M´ ethodes directes pour la r´ esolution des syst` emes lin´ eaires
3.5 Changement de pivot
Dispersa por múltiplas actividades e pouco consolidada nos princípios orientadores, a política de apoio e promoção do desenvolvimento cultural evoluiu de forma bem mais lenta, menos sustentada e também mais politizada do que o desejável face ao atraso em que o país se encontrava quando o Estado Novo sucumbiu. As políticas públicas específicas para a divulgação do livro e o fomento dos hábitos de leitura ao longo dos primeiros anos pós-25 de Abril não fugiram à regra, vacilando, ao sabor da corrente e sobretudo à boleia do fim da censura, do investimento na educação e das iniciativas tomadas pelos profissionais do livro. A criação em 1980 do Instituto Português do Livro (IPL), veio ao encontro da pretensão há muito manifestada pelos profissionais do livro, com especial ênfase após o 25 de Abril de 1974, no sentido de a gestão da política cultural do livro ser institucionalmente autonomizada.
Fernando Guedes atribuiu especial significado à criação do IPL:
Depois abrimos... algumas instituições foram criadas na altura... para mim o Instituto Português do Livro, que aliás foi muito criticado na altura, ou nas alturas sucessivas, por muita gente, eu acho que a acção do Instituto Português do Livro, de uma maneira editores profissionais áreas de concorrência ou de controlo, mas reconhece que, a debilidade das estruturas onde se movimenta o mercado editorial e livreiro em Portugal são de molde a que recaiam sobre o livro de cultura as consequências negativas dessa opção pela economia de mercado. Daí justificar-se a criação deste organismo que cuidará muito especialmente dessa preocupação” (Baptista, 1981:5-6).
99 Este relatório foi coordenado por Maria José Moura e teve a colaboração de Pedro Vieira de Almeida, Joaquim Macedo Portilheiro e Maria Teresa Calçada (cf. Neves, 2011: 98)
geral, e dependendo sempre da qualidade do presidente que lá estava na altura, foi das instituições mais importantes. [...]
Porque quando se diz muito mal do Instituto [Português do Livro] é porque ainda se vivia..., mas é que as pessoas ainda estavam muito a pensar no Instituto como subsídios, para dar subsídios, para dar apenas. Não era. O Instituto era mais do que isso. E realmente a dar subsídios ele não podia dar muito mais do que tinha nos seus orçamentos. Portanto a acção do Instituto, nomeadamente com o Alçada [Baptista] e depois com o [José Afonso] Furtado, eu creio que nesses primeiros anos foi muito importante.
[Entrevista a Fernando Guedes, editor, 16-11-2015]
Francisco Espadinha concorda que em geral houve um efeito global positivo no apoio à edição e particulariza o caso da comunicação social:
Houve, houve alguns [outros efeitos para além do ensino] também muito positivos no que respeita ao livro. Só temos pena é que depois caíram. Houve, enfim, o livro foi muito promovido naqueles anos seguintes, até aos anos 80. Na comunicação social, por exemplo, quer nas páginas culturais que já vinham de trás, quer nos programas sobre livros e nas entrevistas que faziam quer a leitores com um determinado estatuto, quer a autores, escritores, sobre o livro. Havia mesmo programas sobre o livro. Davam uma imagem muito visível, começaram a dar grande visibilidade... numa linha crescente de chamar a atenção para o livro.
[Entrevista a Francisco Espadinha, editor, 22-10-2015]
Joaquim Soares da Costa enfatiza igualmente a criação e o papel positivo desempenhado pelo Instituto Português do Livro:
Agora distingo aqui o papel do Instituo Português do Livro e da Leitura, porque o Alçada Baptista, uma pessoa com quem me dei bastante e bastante de perto, ele..., que diabo, o Instituto, o Instituto Português do Livro e da Leitura, ele chegou a subsidiar algumas obras. Isso evidentemente, na época, falar de 70 contos, ou 90 contos, ou sei lá 50 contos, em condições relativamente acessíveis, não era para todos, era para aqueles que reuniam condições para esse efeito. Eu digo-lhe: isto tem importância, isto teve importância. Não é a política de subsídio que eu defendo, é a possibilidade de publicar obras que de outro modo não chegarão ao destino, não se concretizam.
