É notório que nos últimos anos o termo “ativismo” vem ganhando ampla evidência, sendo cada vez mais comum a inserção deste e a relação com os movimentos sociais. Segundo Batista (2012), em seus estudos sobre o ativismo, levando em consideração uma amostragem de busca pelo termo “ativista” no Portal G1 entre os anos de 2000 e 2011, foi possível constatar um aumento relevante na frequência do uso da palavra até o começo desta década. Assim, a incidência com que o termo “ativista” apareceu em reportagens no portal em 2011 foi 120% superior à sua aparição em reportagens no ano de 2000 (BATISTA, 2012).
Para entender melhor este panorama, é importante adentrar um pouco no assunto e compreender a definição de “ativismo” e qual o seu peso semântico. Segundo o dicionário Aurélio, “ativismo” significa:
1.0 Fillos. Doutrina que faz da atividade a essência da realidade; atualismo. 2.0 Filos. Doutrina que admite algum tipo de oposição entre a ação (q.v.) e os domínios diversos do conhecimento, e que dá primazia à ação, primazia que comporta diferentes graus e definições. [Cf., nesta acepç.naturalismo(5), humanismo (1) e pragmatismo.] (...) 04. Militância política. (FERREIRA, 2010).
No entanto, para caráter deste estudo, esta significação ainda não aparenta expressar de forma satisfatória e completa a noção mais ampla do termo ativismo. Para isso, se faz necessária a busca por autores e seus entendimentos sobre o tema. Até porque, conforme Sales, Fontes e Yasui (2019, informação eletrônica), existe uma diferença relevante entre militância e ativismo, o que como vimos pelo dicionário, podem ser considerados sinônimos. Para os autores, quando se fala em militância, há um ambiente que tende a valorizar a disciplina e a centralização. Por outro lado, ao se pensar em ativismo, a proposta se relaciona ao incentivo da horizontalidade e da autonomia. Ainda sobre o assunto, Sales, Fonte e Yasui (2019, informação eletrônica) esta diferenciação se faz importante pois:
as palavras não são neutras, já que elas criam, carregam e difundem ideias, propósitos e intenções [...] Afastando de si a palavra militância, os ativistas têm trabalhado para marcar aquilo que os diferencia dos tradicionais participantes de protestos no Brasil. Recusando o título de militantes e todos os sentidos a ele associados, esses indivíduos estão trabalhando para reinventar seus
modos de ação, repertórios de protesto e estratégias de luta (SALES, FONTES, YASUI, 2019, informação eletrônica).
Para Batista (2012), o conceito de ativismo está ligado diretamente a ações coletivas que são politicamente orientadas, em especial, àquelas que envolvem alguma forma de protesto. O autor entende que o ativismo como uma prática social histórica e bastante presente na sociedade, que precisa ser refletido teoricamente. Para ele, no cenário atual, o desafio de pensar o conceito de ativismo é maior porque há uma relação direta entre as práticas ativistas e os meios de comunicação. A interface entre os meios de comunicação e as práticas ativistas começa a complexificar não só a formulação de um conceito operacional, mas também a compreensão do fenômeno como um todo. Pela multiplicidade de ferramentas atualmente disponíveis à coordenação social e pelas amplas possibilidades de apropriação política, o ativismo, como diversos aspectos da sociabilidade humana, transita por um processo de transformação. As ações coletivas, agora inseridas no ambiente da comunicação mediada por computador, readaptam as suas estruturas de poder e de coordenação de ações (BATISTA, 2012, p.22).
Ainda sobre o assunto, Batista (2012) acredita que o cenário digital possibilitou que o poder, antes mais centralizado nas instituições, que determinavam as pautas e estabelecessem o que era de interesse público, hoje também se encontra na rede, nas mãos dos indivíduos. Dessa forma, não se pode falar de um único poder de produção e propagação de informação, já que, no contexto online, as pessoas assumem o patamar de produtores de conteúdo sendo inclusive capazes de transmitir tal conteúdo para um grande número de indivíduos. Tudo isso, sem pedir autorização para veiculação e sem grandes custos operacionais (BATISTA, 2012).
