• Aucun résultat trouvé

2.3 La gestion de la classe

2.3.1 Évolution du concept de gestion de la classe

Nos três primeiros anos de 1980, Feyerabend foi contratado como conferencista junto à Escola Politécnica de Zurique (a famosa ETH).59 Através de Erich Jantsch, um antigo

57 Considere-se que a protoversão da incomensurabilidade foi apresentada na Tese I de 1958 (1.2.2). No entanto,

essa resolução é uma versão resumida da tese de doutoramento que Feyerabend defendeu em 1951 com o título

Zur Theorie der Basissätze (1.1.1). Ou seja, o espaço que separa a protoversão da formulação “madura” da tese da incomensurabilidade visível no Contra o Método é de, mais ou menos, vinte e quatro anos. Se considerarmos que o aparecimento da incomensurabilidade ocorre somente com a publicação do “Explicação, Redução e Empirismo”, de 1962, ainda assim são quase quinze anos de dedicação do autor à proposta.

58 Como vimos em 3.3.2, no capítulo XVI do Contra o Método Feyerabend já investigava a transição da época

arcaica da cultura grega para o período clássico. Nos anos 1980 essas pesquisas serão ampliadas. Os capítulos introdutórios dos Escritos Filosóficos de Feyerabend refletem isso: “Os caps. 1 e 8 do vol. 1 e cap. 1 do vol. 2 são novos e preparam um extenso estudo de caso sobre o surgimento e os inconvenientes do racionalismo no Ocidente” (PKF/PP1, p. xiv). Por fim, a conferência “Reflexões para a Posteridade”, proferida provavelmente em 1983 na Escola Politécnica de Zurique, reflete a fase madura desses estudos (PKF/STA, p. 133-142). É importante ressaltar que a abordagem presente no Contra o Método estava conectada ao estabelecimento da incomensurabilidade, ao passo que nos anos 1980 os estudos histórico-antropológicos de Feyerabend não refletem esse objetivo de forma tão clara.

59Relembrando os dias na ETH, Feyerabend disse: “Sim, sim, tive somente boas experiências […]. A ETH é

140

colega de estudos astronômicos dos passados anos de graduação em Viena, o filósofo tomou conhecimento do desejo que esse instituto tecnológico manifestava em recrutar um filósofo da ciência para seu corpo docente. Feyerabend se candidatou ao cargo. “‘Soube que vocês precisam de um filósofo da ciência; estou interessado’” (PKF/MT, p. 171), escreveu ao presidente da instituição suíça. Suas razões para pleitear à vaga incluíam o prestígio da escola, o elevado salário e a mínima carga de trabalho (PKF/STA, p. 12; PKF/MT, p. 174-177). Após ser admitido pela comissão avaliadora, os primeiros ensinamentos feyerabendianos na sala F7 da ETH versaram sobre a filosofia de Platão, em espacial, a epistemologia do Teeteto60 e a cosmogonia do Timeu. Em seguida, sua abordagem sobre a teoria das cores de Goethe foi televisionada (PKF/MT, p.176). Os ensaios “Criatividade – Fundamento das Ciências e das Artes ou Palavra Vã”61 e “Concepções Sintéticas e Agregativas, Ilustradas através do

Exemplo da Continuidade e do Movimento”, coligidos na rara coletânea A Ciência como Arte, apresentam, respectivamente, a versão definitiva daquelas conversas. Finalmente, sua leitura da Física de Aristóteles originou o denso “Alguns Comentários à Teoria da Matemática e do Contínuo de Aristóteles”, atualmente incluído no Adeus à Razão.62 De todo modo, o conceito

“incomensurabilidade” não consta nesses trabalhos. O termo surge apenas uma única vez – e vagamente – na segunda edição, já em 1988, do escrito sobre a função da criatividade no avanço cognitivo (PKF/AR, p. 163).

