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3. ANALYSE DES EXPERIENCES EUROPEENNES DE BHNS

3.3 Enjeux sur le sous-système infrastructure (par le GT1)

3.3.1 Les voies de circulation observées

Una observación simple, de corte puramente etnográfico, no alcanza para revelar la naturaleza jerárquica y la estructura de poder subyacente e inherente a las relaciones de

153 O fato de um livro publicado originalmente em castelhano ser tomado como pertencente à língua

portuguesa requer explicação. O pensamento de Rita Segato se encontra, acredito, entre duas línguas, o castelhano e o português, e é possível considerar seu trabalho como próprio a ambas. Se falamos em termos numéricos, o castelhano leva vantagem neste livro: de seus nove ensaios, quatro são escritos originalmente nesta língua – assim como a introdução – contra três em português, ficando o inglês com os outros dois. No entanto e como diz Segato na introdução, o livro é composto de duas décadas de idéias elaboradas e expostas principalmente à “audiência estudantil em minhas aulas na Universidade de Brasília” e os ensaios escritos em português iniciam as principais linhas de análise contempladas neste capítulo.

género, que no son ni cuerpos de hombres ni cuerpos de mujeres, sino posiciones en relación jerárquicamente dispuestas. (…) El patriarcado es (…) la propia organización del campo simbólico en esta larga prehistoria de la humanidad de la cual nuestro tiempo todavía forma parte. Una estructura que fija y retiene los símbolos por detrás de la inmensa variedad de los tipos de organización familiar y de uniones conyugales. (EEV: 15)

Em uma análise da trajetória dos estudos de gênero que se concentra sobre a antropologia sem a ela limitar-se, Segato154 inquire aquela que considera ser a tensão clássica da disciplina, também crucial para o pensamento e o movimento feministas: a do relativismo e o universalismo.

Em termos cronológicos, as primeiras reflexões sistemáticas sobre gênero na antropologia, realizadas por Margareth Mead na década de 1930, encontram-se dentro da linha relativista. Estes trabalhos, mediante exemplos etnográficos particulares, evidenciam a maleabilidade das formas de gênero nas diferentes comunidades humanas, e vêm sendo realizados até os dias de hoje. Fora da antropologia, Segato percebe como próximos a esta vertente trabalhos dentro do nomadismo identitário, como os de Nestor Perlongher, os estudos das “identidades masculinas em plural” (EEV: 65), como os de Connell ou das feminilidades em plural, como os de Teresa de Lauretis. Segato considera estes trabalhos como de grande importância, pois reivindicam legitimamente a intersecção entre gênero, raça e classe social e expandem a compreensão a respeito da maleabilidade humana, com o qual fornecem elementos ao movimento feminista em sua reivindicação de alternativas à ordem patriarcal. Por outro lado, ela também observa uma tendência nestes trabalhos que implica um limite a suas pretensões compreensivas e um risco a seus potenciais políticos. O risco encontra-se em que o relativismo levado a suas últimas conseqüências impediria – e efetivamente o faz, em certos momentos – o estabelecimento de uma solidariedade feminista entre nações e grupos humanos particulares (EEV: 67).

A recorrente limitação compreensiva destas abordagens se encontra em sua restrição empiricista. Ela julga ser necessário abrir-se a interpretações comparativas que permitiriam chegar a um “núcleo duro de gênero”, que conforma uma estrutura de posições excepcionalmente rígidas, cuja origem e consolidação se confundem com a história da humanidade. Esta estrutura pode ser mais ou menos perceptível nos diferentes grupos humanos, mas não parece encontrar-se ausente em nenhum deles. Requer-se, assim, de uma análise de dados que inclua um diálogo amplo com as humanidades – especialmente com as análises discursivas desenvolvidas por diferentes tradições intelectuais ao longo do

154 As reflexões aqui expostas são tomadas principalmente do segundo capítulo de EEV, El género en la

século XX –, dispostas a suspeitar da transparência dos sujeitos investigados e atenta aos hiatos entre sua prática e seus discursos.

