1.2 R´eseaux bay´esiens et causalit´e
1.2.1 Utilisations des r´eseaux bay´esiens causaux
A Sociedade dos Cordelistas Mauditos irá estabelecer uma mudança de paradigma na produção contemporânea da literatura de cordel. Desse modo, busca propor uma ruptura com concepções fechadas e hierarquizadas das práticas letradas, legitimando esse gênero e instaurando a ideia de que ele deve ser valorizado no contexto social, político e cultural. Dessa maneira, o movimento de ruptura proposto pelos Mauditos surge com o intuito de ressignificar as enunciações sobre literatura de folheto, desvelando preconceitos e propondo novos olhares e novas atitudes relacionadas à produção de cordel, assim como delineia uma trajetória enunciativa dos poetas Mauditos.
Quando um enunciado é produzido, ele deixa em sua construção algumas pistas de estruturação que poderão nos elucidar o tipo de relação desenvolvida entre seus sujeitos participantes. A fim de que o enunciado consiga, de fato, ser entendido por ambos interlocutores, os sujeitos integrantes no processo de comunicação deverão cumprir alguns papéis. Um enunciador, por exemplo, poderá utilizar na composição de seu enunciado diversos termos que são sabidamente desconhecidos de seus enunciatários. Nesse caso, não haverá uma identificação estabelecida entre os sujeitos, que pode ser evidenciada através desses termos acionados na superfície dos textos.
Essas marcas nos enunciados poderão denotar um tipo de manipulação da linguagem pelo seu enunciador.
O que pode ser observado no termo “Maudito”, utilizado para nomear essa Sociedade de poetas que, ao ser escrito com “u”, instaura ou busca instaurar, simbolicamente, o rompimento com certas concepções tradicionalmente arraigadas em um saber e fazer literatura de cordel, como pode ser observado nas palavras de Fanka Santos (2000), cordelista Maudita, no texto “Pensando o Movimento dos Mauditos”:
Não estamos interessados em resgatar um passado opressor e discriminador, ao contrário, somos a crítica deste passado onde o cordel esteve situado e foi palco de grandes sagas e pedaços da história, vista através das lentes dos poetas que em muitos casos reforçam uma memória dominante reacionária.
O termo não é novo e ganhou maior notoriedade quando, nos anos de 1884 e 1888, Paul Verlaine publicou a obra “Lês Poètes Maudits” (Os poetas Malditos) para referir-se aos poetas que mantinham um estilo de vida que pretendia demarcar-se do resto da sociedade, vista, por esses poetas, como comportamentos e normas alienantes e que aprisionavam os indivíduos nas suas normas e regras.
Do modo como o termo é utilizado pelos membros da Sociedade dos Cordelistas Mauditos, é recuperado como sendo aquilo que não cabe mais no senso comum, entretanto faz parte do mundo, da cultura e da sociedade, isento de princípios morais institucionalizados e que levará em conta o processo subjetivo de cada cordelista Maudito por meio da linguagem.
Ao tratar a subjetividade na linguagem, Benveniste (1995) entende que o sujeito se apropria do aparelho formal da enunciação para se comunicar, ou seja, quando faz isso, o sujeito opera toda a sua subjetividade. Isso significa que o sujeito possui uma intencionalidade e se vale de uma série de estratégias para interagir com o outro.
Desse modo, o ato individual de utilização que colocará a língua em funcionamento na enunciação introduzirá o locutor como parâmetro das condições de enunciação, ou seja, a enunciação é vista como um processo, um ato pelo qual o locutor mobiliza a língua por conta da língua, do inconsciente e da ideologia.
Nesse sentido, podemos dizer que o movimento transgressivo empreendido pelos cordelistas da Sociedade dos Cordelistas Mauditos, a partir da produção de um outro tipo de cordel, ainda que continue sendo cordel, marca uma identidade do grupo,
que é reforçada por cada autor, em sua expressão da subjetividade. Tratam-se de sujeitos que, juntos, reforçam uma identidade coletiva e que buscam, pelos folhetos de cordel, pelo seu manifesto de criação e por seu entendimento ideológico do que é ser “maudito”, romper com uma trajetória enunciativa mais tradicional a respeito da literatura de folhetos que vigorou por muito tempo e ainda vigora nos dias atuais.
Podemos configurar o movimento empreendido pelos Mauditos como dialógico, pois, no âmbito da AD, as relações dialógicas exploradas por Bakhtin são inspiradoras da problemática da interdiscursividade. O interdiscurso compreende a relação constitutiva entre formações discursivas, no sentido de que o que é rejeitado como externo delineia as fronteiras do que é afirmado como interno e de que o surgimento de uma nova formação discursiva se dá no espaço da relação polêmica com o já dito da formação discursiva41 precedente.
A poética dos Cordelistas Mauditos dialoga o tempo todo com os cordelistas tradicionais, mesmo que seja para criticá-los. Esse cordel, supostamente novo, tem sua base nos folhetos já produzidos, como podemos perceber no manifesto de criação quando, ao afirmarem que sua comunicação “se dá através da poesia de cordel – traço de nossa identidade nordestina”, a Sociedade dos Cordelistas Mauditos reconhecem a literatura de folhetos como um traço estruturador de uma identidade nordestina construída por uma identidade coletiva firmada a partir do pertencimento e de uma tradição.
