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Se por um lado, identificamos desde o início deste trabalho, a questão étnica, que tem levado às questões preconceituosas e consequentemente a arabização do Islã no Brasil, por parte dos imigrantes em geral, por outro lado, identificamos que entre os próprios revertidos brasileiros o preconceito entre grupos existe.

Em conversa com um casal de revertidos na mesquita do Pari em São Paulo, tive a excelente oportunidade de conversar de forma mais descontraída, sem nenhuma formalidade ou mesmo academicismo. Observei que a esposa ficou aguardando no salão que fica abaixo do primeiro andar da mesquita, local onde funciona a secretaria. Ela cumprimentou formalmente o Sheik e, com um pouco mais de liberdade, a secretária, que é uma brasileira revertida de nome islâmico adotado: Khadija.

O Sheik R. R. subiu para o andar superior, local das orações. R. K. , o acompanhou, era o momento de uma das cinco orações diárias. Khadija, momentos depois, me informou que se tratava da oração do meio dia, ou seja, Salát Addohr79,

oração que vai do meio dia até o por do sol, o que significa que qualquer muçulmano, mulher ou homem, pode adequar o horário para realizar estas e as demais orações diárias. O Sheik me convidou para acompanhar a oração. Subi com ambos, o Sheik e o revertido brasileiro R. K. Sua esposa, F. U. permaneceu próxima a uma estante de literatura islâmica, aguardando, provavelmente o tempo da oração.

Observei que havia muitos outros homens no local, alguns sentados, outros deitados e mesmo outros em posição genuflexa. Acima deles havia, em outro andar, que mais tarde conheci, por gentileza do Sheik, o local das orações diárias, destinado às mulheres. Fiquei ainda mais atento, quando percebi que algumas mulheres subiam e adentravam o local. Não pude ver mais nada, além da subida e entrada das mulheres no local de oração a elas destinado, contudo, fiquei com os ouvidos mais aguçados nas manifestações sonoras femininas durante as orações. Elas recitavam algumas frases entre um período e outro, o que para mim, eram os momentos de genuflexão.

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Salát Addohr: é a segunda das cinco orações diárias. Deve iniciar no limiar do meio do dia (12H00). Deve ser observadas as abluções. No caso da Salát Addohr, é necessário quatro genuflexões, cada uma destas genuflexões são seguidas de uma expressão de adoração a Allâh. Minha ênfase – Grifo meu.

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Fiquei em um canto, observei os homens, contudo minha atenção maior estava acima da minha cabeça, ou seja, o desempenho das mulheres no momento da Salát Addohr.

Passados o período de recitações e quatro genuflexões, os homens, não todos, começaram a deixar o que denomino de salão de oração da mesquita. As mulheres que estavam acima de nós por lá ficaram, pelo menos até onde pude constatar. O Sheik e R. K. vieram em minha direção e descemos para a secretaria. Foi neste momento, aproximadamente meio dia e trinta, que R. K. e sua esposa F. U. iniciaram uma conversa mais informal comigo.

Entre outros assuntos, que retomarei mais à frente, falaram do preconceito existente entre os grupos de revertidos e entre os imigrantes e revertidos em geral. Disseram eles “somos um casal classificado pelo censo do IBGE, de brancos. Somos revertidos, conhecemos, em parte, o movimento de jovens negros muçulmanos e suas ligações com o Hip e Hop. Acho até que é um movimento interessante, contudo, é um movimento majoritariamente de negros e afro- descendentes. Eles não dão bola para brancos, creio que mesmo que quiséssemos tomar parte, não seríamos bem recebidos, é minha opinião”. Após a fala de R. K., perguntei se F. U. , sua esposa, concordava com seu esposo, ela disse que sim.

Perguntei se tinham relações com algum casal de imigrantes. Disseram que esporadicamente sim. Contudo, deixaram claro que relações mais amplas e duradouras são quase impossíveis. Perguntei sobre a possibilidade de um Islã com rosto brasileiro e liderado por brasileiros. R. K. respondeu que na sua humilde opinião até é possível, mas vai ser um Islã fragmentado por grupos de brasileiros, em sua maioria, revertidos e, com o profundo problema étnico, cultural e ideológico para ser tratado. Sua esposa F. U. , intervindo na conversa, disse que o problema do preconceito é o maior entrave para um Islã mais brasileiro. Diz que vai levar um bom tempo, e, ainda assim se as partes interessadas iniciarem um enfrentamento dos problemas mais graves, dentre eles, o preconceito e a discriminação.

F. U. me pareceu muito bem informada sobre estas questões. Deixou transparecer que, em sua opinião, existem dois polos que, aparentemente, são

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antagônicos. Para ela negros e árabes polarizam, antagonicamente, as questões de preconceito, que na verdade transita sobre as questões étnicas.

