M´ ethodes directes pour la r´ esolution des syst` emes lin´ eaires
3.1 Analyse de stabilit´ e des syst` emes lin´ eaires
Como anteriormente referido (vd, supra, 3.3), o alargamento de actividade decorrente da constituição de novas editoras, de novos modelos de negócio e da abertura de livrarias nos centros comerciais de primeira geração, trouxe significativas alterações qualitativas e quantitativas na edição e comércio do livro em Portugal. Considerou-se relevante no âmbito do presente estudo, obter a percepção dos entrevistados relativamente ao processo de evolução do sector do livro em Portugal no período 1970-1974, à luz das alterações ocorridas a nível internacional e das mudanças verificadas no mercado nacional. Seguem-se alguns testemunhos.
Fernando Guedes pronunciou-se sobre o aparecimento de livrarias em centros comerciais no geral e no seu relacionamento com a Verbo:
O aparecimento desses Drugstores, desses Centros Comerciais, foi bastante contestado na altura. E foi porque os editores da época, ou uma parte significativa dos editores, tinham muito a peito defender a livraria. A verdade é que a livraria praticamente já não existia. Eram muito poucas e ainda menos as que mereciam ser defendidas. Mas tudo... o aparecimento desses pontos de venda, digamos assim, vieram alterar muita coisa na comercialização, até ao nível dos descontos. Porque já na década de 70 começaram a praticar-se descontos [do editor ao livreiro] que eram impensáveis pouco tempo antes para a livraria tradicional. Disso... é já na [década] de 80..., portanto já não tem a ver connosco agora, que o Centro Comercial começa a assumir grandes proporções na economia do negócio editorial. Mas em 70 ainda, para o fim da década, quando as coisas começam a acalmar, já se notavam as modificações que estavam a surgir ou que iriam surgir em breve. [...]
Não, também contaram [as livrarias surgidas com os novos Centros Comerciais], só que nós [Verbo] tínhamos uma rede de distribuição muito grande e muito bem acompanhada, cara mas bem acompanhada, e... enfim, não quer dizer que Castil e Alvalade e tudo isso não tivessem uma acção positiva, mas não tanto como se poderia esperar. Até porque os ares andaram todos muito turvos, com a política muito à flor da pele, e a Verbo era sacrificada em termos de alguns chefes de livraria desse género, novos, que apareceram naquela altura e que bebiam muito as águas da esquerda.
[Entrevista a Fernando Guedes, editor, 16-11-2015]
Francisco Espadinha refere-se ao posicionamento da Presença perante o surgimento de novos editores e novos modelos de negócio:
Continuámos [na Presença] uma linha evolutiva que se pode dizer normal, mas de sempre e positiva. [...]
Novos editores... não precisámos de fazer grandes alterações na nossa linha porque era uma linha ascendente e que não foi posta em causa [...]
No que dizia respeito à nossa própria organização, estava a dar resposta; com a nossa distribuidora também estava a dar resposta [...]
Portanto [a adaptação aos tempos que começavam a mudar], não foi uma fase que tivesse criado na Presença a necessidade de uma mudança profunda no nosso percurso.
[Entrevista a Francisco Espadinha, editor, 22-10-2015]
Joaquim Soares da Costa opina sobre as alterações no domínio da edição e comércio do livro, sublinhando a importância dos programas editoriais e da distribuição:
Para lhe ser franco, eu nunca dei muito relevo. As mudanças iam surgindo, iam sendo integradas no quotidiano. Eu até diria que a sensação que tenho a esta distância, e não só..., mas penso que posso fazer disto até uma opinião. É que a perda de importância, ou de ímpeto, ou de presença muitas vezes até, de algumas editoras, deveu-se mais a
razões de pessoas, a motivos pessoais, do que propriamente a circunstâncias exteriores à sua vontade. [...]
