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Une nouvelle construction de l’image urbaine

2.3. Vue vertigineuse

2.3.1. Une nouvelle construction de l’image urbaine

A partir de uma análise comparativa, dos pontos de vista e argumentações, de vários trabalhos e pesquisas dos últimos dez anos pelo menos, podemos, com certa segurança, afirmar que a relação entre gêneros são pontuadas pela assimetria. Contudo, a recorrência destas assimetrias transita em caminhos, que na visão dos outros (ocidentais), possuem diferentes ângulos de visão, porém, não são só os olhares dos outros que apontam estranhamentos, mas, também, os olhares dos próprios e das próprias muçulmanas. A relação entre gêneros é, historicamente, assunto recorrente em grande maioria das investigações nacionais e estrangeiras, quando se trata da performance da mulher muçulmana em, praticamente, todas as regiões do planeta onde se faz presente o islamismo. Segundo Espínola, devemos refletir sobre olhares e discursos que tendem a desqualificar, pela estigmatização, o outro:

[...] o quanto somos levados a pensar sobre o Outro de uma forma que o desqualifica e usamos os princípios dos direitos humanos para legitimar verdades incontestáveis de forma a impedir o olhar até para Nós mesmos. [...] Falar sobre o islamismo, mulheres muçulmanas, países muçulmanos, cultura árabe gera vários estereótipos: desde tendas do deserto, dança do ventre, “feiticeiras”, uso do véu, até extremismos e atentados, mas percebo que principalmente vem à tona a situação das

mulheres considerada de extrema submissão, vítimas de “violências bárbaras”. (ESPÍNOLA, 2000, p. 1). Minha ênfase – Grifos meus.

Esta questão de gêneros encontra-se no meio de uma disputa denotativamente ideológica e política, intensificada e fortemente polarizada por parte da visão ocidentalizada e, por outro lado, por parte daqueles que enxergam pelo viés cultural o modus vivendis das mulheres muçulmanas. De qualquer modo, os primeiros, supostamente, consideram a mulher muçulmana engessada no tempo, presa a um modo de vida ultrapassado, arcaico e destituído de igualdade quando pensado na relação com o gênero masculino. Os segundos, saindo em defesa da mulher muçulmana, defendem-na a partir do seu contexto cultural, oposto ao contexto do mundo ocidental. No olho do furacão desta questão encontra-se o vestuário feminino muçulmano, suas polêmicas de uso, com ênfase para o hijab, que parece encontrar maior aceitação entre as mulheres islâmicas, sobretudo em países como o Brasil.

Mesmo o hijab, do vestuário feminino, talvez, o mais adequado do ponto de vista estético, é visto pela ótica ocidentalizada como símbolo de opressão e relação

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desigual da mulher com o sexo masculino islâmico. Porém, do ponto de vista da cultura e religiosidade da mulher que o usa, é símbolo de dignidade moral, identidade religiosa, pureza e identidade étnica.

Para Castro, este tema que envolve as relações de gênero e sua complexidade nas sociedades e comunidades islâmicas é, portanto, profundamente marcado por batalhas ideológicas e políticas que envolvem dois ângulos principais de visão. (CASTRO, 2007, p. 153). Além do fato de que, no meio destas duas correntes de opiniões antagônicas, é possível observar, por outros ângulos de investigação do tema, um considerável número de argumentos e opiniões que divergem influenciados por uma visão orientalista e etnocêntrica por um lado. Por outro lado, interpretações corânicas específicas deste tema da relação de gêneros e os respectivos direitos e deveres de homens e mulheres, convergem para uma relação notadamente assimétrica quando comparamos os direitos de um em relação ao outro. Neste caso, as mulheres, de modo geral, são vítimas da desigualdade.

Percebemos que a dominação masculina é o resultado de uma violência simbólica, sutil, invisível às próprias vítimas (mulheres muçulmanas), exercida principalmente pelas vias simbólicas. A força da ordem masculina se evidencia no fato de que ela dispensa justificação, ou seja, a visão androcêntrica de mundo se impõe como neutra sem a necessidade de enunciados e/ou discursos prévios que tencionam legitimá-la. Segundo Bourdieu, os atores sociais interagem por meio de estratégias, sem normas explícitas. Estas estratégias, supostamente são empregadas a partir de escolhas e a partir do seu habitus, ou seja, o caminho percorrido para alcançar seus objetivos.

Porém, neste caminho, no nosso caso, da igualdade de gêneros, com foco na mulher islâmica, os fatores econômicos, políticos, culturais e sociais conspiram contra ela. São vistos como pilares de sustentação e legitimação de sua condição desigual face ao sexo masculino no Islã. Possivelmente, o que vemos, observamos, participamos e apreendemos dessa relação de gêneros, é uma adequação “conveniente” do sexo feminino mediante suas “escolhas livres” daquilo que, na minha observação empírica, é o menos traumático para a existência desta mulher

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muçulmana em seu sitz im leben81, ou seja, em seu contexto vivencial, sobretudo o

religioso, dominado pelo sexo masculino. (BOURDIEU, 1999, p. 18).

