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Un motif industriel structurant la composition

1.3. La place de l’Europe, où se déploient des signes de la modernité industrielle

1.3.2. Un motif industriel structurant la composition

A diferença étnica e cultural entre brasileiros revertidos e os imigrantes de origem árabe e seus descendentes fica evidenciada na maioria das comunidades muçulmanas no Brasil. Não somente na mesquita Brasil. A exceção, fica para a Liga da Juventude Islâmica Beneficente do Brasil – LJIB, ou mais conhecida como mesquita do Pari e, talvez para a mesquita Abu Bakr Assidik64, que fica em São Bernardo do Campo. Nesta comunidade, temos grande presença de revertidos, sendo que o número de mulheres revertidas é considerável quando comparado com as imigrantes e descendentes. A grande presença de revertidos, provavelmente a maior, dentre as comunidades islâmicas de São Paulo, pode ser um passo seguro para se chegar a uma confirmação de que o fato da presença maior de revertidos modela o ambiente e retira do mesmo a impregnação étnica e o arabismo.

A constatação, por parte dos revertidos, tanto mulheres quanto homens, é uma só: ainda que não haja consenso entre os imigrantes e descendentes árabes sobre a tensão entre os dois grupos, alguns convertidos sentem dificuldades com relação a esse convívio. Por isso, um novo quadro começa a se delinear e um movimento de emancipação, por parte dos revertidos e muçulmanos de origem não árabe, direciona-se para a formação de uma comunidade muçulmana que atenda à diversidade cultural.

Percebemos que um fato já é verificável, ou seja, a recorrência das dificuldades encontradas por brasileiros revertidos no convívio com muçulmanos de procedência árabe. Esta dificuldade ganha mais intensidade quando se trata de árabes imigrantes sírios, libaneses e palestinos.

Segundo Montenegro, existe, por outro lado, uma tendência de atrelar o islamismo ao arabismo, fato que deixa algumas comunidades muçulmanas deliberadamente conservadoras dos vínculos étnicos:

Vimos, quando nos referimos às diferentes zonas do Islã no Brasil, que algumas comunidades também sunitas, como as de São Paulo e as do estado do Paraná, ressaltam em suas publicações o legado de uma cultura árabe comum como traço estreitamente vinculado ao islamismo professado em terras brasileiras. O conteúdo de publicações tais como a da Sociedade Muçulmana de São Paulo, que em seu

64 Mesquita Abu Bakr Assidik. Colônia islâmica em São Bernardo é uma das maiores da América

Latina. A mesquita, por meio da sociedade cultural, também oferece ensino da religião e ações culturais. Localiza-se à rua Henrique Alves dos Santos, 205, Jardim das Américas Tel: (11) 4337- 3434.

85 jornal denominado de Al Urubat faz alusões à “pátria árabe”; a inclusão de títulos tais como “O Legado da Civilização Árabe” em sites de organizações do estado do Paraná; a visita de Sheikhs estrangeiros a essas organizações – tudo isto constitui um conjunto de indícios que tornam evidente que alguns destes grupos não se opõem ao estabelecimento de um vínculo entre os termos “árabe” e “Islâmico”. (MONTENEGRO, 2000, p. 68).

Nas observações de Montenegro, principalmente das questões que vinculam arabismo e islamismo em São Paulo, evidenciou-se o que continua recorrente entre os revertidos hoje, aproximadamente treze anos após os apontamentos acima citados, os mesmos conflitos étnicos continuam. A permanência destes conflitos deixa claro duas questões: aquela que mostra que o arabismo continuou sendo veiculado, principalmente pelas comunidades de imigrantes e seus descendentes. E, aquela que é conseqüência direta da primeira, ou seja, a clara reivindicação por parte dos revertidos brasileiros de um Islã menos arabizado.

Em suas pesquisas de campo em São Paulo, Ferreira relata que uma nova comunidade muçulmana foi criada, fruto de uma dissidência ocasionada pelo conflito étnico sustentado pelo arabismo exarcebado por parte de alguns imigrantes árabes. No caso em destaque, um brasileiro muçulmano rompeu com sua comunidade, cuja maioria era de muçulmanos imigrantes e criou a “Comunidade da República”. Este brasileiro foi nomeado “Presidente da Sociedade Beneficente Muçulmana dos Brasileiros”. Este é mais um fato que vai dando sustentação a uma tendência de um Islã Brasileiro. (FERREIRA, 2007, p. 18).

Os sinais que vão, como que conduzindo para um Islã com rosto mais brasileiro, se tornam mais fortes e evidentes. Os conflitos e mesmo as intolerâncias entre os árabes e não árabes no Brasil têm sido gerados pelas suas diferenças étnicas e culturais. Nas reivindicações dos revertidos brasileiros de um Islã com cores brasileiras, a alusão a um forte etnocentrismo e arabismo tem sido a pedra de toque deste problema. Este fator, na visão dos revertidos, elevam os árabes para uma posição de pretensa segurança e sentimento de superioridade. Segundo os revertidos, existe um grande preconceito por parte daqueles que já nasceram em berço muçulmano com relação àqueles que se tornaram muçulmanos. Os árabes, no entendimento dos revertidos, acham que têm o monopólio do Islã. Como não há tradição islâmica no Brasil, a tendência é importar o estilo árabe. Esta foi a fala de um revertido brasileiro: “Não quero ser um muçulmano árabe, quero ser um muçulmano brasileiro”. (MARQUES, 2010, p. 129). Por hora, podemos afirmar que,

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embora haja uma aproximação por parte de árabes e brasileiros, também, proporcionada pela religião, devemos ficar atentos ao fato de que essa aproximação tem sido produtora de desconfortos, desconfianças e conflitos. Até mesmo entre revertidas, no caso de mulheres brasileiras, tem havido alguns conflitos:

“Mesmo algumas revertidas mais antigas às vezes fazem algum tipo de crítica com relação a algumas recém-chegadas. De uma delas ouvi que “um monte de mulheres se reverteram naquela época (da novela O Clone), procurando por um Said para casar. “Maquiadas, cheias de pedrarias, foram para a mesquita procurar um marido como o da novela: rico e que desse muito ouro para sua esposa”. Segundo a informante, a mesquita de São Bernardo ficou cheia destas mulheres, para quem o Sheikh teria precisado dizer que não procurassem a mesquita com esse objetivo. (Castro, 2007, p. 90).