Todavia, além de aprofundar os conhecimentos do autor em história e filosofia antiga, tais seminários o estimularam a detalhar suas pesquisas sobre as relações entre arte e ciência.63O par de ensaios “A Ciência como Arte” (1981) – cujas muitas páginas explicitam o conteúdo da aula inaugural na ETH – e “O Progresso nas Artes, na Filosofia e nas Ciências”

60 Já em 1976, Feyerabend referia-se a esse diálogo, como comprova a epígrafe do “Segundo Diálogo” dos

Diálogos sobre o Conhecimento (PKF/DK, p. 49). Ademais, em 1990, Feyerabend coloca o escrito de Platão como ponto de partida do seu Primeiro Diálogo, no mesmo volume (PKF/DK, p. 3-45). Entretanto, já nos anos 1960, quando lecionava em Berkeley, ele estudava a epistemologia do filósofo ateniense. “Alguns anos mais tarde foi o Teeteto”, lemos nas páginas de sua autobiografia dedicadas à época. “Fiz uma introdução geral e me estendi sobre a teoria da visão de Platão” (PKF/MT, p. 129). As ocorrências mais tardias dessas leituras focam dois tópicos (PKF/MT, p. 175). De um lado, Feyerabend procurou entender as razões de Platão para adotar a forma dialógica para apresentar sua filosofia; em A Conquista da Abundância (PKF/CA, p. 250) Feyerabend discute brevemente o assunto, abordando-o com mais cuidado no “Pós-escrito” aos seus Diálogos sobre o

Conhecimento. Por outro lado, ele vinculou a teoria platônica da percepção à mecânica quântica: por exemplo, partindo da passagem 153d-156b do Teeteto Feyerabend mostra como a hipótese platônica de que a percepção e as propriedades do objeto percebido não podem ser definitivamente estabelecidos antecipa tópicos ligados às contraposições einsteinianas à teoria quântica formulada por Niels Bohr (PKF/CA, p. 104).

61 Uma versão revista e ampliada desse artigo encontra-se no Adeus à Razão simplesmente como “Criatividade”. 62 Em 1990, Feyerabend escreveu: “Nos últimos dez anos estudei Platão, pelo qual nutro uma admiração

ilimitada; empreguei três anos para preparar um curso de aulas sobre a Física de Aristóteles, que na minha opinião é um grande livro…” (PKF/DC, p. 78).

63 Estas pesquisas já vinham sendo realizadas ao menos desde os anos 1970, como o capítulo XVI do Contra o

Método mostra. Pretendemos apenas dizer, com base no índice das coletâneas posteriores ao Contra o Método, que, a partir de 1980, essa área de pesquisa assume um plano frontal nos escritos feyerabendianos.

141

(1983) – originalmente apresentado por ocasião do 58o Simpósio do Prêmio Nobel

apresentam resultados dessas pesquisas que, em parte, pretendem aperfeiçoar pormenores da concepção feyerabendiana sobre o progresso do conhecimento. Isso não significa que essa investigação acrescente algo ao repertório prévio. Nesse sentido, o texto de 1983 somente renova algumas das principais concepções feyerabendianas expressas no compêndio A Crítica

e o Desenvolvimento do Conhecimento, de 1970 (2.3.2.2 e 3.2.2).64 Por exemplo, ele também parece requerer a interpretação realista das teorias como um pressuposto da tese da incomensurabilidade.

