São raros, escassos, quase inexistentes os registros da performance da mulher muçulmana de imigração neste período inicial. No Brasil, a presença da mulher síria ou libanesa ou mesmo egípcia ou iraquiana não possui registros que realcem a sua atuação e a sua importante participação na construção da identidade muçulmana brasileira. Segundo Truzzi, a presença de uma cultura patriarcal tão forte e tão intensa e menos pragmática em termos de ganhar a vida, contribuiu para que as mulheres persistissem na esfera do lar ou do trabalho anexo a casa. Atividades secundárias, que neste contexto cultural patriarcal do Brasil, foi assimilado e praticado pelas famílias de imigrantes, neste caso, relegando às mulheres um papel subalterno, secundário, em relação às atividades masculinas. (TRUZZI, 1993, p. 187).
A dificuldade para entender ou mesmo encontrar um registro da atividade feminina nesta época foi e é tão grande, que alguns pesquisadores, convictos da importância da participação da mulher muçulmana de imigração na construção da comunidade islâmica brasileira, iniciaram um processo de registros, com base histórica, a partir de entrevistas com gerações de mulheres imigrantes descendentes. É o caso de Osman. A pesquisadora, em seu trabalho “Imigração Árabe no Brasil”, vai colher depoimentos que assumem a forma de registros históricos e realçam a participação feminina nesta fase da imigração para o Brasil e em fases posteriores. Vejamos segundo Osman, o depoimento de uma mulher muçulmana, nascida no Líbano em 11de maio de 1939, Sara Toufic Abou Jokh. Esta mulher chegou ao Brasil com 16 anos. Sara é a típica mulher muçulmana da cidade de São Paulo, imigrante do Líbano: “Criamos nossos filhos na tradição islâmica. Fazíamos questão de ensinar a língua árabe e as tradições e cultura de nosso povo. A educação dos filhos era tarefa quase que totalmente minha, uma vez que meu marido Adel se dedicava diariamente ao comércio mascate. Quando me casei, enfrentei muita dificuldade, ainda não havia uma mesquita organizada. Meu casamento foi oficiado por um patrício, conhecido nosso, que leu a Surah da abertura do Alcorão, que é o que basta para realizar um casamento”. (OSMAN, 2011, p. 42-43).
Neste ponto do depoimento de Sara Toufic, uma constatação de Hamid, em sua pesquisa sobre a imigração de mulheres muçulmanas para o Brasil, vem
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corroborar para nosso entendimento de outras questões tais como casamento e saída do país de origem para terras brasileiras:
Assim, ao apontar que as mulheres palestinas são “migradas” não pressupomos uma falta de agência feminina na decisão de deslocar-se. Como bem ponderou Jardim (2007), principalmente no que toca à segunda geração de imigrantes, as mulheres (tias, avós) seriam as responsáveis por tramar os casamentos entre parentes que moram em países distantes, “vindo primeiro” no processo imigratório. No relato de Sadíe, por exemplo, fica claro como sua avó já tecia os encontros entre primos do Brasil e da Palestina. Não obstante, é preciso reconhecer que as palestinas não “migram sozinhas”. A possibilidade do deslocamento feminino somente ocorre
diante de uma presença masculina. (HAMID, 2007, p. 6). Ênfase minha – Grifos meus.
Podemos inferir, portanto, que de acordo com Hamid, a saída de uma mulher seja ela palestina, síria, egípcia etc. para o Brasil, ficava de certa forma, condicionada ao casamento com um homem de sua região, tribo, clã ou com algum parentesco com sua família; era quando este pretendente voltava ao seu país para trazer para o Brasil sua esposa. Portanto, a imigração de mulheres muçulmanas para o Brasil passava, em grande parte, por este expediente.
Continua Sara Toufic: “o meu marido sempre que podia me ajudava muito com as atividades do lar. Meus filhos todos nasceram de parteira, mas, muitas vezes a parteira só chegava para terminar o trabalho, porque os bebês já tinham nascido sem ajuda nenhuma. Quando a situação financeira ficou boa, meu marido Adel fez grande surpresa para mim: Uma viagem à Meca e Medina, sagradas para nós. Era o mês do Ramadã. Rezei nas mesquitas e dei as sete voltas em torno da Caaba. Depois dessa experiência, fundamental para um muçulmano, minha vida se revestiu de mais retidão, ausência de maldade, mentiras, vícios, vaidade pessoal e maior dedicação a Deus” (OSMAN, 2011, p. 46-47).
O desempenho das mulheres muçulmanas deste tempo, afora características pessoais próprias, caso de Sara Toufic, exceção à regra, acaba por revelar situações quase semelhantes que clareia nosso entendimento deste período da mulher muçulmana de imigração na cidade de São Paulo. O caso de Sara foge à regra geral pela qual transitaram as demais mulheres neste período. Em outras palavras, a mulher atuou, salvo poucas exceções, como deveria atuar em um contexto de dominação masculina e modelado socialmente pela matriz patriarcal trazida em sua bagagem cultural e intensificada pela matriz patriarcal brasileira.
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Contudo, se compararmos a mulher muçulmana com a mulher cristã, ambas procedentes do Líbano e ambas vivendo em um ambiente de dominação masculina predominante, para nossa admiração, a mulher muçulmana vai evidenciar uma performance muito superior no que tange a participação direta na construção da comunidade islâmica, na estrutura familiar, nas questões de sustento da família e auxílio ao marido, nas questões de cunho econômico, social e religioso em geral. A mulher muçulmana, com base nestes depoimentos, deixa transparecer que não se contentou com uma existência submissa ao extremo e que não se sujeitou a um papel de mera coadjuvante social, quando vista na relação com o gênero masculino.
Sara Toufic Abou Jokh, imigrou para São Paulo e veio se estabelecer na Freguesia do Ó, mais precisamente na Rua Antonio Blasques. Sara se dedicava ao trabalho doméstico a princípio. Seus irmãos, seguindo a tendência dos homens árabes de imigração, dedicavam ao comércio mascate. Contudo, Sara vai se envolver em outras áreas de domínio exclusivo do sexo masculino, tais quais comércio, direção na criação dos filhos e estruturação da família, responsabilidade em manter as tradições culturais e os valores da religião, além da economia do lar. São indícios de que uma igualdade de gêneros é possível no mundo islâmico, sendo que este fator de igualdade vai ser matéria de grandes discussões e debates na busca de uma visão mais equilibrada, se possível, de tema tão polêmico, sobretudo quando visto e assimilado pelo viés cultural e religioso.
A partir deste segundo movimento imigratório para o Brasil, iniciando em 1945, e com o aumento da presença muçulmana em vários pontos do território nacional, vem surgindo, aos poucos, uma identidade islâmica, ainda que incipiente e, como consequencia, vai surgindo uma maior necessidade de uma estrutura tanto ideológica quanto física para a afirmação e referência deste povo. É neste período que se iniciam as construções de mesquitas pelo Brasil afora: (ANEXO 3 – Foto 1).
Neste período, será construída uma das mesquitas mais suntuosas do Brasil, em Foz do Iguaçu, PR e, em 1969, a Escola (Colégio) Islâmica (o) é inaugurada na Vila Carrão, São Paulo, SP, como importante centro divulgador da cultura muçulmana. O Crescimento da comunidade islâmica progride a ponto de que em 1970 realizassem o primeiro Congresso Internacional Islâmico dos muçulmanos no Brasil, com participação do Iran e da Turquia. (RIBEIRO, 2013, p.158).
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