2. À la recherche d’une structure d’accueil
2.4. La réception des demandes de stage ou de contrat d’apprentissage par les structures
2.4.5. Tirer profit d’une main-d’œuvre accessible
Como já foi dito anteriormente, o campo de pesquisa militarizado apresenta-se cercado por circunstâncias peculiares às quais os pesquisadores precisam ficar atentos. Nesse sentido, devo dizer que a realização deste trabalho foi facilitada devido à minha identidade de professor da escola - de Ciências e Biologia - cuja admissão se deu em julho de 1997.
Ao iniciar minhas atividades de professor no CMCG, deparei-me com um conjunto de novidades. A primeira delas foi a rotina de obediência aos rituais de acesso ao prédio escolar e aos departamentos e o fato de tomar conhecimento das patentes tão comuns nas classificações do pessoal no colégio, bem como as formas de tratamento que são reivindicadas pelos oficiais.
Outra novidade refere-se ao mecanismo das aulas que fez com que me assustasse no primeiro dia em que entrei numa sala de aula. Adentrei a sala de aula na companhia de um oficial professor e todos os alunos se levantaram sob o comando do
chefe da turma16 que se dirigiu ao oficial questionando se deveria apresentar a turma. Ele
respondeu que sim. Mediante o comando de “sentido” todos os alunos ficaram em pé. Eles
só se sentaram após o comando “descansar” emitido pelo chefe da turma. Esse é um dos rituais que até hoje acompanham o início das aulas.
Desde quando iniciei minhas atividades, participei de muitos eventos pouco
familiares à minha rotina de professor: a primeira, formatura geral17, as formaturas
matinais18, as inúmeras reuniões que ocorrem na escola. Um dado curioso é o fato de que
16 No CMCG cada sala de aula tem o que se denomina de chefe de turma que é o aluno responsável pela turma. Ele verifica e anota as faltas, avisa ao professor quando algum discente não está presente, assinala as ocorrências em sala de aula e tudo o que se refere à sua turma. Os aprendentes são nomeados chefe de turma por uma semana. Dependendo da avaliação de seu serviço pelos cadetes mais antigos e oficiais esse prazo pode ser prorrogado.
17 Mais à frente no trabalho, explicaremos o que significa esse evento. 18 Mais à frente no trabalho, explicaremos o que significa esse evento.
ocorrem reuniões com todo o corpo de profissionais para tratar de assuntos especificamente militares, como a importância das aulas de esgrimas.
De qualquer forma, dei início ao contato e a uma vivência profissional com um ambiente escolar militarizado e por isso com muitos desafios: me familiarizar com esse ambiente, sua rotina, com os rituais de início e término das aulas, de início e término de expediente e abertura e finalização de um encontro de docentes com o comandante (o diretor escolar) foram alguns deles.
Outro desafio foi o de me adaptar às visitas inopinadas e constantes que o Comandante da escola e o Chefe da Divisão de Ensino fazem à sala de aula e com as visitas, via consulta prévia, do coordenador de disciplina. Essas visitas inesperadas objetivam assistir a uma aula. Quanto às visitas opinadas elas são necessárias porque entre as atribuições do coordenador está a de preencher uma ficha avaliativa anual do desempenho do professor não-militar.
Quando das visitas, inopinadas ou não, os professores são orientados para prosseguir as atividades de aula com naturalidade sem dar ênfase à presença dos “convidados”. Até hoje me sinto incomodado com esse fato, principalmente, porque os alunos ficam tensos, apáticos e, eles e eu, perdemos, nessas ocasiões, a espontaneidade que é comum ao ambiente de sala de aula. Isto porque circunstâncias como essas despertam, em mim e nos alunos, ansiedade e, talvez muito mais em mim do que neles, o desejo de que essa situação seja o mais breve possível.
Além disso, oficiais e professores não-militares que atuam como coordenadores e supervisores de ensino frequentemente observam o interior das salas de aula por meio de “janelinhas” de vidro que existem nas portas para ver o aluno que pode estar sonolento e aqueles que julgam não estar mantendo um comportamento adequado à sala de aula. Visam também observar se a ação docente corresponde com o que está previsto na diretriz hierárquico-disciplinar. Professores e alunos, que os observadores julgam não estarem enquadrados na norma e na regra disciplinar, são posteriormente repreendidos.
O CMCG confere aos professores não-militares o mesmo tratamento dispensado aos oficiais superiores; o cargo de professor equivale ao posto de major, segundo o que prescrevem as normas internas, mas isso não significa uma convivência com os oficiais em todos os ambientes e situações. Por exemplo, os não-militares não podem almoçar no rancho, na escola, a não ser que sejam convidados pelo Diretor de
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Ensino; também não ocupam o mesmo lugar no dispositivo de formatura geral que ocorre às sextas-feiras e são orientados para não circular na Companhia de Comando e Serviço, já que esse departamento é exclusivamente militar.