Tudo isso afeta diretamente as possibilidades de mobilização na sociedade. No entanto, para Batista (2012), os recursos comunicacionais disponíveis sempre serviram de suporte às ações coletivas, não sendo uma questão proveniente, apenas do cenário digital, nem do “compartilhamento” do poder. O autor afirma que
Do panfleto dos séculos XVI e XVII à apropriação da tipografia para formas de manifestações políticas no século XVIII; da articulação dos movimentos sociais por meio do telégrafo, no século XIX, ao surgimento da Internet na década de 1960, ao longo da história, os meios de comunicação, direta ou indiretamente, ampararam a “evolução” das articulações políticas das sociedades (BATISTA, 2012, p 23).
O fato é que, Batista (2012), ao fazer uma revisão das distintas abordagens sobre o conceito de ativismo, entende que é preciso considerar duas características sobre o termo. Em um primeiro momento, o autor nota que é possível encontrar subclassificações associadas às causas e temáticas, nas quais o ativismo é aplicado. Como por exemplo, protestos em prol do meio ambiente, recebem po nome de ativismo ambiental e ações pelo maior acesso à cultura, são chamadas de ativismo cultural. Isso nos mostra que a compreensão de ativismo parte de especificidades ideológicas, o que dificulta ainda mais a compreensão do conceito (BATISTA, 2012).
Em um segundo momento, Batista (2012) afirma que há uma adaptação do conceito de ativismo a partir do meio utilizado para difundir as mensagens. Por exemplo, se as práticas ativistas utilizam a internet, o ativismo recebe o nome de ciberativismo, ativismo online, ou ainda ativismo digital (o que discutiremos no próximo tópico); se utilizam jogos, chama-se de gameativismo; se utilizam a arte (dança, intervenções urbanas, performances) em espaços públicos, como a rua, chama-se de a(r)tivismo. Isso sem falar do hackitivismo, que, através de dispositivos eletrônicos e linguagem de programação, acessa sistemas, principalmente de grandes instituições para derrubar servidores, expor conteúdos confidenciais, etc. Com isso, amplia-se as nomenclaturas sobre o ativismo a partir das várias possibilidades de manifestações coletivas (BATISTA, 2012).
É importante destacar que, conforme Batista (2012), o ativismo assume concepções ainda mais específicas, em algumas esferas científicas, como por exemplo, nas Ciências Jurídicas, nas quais é possível encontrar o ativismo judicial. Esse pode ocorrer quando o julgamento não é limitado à integralidade do que o texto da lei aponta, de maneira “a expandir o seu sentido e alcance, participando o juiz, portanto, no processo de criação da norma jurídica” (NEGRELLY, 2010, p.1419 apud BATISTA, 2012, p. 24)
Sobre o assunto, Silveira (2009) pontua que os diferentes nomes dados ao termo ativismo se configuram em formas de acompanhar as mudanças das ações políticas a partir das novas formas de comunicação e de organização social encontradas pelos indivíduos. Ao mesmo tempo, para Batista (2012), as variadas definições, mesmo sem ser precisas, ajudam para evidenciar a relação que o
ativismo tem com as dimensões individuais e coletivas, especialmente àquelas voltadas à esfera política.
Nesta perspectiva, há uma relação direta entre ativismo e política. No entanto, o próprio conceito de política é, hoje, bastante incerto, já que é possível encontrar diferentes significados, contemplando uma enorme gama de ações humanas, relações sociais, sentimentos, atuações. Além disso, a noção do que é política a partir das visões da “esquerda”, do “centro”, e da “direita”, torna a questão ainda mais complexa. Por essa razão, Jordan (2002 apud Batista, 2012) sugere que política, embora tenha recebido várias associações com o passar do tempo, seja entendida de forma mais ampla, como um sentido da busca, no espaço público, do bem comum, do bem para a coletividade.
