Relations entre niveaux de formation, certifications et diplômes Françoise Dauty
2. Diversification des certifications et niveau
Nos longos encontros que tive com meus interlocutores, e em alguns casos, mais de uma vez, observei que a palavra ‘transformação’ também surgiu com uma frequência incomum em meio a tantas outras. Quando não, era a palavra ‘mudança’. Entretanto, o sentido para o uso de ambas costumava ser o mesmo: de movimento, de saída de um ponto para outro diferente. Por essa razão, as transformações, ou mudanças, também constituem outra categoria de análise nesse trabalho enquanto associadas, de algum modo, à morte. Elas podem ter um caráter coletivo ou individual, pelo qual começo.
A transformação de cada um nem sempre segue caminhos iguais a de outras pessoas. A seguir, apresento quatro situações distintas e escolhidas porque ilustram os contextos que identifiquei nas falas.
Para alguns interlocutores, a morte é um agente de mudança, mexendo com a personalidade do indivíduo, como diz F.B., que amadureceu ainda muito cedo após a morte precoce da mãe:
A morte me tornou adulta antes do tempo. [...] Meu pai ia trabalhar e havia uma criança para criar. Não que eu tenha assim nenhuma queixa, nenhum trauma. Eu fui para faculdade, eu fiz tudo que eu devia fazer, mas sempre esse sentimento de que eu tinha responsabilidades. Isso, realmente, eu acho que mudou. Quando eu olho as adolescentes de minha idade, então com 17 anos, que a preocupação era que vestido ia botar na festa, que penteado vai fazer, cadê o namorado que ainda não apareceu? Então, eu amadureci precocemente. [...] Entretanto, é tudo diferente. Foi diferente porque o sentimento que você tem com relação a sua mãe não é o mesmo que você tem com relação ao tio, mesmo que seja muito querido. É diferente e, além do mais, é uma coisa você perder a mãe aos 17 anos e perder o tio quando você tem vinte e poucos anos. Você sente, você sofre e não tem como. Cada morte é uma morte e causa um impacto diferente na sua vida. (F.B. 2016)
Uma outra forma de transformação associada à morte tem a ver com o tempo, com aquilo que ele acaba por provocar nas pessoas que perderam alguém em um dado momento da vida. B.S. explica como o tempo mudou a forma como ela se relaciona com a morte:
Eu acho que isso é uma consequência natural da passagem, do distanciamento do fato em si. Agora mesmo, eu fui escovar meus dentes e minha mãe era acostumada aos tubos de pasta de dente feitos de chumbo porque, antigamente, eles eram de chumbo. Hoje, eles são plásticos. Às vezes, você aperta e têm uns espaços vazios. É um ‘cadisch’, uma lembrança. Ela sempre falava desses tubos. É uma besteira, mas você lembra. Todo tempo, eu estou lembrada deles. (B.S. 2015)
No caso de A.S., percebe-se a mudança pela forma como ela lida com a morte, que não é mais a mesma porque, entre outras razões, essa mudança foi desejada. Segundo a interlocutora, devido à idade e a busca de conhecimento não só no judaísmo, mas também em outras religiões:
Como eu pensava a morte antes era um temor. Um misto de temor porque a gente não concebe nem se aprofundar muito no assunto, não procura se informar também o que é que uma religião diz. Eu sou eclética, eu sou muito ecumênica, vamos dizer assim. Eu gosto de saber um pouco o que cada religião diz a respeito da morte e também porque eu tenho de um lado, uma família cristã, e de outro, uma família judia. Então, dentro desse conceito do que cada religião diz, eu me interesso. A mim me interessa saber o que o espiritismo diz sobre a morte. O que diz o candomblé sobre a morte? O que diz o budismo sobre a morte? Eu tenho lido muito. (A.S. 2016)
A quarta situação também enseja a transformação, mais especificamente, a ausência dela. Pelo menos dois interlocutores disseram que neles nenhuma transformação ocorreu que pudesse ser associada à morte. Para B.B., apesar de tê- la sentido, a perda dos pais em nada mudou suas crenças e modo de ser. Segundo ele, o que fez depois, em ambos os casos, foi em consideração ao modo como viviam os pais:
As perdas que eu tive não me transformaram, não sinto mudança nenhuma. Só que eu não era religioso, mas para meu pai, para minha mãe, eu cumpri rigorosamente o que manda o figurino religioso. Acho que eles gostavam. (B.B. 2015)
Citarei o exemplo de um deles, J.P., porque havia perdido a esposa recentemente, se considerada a época em que a entrevista foi feita. Ele lembra das mortes da esposa e do pai como dois episódios muito dolorosos, mas que não implicaram em qualquer mudança em seu comportamento ou nos conceitos relacionados à vida e à morte:
Dez anos após a morte do meu pai, morreu minha esposa. Uma década depois, minha forma de lidar com a morte não mudou. [...] É absolutamente a mesma, absolutamente a mesma. Eu tenho minha memória e ela continua sendo rigorosamente preservada de todos os meus anos vividos. Minha memória é intocável e continuo tocando a vida para frente com os mesmos pensamentos até porque sou um homem por princípio um excelente otimista. Eu sou otimista em todos os sentidos. (J.P. 2016)
As mudanças individuais não são as únicas percebidas pelos interlocutores que também apontam uma transformação no âmbito coletivo. Neste caso, elas estão sempre ligadas a elementos culturais e da tradição judaica. São práticas e modos de fazer que, com o passar do tempo, passaram a ser questionados e até mesmo modificados. Presidente da Chevra Kadisha do Recife por 30 anos, posto que já não ocupa mais, B.B elenca dois costumes que, segundo ele, evidenciam que a comunidade judaica recifense não é mais a mesma de décadas atrás:
Ao longo destes meus 85 anos, eu vi mudar o jeito como a comunidade judaica lida com a morte. [...] Uma vez me explicaram que, antigamente, quando morria uma pessoa, se rasgavam as vestes de desespero pela morte. Hoje, quando morre uma pessoa, se dá um corte na camisa que os filhos estão usando para dizer que estão de luto. [...] Outra coisa que mudou ao longo desses 30 anos à frente da Chevra Kadisha: você sabe que depois que falece, durante sete dias, há reza na casa da pessoa. Antigamente, e fora isso, o filho, ou o pai ia para sinagoga religiosamente todo dia às cinco horas da manhã e todo dia às cinco horas da tarde. Todos os dias, chovesse ou não chovesse, ele estava lá, fazendo a reza. Sempre o homem. A mulher não vai normalmente. E, também, na casa do morto, se fazia a reza também. E, hoje em dia, dificilmente, você consegue juntar dez pessoas. Atualmente, se paga a uma pessoa para rezar durante o ano pela alma dele ou dela. (B.B. 2015)
Alguns informantes disseram que tentam ao máximo seguir as tradições, mas admitem que nem sempre é possível dar conta de tudo. Neste caso, tudo significa muito. Os rituais próprios da morte, do sepultamento e do luto no judaísmo constituem um repertório rico e cheio de particularidades, como já foi apresentado no Capítulo 1 desta tese. Chama atenção que até aqueles que se consideram menos religiosos, buscam não se afastar tanto dos padrões estabelecidos, a exemplo de F.B.:
Veja! A gente tenta seguir o máximo que pode. [...] Mas pelo menos meus mortos foram enterrados com a mortalha. Os judeus fazem uma espécie de vestimenta que se é costurada sem nós. Eles foram enterrados assim e enterrados em cemitérios judaicos. Eu passei muitos anos trabalhando para angariar fundos para a gente construir o cemitério do Curado porque o do Barro lá não dava mais, a prefeitura
doou o outro terreno e eu queria muito que tivesse um outro cemitério judaico para quando chegasse a minha vez. (F.B. 2016)
Houve um relato também bastante interessante de outra interlocutora. Ela não se considera religiosa, mas admite que faz um esforço para manter as tradições, tanto é que resolveu fazer uma espécie de enterro simbólico de alguns parentes distantes que morreram em campos de concentração mantidos pelos nazistas no século passado. Para C.J., era algo como uma lacuna vazia que foi preenchida e passou a ter grande significado:
O que foi que eu fiz? Eu peguei as fotos que eram da minha família dos anos 20, de uma família morta e de uma família que não teve lápide. A família de minha avó já estava aqui no Brasil junto com a irmã, mas toda a família dela sucumbiu lá no Holocausto. Eram fotos muito bonitas, dos anos 20. Então, eu, meu irmão e minha prima resolvemos que nós íamos para a Polônia visitar os lugares onde eles moraram e que ainda estavam de pé e eu resolvi levar na minha bagagem essas fotos. Levei e fiz vários rituais lá. Levei para a sinagoga, para casa onde eles moraram para que tivessem contato, botei nos trens, assim, porque os trens são muito emblemáticos da Segunda Guerra e isso que eu te falei: eu realizei um enterro no cemitério de Cracóvia, nevado. Eu coloquei as fotos dos meus bisavós, eu botei na pedra e, à minha maneira, porque eu não sei rezar o Cadish, eu imaginei alguma coisa como se aquele fosse um enterro simbólico24. (C.J. 2016)
Ainda a respeito das transformações, em uma outra pesquisa que fiz sobre os costumes e tradições ligadas à morte no judaísmo, em Pernambuco, constatei que as mudanças ocorreram e continuam ocorrendo porque a sociedade é dinâmica, intercambia experiências com outros grupos e se adequa a seu tempo e a seu espaço.
