uma nova forma de arte no meio evangélico — diferentemente da pichação (que não é autorizada) — traçando uma ponte entre os espaços público e privado destas manifestações, rompendo com tabus religiosos em relação à geografia artística evangélica.

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