Sim [as livrarias surgidas nos novos centro comerciais tiveram efeitos no alargamento no mercado], mas, mas... no meu caso não teve, quase de certeza. O que teve sempre [efeito] e isso evidentemente, [foi] a especificidade das escolhas editoriais [que] são sempre a pedra de toque naquilo que são as movimentações do mercado. Eu sempre me queixei do mesmo e infelizmente esta situação continua a ser uma situação de hoje, digo mesmo determinante hoje, ou cada vez mais determinante, que é a situação da distribuição. Ou seja, com a concentração que se acentuou muito vão lá uns anos, evidentemente as editoras com uma certa dimensão sabiam uma coisa, que lucrariam sempre em ter uma distribuição agregada à sua actividade editorial.
[Entrevista a Joaquim Soares da Costa, livreiro e editor, 9-12-2015]
Carlos Araújo reporta-se aos impactos provenientes de novos modelos de negócio e novas livrarias:
O Reader’s Digest foi a meu ver importante porque isto é mesmo assim, quando falamos de leitores falamos de uma diversidade extraordinária, de uma massa heterogénea de pessoas. A revista foi importante em termos de divulgação. De qualquer modo, o grupo Reader’s Digest atingia sobretudo um público bastante específico que era de uma cultura geral baixa ou média e não de cultura alta ou universitária, e leitores muito de curiosidades. Foram importantes. As livrarias Castil- Alvalade chegaram a ser o melhor balcão de livraria. Tudo isso veio alargar o livro.
[Entrevista a Carlos Araújo, editor, 6-11-2015]
Nelson de Matos enfatiza a dinâmica aportada por novos editores, modelos de negócio e livrarias:
Entre final dos anos 60 e início dos anos 70, foi uma coisa, como se sabe, importante socialmente. A sociedade abriu-se a muitas situações e entre elas a leitura e os livros começaram a ter um peso e uma circulação um bocadinho maior e houve pessoas, atrevidas, que abriram editoras novas quase sempre com o objectivo da divulgação cultural e de distribuir e fazer circular informação. [,,,]
Dois casos [de novos modelo de negócio]. A Reader’s Digest tem um menor significado em termos da divulgação cultural, mas uma situação que não se pode voltar as costas é o aparecimento do Círculo de Leitores.
Foi um acerto, as livrarias chamaram leitores, chamaram público. Esses [primeiros] centros comerciais movimentavam, através de outras lojas havia outros negócios, movimentavam pessoas e essas pessoas passaram a ter livros. Dizer que não acrescentaram [leitores] será rude. É verdade que acrescentaram porque naquela altura todos os pontos, mesmo os mais pequenos, tinham significado.
Claro que havia muita fidelização porque o livreiro era um personagem conhecido, respeitado, à volta dele tinha os seus leitores regulares. Esses, muitas pessoas viam no livreiro um consultor sobre as novidades editoriais. [...]
Exactamente [a Castil-Alvalade terá sido a que teve mais impacto]. Sim, porque tinha um livreiro [Miguel Bastos] também muito activo e conhecedor do negócio, sabia expor os livros, sabia falar com os leitores.
Maria da Piedade Ferreira considera que os novos modelos de negócio não tiveram impacto imediato na actividade da Bertrand:
Não senti [efeitos do surgimento de novos modelos de negócio] porque eu estava noutro «campeonato». Numa empresa que era a maior de todas e onde a concorrência se fazia sentir pouco. E onde as coisas nos iam parar, não era preciso andarmos à procura. Chegavam.
[Entrevista a Maria da Piedade Ferreira, editora, 11-11-2015]
Zeferino Coelho expressa a seguinte perspectiva global:
Não, nessa altura não se sentiu [o efeito das alterações a nível mundial na estrutura proprietária] porque aquilo... as empresas editoriais eram pequenas. Empresas em que normalmente, se é que não em todos os casos, o editor era o proprietário da empresa que editava. [...]
O caso do Reader’s Digest, o Reader’s Digest publicava as Selecções e depois publicava um ou outro livro... esse tipo de coisas. Mais importância teve o Círculo [de Leitores]. O Círculo com o tipo de actividade que desenvolve, o Círculo vende muitos livros.
[Entrevista a Zeferino Coelho, editor, 4-11-2015]
Independentemente da dimensão e do tipo de repercussão percepcionada pelos entrevistados, a existência de mudanças significativas é unanimemente reconhecida e avaliada como propiciadora de progresso na actividade editorial e livreira, incrementadora do mercado leitor e socialmente positiva.