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TAXE D’ABATTAGE

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Uma perspectiva de desenvolvimento do turismo no território dominado pelo carst é a de se fomentar o turismo cultural com um viés para o Arqueoturismo ou turismo arqueológico.

O turismo cultural é um dos segmentos do turismo que, na pós-modernidade, adquire grande significado. Globalizada a economia, a cultura também se globaliza. Quem viaja carrega um pouco do “seu lugar” e leva também, um pouco do lugar visitado. O turismo compreende uma coleção de imagens reais e virtuais e é também uma simulação de se pertencer ao local visitado, que se expressa em imagens, fotos e filmes enviados a amigos e familiares, muitas vezes em tempo real. Dessa forma, consumimos espaços e culturas diferentes e diversificadas do mundo todo, o tempo todo.

O turismo arqueológico, um dos seguimentos do turismo cultural, possibilita revelar a identidade de um território bem como suas características e/ou “qualidades de uma cultura local, fixando imagens e mensagens em experiências, por meio da visitação aos seus sítios” (Ghetti 2008:1).

O conhecimento do patrimônio arqueológico tem importância significativa na valorização dos grupos sociais e na ampliação da cidadania. O conhecimento do passado dá sentido ao presente na medida em que os sujeitos desse conhecimento se reconhecem. Segundo Bezerra de Almeida (2003:281): “É no presente que são estabelecidas as relações entre indivíduo e patrimônio e que os interesses de grupos sociais distintos elegem o seu patrimônio e, também, que os órgãos públicos decidem o que é patrimônio”.

Uma das formas de difundir o conhecimento é expor tal conhecimento ao público através da exposição (liberação) dos sítios arqueológicos, para que os turistas possam

percorrer, observar e sentir os componentes preservados e as explicações sobre os aspectos culturais das populações que habitavam aquele lugar.

Para Veloso e Cavalcanti (2007), o turismo arqueológico apresenta-se hoje como um importante veículo de desenvolvimento socioeconômico em diversas localidades, além de ser um potencial campo de pesquisas para o conhecimento sobre as populações humanas do passado.

A comunidade local deve participar da construção social do patrimônio. Os atores sociais devem se apropriar desse patrimônio e resignificá-los, incorporando-o, por exemplo, ao circuito turístico “Grutas e Mar de Minas”.

A construção da identidade dos sujeitos, em um determinado ambiente natural e sociocultural, depende da aproximação destes com os objetos que compõem esse espaço. O conhecimento do patrimônio arqueológico tem importância significativa na valorização dos grupos sociais. O conhecimento do passado dá sentido ao presente na medida em que os sujeitos desse conhecimento se reconhecem. Nessa perspectiva, a arqueologia pública tem um papel crucial: fazer a aproximação entre o conhecimento produzido pelas pesquisas e reflexões acadêmicas com as comunidades locais, construindo identidade e cidadania cultural.

Nesse sentido, o turismo arqueológico apresenta-se hoje como um importante veículo de desenvolvimento socioeconômico em diversas localidades, além de ser um potencial campo de pesquisas para o conhecimento sobre as populações humanas do passado. A comunidade local deve participar da construção social do patrimônio. Os atores sociais

devem se apropriar desse patrimônio e (re) significá-los, incorporando-o, por exemplo, ao currículo escolar e ao Circuito Turístico Grutas e Mar de Minas.

Sabemos que parte da construção de identidades locais depende da ação e/ou condução de órgãos governamentais. Sendo assim, questionamos a participação destes no desenvolvimento da relação da comunidade com sítios arqueológicos. Os dados da pesquisa realizada na instituição Escola Pública corroboraram com a premissa da relevância da participação do Estado na construção da identidade local, pois grande parte do fomento do vínculo entre os moradores da cidade de Pains e os sítios arqueológicos é feito por órgãos públicos. Alguns destes são ligados às mineradoras que, por sua vez, são as grandes responsáveis pela a destruição dos sítios em questão. Dessa forma, cabe-se uma questão: Que tipo de identidade esta instituição está construindo?

Para os arqueólogos que pesquisam na província cárstica Arcos – Pains - Doresópolis a região é de grande importância para a arqueologia nacional, americana e mundial.