É interessante observar os apontamos de Batista (2012) sobre a associação do ativismo à política. Para o autor e levando em conta suas leituras (PICKERILL, 2003; ANTOUN, 2004; VIDAL, 2005; PRUDÊNCIO, 2006; COSTA JÚNIOR, 2007; GONÇALVES et al., 2008 apud BATISTA, 2012) sobre o assunto, na maioria dos casos, o ativismo político se liga a ações consideradas de “esquerda”,na perspectiva de uma ideologia contra um determinado sistema vigente. Isso principalmente porque o ativismo político se refere diretamente aos movimentos sociais, e esses, são de fundo contra-hegemônico, o que, no contexto brasileiro, associa-se à ideologia de esquerda (BATISTA, 2012). Como exemplo, pode-se citar “As mulheres contra Bolsonaro”, movimento que aconteceu, com mais força, no período da campanha eleitoral para a presidência do Brasil, em 2018, diante do avanço nas pesquisas pelo candidato considerado de “direita”3
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Ainda sobre o assunto, Hernandez (2010, p. 93, apud Batista, 2012, p.29) sinaliza que
O ativismo assim empreendido é a expressão coletiva de um movimento de forças entre segmentos sociais com diferentes coloridos ideológicos e intencionalidades O político assim entendido é poder e poder, nesse sentido, é aquela parcela de sanidade social que desacomoda a lógica individualista.
Tal conceituação é a que adotamos aqui para o nosso entendimento sobre o que é ativismo. Independentemente das variadas formas de ativismo, todas
possuem um cunho político e correspondem, de fato, a empreendimentos coletivos de variados segmentos sociais em prol de causas, ideologias.
Ao mesmo tempo, levando em consideração Assis (2006 apud Batista, 2012) a ação política do ativismo é indireta e não-institucionalizada. Isso significa que, são ações não coordenadas pelas instituições tradicionalmente encontradas nas dinâmicas da sociedade, como sindicatos e partidos políticos. Além disso, uma ação política direta diz respeito aos processos formais de participação popular, como o voto, e a ação indireta é entendida pelas manifestações, protestos, boicote, ou “qualquer ação positiva (fazer algo) que tenha implicações concretas, e geralmente imediatas sobre seus alvos” (ASSIS, 2006, p. 14 apud Batista, 2012, p. 29). Ação positiva porque as práticas ativistas se referem a ações não violentas, embora não excluam necessariamente a violência. No entanto, são ações que se distinguem do que se considera terrorismo (BATISTA, 2012).
Nas palavras de Mazuolli (2008 apud Batista, 2012), terrorismo se relaciona a práticas políticas de âmbito individual ou coletivo, demarcadas pela violência e pelo terror. Ainda conforme o autor, o terrorismo é estendido para atos extremos e violentos que se ligam a demonstrações de insatisfação com o regime político existente, visando modificá-lo ou substitui-lo (MAZUOLLI, 2008 apud BATISTA, 2012). Nesta perspectiva, o ativismo não pode ser relacionado ao terrorismo porque, mesmo que ambos busquem mudanças sociais e se utilizem da mídia para disseminar mensagens, as práticas ativistas se afastam de ações coletivas concretizadas para questionar o poder ou tentar tomá-lo por meio de formas extremistas, armamentistas e violentas (BATISTA, 2012).
Assim sendo, a partir de Jordan (2002 apud Batista, 2012), podemos compreender que o ativismo é um empreendimento coletivo, por um grupo, que compartilha uma identidade ideológica, um reconhecimento de emoções, como raiva, medo, esperança, e um sentimento de solidariedade durante o processo de transgressão social. Tal transgressão deve ser entendida como uma prática de se opor a uma condição social com a finalidade de modificá-la e isso só é possível justamente pelo sentido coletivo de suporte mútuo, ou seja, pela solidariedade. Dessa forma, “o que separa o ativismo de multidões saindo do cinema, ou grupos reunidos, é que os ativistas reconhecem uns nos outros o desejo de transformar a maneira pela qual suas vidas são vividas (JORDAN, 2002, p.12 apud BATISTA, 2012, p. 34).
