M´ ethodes directes pour la r´ esolution des syst` emes lin´ eaires
3.12 Syst` emes ind´ etermin´ es
O fim da censura, o combate ao analfabetismo, o incremento da escolaridade e as múltiplas iniciativas editoriais nascidas com o dealbar da democracia, alargaram a apetência dos leitores frequentes a temas novos ou antes proibidos, fomentaram o interesse pelo livro em muitos outros portugueses, e a todos proporcionaram o acesso livre, mas também mais fácil e melhor informado à leitura.
Eduarda Dionísio (1994) resume desta forma o período compreendido entre Agosto de 1974 e Setembro de 1975, que caracteriza de “Revolução Cultural”:
Os próprios números dizem que o consumo de produtos culturais aumentou em 1975. Mais sete milhões de livros do que em 1974 (os de ciências sociais e política quase duplicam); maiores tiragens médias; mais editores e mais publicações periódicas, se bem que a sua tiragem desça – fenómeno que se regista desde 1972. Durante o Verão de 1974 começa a procura dos textos dos movimentos de libertação africanos e, sistematicamente, os clássicos do marxismo (sobretudo Lenine), numa grande rotação de novidades. Depois do 11 de Março, o panorama das vendas já não é o mesmo: apesar da política e o sindicalismo continuarem a ser os grandes êxitos editoriais, a literatura vai reaparecendo (reedições), os depoimentos pessoais e sobretudo os livros «eróticos» começam em ascensão. Em Setembro de 1975, o boom das novidades editoriais «de Abril» está a acabar (Dionísio, 1994: 457).
A partir de 1976, verifica-se uma reorientação temática significativa em resultado da abertura dos leitores a novos interesses, despertada pelo acesso à informação e ao conhecimento e correspondida pelo trabalho desenvolvido no domínio da edição e comércio do livro. Uma transformação significativa, para a qual contribuiu a maior quantidade, melhor preparação e alargamento de horizontes dos editores, como também o crescimento quantitativo e qualitativo dos autores portugueses e o incremento na facilidade de acesso a informação bibliográfica e a obras, literárias ou de outra natureza, produzidas por autores estrangeiros. Nesta linha de mudança, a diversidade e a pluralidade editorial vêm acrescentar valor à fruição do livro como bem cultural e à leitura como factor privilegiado de evolução intelectual e desenvolvimento social.
É assim que, numa primeira fase, a reedição de clássicos e contemporâneos da literatura portuguesa abre caminho, em paralelo com a publicação de literatura estrangeira e de autores africanos de língua portuguesa, antes proibida ou pouco procurada em Portugal, ao subsequente crescendo de livros de ensaio e a temas como biografia, história, divulgação, enigmas, vida prática e infanto-juvenil. No final da década de 1970 e princípios da de 1980 começaria a despontar em força a nova geração de autores portugueses, a surgirem obras sobre a guerra colonial e a ter sucesso a literatura ligeira. Neste contexto, o interesse pelos autores portugueses e pela historiografia nacional ganhou uma relevância que se iria manter em décadas subsequentes.
4.3.4.1. Testemunhos sobre quantidade, diversidade e pluralidade de temas
Que forma revestiu e como se concretizou o incremento de títulos publicados e das respectivas tiragens, e que aspectos relevaram na apetência por temas novos ou anteriormente proibidos pela censura, constituem alicerces importantes para sustentar os objectivos do presente estudo.
Francisco Espadinha é detalhado e objectivo na sua apreciação:
Eu tinha [de entrar em novas linhas editoriais] e estávamos a querer alargar o mercado [...]. Ora bem, e é claro que o que é que acontecia? Era que o mercado para um livro, digamos assim, para um produto mais básico, não existia. E então eu comecei a fazer, a aproveitar sempre que ia fora do país. Ou ia às feiras internacionais do livro, ia ver coisas; a diversidade do livro e essas coisas. E daí tiram-se algumas coisas, quer dizer, faltam-nos livros sobre isto, sobre aquilo, sobre aqueloutro. Livros de carácter prático. [...]
Antes do mais refiro-me à leitura. As pessoas começam a ler tudo quanto antes não liam. É a primeira razão. E a Presença teve muito sucesso com esses livros práticos. Mesmo muito sucesso. Por exemplo, o primeiro livro para avançar foi um ABC de
Xadrês que eu logo vi que havia condições na Presença para lançar o livro. Isso,
outros desportos, falamos de ténis, de futebol, depois animais, criação de cães, raças de cães, por aí fora. [...]
Anteriormente eramos muito respeitados por sermos protagonistas da cultura, da cultura tradicional, mas de uma forma muito restritiva. [...]
Fez [o livro prático] foi alargar o nosso raio de acção. E o que acontece, em princípio, hoje as editoras são praticamente isso. São uma combinação do lúdico, do entretenimento, daquele conhecimento prático e da cultura, enfim, com outras exigências maiores, mais reflectida, mais filosófica [...]. Ou seja, puxou-se mais pela cultura. Porque senão, tínhamos só esse público a olhar para a televisão e a não olhar para o livro. [...]