[Entrevista a Joaquim Soares da Costa, livreiro e editor, 9-12-2015]
Guilherme Valente manifesta uma opinião crítica relativamente ao Instituto Português do Livro, por ter uma posição de princípio contrária ao apoio do estado à edição por via da atribuição de subsídios:
Considero que [a criação do Instituo Português do Livro] foi bom e agradável para alguns editores. Portanto nunca teve interesse nenhum em termos globais e teve sempre critérios, enfim... eu acho que o Estado não tem de intervir aí, sabe? O Estado
tem de intervir no apoio ao livro dum modo que apoie tudo o que é apoio estruturante, está a ver? Não tem que apoiar a edição A, a edição B: porque nós sabemos como é que isso acaba em Portugal. Por mais sérias que as pessoas sejam, é indiscutível que há gente formidavelmente séria, mas em Portugal é muito... ou é porque como sou muito séria dou a este mas também tenho de dar ao outro, percebe? Eu acho que não, a Gradiva nunca pediu um apoio [...]. Apoia-se o livro como? O Estado cria estruturas para que o editor português possa pôr o livro no Brasil, por exemplo, qualquer editor, está a ver? Agora o Estado não pode estar a dizer: eu apoio este livro não apoio outro. O livro ou tem público ou não tem público. Se o Estado apoia um livro..., mas é porque não tem público, é importante; então, mas é importante porquê? Ninguém o lê. Sou contra a criação do Instituto, mas acentuando o respeito e consideração pelas pessoas boas que dirigiram aquele Instituto com as melhores intenções. A minha visão é de fundo. Não é esta a maneira que o Estado tem que apoiar o livro. E tem de ir à escola, tem de pôr os miúdos a ler que esse é o capital da escola. Tem que arranjar apoios à exportação do livro, agora apoiar livros esse não é o papel do Estado.
[Entrevista a Guilherme Valente, editor, 12-3-2016]
Nelson de Matos releva a criação de organismos institucionalmente vocacionados para o desenvolvimento da cultura, em paralelo com a aposta no ensino e no aumento de escolaridade, com a ressalva de algum efeito redutor na publicação de obras literárias:
Foi importante porque muita coisa que não havia antes, nasceu. De facto, não havia Secretaria de Estado da Cultura, não havia Direcção Geral da Acção Cultural, não havia o empenho no ensino e no aumento da escolaridade que se verificou. Portanto tudo isso puxou pelo livro. Foi decisivo embora a imagem que eu tenho também tenha coisas negativas. E uma das mais negativas é que acabou [foi preterida] a literatura. Os livros, os romances, a poesia, o teatro, este tipo de... [...]
O Estado dantes era nosso inimigo, e os governos eram nossos inimigos, impunham a censura, e eles próprios se abriram de uma maneira diferente nesse período, após o 25 de Abril. Progressivamente foram dando uma atenção mais alargada à área da cultura e à área do livro, de modo que o livro passou a ter um organismo próprio, o Instituto do Livro.
[Entrevista a Nelson de Matos, editor, 9-11-2015]
Maria da Piedade Ferreira evidencia a postura apática e estruturalmente instável do então maior grupo editorial e livreiro português, perante as significativas alterações que ocorriam no país político e no mundo do livro em Portugal:
Eu pessoalmente não senti [efeitos específicos das políticas públicas para a educação, o livro e a leitura], a não ser que apareciam e que eram boas. Mas no meu dia-a-dia, na minha esfera de intervenção, não tinha grande.... Era [a dimensão]; da Bertrand e das dificuldades que nós estávamos a atravessar, das circunstâncias em que estávamos a mudar consecutivamente de administrações, de sítio, depois fecharam as instalações da Venda Nova e fomos para o Chiado. [...]
Não [a curto prazo a Bertrand não beneficiou], estava numa ressaca absoluta e numa questão de sobreviver àquela voragem em que a gente estava a viver. Era um dia-a-dia
difícil, com muitas limitações de dinheiro, de tudo. Eu acho que o Sr. Bulhosa deixou de pôr dinheiro e pensou fechar, portanto quem lá estava aguentava o dia-a-dia o melhor que podia. Mas sem extravasar daquela angústia que era aquele tempo de trabalho ali.
[Entrevista a Maria da Piedade Ferreira, editora, 11-11-2015]
Zeferino Coelho destaca, de entre os vários apoios à edição e à promoção de hábitos de leitura, a criação do Instituto Português do Livro:
Depois houve apoios à edição [...]. É na altura [quando em 1980 foi criado o Instituto Português do Livro] do Alçada Baptista. Eu lembro-me de ir conversar com o Alçada Baptista... o que é que você acha, isto merecerá atenção? Ah sim, isso meta, preencha lá os papéis e mande para cá. Havia um apoio real.
[Entrevista a Zeferino Coelho, editor, 4-11-2015]
A larga maioria dos testemunhos releva a criação do Instituto Português do Livro (IPL) como primeira intervenção pública de efectivo apoio ao livro, e indirectamente à leitura, e valoriza positivamente as suas iniciativas, tanto as tomadas imediatamente após a constituição como as que foram desenvolvidas posteriormente.