M´ ethodes directes pour la r´ esolution des syst` emes lin´ eaires
3.4 Autres types de factorisation
A aposta na educação, por via do aumento da escolaridade e da literacia, é o factor que, somado à abolição da censura, os entrevistados consideram mais relevante para a criação de novos leitores e o fomento de hábitos de leitura.
Fernando Guedes foi peremptório ao afirmar:
Pois eu vejo, acho, que o que aconteceu verdadeiramente para o alargamento do mercado do público leitor foi a educação. Foi a subida, e rápida, da obrigatoriedade escolar. Primeiro foi até ao sexto ano e depois subiu para o nono, ou coisa assim, e agora já está no décimo segundo se não estou em erro. E isso é evidente que é muito importante.
[Entrevista a Fernando Guedes, editor, 16-11-2015]
Joaquim Soares da Costa faz uma apreciação mais geral e mais alargada no tempo, mas não menos incisiva:
Portugal nesse aspecto é, eu tenho um parêntesis neste discurso, mas eu tenho a impressão de que Portugal tem uma genuína necessidade de saber. Não tenho a certeza porque as pessoas sentem que isso é uma necessidade, mas entre essa consciência e a efectivação da necessidade, vai um passo que muita gente não transpõe. É estudar, é o investimento no enriquecimento pessoal, é retirar horas ao lazer neste caso talvez à televisão, é deixar de fazer isto ou aquilo para dizer: pronto, estamos a viver uma situação, ou uma circunstância, de sacrifício, vamos dar uma ajuda também nisto. É uma caracterização geral, é uma contribuição de sociólogo para a qual não tenho apetrechos, não tenho a ferramenta.
[Entrevista a Joaquim Soares da Costa, livreiro e editor, 9-12-2015]
Carlos Araújo refere que as campanhas de alfabetização foram importantes e enfatiza a progressão que se verificou, valorizando em especial o sector dos livros para crianças:
Contribuíram [as campanhas de alfabetização para criação de novos leitores], contribuíram alguma coisa, mas não são coisas que tivessem tido, na minha opinião, brevíssimo efeito. É uma progressão. Eu hoje posso falar-lhe de um fenómeno que acho extremamente positivo, que é dos poucos na minha opinião, fenómenos positivos de receptividade às edições de qualidade, é precisamente no sector do livro para crianças.
Guilherme Valente destaca o impacto positivo da reforma Veiga Simão, embora se mostre céptico com a evolução decorrente da posterior introdução de teorias do ensino que prevaleceram a partir de finais da década de 70 do século XX:
Sim [com a reforma Veiga Simão] houve uma abertura da escola a mais gente, claro. [...]. Depois a seguir a isso, depois esse movimento de interesse pela escola, de abertura a toda a gente, a classes que habitualmente não iam à escola. Pronto, depois a partir daí então começou – agora é a minha tese, tenho um livro sobre isso95 – como
comecei a escrever a partir de certa altura comecei a acompanhar isso, mas eu acho que houve uma decadência da escola e uma degradação. Não é comparando com o antigamente, o antigamente a gente não queria, não houve, não se conseguiu a escola que Portugal precisava [...]. A mudança da educação, do ensino, foi destruída pela degradação do ensino e pelo abandono da escola que chegou a ser 60% da população. [...]
Essa [reforma Veiga Simão] foi óptima introduziu novas Universidades, tudo isso foi muito importante. Depois vieram outras vias, começou a ser dominado pelas teorias que no final dos anos 70 começaram a dominar a Europa, vindas da América. Mas no caso dos Estados Unidos vinham de sítios, os Estados Unidos são enormes, portanto vinham de alguns sítios restritos, portanto nunca afectou o sistema americano. Na França afectou mais porque é um ensino napoleónico como o nosso, está centralizado [...]. Quando eu estive no Conselho Nacional de Educação (2002-2004), 30% das crianças, confirmado por um inspector do ministério, terminavam o básico, a nossa quarta classe, sem saber ler. Está a ver o que é isso? Aquilo eram 30% das crianças que frequentaram a escola, a terminaram... nunca mais aprenderam a ler.
[Entrevista a Guilherme Valente, editor, 12-3-2016]
Nelson de Matos valoriza muito positivamente a massificação do ensino e acrescenta a importância que atribui ao desenvolvimento da edição escolar:
Claro [a massificação do ensino constituiu uma abertura de mercado do livro], tudo teve importância. Até, deixe-me dizer-lhe, do aparecimento de editores especificamente escolares. Porque no passado existia o monopólio durante esse período houve outros editores, havia outros editores, a Texto, a Didáctica... [...] Isto para dizer que o escolar, a área de edição escolar e do livro de apoio ao ensino fez circular muito a edição e, a partir de certa altura, no ensino de português foram integrados autores portugueses e a literatura portuguesa. O que também desenvolveu, chamou a atenção para muitos autores, ao ponto de nesse período alguns autores que tinham indicação de leitura nas escolas passaram a ter edições maiores.
[Entrevista a Nelson de Matos, editor, 9-11-2015]
Maria da Piedade Ferreira discorre sobre o efeito da maior escolarização nos hábitos de leitura:
95 Para aprofundamento ver Valente (2012).
Depois [da abolição da censura] o facto de haver mais escolarização trouxe mais pessoas para a leitura, obviamente. Se calhar não para lerem as coisas que eu publicava, mas começou a haver mais abertura para as pessoas lerem, mais capacidade, mais poder de compra. As tais livrarias começaram a aparecer, ainda não nos hipermercados, mas nos centros comerciais a que as pessoas tinham acesso. Isso teve importância.
[Entrevista a Maria da Piedade Ferreira, editora, 11-11-2015]
Zeferino Coelho evidencia também o efeito positivo do aumento da escolarização:
Não era possível manter aquele regime naquelas condições. Aquilo rebentava dentro do próprio regime. Começava no Veiga Simão; ou se vem embora ou faz escolas. Mas fazer escolas aqui não era bem a política oficial do regime. Mas aqui começa e explode no 25 de Abril. [...]
Por outro [lado], houve um salto gigantesco no que se refere à escolaridade obrigatória. O número de estudantes não subirá assim, mas o número de pessoas que frequentavam o liceu, ou seja, quando eu digo o liceu digo um pouco acima da quarta classe, aquilo generaliza-se, embora não se possa esquecer o esforço já feito pelo Veiga Simão. [...]
As campanhas de alfabetização também contribuem para isso [incremento do público leitor]. Mas aquilo [o aumento da escolaridade obrigatória], que não de imediato com certeza, mas a prazo veio a ter uma influência decisiva no alargamento do mercado do livro; e o mercado do livro hoje, com [apesar de] todos os problemas, não tem nada a ver com o que era nos anos 60.
[Entrevista a Zeferino Coelho, editor, 4-11-2015]
Em matéria de educação esbatem-se, pois, as diferenças de perspectiva política e profissional. Embora os ângulos de análise variem, como também as diferenças no grau de valorização e na maior ou menor incidência nas causas, nas metodologias e nos efeitos, constata-se uma assinalável aproximação no assumir a relevância da educação como factor primeiro para abertura à divulgação do livro e ao fomento dos hábitos de leitura.