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Alexandre Bouchet. On ne perd pas trop, non

Dans le document Le péage de Milan (Page 90-95)

Berlin Airport Project

M. Alexandre Bouchet. On ne perd pas trop, non

Proposto por Soster (2007), o novo jornalismo, que é influenciado e influencia o ambiente midiatizado, é caracterizado pelo autor pela autorreferencialidade, um novo modo de operar e de produzir conteúdo, de apresentar o produto jornalístico aos leitores e de desenvolver estratégias que permitam uma maior interação com o público receptor.

Nesse Quinto Jornalismo, a preocupação não é mais somente mostrar os fatos e seu impacto aos leitores, telespectadores e ouvintes, e, sim, revelar os processos utilizados pelos jornalistas para construir a realidade veiculada. É o que Fausto Neto (2006, p. 1) considera como sendo a realidade da construção. Segundo o autor, há mudanças na enunciação jornalística, que não se concentra mais em apontar a realidade construída, mas, sim, em descrever, com detalhes, o processo em que a notícia é construída, ou seja, o caminho percorrido para se chegar a ela, a partir do emprego das próprias operações. Para Carvalho e Barichello (2014, p. 71), esse “discurso autorreferencial em alguns produtos da mídia é um exemplo, assim como estratégias de visibilidade empreendidas pelas organizações que, ao passarem […] pelo palco da própria mídia, também representam práticas autorreferentes”.

Segundo Ribeiro e Fossá (2011), a transformação na enunciação do discurso jornalístico, que, ao invés de referenciar a realidade construída, descreve o processo de fabricação da notícia, visa a uma construção da “imagem de si”. Conforme as autoras, a

adoção de operações de autorreferencialidade, reveladas em estratégias discursivas que conduzem a atenção dos leitores para o modo de produzir discursos sobre a realidade social, tem sido uma prática jornalística cada vez mais empregada pelas mídias tradicionais, como jornal impresso, televisão e rádio.

Essa modalidade de estratégia de discurso faz referência à realidade do próprio enunciador, visando produzir efeitos de sentidos para o seu dizer e para a sua realidade que lhe coloca nesta posição de enunciador. [...] as mídias têm realizado um investimento em estratégias discursivas autorreferenciais como modalidade de contrato de comunicação e de construção das “imagens de si” [...] no cenário de contínuas transformações oriundas do contexto midiatizado. (RIBEIRO, FOSSÁ, 2011, p. 345).

Para exemplificar como o discurso jornalístico autorreferencial de um jornal busca a construção da “imagem de si”, Ribeiro e Fossá (2011) analisaram o contrato proposto pelo Diário de Santa Maria (RS) ao ofertar sentidos aos leitores, mostrando como buscou informações confiáveis, histórias reais, relatos e imagens para a cobertura das eleições 2008. Como conclusão, as pesquisadoras afirmam que o jornal procurou dizer: “veja o esforço que estou fazendo para você me legitimar”, “observe o quanto eu estou investindo para que você fique bem informado”, “veja como estou exercendo a minha responsabilidade social” (RIBEIRO, FOSSÁ, 2011, p. 351).

A partir dessas novas estratégias discursivas autorreferenciais, a mídia busca estabelecer novos patamares de confiabilidade e novos vínculos com os receptores. Essas operações empregadas no discurso jornalístico provocam também alterações nos próprios contratos de leitura, ou seja, nas “operações discursivas e enunciativas que tratam de pactuar as possibilidades de oferta/recepção de sentidos emanados dos dispositivos jornalísticos” (FAUSTO NETO, 2006, p. 2). Conforme o autor, mudam estratégias anteriores estabelecidas por este pacto contratual. Em seu discurso, o jornalista não busca mais colocar apenas os receptores em cena quando retrata alguma notícia, ou seja, trazer somente cases que possam ilustrar o impacto e o significado de determinado acontecimento social. Também não se trata mais de o jornalista se posicionar como testemunha ocular dos fatos, tentando mostrar aos leitores que tem o relato mais fidedigno porque acompanhou o desenrolar dos acontecimentos

in loco, uma prática sempre lembrada com o enunciado “repórter precisa estar na rua”. O que

o jornalista passou a perseguir é a evidenciação da realidade que ele mesmo constrói, a divulgação do que, até então, era apenas um elemento da rotina do fazer jornalístico: “trata-se agora de incorporar a este processo de produção aquilo que „estava fora‟, e que lhe sobrava

como „insumo‟ de uma categoria distante, a de „rotina produtiva‟” (FAUSTO NETO, 2006, p. 3). Agora, estão em foco os mecanismos de produção que são colocados em prática para que o acontecimento social chegue até o público.

Soster (2007, p. 6) afirma que a autorreferência pode ser constatada “quando as operações discursivas dos dispositivos estão voltadas, por meio de marcas, para o próprio texto que as compõem, explicando suas operações [...] e estabelecendo, assim, novos vínculos”. Para que o campo jornalístico seja legitimado como tal, ele conta aos demais como tece a realidade da construção, como dá formas aos fatos que seleciona para divulgar. Conforme Fausto Neto (2006, p. 6), as novas operações autorreferenciais reveladas no discurso jornalístico trazem à tona uma realidade midiática que, mesmo quando retrata realidades de outros sistemas, faz questão de evidenciar a autonomia que possui na produção do dizer. Para o autor, “Trata-se de um novo dispositivo, que, pela sua autonomia para realizar operações próprias de construção das inteligibilidades, apresenta-se como uma instância onde a realidade é engendrada” (FAUSTO NETO, 2006, p. 6). E são justamente essas características que fazem com que a prática jornalística se apresente como um “sistema autônomo”.

A mídia chama a atenção para si mesma, revelando seus processos internos, ressaltando a complexidade dos mesmos e dando o recado de que somente ela consegue, com qualidade e credibilidade, retratar a realidade que precisa ser conhecida pela sociedade. Segundo Soster (2013a, p. 2), ao influenciar o modo de se fazer jornalismo, a midiatização interfere na produção dos dispositivos do sistema midiático, “complexificando as formas por meio das quais estabelecem seus relatos e realizam suas ofertas de sentido”. São mudanças na rotina produtiva tradicional do jornalismo, provocadas pela evolução tecnológica e a midiatização da sociedade.

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