A perspectiva maximalista e não reducionista da linguagem assumida pela GrC (cf seção 2.3) vem requerendo dos estudos linguísticos métodos de pesquisa que privilegiem a língua em uso. Importam, pois, as teses sobre a diferença linguística e suas peculiaridades sociais e culturais e, nesse sentido, as teses universalistas cedem espaço à diversidade.
97 Considera-se, então, o uso e a reiteração como constitutivos dos padrões construcionais de uma língua. Assim, padrões de frequência apreendidos (frequência de tipos/type e de ocorrência/token) são vinculados a contextos de uso, o que implica uma visão não aleatória de variação (cf. seção 2.3).
Tal visão empirista e padronizada13 da linguagem, fomentada no seio dos estudos linguísticos sociocognitivistas e construcionistas, em especial os Modelos Baseados no Uso (cf. seção 2.3), acaba por determinar uma virada metodológica dentro deste paradigma, baseada na adoção de métodos empíricos (SILVA, 2008) e no uso de grandes massas de dados – os corpora.
A mudança metodológica anunciada implica, por certo, uma sólida divergência em relação ao modo de o cognitivismo chomskiano construir as evidências linguísticas. Para os gerativistas dessa vertente, a introspecção é um modo privilegiado de acesso aos dados que, por sua vez, são considerados como possibilidades linguísticas admitidas, aceitas pelo conhecimento que o falante tem de sua língua. Dadas as teses da “pobreza de estímulos”, não se tem em foco o uso efetivo ou não de determinada estrutura.
Por outro lado, dimensionados por uma perspectiva probabilística da linguagem, os modelos construcionistas defendem que, apesar de possíveis, estruturas linguísticas pontuais e descontextualizadas podem não ser prováveis ou realizáveis no uso real da linguagem.
Nessa direção, argumenta-se também contra uma análise puramente introspectiva dos dados. Segundo Miranda (2008, p. 41), análises fundamentadas apenas no caráter intuitivo do falante podem conduzir a equívocos, uma vez que “aquilo que as pessoas pensam sobre o pensamento e sobre a linguagem não é necessariamente o modo como o pensamento e a linguagem operam”. Ou, nos termos de Fauconnier e Turner (2002, p.V) “o modo como pensamos que pensamos não é o modo como pensamos”.
Contudo, a abordagem metodológica assumida não desconsidera, naturalmente, a introspecção do linguista, um importante indicador na interpretação dos dados. A presença da evidência empírica, a massa de dados, a análise de frequência em contexto de uso específico requerem, de modo qualitativo, o olhar introspectivo e interpretativo do analista. O que está sendo questionado aqui é sua adoção como única fonte de acesso aos dados para pesquisa.
13
Entende-se padrão aqui no sentido construcional, isto é, como pares de forma e modos de significação semântico-pragmático.
98 Fillmore (1992, p. 37) em defesa deste caminho metodológico afirma:
Eu tenho duas observações principais a serem feitas. A primeira é que eu não acho que exista um corpus, por maior que seja, que contenha informações sobre todas as áreas da gramática e do léxico do Inglês que eu deseje explorar; todos que eu tenho visto são inadequados. A segunda observação é de que todo corpus que eu tive a chance de analisar, ainda que pequeno, me traz fatos que eu não podia imaginar descobrir por qualquer outro modo.
Em Fillmore (2008), reforça-se essa perspectiva quando o autor destaca a importância de se unir o linguista de poltrona (aquele reflete sobre a língua através de suas experiências como falante) ao linguista de corpus (cuja investigação da língua se ancora em corpus).
No que se refere ao uso de corpus para pesquisa, Tognini-Bonelli (2001) diferencia duas perspectivas possíveis. A primeira é a abordagem baseada em corpus (corpus-based), em que o corpus serve de base para a exploração de uma hipótese ou teoria, buscando validar, refutar ou reestruturar. Nesse sentido, o uso de corpus se enquadra dentro da abordagem metodológica desta pesquisa.
Por outro lado, a abordagem dirigida por corpus (corpus-driven), segunda perspectiva postulada, irá rejeitar o enquadre da Linguística de Corpus como uma simples metodologia, postulando o estudo do corpus em si mesmo como fonte suficiente para hipóteses sobre a língua.
Contudo, autores como McEnery, Xiao e Tono (2006) não consideram claras as divergências entre as duas abordagens para o trabalho com o corpus. Nesse sentido, o presente trabalho assume a posição de uma Línguistica baseada em corpus de um modo amplo e abrangente.
A escolha por uma Linguística Cognitiva baseada em estudo de corpora naturais implica, contudo, um novo desafio para o linguista. É preciso buscar, de modo teoricamente sustentável, procedimentos metodológicos para validação da pesquisa. Embora a Linguística Cognitiva sustente a tese do necessário trabalho com corpus (GIBBS, 2006), parece ainda não dispor, de modo geral, de parâmetros metodológicos mais específicos para o trato efetivo dos dados.
Assim, em busca de definições de base, projetos analíticos como o nosso têm buscado alguns de seus parâmetros metodológicos para o trato com corpora na Linguística de Corpus (SARDINHA, 2004). Cabe pontuar, contudo, que a Linguística de Corpus se coloca neste estudo como uma fonte metodológica – e não como uma
99 teoria - porque, de modo convergente com os Modelos de Uso, se apoia na realidade discursiva da linguagem, encarando o desafio da sistematicidade do uso e facultando- nos definições mais precisas acerca da natureza do corpus e de procedimentos de ordem quantitativa dos dados. Tal âncora metodológica não significa dizer, contudo, que estamos fazendo Linguística de Corpus, uma vez que, como veremos neste capítulo, a natureza de nosso objeto de análise nos obriga a decisões “não muito ortodoxas” do ponto de vista desse modelo. Assim, vale reiterar, a Linguística de Corpus tem, neste estudo, um papel de coadjuvante metodológico.
Na próxima seção passamos a apresentar o percurso metodológico em que se baseia nossa análise das Construções Superlativas Sintéticas de Estados Absolutos.