Logo, há fronteiras delimitando espaços de convivência, o que gera certa dificuldade para que se obtenha um conhecimento maior das atividades e das pessoas vinculadas a cada setor do colégio; dificultam um maior entrosamento entre os profissionais das diferentes áreas ligadas ao ensino e deixam claro o caráter hibrido da organização.
Mas, o fato de ser comparado a um oficial superior afeta, de certa forma positivamente, o tratamento dado pelos alunos aos professores não-militares do CMCG e confere oportunidades para que se conheçam algumas peculiaridades do comportamento dos militares professores.
De qualquer forma, em algumas situações, percebi que a convivência no espaço escolar militarizado dos não-militares com militares causa mudanças na postura dos professores não-militares e na atitude dos oficiais. Os não-militares, muitas vezes, se veem como militares e os militares em certas circunstâncias comportam-se como não- militares.
Foram muitas situações vividas ao longo do tempo em que trabalho na organização e que me tornaram familiar a ela e que hoje são vistas pelo olhar de pesquisador. Foram as vivências como professor da escola e a minha adesão aos rituais e às rotinas desse mundo, até então alheio a mim, que desencadearam um desejo de estudar e conhecer melhor os movimentos mediantes os quais os profissionais ligados ao ensino constroem suas identidades profissionais. Comecei a conhecer esses mecanismos ao longo do mestrado e hoje percebo a possibilidade de aprofundar esse conhecimento elaborado mediante o doutoramento.
Nossa presença nesse espaço como pesquisador ocorreu seguindo, como já mencionado, uma abordagem diretiva, principalmente quando efetuamos nossas observações. Nesse sentido, a nossa presença na organização já era familiar, éramos participantes dela e, por isso, nos sentimos mais à vontade do que estranhos em nossa abordagem de recolha de dados para a pesquisa.
O fato de sermos familiares no estabelecimento constituiu-se numa estratégia de campo que pensamos seria facilitadora na tomada de conhecimento e vivência nos processos sociais e de trabalho correntes no colégio com vistas à compreensão dos movimentos identitários profissionais dos professores. Sentimo-nos membros da
organização e por isso assistimos ao que era observado, ouvimos, sentimos e na perspectiva de alguém que é parceiro dos sujeitos, influenciamos e revelamos em nossas observações, e in loco, o conteúdo das anotações que fazíamos já que foram realizadas na presença dos nossos atores.
Ao longo de nossas observações muitos militares com os quais nos deparamos nos indagaram sobre quem éramos, o que fazíamos, o que queríamos e como poderiam nos ajudar. Mas houve outros militares e profissionais não-militares que pareciam estar mais comedidos, principalmente o não-militar, que durante muito tempo apenas nos observaram de longe.
Contudo, fomos traídos pela nossa familiaridade com a escola e com os sujeitos a ponto de nossas observações causarem alguns constrangimentos ao pesquisador e aos sujeitos que participavam dos eventos, tanto que houve momentos em que, tomando parte das reuniões de chefes de seção, de coordenação e de seção de ensino fomos indagados:
O que você está vigiando aqui na seção, você só anota? Você também está escrevendo bilhetinhos? Já vem anotar a gente de novo? [...] Cel, o professor fica ali só anotando tudo o que a gente faz! (relato de observação nº 08)
O que você está fazendo aqui? Você vai anotar a gente? (relato de observação nº 13)
Você está dispensado, aqui é uma reunião só para professores de português! Já estou preocupada com o que você vai escrever (relato de observação nº 18) Situações dessa natureza são comuns na escola, isto é, ao participar das reuniões, os professores costumam tomar nota das informações, e nós, como membros da escola, não hesitamos em fazer anotações. Contudo os sujeitos participantes na pesquisa, mesmo tendo em mão agendas e cadernetas de anotações, demonstraram certo constrangimento com a nossa presença e principalmente ao nos verem fazendo anotações.
No momento em que eu vivi as situações, em que participei delas e em que exibi um comportamento de quem é familiar, fui tido como um estranho e como tal me senti. Trata-se de uma sensação que me colocou numa ambiguidade já que era um participante, mas não fui reconhecido como tal. Fiz uso de um comportamento e de um olhar de quem muitas vezes já sabe o que vai ocorrer, porque eu observei a situações com a antecipação de quem já as viveu e de quem já as conhece.
Logo, não hesitei em fazer, nessas situações, como fazem os outros nativos. Eles fazem anotações publicamente. Avalio o constrangimento dos meus sujeitos como
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tendo ocorrido não apenas em função da minha identidade de pesquisador, mas pelo que essa identidade poderia revelar.
Foi o olhar de quem não é realmente um nativo, dado pelos auxiliares de pesquisa, e pelo conhecimento do conteúdo impresso no referencial teórico que reunimos, que em muitas situações, especialmente no ato de fazer análise, nos fizeram ver muitas outras cores além do branco do jaleco dos não-militares e do verde da farda dos oficiais e, assim superar a ambiguidade e os conflitos que vimos apresentando para então entender qual seria a nossa ação no processo de análise dos conteúdos das mensagens obtidas mediante as técnicas de coleta que reivindicamos.