Preservar e conservar o patrimônio natural e cultural, diante do ataque da exploração capitalista pelas mineradoras, constitui, hoje, o grande desafio para os gestores e para sociedade local.

No Brasil, onde não há grandes monumentos como os do Egito, México ou Peru, a prática do turismo arqueológico é ainda incipiente. Para além dos sítios históricos do Brasil colonial e de museus, os sítios arqueológicos de maior visibilidade são os que possuem pinturas e gravuras rupestres como Peruaçu e Sumidouro no Estado de Minas Gerais, e São Raimundo Nonato, no Estado do Piauí.

Para Funari e Pinsk (2001:10), “[...] também em nosso país a arqueologia pode constituir um atrativo turístico, sobretudo se considerarmos as raízes indígenas de nossa cultura, nosso povo”. Este autor nos alerta de que mais de um terço da população brasileira possui alguma ascendência ameríndia e nossa língua, costumes, alimentos e muito mais estão impregnados de elementos indígenas.

No território brasileiro, são encontrados milhares de sítios arqueológicos denominados por Scatamacchia (2005) de sítios de “baixa visibilidade”. É certo que grande parte dos sítios deixados por nossos ancestrais ameríndios não apresentam monumentos, pirâmides, adornos, etc. que causem algum tipo de frisson. Talvez nosso encantamento pelo que deixaram nossos antepassados tenha sido “massacrado’ pelos nossos currículos escolares e nossas práticas sociais discriminatórias e excludentes em relação à população indígena e aos negros”. Se não admiramos os vestígios, a cultura material e imaterial de nossos antepassados é porque não aprendemos a fazê-lo.

Quando conhecemos nossas origens, nos reconhecemos e nos identificamos com ela, qualquer marca é significativa, nos emociona, seja um risco na paisagem, uma marca de fogueira ou um machado de pedra polida. O que queremos dizer é que não precisamos de monumentos para realizar o turismo arqueológico.

A experiência do Parque Nacional da Serra da Capivara representa a mais significativa prova de que o do turismo arqueológico no Brasil, respeitadas a legislação e modelos de planejamento sustentável, pode ser viável.

Localizado no Estado do Piauí, no nordeste brasileiro, o Parque Nacional (PARNA)4 da Serra da Capivara possui um dos mais impressionantes acervos do patrimônio arqueológico do Brasil. O parque abriga a Fundação Museu do Homem Americano, instituição que coordena as pesquisas e faz a gestão (compartilhada com o IBAMA5) do patrimônio arqueológico e do parque. Os pesquisadores já identificaram mais de 1000 sítios arqueológicos que possuem mais de 30 mil pinturas rupestres. A arqueologia local é pesquisada por Niède Guidon e sua equipe desde 1971. Segundo Prous (1992):

Nessa região, muito seca, centenas de abrigos decorados foram levantados, sendo vários deles escavados. Dois forneceram datações de idade pleistocênica. Na toca do sítio do Meio, as ocupações mais antigas ( entre 14 300 +- e 12 200 +- 600BP) seriam

caracterizadas por fogueiras entre blocos abatidos , perto das quais se concentravam instrumentos toscos sobre seixos ( chopping tools, bigornas, lascas), a maioria de siltito. Na toca do boqueirão do Sítio da Pedra Furada, várias unidades estratigráficas formadas, aparentemente, por lentes arenosas são datadas entre 17000 BP (camada XIII) e 27000 BP (camada XIX), tendo-se notícias de ocorrências ainda mais antigas (até 40 000BP). Os vestígios são lentes de carvão e cinzas, geralmente escorregadas das fogueiras originais e concentrações de seixos de quartzo e quartizito com marcas de utilização (batedores) e lascamentos (chopping tools); lascas são apresentadas como retocadas marginal e toscamente: facas, denticulados, raspadores côncavos. São particularmente frequentes “furadores de ponta obtusa sobre seixos, obtidos por 2, 3 ou 4 lascamentos convergentes.(Prous 1992:132-133)

Cerca de 170 sítios estão abertos à visitação, preparados com corrimão, escavação, escadas e passarelas (FIG. 5 e 6 ).

