• Aucun résultat trouvé

Relations entre niveaux de formation, certifications et diplômes Françoise Dauty

4. Les niveaux de formation et les certifications repères sur le marché du travail ?

4.5. La valeur relative du niveau

D.S. Estudante

Entrevista realizada em 2016

“Eu já pensei muito na morte.”

Apesar de não ser praticante, assíduo, religioso, eu me considero judeu por conta de minha família, da minha cultura. Sempre estudei no Colégio Israelita, até a 8ª série no caso, que foi quando eu fui meio que obrigado a sair porque não tinha mais continuação no colégio. Os hábitos que eu tenho e que eu recebi de meus avós, de meus pais, sempre foram em relação à religião judaica. Então, eu me considero judeu, minha mãe é judia convertida. Teoricamente, no período mais antigo, que é o período que os rabinos ortodoxos não reconheciam as mães convertidas como judias mesmo, mas, hoje em dia, já tem uma maior liberação com relação a isso. Meu pai é filho de mãe judia e minha mãe converteu-se quando casou com meu pai, antes de ficar grávida de mim, então, eu teoricamente nasci de um ventre judeu, não é? Eu me considero judeu e vou continuar sendo judeu para sempre.

Eu já pensei muito na morte, na verdade, em vários sentidos. Não só no judaísmo. Eu fico um pouco receoso ou curioso, não sei qual é a palavra certa. Eu não imagino a morte, eu não sei como ela é, eu não tenho muita explicação em relação a ela. Com relação ao judaísmo, como o judaísmo trata, têm vários costumes, desde rezas, hábitos durante a morte, tratar o cadáver, o enterro. No que se refere à religião, eu acredito mais naquela parte da vida além da morte que os judeus acreditam. Não como os espíritas que podem ver o espírito do morto, mas a volta do morto depois do retorno do Messias, como acreditam os judeus. Então, há uma vida além. Não necessariamente que a pessoa retorne ao corpo carnal, não é? Mas eu creio que não se acaba aqui. Eu acho que tem alguma coisa além. E isso é o que desperta minha curiosidade porque eu não acredito que a gente só morra e acabou. Eu tenho essa curiosidade que é de: o que acontece quando a gente fecha o olho? Quando acaba nossa vida agora. A gente vai para onde? Será que a gente vai continuar pensando?

Vai continuar sofrendo? Vai continuar tendo sentimento mesmo depois sem viver no dia a dia? Essa é minha curiosidade.

Em casa, não discutimos esse assunto. Agora, eu já tive mais debates com amigos meus até. Alguns têm o mesmo pensamento que eu. Outros acreditam que morreu, acabou. São mais drásticos. Há amigos meus que são espíritas, claro, e acreditam que você vê espírito, a alma do morto em outros lugares, que você pode entrar em outro corpo carnal, em outra vida totalmente diferente da sua, mas em casa eu não discuto muito. Nunca discuti muito com minha família essa questão, não. É uma curiosidade que eu guardo até para mim mesmo. Fico tentando pensar em mim. Leio, de vez em quando, algumas coisas, mas não é um hábito muito frequente não porque é uma coisa que ao mesmo tempo que eu tenho curiosidade também me toca um pouco porque eu não sou muito interessado nessa questão de morte, de enterro. Eu falo que sou curioso, mas não busco tanto. Pelo menos por enquanto.

Eu vivi e que presenciei até o enterro. Fui para dois. Um judaico e outro católico. O judaico foi de minha tia-avó que eu tinha uma certa ligação, mas não era tão íntimo. Eu também era mais novo, tinha por volta dos 15 anos quando ela morreu, ou alguma coisa assim. E foi até interessante porque eu pude ver um pouco da tradição que o judaísmo tem no aspecto do enterro e dos hábitos dos familiares mais próximos do morto. Então, foi interessante porque eu pude ver, pelo menos uma única vez, e ter a noção de como é um enterro judaico. O outro foi de um amigo meu, católico, que morreu no ano passado, logo depois do carnaval, e me tocou bastante porque foi uma coisa que eu acompanhei já mais experiente, com mais idade, com mais noção das coisas. Foi triste. Muito por conta desse enterro que eu fui que eu sou assim meio anti- cerimônias com relação à morte, de ir a cemitérios, essas coisas. Uma coisa que eu não gosto muito por causa disso.