Com relação ao desenvolvimento das artes pictóricas, é comum admitirmos uma concepção de progresso qualitativo. Reconhecemos que as mudanças de estilo efetuam “acréscimos” nos modos de expressão e representação anteriores. Assim, o naturalismo renascentista perceptível nas Cabeças Grotescas (c. 1495) de Leonardo Da Vinci teria “adicionado” movimento, elegância e leveza à “rigidez” do estilo bizantino visível na Madona

Rucellai, obra-prima do século XIII atribuída a Duccio.65 No entanto, admite-se que os critérios de apreciação da arte são relativos porque eles não são acolhidos por todos os apreciadores de arte.66 Mas, no caso das ciências, a situação tenderia a ser mais rígida. Os padrões científicos seriam racionais e lógicos, não predileções subjetivas ou históricas. Tem- se, pois, uma concepção de progresso quantitativo (geralmente ligada à noção de “aumento da acurácia nas predições”) através da qual sabemos objetivamente que a teoria científica em questão (T*) efetua uma mudança progressiva com relação à sua rival (T). Conforme Feyerabend, acredita-se que “as idéias que conduzem a um maior número de previsões bem sucedidas são ‘objetivamente’ idéias melhores” (PKF/AR, p. 184). Porém, no citado ensaio de 1983, o filósofo rejeitou vivamente essa forma de demarcar os campos do conhecimento. Segundo ele, não são as propriedades “qualitativas” ou “quantitativas” que justificam uma escolha teórica. Afinal, há situações de mudança científica nas quais a troca ontológica redefine o domínio em questão, inclusive os “padrões quantitativos”. “É verdade em alguns casos, mas não noutros” (PKF/AR, p. 188), Feyerabend afirmou acerca do aumento gradual do

64 Distintamente do artigo “O progresso nas Artes, na Filosofia e nas Ciências” (1983), o belo estudo “A Ciência

como Arte”, publicação da conferência inaugural na ETH proferida em torno de 1981, apresenta um elevado nível originalidade com relação aos antigos trabalhos de Feyerabend a propósito do progresso do conhecimento.

65 Ver essas imagens, respectivamente, nas páginas 11 e 81 do Arte e Ilusão, de E. Gombrich (1977/2007). O

primeiro contato de Feyerabend com a transição do realismo pictórico, segundo ele afirmou no Matando o

Tempo, foi bem anterior a este período, embora isso tenha “permanecido adormecido por mais de trinta anos” (PKF/MT, p. 72-73). Na verdade, este estudo inicial data ainda dos anos de graduação em Viena, em fins de1940.

66 Na “Introdução” de sua magnífica A História da Arte, o historiador E. Gombrich (1999, p. 20) reforçou: “O

142

sucesso preditivo. Assim, ele repete o cerne do argumento segundo o qual a introdução de noções relativísticas no campo das ciências naturais não efetuou um “aperfeiçoamento” nas tentativas de resolver aspectos problemáticos da física clássica (3.2.2). Portanto, se não for

entendida apenas como simples instrumento preditivo,67 a proposta einsteiniana destrói as bases empíricas e formais da física clássica. A própria “impossibilidade de comparar” as experiências e resultados dessas duas teorias sucessivas exige dos cientistas a reconstrução dos fundamentos de suas observações e critérios de medição. Essa perspectiva foi explicitamente defendida pelo filósofo na ocasião do simpósio suíço: “[A] transição de uma teoria para outra”, lemos,

implica de onde em onde (mas não sempre68) uma mudança de todos os fatos, de

modo a que não seja mais possível comparar os fatos de uma teoria com os de outra. É exemplo disso a transição da mecânica clássica para a teoria especial da relatividade. Esta teoria não aduz fatos não clássicos aos fatos da física clássica aumentando assim o seu poder de previsão; é incapaz de exprimir fatos clássicos (embora possa apresentar modelos relativistas aproximados de alguns deles). Teremos, por assim dizer, de começar de novo. Disciplinas inteiras (como a teoria clássica da cinemática e a dinâmica dos objetos sólidos) desapareceram em conseqüência da transição (mantêm-se como instrumento de cálculo). O Professor Kuhn e eu aplicamos o termo “incomensurabilidade” para caracterizar essa situação. Passando da mecânica clássica à relatividade, não contamos com os fatos antigos aduzindo-lhes novos, começamos a contar de novo e, por conseguinte, não podemos falar de progresso quantitativo. (PKF/AR, p. 186).