Pode parecer algo sem muita importância, mas o fato é que situações como esta vivenciada por Castro são recorrentes entre mulheres muçulmanas revertidas e entre revertidas e de imigração nos ambientes das mesquitas.

Dando sequencia à minha pesquisa, entrevistei A. F.65 de vinte e dois anos,

jovem mulher muçulmana da mesquita do Pari em São Paulo. Uma imigrante de segunda geração de libaneses, estudante de pedagogia na UNICAPITAL. Numa certa altura da conversa, quando falamos das questões que envolvem o casamento de uma muçulmana e as considerações em torno deste assunto, A. F. de maneira quase abrupta disse: “Para mim é bastante estranho o fato de um imigrante

muçulmano casar-se com uma revertida quando nenhum deles fala a língua um do outro. Para mim, é puro interesse pessoal”.66

Esta questão, do casamento muçulmano, envolve várias outras nuances que perpassam pela religião e seu código de conduta, o Corão, principalmente quando se compara o tratamento dado aos gêneros masculino e feminino, portanto, será tratada com mais detalhes e informações em outro capítulo deste trabalho. Por hora, neste momento, fica a forte impressão de que, afora, as opiniões pessoais de A. F., evidencia-se um conflito originado, a priori, pelas questões do arabismo, desembocando em outras tais como cultura e etnicismo. Observa-se que a língua é o primeiro obstáculo que se apresenta na visão de A. F., remetendo, ainda que

65 Pesquisa de Campo

– A. F. São as iniciais da jovem muçulmana entrevistada. Pesquisa realizada por meio de entrevistas e participação observante na Mesquita do Pari – Liga da Juventude Islâmica Beneficente do Brasil - Rua Barão de Ladário – 922 – Brás – São Paulo, SP. Dia 17 de setembro de 2013, às 10H30.

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hipoteticamente, o relato de A. F. Para a dimensão das relações de revertidos com imigrantes árabes, sem a necessidade de distinguir os gêneros nestas relações, possivelmente, teremos a possibilidade de um conflito interétnico ampliado.

Neste ponto de nossas observações, é importante considerar a questão por outro ângulo, ou seja, um dificultador que surge, nesta discussão, de um possível Islã Brasileiro: as mídias em geral, veiculam a idéia ou o questionamento acerca de como poderia funcionar um islamismo que tivesse sua origem a partir do marco da pluralidade religiosa brasileira, onde a tolerância e o alto trânsito religioso dos brasileiros em geral, seriam motivos culturais socialmente reconhecidos? Há ainda,outro problema a ser resolvido, a questão da adjetivação, também veiculada pela mídia em geral, em que uma suposta rigidez do islamismo de imigração vem sustentando esta tendência representada por esta terminologia “tropical”, ou seja, um Islã tropical. Aqui está o centro do problema.

Quando este assunto é ventilado nos meios muçulmanos, ele gera desconforto e reações no mínimo curiosas. Para os muçulmanos, principalmente de imigração e descendentes, a adjetivação de um Islã tropicalizado, ou seja, mais brasileiro, a reação é negativa e transita por argumentações contrárias. Para eles, seria o mesmo que pensar em um Islã negro, um Islã árabe etc. Do ponto de vista dos nativos, portanto, o Islã não parece admitir adjetivações que se vinculam às culturas nacionais ou a identidade étnicas. (MONTENEGRO, 2000, p. 81).

Contudo, o problema ganha um complicador, ou seja, o arabismo acentuado e exalado por comunidades de imigrantes e descendentes, em alguns casos, de forma deliberada, de certa forma, é o combustível para um Islã com cores brasileiras. Uma vez que a rejeição por parte de nativos da adjetivação de um Islã tropical, um Islã com cores mais brasileiras, um Islã nacional ou mesmo um Islã com rosto brasileiro ou como queiram adjetivar, pode tornar-se uma grande incoerência por parte dos nativos, uma vez que estes continuam adjetivando o Islã de imigração, conferindo a este a arabização deliberadamente ou não.

Por outro lado, o Islã, segundo o próprio Islã, não pode ser reduzido a uma categoria cultural, ainda que admitíssemos que ele tenha sido submetido a esta categoria mundo afora, contudo, o Islã é antes de tudo uma categoria religiosa. Se

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ele é uma categoria religiosa como ele próprio se declara, ele pode sim ser um Islã brasileiro e não árabe.

O viés religioso deve ser aquele que norteia o principal ideal do Islã, caso contrário ele se desfaz pelo viés cultural. Tomando como análise comparativa: existe o protestantismo alemão, existem protestantes na Alemanha. Existe o protestantismo brasileiro, existem protestantes no Brasil. Logo, o protestantismo é um só, porém, ele é brasileiro e é alemão. A matriz e o fundamento que o sustenta é um só: é religiosa e é protestante e tem a bíblia como seu código de conduta e práxis maior. As variações que advêm daí é que serão vistas pela ótica cultural de cada país. Não poderia acontecer o mesmo com o Islã arabizado? Não poderia existir o Islã brasileiro fincado na mesma raiz do Islã universal na perspectiva da Ummah?

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