4 De acordo com o Guia de Parque Nacionais do Brasil, publicação do Ministério do Meio Ambiente, o parque localiza-se nos municípios de São Raimundo Nonato, Brejo do Piauí, , Coronel José Dias e João Costa, no sudeste do Piauí entre as coordenadas S 08°26¨ e 08° 46¨ e W 42°42¨e 42º45¨. o parque possui 129.140hectares e 214 Km de perímetro. www.meionorte.com Sábado, 03 de Março de 2012 as 19:58

Figura 5- Plataforma para os turistas no Parque Nacional da Serra da Capivara- PI/BR Fonte: www.comciencia.br/200406/noticias/3/ar

Figura 6 - Arte Rupestre - Parque Nacional da Serra da Capivara PI/ Brasil Fonte: www.fundham.org.br/pinturas.ast

Embora a divulgação dos aspectos positivos do turismo na região seja bastante animadora, estudos apontam também as desvantagens. A pesquisa de D’Lavor (2010) apontou o distanciamento dos moradores de São Raimundo Nonato – um dos municípios onde se encontra o PARNA – pois os mesmos conhecem/sabem da existência do parque, mas nunca o visitaram.

Acreditamos que um bom planejamento que inclua a etapa do monitoramento e análise de resultados pode minimizar os efeitos negativos do turismo. Temos que ser realistas: nem tudo é totalmente bom ou totalmente ruim e as críticas são sempre benvindas para que realmente haja participação e para que cidadania e a democracia se concretizem.

Tão importante quanto à arqueologia do Piauí para o Brasil, o Estado de Minas Gerais possui duas regiões extremamente significativas para a arqueologia brasileira: a região do Carste de Lagoa Santa, na porção central do estado, e a região do alto e médio São Francisco na região centro-oeste e norte do estado, onde se localiza o Parque Nacional Cavernas do Peruaçu.

O Parque Nacional Cavernas do Peruaçu (FIG. 7), localizado nas proximidades da cidade de Januária, Norte de Minas Gerais, a 645 quilômetros da capital do estado, Belo Horizonte, abriga mais de 140 cavernas, mais de 80 sítios arqueológicos e pinturas rupestres, além da tribo indígena dos Xacriabás. Embora tenha sido criado em 1999, com o objetivo de, entre outras coisas, proteger o patrimônio arqueológico, o parque ainda não recebeu os investimentos para as obras de infraestrutura necessárias para disponibilizá-lo para a visitação pública. O parque desenvolve o que poderíamos chamar de “turismo científico”, pois recebe apenas pesquisadores mediante autorização do

IBAMA.

Sobre o vale do Peruaçu, destacamos a análise arqueológica de Prous (2006):

No extremo norte de Minas Gerais, os abrigos do vale do rio Peruaçu preservaram magníficos pisos de ocupação. Ali não foram encontrados esqueletos humanos desse período – talvez os corpos fossem sepultados fora dos abrigos. Os instrumentos de pedra eram feitos de sílex, as lascas eram extraídas do bloco de matéria (chamado núcleo) segurando na mão e batendo nele tangencialmente, sem uso de bigorna. As lascas são bem maiores que as da região central de Minas Gerais, e os instrumentos mais típicos, chamados lesmas, são muito robustos e retocados numa das faces. No abrigo Lapa do Boquete encontram-se a oeste, espaços reservados às fogueiras alimentares, cheias de conchas de moluscos aquáticos e de coquinhos queimados. Outros espaços eram reservados ao trabalho do osso (fabricação de espátulas), à preparação desde pontas de flecha trabalhadas bifacialmente ou ao trabalho na madeira. Instrumentos descartados concentravam-se num buraco rodeado por blocos, e alguns blocos grandes, usados para quebrar sementes duras, apresentavam depressões características.