A vertente de ordem universalista a que Segato se alinha, avança neste sentido. Ela é aberta por aquelas autoras155 que nos anos setenta inauguraram o hoje consolidado campo da antropologia de gênero. Enfatizando a “tendencia universal de la subordinación de la mujer en las representaciones sociales”156 (EEV: 60), elas adotam um campo de diálogo mais amplo que o da disciplina, rumo a possibilidades interpretativas comparativas. Segato considera o clássico de Rubin, Traffic women, como a maior contribuição deste momento. Esta autora pôde encontrar, mediante o esforço psicanalítico para ir além do sujeito enunciador do discurso, o exato momento em que as marcas psicológicas provocadas pela inserção do ser humano no sistema de sexo/gênero se intersectam com a troca de mulheres postulada por Lévi-Strauss. A lei do incesto, que em sua violência instaura a diferença sexual e impõe a heterossexualidade, é o que marca a subjetividade genereificada. Segato compreende haver aqui um giro fundamental que nos permitiria sair do relativismo sem deixar de resistir ao essencialismo, dado o incesto ser um momento cultural, não natural. No entanto, substituir-se-ia um perigo por outro: o determinismo natural, pelo social. Se há uma estrutura profunda que rege a universalidade: “Es posible pensar una sociedad que finalmente erradique, disuelva, esa estructura?” (EEV: 68)

A resposta de Segato a esta pergunta poderia ser articulada através de duas linhas argumentativas. A primeira procura desvincular a estrutura simbólica de uma perspectiva do âmbito psicologizante, como a lacaniana. Ela defende que os gêneros se constituem a partir de uma estrutura abstrata de relações fixadas pela experiência humana acumulada em um período prolongado, que se confunde com “o tempo filogenético” da espécie (EEV: 57). Tal estrutura não se limitaria à ordem de gênero, mas a toda ordem hierárquica conformada por relações de poder. O gênero seria o âmbito privilegiado no qual estas relações se manifestam, e os corpos sexuados os significantes principais que encarnam a estrutura, embora não de forma imediata, nem sem variações e imprecisões ou sem uma

155 Faço um breve apanhado das autoras e contribuições que Segato destaca: Michelle Rosaldo situa a

hierarquia como oriunda da separação das esferas do público e do doméstico; Nancy Chodorow, entre a psicanálise e a antropologia, enfatiza que a socialização em proximidade à mãe impede a quebra da identificação primária e, assim, a emersão da mulher como ser social; Sherry Ortner e Harry Whitehead associam, primeiro, a mulher à natureza e o homem à cultura e, em um segundo momento, modificam sua teoria por uma tendência universal que ligaria o masculino àquilo que é associado ao prestígio; Rayna Reiter trouxe a ideia provocativa de que em sociedades não modernas as mulheres têm mais poder e prestígio, dada a menor independência da esfera pública.

156 O uso do termo “representação social” se refere à tradição francesa nas ciências humanas e não ao termo

violência re-instauradora permanente. O gênero seria, neste sentido, não algo empírico, mas a transposição da ordem cognitiva ou simbólica à ordem do empírico (EEV: 57).

O segundo argumento evidencia o caráter precário desta transposição do cognitivo ao empírico. As vidas humanas, em sua singularidade, não podem ater-se à estrutura que lhes pretende assimilar. É aqui que surge a importância política dos trabalhos etnográficos, que expõem como as pessoas encarnam ou não as posições que lhes são reservadas, os arranjos, as manipulações parcialmente conscientes da estrutura e as violências exercidas para mantê-la. Mas a etnografia não apenas documenta as diferenças, também as nomeia e, assim, contribuem com alternativas simbólicas que rompam o monopólio que o patriarcado pretende exercer sobre este campo. Trata-se, como Segato irá expor no quarto capítulo de EEV a respeito do âmbito jurídico, de encontrar simbolizações que tragam à consciência elementos sociais que, dispersos e sem articulação, permanecem impensados.

Este argumento tem uma continuidade com o tratamento que Segato oferece à violência. A estrutura patriarcal parece ser sinônimo de violência. Porém, camufla-se na e

pela ordem simbólica. O trabalho de Godelier é fundamental neste sentido, por mostrar como os homens manipulam os signos culturais, de modo que as violências por eles praticadas são compreendidas enquanto prerrogativas próprias ao masculino. A proposta godeleriana de romper os segredos masculinos como forma de resistência à dominação se equivaleria à proposta de simbolização alternativa de Segato.