Segundo Castro, no caso das mulheres brasileiras muçulmanas, com base experimental, principalmente nas relações das mulheres muçulmanas da cidade de São Paulo, estas mulheres vêem a definição de sua identidade pelo olhar dos outros. O olhar estgmatizante do outro, ou seja, neste caso, o olhar da mídia brasileira que, nesta questão midiática pode ser considerada um subproduto da mídia norte-americana e européia.

A realidade das mulheres muçulmanas brasileiras sofre alterações em dose dupla, pelo olhar, supostamente míope das mídias em geral. No caso das relações de gênero, o efeito midiático tem sido devastador e recorrente na questão da dominação feminina muçulmana pelo masculino muçulmano. Para a mulher muçulmana brasileira, em especial, na cidade de São Paulo, locus de nossa investigação, parece-me que a luta inglória contra os estereótipos dessa mulher, na maioria das vezes fabricado pelo olhar estgmatizante da própria mídia, é pura perda de tempo e de energia. Diante dessa realidade, a mulher muçulmana em São Paulo, busca canalizar esta energia “preciosa” em negociações e conquistas de espaços junto ao grupo masculino de seu próprio ambiente social, político, ideológico e religioso.

Neste caso, o fator religião é aquele que descortina ante os olhos desta mulher muçulmana em São Paulo (minha observação em pelo menos duas mesquitas paulistas), as maiores e mais concretas oportunidades para a busca deste espaço e trânsito que, como consequência pode lhe garantir uma relação mais igual perante o sexo masculino. Outros fatores que são elencados por Castro, tais quais, flexibilização da tradição muçulmana e suas leis; o grau de instrução destas mulheres; o grupo étnico ao qual pertence, a faixa etária em que se situam e a classe social; devem ser levados em consideração na busca deste espaço maior de igualdade. O fator religioso está na baila desta questão, uma vez que as investigações efetuadas, focando especificamente esta questão, apuraram

81 Sitz im leben

– Expressão alemã utilizada a princípio para evidenciar criticamente um determinado contexto de uma passagem da Bíblia. Contudo, seu uso mais geral trata do contexto vivencial de uma pessoa, grupo etc. Nota do autor.

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parcialmente, que a dependência feminina ao domínio masculino, tem sido, em boa parte das vezes, na visão das mulheres brasileiras revertidas em São Paulo, atribuídas a uma exigência cultural árabe e não de uma exigência do próprio sistema religioso Islâmico. Portanto, emerge, outra vez a questão étnica e o arabismo voltam à cena. Contudo, o problema não para por aí, temos as reclamações de abusos masculinos de autoridade sobre as mulheres apresentados por imigrantes de outras etnias, tais quais indianas, egípcias e africanas, como conseqüência direta da exacerbação da cultura árabe em detrimento do Islã. (CASTRO, 2007, p. 89).

Por fim, outro fator desta desigualdade de gêneros foi identificado pelo cumprimento parcial e não integral do Corão, Shariah e Ahadth, quando se trata dos direitos e deveres envolvendo as relações entre mulheres e homens no Islã. Certamente, os ditos abusos masculinos passam por esta vereda, uma vez que as interpretações das leis corânicas, e conseqüentemente da Shariah e Ahadth são realizadas por líderes religiosos masculinos do Islã, não só em São Paulo, no Brasil, mas no mundo todo.

Talvez, entre todos os abusos masculinos verificados contra a mulher muçulmana, a violência física cometida contra ela ao redor do mundo, seja o apelo midiático mais veemente e manipulador das massas ao redor do globo. Espínola faz referências pontuais a respeito desta violência em algumas regiões do globo: “Em

Bangladesh, as mulheres são atacadas com jato de ácido no rosto. As vítimas são

quase sempre garotas pobres que recusaram casamentos arranjados, investidas sexuais ou a clausura que querem impor os pais ou maridos” No Afeganistão, as mulheres passaram a ter que usar a burqa, um vestido longo com uma carapuça que esconde a cabeça e tem uma tela por onde elas podem enxergar. São apedrejadas em público se não usam o traje formal. Uma mulher apanhou até a morte de um grupo de fundamentalistas por expor o braço dela acidentalmente enquanto estava dirigindo. Outra foi apedrejada até a morte por ter tentado deixar o país com um homem que não era seu parente. No Irã, das mulheres é exigido o uso do véu para esconder os cabelos. Seu testemunho vale metade do de um homem. A lei concede ao marido o direito de repudiar a esposa, sem que ela possa contestar ou pedir pensão.

