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De acordo com Lemos (2008, p. 11), o cenário contemporâneo, pode ser definido como cibercultura, ou seja, “forma sociocultural que emerge da relação simbiótica entre a sociedade, a cultura e as novas tecnologias de base micro- eletrônica que surgiram com convergência das telecomunicações com a informática”. Além disso, para o autor, a cibercultura surge a partir das últimas décadas do século XX, justamente com a popularização das redes telemáticas e dos microcomputadores, possibilita novas formas de produção, distribuição e consumo de informação. Isso porque a cibercultura tem como uma das suas principais características a liberação do polo de emissão (LEMOS, 2008).

No que diz respeito à liberação do polo de emissão, Lemos (2008) entende o

ambiente digital permitiu que a emergência de outro fluxo de comunicação (“todos- todos”), no qual, qualquer pessoa tecnicamente habilitada, pode assumir o patamar de emissor de conteúdo. Antes, num cenário totalmente massivo, o sistema clássico de comunicação apresenta um fluxo unidirecional (“um-todos”), no qual só quem detinha o poder de emitir e distribuir mensagens, eram empresas de comunicação. Os receptores, como o nome sugere, recebiam as mensagens transmitidas, sem possibilidade de retorno direto com o emissor. Com a internet, além de receber e consumir as informações, os receptores podem produzi-las e distribui-las para outros receptores. Não por acaso que para Lemos (2008, p. 20),

a liberação do pólo da emissão está presente nas novas formas de relacionamento social, de disponibilização da informação e na opinião e movimentação social da rede. Assim chats, weblogs, sites, listas, novas modalidades midiáticas, e-mails, comunidades virtuais, entre outras formas sociais.

No entanto, é importante destacar que o fluxo “tradicional” não desapareceu, com o ambiente digital e a emergência de outro fluxo de comunicação. O que aconteceu é que ambos os fluxos convivem e muitas vezes convergem. A questão é com liberação do polo de emissão e consequentemente o estabelecimento do sistema “todos-todos”, a partir de Silveira (2009), podemos entender que foi aberto um novo espaço, não só para a produção e distribuição de informações, reconfigurando a comunicação, mas também, para as práticas ativistas. Neste contexto, Silveira (2009) afirma que os grupos sociais possuem condições mais favoráveis para disseminar suas mensagens, articular e construir redes de mobilização, e subsidiar as práticas e manifestações ativistas.

Na verdade, os meios de comunicação sempre foram utilizados pelas práticas ativistas. Como exemplo disso, Waineberg (2011 apud Batista, 2012) fala da publicação de La satyre Ménippée de la vertu Du Catholicon d'Espagne, uma publicação política francesa de 1594, na qual através da prosa e da poesia, vários autores escreviam criticando a Liga Católica e os interesses espanhóis na França. Outro exemplo, diz respeito a autores como Voltaire, que no século XVIII, utilizaram panfletos suas ideias (WAINEBERG, 2011 apud BATISTA, 2012). Com o ambiente digital, a possibilidade de levantar bandeiras, dos mais variados tipos, e disseminar as mensagens ativistas, ocorre de forma muito mais rápida e numa dimensão maior, ultrapassando, inclusive, limites geográficos.

Sobre o assunto, durante o Fórum Social Mundial que ocorreu em Porto Alegre, em 2001, constatou-se, através dos debates ocorridos, um fenômeno que, até então, estava surgindo, o do ativismo virtual ou ativismo online (MORAES, 2001). Já naquela época Moraes (2001) citava como a internet era um meio que vinha sendo bastante explorado para fins de reivindicações, uma vez que para o autor as Organizações Não-Governamentais (ONGs) e entidades civis espalhadas pelo mundo, estavam utilizando, com cada vez mais incidência, a internet visando a divulgação de reivindicações e também, como uma forma de construção de espaços de interação e de mobilização.

Moraes (2001) ainda utiliza da fala de Joëlle Palmieri, à época, presidente do coletivo feminista “Penélopes”, para exemplificar como o processo de introdução das novas tecnologias havia dado força aos movimentos ativistas.

Com a tomada de consciência sobre a importância da Internet para a difusão das reivindicações comunitárias, não precisamos mais nos isolar no gueto da contra-informação alternativa, e sim buscar novos modelos de trocas comunicacionais e de produção de informações afins com a idéia de se construir uma outra mundialização. (PALMIERI, 2001 apud MORAES, 2001, p. 1).

É interessante também entender como vem sendo discutido o conceito de ativismo digital, que apesar de seu crescimento advindo da popularização da internet e da evolução da web 2.0, o qual permite que permaneçamos em rede a todo momento, ainda não possui uma unidade de conceituação para todas as áreas das tecnologias de informação e comunicação (COSTA; COELHO, 2013). Apesar disso, podemos considerar o ativismo digital como sendo

um fenômeno que surgiu a partir das transformações tecnológicas de informação e comunicação, as quais possibilitam o diálogo entre os cidadãos e os auxiliam na organização de eventos e fóruns em prol de causas determinadas (MORAES, 2012 apud COSTA; COELHO, 2013, p. 02).

O ativismo digital existe desde os anos de 1990 e surgiu com o início da comercialização da internet (SCHOLZ, 2010 apud COSTA; COELHO, 2013), mas na forma como conhecemos hoje só foi possível a partir das mudanças das relações comunicacionais. Essas, por sua vez, são provenientes do surgimento de veículos midiáticos mais interativos, e do aumento do seu alcance em relação à população, conforme citado por Costa e Coelho (2013).

Outra causa que contribui para o crescimento do ativismo digital, citada pelos autores, é a possibilidade de uma pessoa interagir ao mesmo tempo com as mais diversas mídias. Ou seja, é possível, através do smartphone, ouvir música, jogar, acessar as mídias sócias, verificar os e-mails. E, inclusive, praticar todas essas ações simultaneamente (COSTA; COELHO, 2013). Esse fenômeno dá ao usuário o poder da ubiquidade (SANTAELLA, 2010 apud COSTA; COELHO, 2013), isto é, de estar presente em diversos lugares ao mesmo tempo, neste caso, o usuário pode está presente nos mais diversos ambientes da rede simultaneamente. Como citado por Costa e Coelho (2013, p. 11) “Dessa forma, a interação entre as mídias concretizou esse dom da ubiquidade para os usuários das redes móveis, principalmente da Web 2.0”.

Todo esse processo propicia o surgimento de agentes multiplicadores, os quais têm a possibilidade de interagir, discutir, discordar, concordar, divulgar, as

mais diversas ideias dos movimentos sociais, e tudo isso através de um clique, fazendo com que o ativismo possa se expandir nas mídias sociais. Além disso, o ciberespaço é um ambiente que facilita o encontro entre pessoas que se identificam com as mesmas causas, por ser um local que abriga os mais diversificados tipos de povos e da proliferação dessas causas. Formando, assim, grupos de debates, que contêm as mais variadas opiniões, mas que possuem um objetivo em comum em prol de melhorias para a sociedade (COSTA; COELHO, 2013).

5 ATIVISMO E FUTEBOL FEMININO: