M´ ethodes directes pour la r´ esolution des syst` emes lin´ eaires
3.3 M´ ethode d’´ elimination de Gauss et factorisation LU
Foi num cenário culturalmente amordaçado que o país entrou na fase derradeira do Estado Novo. No entanto, os efeitos de contexto faziam-se já sentir e os portugueses estavam ávidos de mudança. O livro, um livro, iria constituir-se como elemento relevante no “movimento dos capitães”, a causa próxima que levou ao derrube do regime de Salazar e Caetano: Portugal e o Futuro, da autoria do vice-chefe do Estado Maior das Forças Armadas, general António de Spínola, publicado em 23 de Março de 1974 pela Editora Arcádia com autorização do mais alto representante da estrutura militar, general Francisco da Costa Gomes. Foi o golpe de morte no regime ditatorial. A liberdade estava em marcha. A “Revolução dos Cravos” eclodiu em 25 de Abril.
A liberdade de expressão, amplamente saudada, constituindo-se a abolição da censura como um dos elementos fundamentais para a circulação de ideias e de informação, iria, porém. passar por um muito conturbado “processo revolucionário em curso”, o PREC, antes que a normalidade democrática começasse a dar os seus frutos quando a década de 70 já se encaminhava para o fim. A livre expressão do pensamento e a possibilidade de divulgação e acesso à informação e ao conhecimento, aportaram transformações de vulto. À liberdade do exercício político e libertação dos constrangimentos censórios, correspondeu a abertura da sociedade portuguesa, até aí fechada sobre si mesma. A mudança radical nos meios de comunicação social que, abolida a censura, passaram a constituir importante referência e fonte de orientação para os portugueses85, a modificação
nas relações sociais e de valores morais e estéticos com implicações no aprofundamento de temas antes considerados tabu – sexualidade, feminismo, igualdade de oportunidades, uniões de facto, aborto, planeamento familiar –, como também o aumento de hábitos de
consumo de bens materiais e o incremento de fruição cultural nos vários domínios das artes e das letras (Ferreira, 1993:166-173), contribuíram decisivamente para novas realidades que o progresso socioeconómico e a alteração de mentalidades potenciaram no imediato e para o futuro.
O livro e os seus agentes constituíram parte fundamental da evolução ocorrida em Portugal, pela predisposição e modelos de actuação já referenciados no período final do Estado Novo e pelas características próprias de uma actividade que se assume como fonte primeira do fomento e exercício cultural.
A transição no panorama da edição foi substancial e, conforme se detalha em capítulo próprio (vd. infra, 4.3), perpassou pelas múltiplas especificidades que o caracterizam: movimento associativo, criação e encerramento de editoras, métodos de gestão editorial, autores, temas e públicos. Uma transição que se anunciava e que a abolição da censura viabilizou e potenciou.
4.1.1. Testemunhos sobre a abolição da censura
A directa e imediata contraposição entre o contexto em que foi exercida a actividade de edição e comércio do livro no período final da ditadura, e o que ocorreu no período imediatamente pós-25 de Abril, constitui uma evidência notória que os entrevistados particularizaram, comentando-a em termos gerais ou exemplificando com casos específicos.
Francisco Espadinha argumenta sobre a ambivalência de impactos ocorridos neste período e explicita a abordagem da Presença:
A verdade infelizmente é que acontecem coisas boas e acontecem as coisas más em simultâneo... Porque por exemplo, ainda há pouco foi referido isso, nós apesar de tudo tínhamos um comércio do livro, para passar para a história, com um belíssimo resultado em Moçambique e Angola. Havia sempre um movimento e tínhamos aí... podíamos enfim... e isso desapareceu [...]
Eu fiz uma coisa curiosa [relativamente à abolição da censura] que foi a maneira como eu agi logo na entrada, digamos assim, em democracia, ou seja saímos da censura e entrámos em democracia; e, por exemplo, houve uns livros que estavam... enfim alguns deles que já tínhamos retido, já estavam quase se pode dizer na gaveta, e vieram cá para fora. [...]
Aqueles que achávamos que valiam a pena, até como livros... pelos temas, pela qualidade, pelo tratamento ensaístico... publicámos.
Guilherme Valente invoca a experiência vivida neste período e sintetiza o seu pensamento sobre as implicações da alteração política no panorama geral da edição:
Houve um movimento, houve uma mobilização muito grande para a acção política. Eu lembro-me que nós [D. Quixote] criámos nessa altura [Janeiro de 1976] O Mundo
Diplomático, fui eu que dei essa ideia à Snu [Abecassis] e criámos a primeira edição
portuguesa de O Mundo Diplomático [...]. Aliás o Carlos Araújo tirou muitos artigos para os cadernos do Le Monde Diplomatique. E quando deixou de haver censura é que eu tive ideia de fazer isso. Era uma revista de esquerda, mas de esquerda não purista, era terceiro-mundista; problemas muito próximos da nossa própria realidade política [...]. Os primeiros números tiveram sucesso, entretanto o Claude Julien [director da revista em França] disse-me que achava que a – peço desculpa, agora é uma vaidade, mas é percebível – que a edição portuguesa estava mais bonita do que a francesa. [...] Na prática o que eu acho é que houve livros de carácter político que se sobrepuseram a todo o tipo de livros, mesmo aos livros cujo fundo é consolidadamente política.
[Entrevista a Guilherme Valente, editor, 12-3-2016]
Maria da Piedade Ferreira enfatiza o impacto da ausência de censura na abertura de novas frentes na edição:
É evidente que... bem, não haver censura alterou logo tudo à partida. Uma quantidade de coisas que se puderam fazer, não é? A Bertrand também.
[Entrevista a Maria da Piedade Ferreira, editora, 11-11-2015]
Zeferino Coelho põe em evidência a influência da queda do antigo regime na melhoria do nível de vida e consequente aumento da capacidade para compra de livros:
Teve um impacto muito grande. Primeiro, com o 25 de Abril aquela coisa rebentou. De facto. Começou tudo a correr para a frente. Portanto houve uma substancial melhoria do nível de vida para camadas muito vastas. E isto na difusão do livro, isso tem muita importância porque quem não tem dinheiro não compra livros.
[Entrevista a Zeferino Coelho, editor, 4-11-2015]
O sentir retratado nestes testemunhos, embora atestando uma realidade particularmente intensa, representa a componente integrada e estável do universo editorial. Inúmeras outras editoras houve, com carácter eminentemente de acção política, que tiveram vida efémera, circunscrita ao período que imediatamente precedeu a queda do Estado Novo e lhe sucedeu.86