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3. ANALYSE DES EXPERIENCES EUROPEENNES DE BHNS

3.2 Contexte urbain (par le GT4)

Sobra algo do masculino após a paternidade?, pergunta-se Schneider. Os seus argumentos a respeito se encontram principalmente no artigo A odisséia do gozo masculino (1998 [1988]), no qual Sandor Ferenczi será quem a conduz na viagem. Ela se atreve pedir-lhe que “torne possível um tempo de confusão e de questionamento: que o masculino se torne ele próprio enigma” (1998: 61), de modo que não apenas à mulher e ao feminino seja consagrada a incerteza.

Para nos inserir no texto é necessária uma passagem, na obra de Freud, pelo resto corporal que parece resistir-se à espiritualização: o “pedaço estimado ao máximo” (apud 1998: 41), ele próprio capaz de particular ascese. Retomemos, então, as “conseqüências psíquicas da distinção anatômica entre os sexos”, tal como expostas por Freud (1987b [1925]) e retomadas pela lacaniana Geneviève Morel (2002).

Ao descobrirem a castração das mulheres, os meninos não esboçarão, inicialmente, nenhuma reação. Porém, ao se darem conta da possibilidade de que eles mesmos venham a ser castrados, sentirão pavor ante esta possibilidade e, ao mesmo tempo, um “desprezo triunfante” ante as meninas. Estas, ao descobrirem a castração própria, terão uma atitude também indiferente, dado se negarem a assim se compreenderem. Após convencidas de sim terem sido castradas, passarão a compartir o desprezo que os meninos têm por elas. Segundo Morel, se após alguns anos a experiência puder mostrar o quanto esta compreensão binária é insuficiente para dar conta das relações na vida adulta, o fato é que em num nível fantasmático não lhes será possível, a homens ou mulheres, superar o trauma da castração (Morel, 2002: 87-88). Conclusão que coincide com a de Freud ao final de

Análise terminável e interminável.

O elemento a ser destacado é o fato de que este repúdio à feminilidade apenas ocorre no momento em que as crianças, meninas ou meninos, compreendem que lhes falta ou lhes pode faltar o pedaço estimado. Desta forma, o ter não é importante em si mesmo, mas apenas em referência ao não ter ou ao poder perder, sendo sua extrema valorização consoante ao horror de não tê-lo. Na medida em que o ter masculino se constitui em oposição ao não ter feminino, lhe falta, obviamente, o termo contra-referencial: ele é o oposto ao vazio. Este absurdo lógico termina na auto-celebração do masculino, que muito se parece a um simulacro que Héritier põe na origem do político.

No entanto, defende Schneider, a auto-celebração não constitui a masculinidade como um todo, mas apenas parte do seu processo. Como a própria Morel defende, há um determinado momento (que Schneider considera ser a adolescência, GM: 350-351) em que

se iniciam uma compreensão nos homens e mulheres que vai para além do imaginário provido pela castração, sem que este seja, no entanto, superado. Com isto, a auto- celebração diminui.

Este momento seria deficitário do que Freud denomina, em escrito de 1908, “representação genital”, que reestrutura o espaço atribuído à mulher na fantasia fálica ao descobrir-se a cavidade que recebe o pênis. A mulher é, assim, contemplada com um elemento positivo, mesmo que ele seja, paradoxalmente, oco e receptivo. E também constitui um elemento angustiante para o masculino, que não deixa de perceber o sexo feminino como um mistério ameaçador capaz de engolir o pênis. Para Schneider, “el afloramiento de esta representación no deja de operar uma rectificación retroactiva sobre la del destino masculino” (GM: 239). Este tem de aceitar uma relativa dependência.

O embate entre Freud e Ferenczi tem seu início nesta passagem entre a auto- celebração do masculino e a representação genital. Primeiramente, Schneider contrapõe as metáforas preferenciais de ambos autores. Para tal, menciona o texto freudiano sobre a Medusa, no qual o homem, mesmo enrijecido pela mulher maligna, não deixa de afirmar- se, na medida em que seu pênis também se erigiu em pedra: “não tenho medo de você, eu desafio você, eu tenho um pênis” (Freud apud 1998: 42). O reino do mineral e o movimento de ascensão são próprios do masculino freudiano, como o demonstram as já vistas referências a estatuas sepulcrais ou bustos de cientistas. Em troca, Ferenczi privilegia o líquido, aquele no qual nasce toda vida e mostra a circularidade própria a todo movimento de retorno. Se Freud, mediante o recurso incomum à filogenética, remonta-se até os primeiros grupos humanos em Totem..., Ferenczi irá mais longe: “Será possível que esse simbolismo do pênis na vagina, da criança no ventre materno, do peixe na água exprima também uma parte de conhecimento filogenético inconsciente do fato de descendermos dos vertebrados aquáticos?” (apud Schneider, 1998: 39, levemente modificado). As figuras ocas ou côncavas do ventre materno, da mão que masturba, do abraço e do beijo, indicam sempre essa idéia de retorno, onde o progresso, tão claramente desejável para Freud, parece não ter importância.