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Na Arábia Saudita, as mulheres não podem dirigir automóvel ou sentar-se sozinha num restaurante. Neste país existem cerca de 300 mil motoristas particulares, número ainda distante de poder fornecer a cada mulher saudita a locomoção desejada. Mulheres que não tem motoristas só podem sair de acordo com a vontade de seus maridos ou filhos. Em vários países africanos e do Oriente Médio, ou mesmo na Indonésia, Malásia, Paquistão e Índia, mais de dois milhões de jovens e mulheres adultas sofrem anualmente a mutilação genital. (ESPÍNOLA, 2000, p. 1-2). As questões que envolvem essa violência e alijamento das mulheres muçulmanas ao redor do mundo, passam por questões culturais, regimes de exceção, ditaduras e imposição pela dominação masculina da submissão feminina entre outros.

A ambigüidade corânica nas suas prescrições relativas à mulher pode ser outro fator de peso e força nas desigualdades perpetuada entre os gêneros: “E elas (as mulheres) têm direitos sobre eles, como eles os têm sobre elas, condignamente;

mas os maridos conservam um grau (de primazia) sobre elas.’’ (Alcorão 2. 228). Este famigerado “um grau sobre elas” é a ambiguidade corânica que os dominadores precisam. O que eu denomino de ambiguidade corânica possui pontos de vistas divergentes do meu. Visto pelo olhar de boa parte dos muçulmanos, não todos, o grau de primazia do homem é uma questão de liderança que a ele foi atribuída por Deus nas relações com a mulher, portanto, simbolizado pela religião. Visto pelo olhar da mídia ocidental, é um forte indício da revelação machista do Corão e interpretadas como tal pelos líderes religiosos muçulmanos e meio de manter o gênero feminino em submissão e alienação. Visto pelas feministas torna-se uma violência e negação dos direitos da mulher.

Um dos objetivos, segundo os apontamentos de Espínola, desta pontuação de situações que evidenciam a violência contra a mulher muçulmana, entre outros, é realçar algumas situações extremadas às quais está sujeita a mulher muçulmana e ao mesmo tempo deixar claro e evidente que esta violência não se encontra restrita aos arraiais islâmicos e nas relações das mulheres islâmicas com o sexo oposto, mas disseminada em todas as sociedades de qualquer canto do mundo e em todo o tempo. Se por um lado, nas relações de gênero, as situações de conflito entre mulheres e homens fazem aflorar a violência contra as primeiras, muito em razão do

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domínio masculino sobre o feminino, e, em certa medida, fundamentada, supostamente, em bases religiosas e culturais entre os povos muçulmanos; por outro lado, entre os povos não muçulmanos, cristãos, por exemplo, a violência contra a mulher tenta se justificar na busca de outras argumentações injustificáveis e tão cruéis quanto àquelas. As formas da violência ou mesmo de suas justificativas injustificáveis podem até mudar de atores e contextos, mas sua essência permanece a mesma em qualquer parte do mundo e nos mais variados palcos contextuais mundo afora, sem distinção de credo, cultura e sociedade.

Quando conversei com o Sheikh R. O. R, em pesquisa de campo na mesquita do Pari, no bairro paulistano do Brás, fiz algumas indagações sobre as relações de gênero que envolvem as mulheres muçulmanas revertidas e as de imigração, além daquelas de outras etnias que não árabes.

O Sheikh disse que: “nas questões de gêneros, especificamente entre homem e mulher muçulmanos, na minha visão, a questão cultural e interventora, ou seja, interfere nas dimensões sociais indo até à dimensão religiosa. Vou tentar mostrar exemplos em que a cultura vai intervir: se pensarmos numa relação de uma mulher e um homem, brasileiros revertidos, as questões culturais irão possuir determinadas e específicas nuances. Se pensarmos nas relações de gênero entre uma mulher revertida brasileira e um homem muçulmano de imigração e etnia árabe vamos observar que as questões culturais serão vistas por outro ângulo, diferente do primeiro exemplo. Por último, se pensarmos em uma mulher muçulmana de imigração com um homem revertido (caso mais raro) o viés cultural terá outra dimensão.

Quero dizer também que, para a mulher muçulmana, apesar das diferenças culturais existentes, a partir de sua etnia, a sua identidade, em geral, vai se definir na dimensão religiosa. Em outras palavras, quero dizer que o fator religioso é o que irá determinar sua realização maior nas relações com o sexo masculino, contudo, esta definição de identidade, que é absolutamente relevante nas questões de gênero, passou antes, pela vereda cultural e social”. Quando o Sheikh se refere ao fator religioso, como determinante nas relações entre homens e mulheres nas comunidades islâmicas o véu da ignorância é retirado de sobre nós. Nosso entendimento, da ambiguidade corânica, nas relações de gênero fica mais claro: “Os

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homens tem autoridade sobre as mulheres, pelo que Allâh preferiu alguns a outros [...]”. (Corão, Surata An-Nissã 5. 34).

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