Tomassi em seu trabalho de campo identificou este preconceito entre revertidas brasileiras que, vão de uma simples refeição até as questões étnicas, sociais e ideológicas. Para Tomassi, existe uma liminaridade, cujos agentes se encontram, ou seja, R. A. e R. B., são duas mulheres muçulmanas que participam do evento que envolve islamismo e Hip Hop. Elas são parte de uma espécie de intersecção entre Islã e periferia. Embora não participem do movimento Hip Hop, contudo, transitam e possuem uma determinada relação com estes. Numa determinada ocasião, R. A. fez parte ativa de um evento, tomando parte na organização do mesmo. R. B., outra jovem mulher revertida, estava acompanhando a amiga nesta ocasião. Ambas reparavam nas jovens descendentes de imigrantes muçulmanos, que, nesta ocasião usavam roupas decotadas e justas e jogavam baralho na mesa ao lado. Para R. A., essas garotas muçulmanas de imigração ostentavam uma postura superior em relação às revertidas. Se achavam mais muçulmanas que as revertidas. Contudo, religiosamente falando, estavam mais descaracterizadas que as brasileiras revertidas, uma vez que não estavam vestidas com o hijab e, pior, estavam com vestimentas que, normalmente seriam usadas por brasileiras nativas e não por muçulmanas descendentes de imigrantes. O fato de ser brasileira revertida e ser da periferia eram fatores de discriminação e preconceito por parte das muçulmanas de imigração, na visão de R. A. (TOMASSI, 2011, p. 93).

As questões de discriminação e preconceito existem em, praticamente, todos os segmentos sociais e religiosos. A questão é saber até que ponto esta discriminação e preconceito pode impedir a estruturação e institucionalização de um Islã mais brasileiro? O que fica evidenciado é uma manifesta incoerência por parte desses grupos. Se por um lado, os jovens muçulmanos negros do Hip Hop buscam a construção de uma identidade com base fundante e inspiradora na revolta Malê, cujos ideais foram igualdade e liberdade entre outros, parece-nos que, aparentemente, navegam contra a correnteza daquilo que é a sua bandeira, ou seja, a inclusão social, política, religiosa que tanto apregoam. Volvendo nosso olhar para outro grupo, os imigrantes e descendentes muçulmanos, evidencia-se a questão da

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arabização, tão reclamada e considerada como discriminação pelos revertidos brasileiros, sejam negros, brancos ou pardos, esta não é a questão.

Dessas realidades conflitivas, que envolvem questões culturais, questões sociais, questões ideológicas entre outras questões, ainda temos os conflitos entre os próprios revertidos brasileiros. Entre estes, os próprios jovens negros muçulmanos do Hip Hop e os brancos, pardos, amarelos, como queiram, revertidos e revertidas brasileiros que não se enquadram na categoria “negros”. Estes conflitos acabam por se constituírem em um critério que envolve além da questão cultural, a questão de identificação com o grupo.

Segundo Oliveira, este critério de identificação é questionável também pelo fato de que as características culturais são variáveis no tempo e no espaço. Elas vão se modificando diante de situações concretas. Elas não são um conjunto fora do tempo e imutável transmitidos da mesma forma de geração em geração na história do grupo. Por isso, não há como encontrar um conjunto total de traços culturais que permitam a distinção entre um grupo e outro, e a variação cultural de um grupo não permite, por si própria abranger, o traçado dos limites étnicos. Neste sentido, Oliveira pergunta: “Até onde esse critério dá conta da persistência da identificação étnica de pessoas e de grupos, quando praticamente não se observam ‘traços culturais manifestos diferenciais’?” (OLIVEIRA, 1976, p. 2). Portanto, mesmo que haja modificação nos traços culturais, um grupo pode continuar afirmando sua pertença a um determinado grupo étnico. Daí a incoerência das ideologias de grupos como negros e árabes e às vezes revertidos não se aceitarem como iguais ou mesmo resistirem a inclusão de outros.

Há, segundo Ferreira, uma tendência dos revertidos brasileiros em geral, sem ascendência árabe, de negar o árabe e tudo o que procede dessa cultura. (FERREIRA, 2009, p. 17). Fica mais uma vez evidenciado que nestes dilemas identitários há, sempre, por parte de um grupo ou de outro, a tentativa de uma descaracterização cultural do outro, como se isso fosse a solução para estes conflitos ou como denominou Oliveira, fricções interétnicas. (OLIVEIRA, 1976, p. 86). Fiquei grato e surpreso ao mesmo tempo ao perceber que F. U. , revertida brasileira há pelo menos oito anos, usava um hijab de cores discretas. Demonstrou

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estar atenta e conhecer de modo geral as manifestações e movimentos sociais e religiosos que envolvem os muçulmanos no Brasil. O que para mim significou que ser mulher e ser muçulmana não significa estar alienada do mundo que as cerca. Pude perceber, numa certa medida, não conclusiva, sua liberdade para decidir, uma vez que ela não subiu para o local destinado às orações femininas. Ficou esperando seu marido, que subiu para orar, voltar para onde estava ela. Suas indumentárias exalavam, em parte a cultura árabe, seu discurso não reivindicava exclusividade para este ou para aquele grupo. Sua visão deixou antever uma religiosidade sem preconceitos.

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4. A RELIGIOSIDADE DA MULHER MUÇULMANA NA CIDADE DE SÃO PAULO.