Comparando as duas religiões, quando lembro desses dois casos, é totalmente diferente. Questões de hábitos. É totalmente diferente. Acho que a única coisa que vai coincidir aí é a questão do sentimento dos familiares, dos amigos, dos parentes que é a questão da tristeza, mas a questão de hábitos é totalmente diferente. Enquanto no católico você deixa o corpo lá, exposto, aberto, no judaico, o caixão é fechado, todo preto, simples. E estava lendo até um documento e ele diz que a questão do enterro judaico é a simplicidade. Eles tratam a simplicidade sempre. Ou

seja, o caixão é preto, sem muitas decorações, não é costume nem mandar coroa de flores. Hoje, por ser mais comuns os casamentos mistos entre judeus e católicos, já estão aceitando mais essa questão das flores, mas é uma coisa muito simples para poder manter a igualdade social. Dentro da religião católica não. Tem gente que já produz mais, veste o morto com uma roupa bonita, maquia, deixa lá exposto no velório. A gente não tem esse velório. A gente tem o ritual de o morto ser preparado, lavado, no caso, por uma pessoa específica que já tem essa função e, de lá, já sai dentro do caixão fechado. Então, os dois são fortes em questão de sentimento, mas culturalmente falando, acredito que o enterro judaico é mais pesado, mais forte porque tem mais hábitos que o enterro cristão, católico.

Recentemente, um pai de um amigo meu, judeu também, faleceu, mas não cheguei a ir para o enterro justamente porque eu já evito. Não faz nem um mês que ele morreu, mas é uma coisa que eu já evito. Tirando esses três, mais nenhum. Não se trata de nenhuma superstição. Eu é que não me sinto confortável, sabe? Não é nem pelo corpo ali em si. É pelo que os outros estão sentindo, aquele sentimento de tristeza. Eu me sinto comovido demais e não quero ficar sentindo muito isso. Eu já sei que daqui a pouco vou sofrer mais. Eu ainda tenho meus quatro avós, tenho meus pais, meus parentes mais velhos do que eu que, se for seguir a trajetória da vida normal, eu vou ter que, infelizmente, enterrar eles, no caso. Eu sei que poderia ser uma preparação, teria que ser mais forte com relação a isso, mas eu tento evitar por enquanto. Por enquanto.

A religiosidade dos judeus acredita que os mortos voltariam com a volta do Messias. É o que diz a Bíblia. Hoje em dia, outras correntes já pensam que a questão de sua alma voltar ou não está mais ligada ao que você faz no dia a dia, durante sua vida, o amor praticado, a bondade. Acredito que, se fosse, também seria por esse lado, não por conta da volta do Messias. Seria por conta do seu dia a dia aqui, o que você fez durante sua vida. Eu também não tenho certeza se teria essa volta, não é?

O que me deixa meio curioso é: aonde é que eu fico até lá? Até esse dia, se vai ter essa volta ou não, onde é que eu vou estar? Esse intervalo pode durar milênios, dois anos ou dois dias. Não sei quanto vai ser nem onde vou estar, mas isso é o que me deixa curioso e não tenho como encontrar a resposta porque só quem poderia me responder isso é quem já morreu e quem já morreu não tem como falar com a gente.

A morte me inquieta um pouco. Por essa questão de você estar vivendo, construindo sua vida, e pode ser que amanhã eu não esteja mais aqui, entendeu? Você lutar tanto, batalhar, ter tantas preocupações, viver tantos estresses, tantas alegrias também, fazer tantas amizades, construir uma vida toda para, no final, acabou! Acabou tudo e aí? Por isso que volta aquela minha curiosidade: por que a gente faz isso tudo para, no final, não ter um motivo? Isso é o que me deixa intrigado. Acho que tem que ter uma explicaçãozinha, não sei como vai ser solucionado isso aí, não. Porque tem que ter uma explicação lá na frente. Mesmo que seja depois que a gente morrer, a gente vai encontrá-la.