Essa leitura, de 2012, permanece atual e dialoga com esse trabalho ora apresentado, no qual os informantes apontam que a transformação é um processo ainda em curso. Para alguns deles, a mudança precisa alcançar todos os aspectos da vida da comunidade judaica, como disse B.B.:
Eu acho que é preciso atualizar tudo. O que está nos escritos bíblicos também. O que foi escrito em outro tempo, em outra sociedade. Eu acho que precisam ser atualizados porque são coisas que a gente não entende como foi feito aquilo, como faziam aquilo. Muita coisa que eu acho que, realmente, não há razão de ser. Inclusive aquilo que se relaciona à morte. Acho esse negócio de ficar sentado sete dias no chão e não poder sentar numa poltrona, tem que ser no chão, acho que isso não tem cabimento nos dias de hoje. Tem gente que é religiosa e
24 Posteriormente, as fotos feitas por C.J. fizeram parte de uma exposição chamada Memorabilia que
faz, como tem gente que é religiosa e não come carne de porco de jeito nenhum. (B.B. 2015)
Entretanto, nem todos têm as mesmas impressões. Para um dos entrevistados, atual presidente da Chevra Kadisha, o tempo tem passado sem que ele note qualquer alteração na comunidade judaica do Recife. Sobre possíveis transformações, incluindo a de si mesmo, J.P. afirma:
Não percebi mudanças entre os judeus com os quais convivi de maneira mais próxima. Não vi diferença. Eu acho que os rituais, os procedimentos não se alteraram. Pelo menos na minha maneira de ver as coisas, não é? Continuam a mesma coisa, o procedimento, o tratamento. O respeito é o mesmo. Não vi nesse meio tempo, nenhuma alteração. Não percebi. (J.P. 2016)
Na contramão de J.P., sou levado a compartilhar das ideias dos demais informantes que percebem as transformações, individuais ou coletivas, ocorridas ou em curso dentro da comunidade judaica observado. Entendo que elas interferem, mas também refletem o modo como os judeus do Recife lidam com si, o outro, a morte, o sentimento de perda e a dor que ela provoca.
Esta dor não corresponde a uma dor necessariamente física, que foi estudada minunciosamente por Le Breton. Entretanto, as análises feitas por ele facilitam a compreensão dessa expressão do corpo que é também uma expressão coletiva e oferecem um caminho para se entender as mudanças que se dão a partir da morte do outro. A dor, segundo Le Breton, tem usos sociais identificáveis de um lado a outro do mundo. Ela pode ter por finalidade educar, impor sofrimento a alguém, legitimar ritos de passagens, fazer um tipo específico de oferenda ou mesmo demonstrar a fé, o que não se aplica aos judeus para os quais a busca e a aceitação da dor e do sofrimento não simbolizam demonstração de devoção.
Consideradas as possíveis transformações ocorridas no indivíduo após a morte de um ente querido, entendo que elas aconteçam a partir da dor provocada por esta perda, uma dor que não é apenas física e alcança outros planos. Dor que é geradora de mudanças conforme afirma Le Breton:
Por ser extirpação de si, perturbação da quietude em que se arraigava o antigo sentimento de identidade, a dor sofrida é antropologicamente um princípio radical de metamorfose. [...] Ela é um instrumento de conhecimento, uma maneira de pensar o limite de si e de ampliar o conhecimento dos outros. (LE BRETON, 2013:220)