Além de dialogarem com a tradição da literatura de cordel, os Mauditos dialogam entre si, por sua formação enquanto grupo e tentam afinar o conteúdo e a estética dos folhetos que publicam, para reforçar o pensamento do grupo.
Isso posto, procurar-se-á um caminho enunciativo da Sociedade dos Cordelistas Mauditos que passe pela consideração do ato de enunciação como ato individual, em que o sujeito se apropria da língua e a põe em funcionamento e pelas teorias enunciativa da linguagem, que estabelecem as relações entre os participantes da interação, fazendo com que o interdiscurso e o “Outro” sujeito irrompam na linguagem.
41 A noção de formação discursiva foi introduzida por Foucault e reformulada por Pêcheux no quadro da
análise do discurso. Para Foucault, a formação discursiva procurava contornar as unidades tradicionais como “teoria”, “ideologia”, “ciência”, para designar conjuntos de enunciados que podem ser associados a um mesmo sistema de regras, historicamente determinadas (...) Para Pêcheux, a formação discursiva aparece inseparável do interdiscurso, lugar em que se constituem os objetos e a coerência dos enunciados que se provêm de uma formação discursiva (CHARAUDEAU, P. MAINGUENEAU, D. 2006, p. 241).
Os cordéis produzidos pela Sociedade dos Cordelistas Mauditos possuem uma trajetória enunciativa ancorada em imaginários e em uma memória sobre o que é fazer literatura de cordel ou o que é o cordel e como o poeta desempenha o seu papel de produtor e divulgador dessa prática discursiva.
Podemos observar no cordel “Os 10 mandamentos do bom cordelista”, de Hélio Ferraz, essa trajetória enunciativa do fazer literatura de folhetos e a posição de ruptura assumida pelos poetas mauditos, representados nos versos a seguir:
Tu renegas a postura dos poetas renomados como Rodolfo Coelho Leandro Gomes de Barros e João Martins de Atahyde cujo brilho não regride estão imortalizados E se daqui há uns tempos estudarem tua obra verão os pesquisadores não os versos, mas só cobras lacraias e escorpiões
no feitio de palavrões que escandiste às sobras Em nome do panteão dos poetas mais benquistos pesar-te-á a sentença daqui até o infinito por Ezra e Lira “L” carregarás sob a pele o estigma de ma“u”dito (...)
E o anjo retirou-se o transe passou em parte restou somente a sentença de ser maudito, destarte. Não rezo em nenhum rosário Faço tudo ao contrário Não apaguem minha arte
O folheto é uma irônica alusão aos Dez mandamentos ou o Decálogo, nome dado ao conjunto de leis que segundo a Bíblia, teriam sido originalmente escritos por Deus em tábuas de pedra e entregues ao profeta Moisés. Com o mesmo caráter normativo, o folheto vai enumerando regras de boa conduta a serem seguidas pelo poeta
que intenta ser um “bom cordelista”. Do primeiro ao último mandamento, Hélio vai criticando aspectos ligados, quase em sua totalidade, ao conservadorismo temático que costuma reproduzir sempre histórias clássicas, como as que têm Lampião e Padre Cícero como foco central, em detrimento de outros temas, como a questão da mulher e do negro.
Os Mauditos se constituem a partir da polêmica que gira em torno da problemática questão da “autenticidade”. Assim, o alter construído surge na representação dos cordelistas da Academia42 do Crato em que se atualizam velhas antinomias: popular/erudito, velho/novo, autêntico/inautêntico, conservador/vanguarda. Os Mauditos afirmam que não querem negar a contribuição dos cordelistas tradicionais (Santos, 2002, p. 136), o que significa dizer que compartilham mundos, porém não desejam perpetuar o que denominam por “tradição”, criando, assim, novas redes de significação dessa tradição.
Para delinear a trajetória enunciativa da Sociedade dos Cordelistas Mauditos, precisamos partir de algumas premissas concatenadas com a memória discursiva. Em primeiro lugar, a memória discursiva não é linear. Ela é constituída por falhas e lacunas. Desse modo, constitui-se o lugar de desdobramentos, réplicas e polêmicas. Trabalhar com a memória discursiva é, portanto, trabalhar na tensão entre a regulação e a desregulação e considerar tanto os aspectos homogeneizadores quanto aqueles que provocam conflitos, rupturas, procurando, sempre, distinguir os processos discursivos atuantes na cristalização de determinados sentidos, em detrimento de outros. O resultado disso é uma reflexão sobre as relações de forças que permitiram a instalação do sentido hegemônico, àqueles que se pretendem unívocos e estabilizados na materialidade discursiva.
Para dar continuidade ao desenho da trajetória enunciativa dos Cordelistas Mauditos, veremos o posicionamento de Maingueneau a respeito da enunciação. O autor postula a AD, a qual, necessariamente, deve formular as instâncias de enunciação em termos de “lugares”, ou seja, determinar qual a posição que cada indivíduo pode e deve ocupar para se instituir como sujeito do discurso.
42 Fundada em 1990 por iniciativa de Eloi Teles, conhecido radialista da região e grande admirador da
poesia popular. Os 12 acadêmicos que ocuparam as primeiras 12 cadeiras à época de sua criação eram poetas que já haviam publicado cordel ou eram violeiros e cantadores. GONÇALVES, Marco Antonio, Cordel híbrido, contemporâneo e cosmopolita. Textos escolhidos de cultura e arte populares, Rio de Janeiro, v. 4, n. 1, p. 21-38, 2007.