Com feito, as ações coletivas ativistas podem se manifestar de distintas formas. Scherer-Warren (2014) aborda esta temática, dividindo e distinguindo as diversas formas de manifestação ativista em sociedade e seu papel político. O quadro 1 resume a proposta da autora.
Quadro 1 - Manifestações ativistas
Tipos de manifestações ativistas Características
Movimentos sociais organizados
Principais objetivos definidos ou em construção, e em algum projeto, utópico ou não, de mudança social, política ou cultural. Além de utilizarem de manifestações na sociedade para reivindicar suas próprias pautas e obter visibilidade. Como exemplo: Movimento Feminista e suas várias correntes, Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST), Movimentos Estudantis, entre outros.
Manifestações ou marchas dos movimentos sociais
Buscam que suas pautas alcancem visibilidade na esfera pública. Para isso, organizam periodicamente ou ocasionalmente marchas em espaços públicos. Seus objetivos estão atrelados a manifestações históricas ligadas aos movimentos sociais ou à sociedade civil. Como exemplo: Marcha da Maconha, Marcha Mundial das Mulheres, entre outras.
Manifestações amplas da cidadania
Conjunto de diversos coletivos com reivindicações que estão interligadas, mas que constantemente apresentam protestos politicamente heterogêneos, podendo conter ideias politicamente antagônicas. Hoje, as mídias sociais são
os principais meios de mobilização destas manifestações. Como por exemplo: Diretas Já, Manifestações de Junho 2013, Manifestações em defesa da Educação, etc.
Manifestações-bloqueio
Caracterizadas por uma ação estratégica e tática de luta de pequenos grupos, que tiram proveito de manifestações mais amplas, entendendo-as como uma oportunidade para aparecerem. São manifestações com caráter anárquico. Como exemplo: Anonymous, Black Bocs, etc.
Ações-manifestos socioculturais
Possuem expressões coletivas em espaços públicos para afirmação de direitos de socioculturais de uma parcela da população que se sente oprimida ou excluída. Como exemplo: Marcha das Vadias, #DeixaElaTorcer, #JogaPraElas, etc.
Fonte: Scherer-Warren (2014, p. 14-15).
Para Scherer-Warren (2014), este quadro analítico engloba e representa as diferentes modalidades de atuação do ativismo na sociedade brasileira contemporânea. Além disso, como vimos, o quadro mostra que o ativismo pode ser encontrado tanto em movimentos sociais como também em manifestações sociais. No entanto, a autora afirma que é preciso diferenciar movimentos de manifestações sociais.
Para a autora, os movimentos sociais são permanentes, e no cenário contemporâneo tendem a se estruturar a partir de redes de militância, que trabalham para a construção de significados políticos e/ou culturais em comum, com o objetivo de mobilizar a população e produzir transformações na sociedade. As manifestações sociais, por sua vez, apresentam um caráter mais efêmero e correspondem a reações conjunturais coletivas e públicas, que através de protestos,
têm por finalidade criar visibilidade política. Isso se dá por meio de articulações e eventos públicos, mobilizando a população para sua participação no evento (SCHERER-WARREN, 2014).
O fato é que, as diversas manifestações ativistas sempre encontraram os meios de comunicação para difundirem suas mensagens na tentativa de mobilizar a população. Hoje, no cenário contemporâneo, as plataformas digitais também possibilitam a organização e a articulação das manifestações ativistas, sejam voltadas aos movimentos sociais ou não. A ligação entre o ambiente digital e o ativismo será discutida no próximo tópico.