A questão da relação sexual é, assim, a da “tripla ponte do beijo, do enlace e da penetração do pênis” (1998: 45)145, que supera em muito o esperado por Freud ao postular a “representação genital”. Ferenczi ainda enfatizará o encontro sexual em termos de

145 A esta ponte tripla Schneider denomina “reunião preciosa” (1998:45), dada a atenção nula da psicanálise

unificação, adoção e confiança, mediante a qual o homem pode colocar seus “duplos em miniatura”: o pênis e o sêmen em um lugar “seguro e adequado”146.

Quanto ao pênis em si, em primeiro lugar, Ferenczi enfatiza a fragilidade do pênis ereto, contravenção evidente aos desenvolvimentos hegemônicos em Freud147, apresentando-o saindo de seu esconderijo, rumo à travessia de retorno, que pode ver-se truncada; em um segundo momento, mediante a analogia para com aqueles animais que automutilam partes de seu corpo que representam fortes tensões, a ereção é tomada como o resultado de tensões angustiantes deslocadas de todo o corpo para o pênis (Ferenczi, 1993: 282) cujo desprazer é tal que o objetivo passa a ser desfazer-se do outrora estimado pedaço, ainda que o corpo, no final do processo, “contente-se em se livrar da secreção” (apud 1998: 56). A tensão e a angústia são, desta forma, próprias ao masculino, não cabendo transferi-las ao feminino. Pelo contrário, é na união com a mulher mediante a tripla ponte que toda esta angústia tem a possibilidade de acalmar-se, com o retorno do duplo do duplo, o sêmen, ao lugar originário.

Não é entranho, assim, que Freud tenha acusado seu discípulo de “feminilidade dependente, paixão pelo papel de mãe carinhosa” (1998: 57-58). No entanto, Schneider não duvida, em nenhum momento, de compreender as análises de Ferenczi como inseridas no amplo espectro permitido pela psicanálise, inclusive por algumas das aberturas realizadas por Freud, talvez furtivas e pouco conscientes de seus efeitos, mas que permitiram a odisséia ferencziana: pelo menos a representação genital e a exposição peniana de Mal-estar.... Isso não implica, claro, que os desenvolvimentos ferenczianos sejam desprovidos de limitações ou absurdos evidentes. Sua relevância provém de um “conjunto de hipóteses”, que constituíram também uma armadilha, na qual o próprio Ferenczi se debateu, como uma “cobaia de sua própria experimentação, ao mesmo tempo intelectual e vital” (1998: 62)

Um último movimento peniano e masculino é ainda importante, e se refere a uma vertente do pensamento lacaniano pouco explorada por seus discípulos. “(P)risionero de la perspectiva separatista” (GM: 217), Lacan não daria nunca a importância à mulher ou ao seu habitáculo peniano, como o fez Ferenczi, mas, lançado em uma auto-reflexão masculina, tampouco presta atenção à vagina dentada freudiana, com a qual a mulher fica exculpada do eventual fracasso masculino. A reflexão advém da detumescência. O pênis

146 Faz-se evidente a dessimetria entre homem e mulher. Mesmo não sendo adversários, ele poderá alcançar o

objetivo de retorno, ela não. Não há um desenvolvimento da sexualidade feminina em Ferenczi.

147 Em MEC, recordemos, Freud não ocultou a vulnerabilidade peniana ao homem erigir-se. Assim, a linha

apenas o é na medida em que ereto. Sua detumescência se transforma, assim, em um sinônimo de fracasso sexual, o que implica o medo do não poder e a angústia, ela mesma possibilitadora do gozo. Esta experiência de modéstia radical é a que daria origem à consagração do falo, havendo a necessidade de que tal origem seja cuidadosamente escondida, em uma “anulación fundadora” (GM: 220).

Assim, Lacan se aproximaria de Ferenczi ao reconhecer a angústia e a fragilidade do membro e, contra Freud, mostraria que ante a Medusa, o homem antes que se impor, duvida e se impõe ao esconder a dúvida. O masculino parece ser o seu próprio simulacro, sua própria face mascarada. Máscara masculina, masque e masculine, podemos dizer em nossas línguas românicas, o lembra Schneider (GM: 55).

Agora bem, se o masculino é uma mascarada, a quem ela é representada? Ao que tudo indica, a outros homens: é por isto que Freud pode afirmar em Análise... que o homem não pode mostrar-se passivo para com outro homem, embora sim para com uma mulher. Isto permite a Schneider dizer que a inveja do pênis por parte das mulheres não tem relação com o pedaço estimado enquanto tal. Do que elas enciúmam-se é do espaço íntimo de cada homem, o qual é imaginariamente habitado por outros homens, que barrariam a entrada das mulheres. Como em Totem..., ou como na troca de mulheres trazida por Lévi-Strauss, as mulheres não supõem um outro social.