Eu penso que estamos a assistir, como eu já disse, a um crescimento grande na literatura portuguesa. E isto também é um bom empurrão para a carreira do livro, ou seja, para a maior visibilidade do livro.
[Entrevista a Francisco Espadinha, editor, 22-10-2015]
Guilherme Valente refere com entusiasmo o papel da edição após a entrada em democracia e menciona de forma crítica o refluxo nos hábitos de leitura que considera estar a acontecer nos tempos mais recentes, imputando responsabilidades ao sistema educativo:
As pessoas puderam publicar o que quiseram, puderam editar o que quiseram. Isso é uma coisa que não tem preço, isso foi fantástico. Repito, naqueles primeiros tempos acho que sim, depois eu acho que as tiragens começaram a refluir. Por causa disso, por causa de empenhamento na acção. Depois, a tendência na escola, começam a diminuir os livros, sobretudo certos livros de referência. Porque colecções como a Universidade
Moderna que o Carlos Araújo dirigiu na D. Quixote, e criou, hoje não tem
possibilidade de se vender. Não há leitores para esse tipo de livros. E no fundo a explicação para mim é sempre a escola, degradação da escola, da universidade. Nós no meu tempo da universidade... eu era de filosofia, mas eu lia história, lia economia, lia política, lia antropologia, lia tudo isso mesmo aquilo que não era capaz de discutir. Hoje eu acho que as pessoas não lêem nem da sua especialidade. Eu acho que mesmo os professores universitários lêem muito pouco. Desse ponto de vista está assim... [...] Dou-lhe outro exemplo, num inquérito que a Isabel Alçada e a Ana Maria Magalhães fizeram dos hábitos de leitura de jovens, em 1990, entre os cinco livros mais citados pelos alunos do secundário era o Cosmos de Carl Sagan. Há dois anos fui falar para duzentos professores, directores de escolas, só dois ou três é que conheciam o Carl Sagan. Isto são factos.
[Entrevista a Guilherme Valente, editor, 12-3-2016]
Nelson de Matos enfatiza a abertura do país ao exterior, após o 25 de Abril, como factor decisivo para o alargamento de horizontes na edição, com o consequente crescendo
de publicação e leitura de autores estrangeiros, e uma não menos importante modernização da indústria do livro:
Em relação aos [autores] estrangeiros [o incremento] foi porque os editores aqui [em Portugal] começaram a ter um acesso mais rápido e eficaz à informação sobre novidades que se publicavam no exterior. Dantes as revistas estrangeiras não circulavam no país, como se sabe. Depois passaram a circular. Essa informação sobre a edição noutros países também caiu na mesa dos editores e os fez tornarem-se atrevidos. Dantes não se ia à Feira de Frankfurt, por exemplo. Depois passou-se a ir, não havia editor que se prezasse que não fosse à feira de Frankfurt; no início não sabíamos muito bem o que é que íamos lá fazer, mas depois descobrimos, aprendemos. [...]
Quantos autores estrangeiros se publicavam em Portugal antes desse período? Escassíssimos. Os editores começaram a investir nos direitos, na compra de direitos, na tradução.... Isso fez circular uma nova actividade, mais a sério, que são os tradutores que, entretanto, entram nesse “jogo”. Toda a indústria do livro se multiplicou. Os gráficos, a seguir os artistas gráficos, os capistas, os revisores... tudo isso cresceu.
[Entrevista a Nelson de Matos, editor, 9-11-2015]
Zeferino Coelho assinala o surgimento, após a descolonização, de novos autores africanos de língua portuguesa publicados em Portugal com sucesso; e alerta para o facto de a pequena dimensão do nosso país condicionar a quantidade de títulos disponíveis, frisando a impossibilidade de comparação, em termos absolutos, com países de muito maior dimensão.
Também depois lá [nos países africanos de língua portuguesa], aparece uma nova geração. Porque aí o que havia era autores já conhecidos. Havia o Knopfli na poesia, havia na poesia também o Craveirinha, havia a Noémia de Sousa. Digamos, esses eram “os velhos”, não é? [...], mas depois lá também surge a tal gente nova. Depois da independência começa a surgir uma geração nova e esses depois é que começam a ser de facto conhecidos [em Portugal]. [...]
Também pesava nisto [publicação de autores africanos de língua portuguesa] as relações muito próximas que nós tínhamos e passámos a ter com estes países africanos. Digamos, estes autores não são bem estrangeiros, não são bem autores estrangeiros. [...]
E isso ajudou a consolidar, também no plano literário, esse tipo de relação muito sentimental, muito forte, que nós tínhamos com os povos africanos. [...]
Nós somos um pequeno país e portanto, aqui, o número de títulos que vamos publicar vai ser sempre muito reduzido comparando com o que é em Espanha, em França, em Inglaterra. As vendas globais vão ser... globais... vão também ser sem comparação com esses países.
Estes testemunhos apontam para a forte pro-actividade da edição em Portugal, abrindo caminho a novas temáticas, novas geografias e novas oportunidades provenientes do crescimento do público leitor, assim como a adaptação a novos interesses e novas exigências dos leitores.