A ocupação se estendia do lado de fora do abrigo, onde se encontram os maiores instrumentos lascados. Num canto do abrigo, os homens pré-históricos tinham reunido uma grande quantidade de concreções bonitas (chamadas “pérolas de caverna”), e, num lugar de passagem, alguém deixou cair tinta vermelha de um recipiente cheio demais. À leste, encontram-se poucos vestígios minerais ou orgânicos. Talvez aquele fosse um espaço de repouso. No vale do Peruaçu os grafismos mais antigos e já bem datados – entre 9.000 e 7.000 anos atrás – são gravuras não-figurativas encontradas enterradas na lapa do boquete. A seguir multiplicam-se, nos paredões, pinturas geométricas lineares atribuídas à tradição São Francisco, entre as quais se reconhecem representações de objetos – em particular armas (dardos e propulsores) e talvez maracás. As pinturas geométricas tornam-se um pouco mais complexas, com alta frequência de figuras lembrando redes e, recentemente, verificou-se que se tratavam de estilizações de figuras humanas. (Prous 2006:26-27)

Figura 7- Arte Rupestre – Parque Nacional Cavernas do Peruaçu Minas Gerais - Brasil Fonte: www.wwf.org.br/natureza_brasileira/área

Na região do Carste de Lagoa Santa, onde o dinamarquês Peter Lund realizou importantes descobertas sobre a paleontologia e arqueologia brasileira, encontrou-se a maior coleção de esqueletos disponíveis para o estudo biológico das primeiras populações americanas (Prous 2006). Nessa região, foi encontrado o mais antigo esqueleto, conhecido como “Luzia” e ao conjunto de esqueletos, muito parecidos entre si, deu-se o nome de “raça’ de Lagoa Santa”. Nos abrigos, lapas e salões de entradas de grutas também são encontrados lascas de quartzo, raspadores, pontas de projétil, anzóis e contas de osso para colares. As pinturas rupestres (FIG. 8) são significativas em poucos sítios. Nessa região, o turismo espeleológico se sobrepõe ao arqueológico. A paleontologia e a beleza e exuberância das cavernas, que deu origem à formação de um circuito altamente especializado em Minas Gerais - o “Circuito das Cavernas”- de certa forma “ofusca” a arqueologia que, contudo, permeia todas as discussões tanto paleontológicas como espeleológicas.

Figura 8- Pintura rupestre no Parque Estadual do Sumidouro- Lagoa Santa/Minas Gerais Fonte: www.panoramio.com/photo

A questão da utilização do patrimônio arqueológico para o turismo não está atrelada somente à existência deste. Para Scatamacchia (2005: 30), os “sítios arqueológicos para serem passíveis de turistificação, devem abrigar um projeto de musealização, a fim de que os vestígios possam ser observados e as informações apreendidas por meio da elaboração de uma sinalização adequada”.

Na verdade, é preciso muito mais. É necessário um planejamento socializado/compartilhado com a comunidade local. É preciso dar um aproveitamento social para os sítios, mas a comunidade tem que entender o porquê daquilo que se está fazendo/mostrando. É preciso tratar a cultura como fator essencial da prática e da reflexão sobre o turismo. Talvez a melhor proposta para a utilização de sítios arqueológicos para o turismo seja aquela que vem acompanhada de um bom programa

de Educação Patrimonial.6 Segundo Coriolano e Silva (2005), é preciso criar um “sentimento de patrimônio” que é:

O ato de valorizar, resgatar e interpretar o patrimônio, sua natureza, sua cultura esua história, estimulando a comunidade a transformar a si, o ambiente e seu futuro. Este sentimento é mediado pela sensibilidade de identificar áreas esquecidas das grandes e pequenas cidades, vilas e povoados. (Coriolano e Silva 2005: 28)

Como nos lembram Funari e Pinsk (2001), o patrimônio cultural está em toda parte, não só para ser simplesmente consumido pelo turista, mas para servir-lhe de elemento de reflexão sobre sua vida e sobre nossa sociedade.

Nesse sentido, empresas e governo que se comprometem com a instalação de um projeto de turismo arqueológico devem procurar inserir as pessoas da comunidade local com a atividade turística (a chamada cadeia produtiva) no sentido de que as prepare para receber, atender e informar bem o turista. A atividade turística não pode ser descolada da realidade da vida da comunidade local.

2.4 GESTÃO DO TERRITÓRIO E DO PATRIMÔNIO

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