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9. Annexes

9.1. Tableaux pour le premier test

Enfim, a República Federal da Alemanha. O inverno de 1974 fenecia longamente e a Europa Ocidental68 esforçava-se por se mostrar liberta, atraente e protetora. Willy Brandt,69 um combatente do nazismo, era o Chanceler. Depois de sua renúncia, o seu partido ficaria ainda no governo até 1982, três anos após a anistia no Brasil. 70

A recepção generosa do governo, dos partidos de esquerda e de centro-esquerda e do povo às pessoas exiladas, bem como a ausência de qualquer manifestação contrária à nossa presença superava as expectativas. O país que se havia autodestruído e destruído a Europa era o lugar mais rico que eu jamais havia visto. Em poucos dias, estava organizado o nosso acesso a bens e serviços necessários a uma vida material digna e a cuidados para assegurar a nossa integração. Assim, havia tradutoras e tradutores para todas as necessidades. Para mim, os grandes estranhos eram a solidariedade alemã e a cooperação que parecia haver entre o governo e a sociedade civil naquela terra de tanta história de dores e massacres.

Enfim, os alemães, com sua objetividade, pontualidade, senso crítico, vontade de aprender sobre nós e entender o que tínhamos e queríamos, bem como com a sua estética de vestir-se e habitar as casas, me passavam a sensação de que eu estava em outro planeta. Estava tomada de grande perplexidade. Não acreditava no que via. Essa perplexidade, porém, era no sentido positivo. O grande ditador tornara-se um igual. Talvez melhor! Como se transformara em 29 anos? Quanto mais passava o tempo na companhia daquele povo, mais compreendia como a humanidade não se divide: ela é boa e ruim.

Na Alemanha, tanto o machismo dos companheiros ia ficando descarado, deixando que fosse palpável a opressão que queriam exercer sobre a liberdade que tínhamos de ir e vir, como as mulheres alemãs se mostravam publicamente tão livres, tão dispostas a descortinar novos horizontes para o nosso sexo, que as condições estavam dadas para o Feminismo se mostrar como um novo caminho político para a liberdade.

68 Segundo critérios histórico-socioculturais, a Europa Ocidental compreenderia os atuais territórios da

Alemanha, Andorra, Bélgica, Dinamarca, Espanha, Finlândia, França, Grécia, Islândia, Irlanda, Itália, Liechtenstein, Luxemburgo, Malta, Mônaco, Noruega, Holanda, Portugal, Reino Unido, São Marino, Suíça, Cidade do Vaticano e Andorra. Desses 23 países, aproximadamente dez receberam exilados latino-americanos depois do golpe do Chile: Alemanha, Bélgica, Dinamarca, Finlândia, França, Holanda, Noruega, Suíça, Suécia e Itália.

69 Willy Brandt é o codinome utilizado por Herbert Ernst Karl Frahm, inicialmente a partir de 1933, em razão de

segurança diante do nazismo e, posteriormente, como nome oficial, a partir de 1949. Willy Brandt era membro do Partido Social-Democrata (SPD) desde 1948, e foi eleito chanceler alemão em 1969, tornando-se o quarto chefe de governo da Alemanha Federal depois da 2.ª Guerra Mundial. Ganhou o Prêmio Nobel da Paz em 1971, por sua “política de mudança através da aproximação” com o Leste Europeu.

Não obstante as dificuldades com o idioma, as tradutoras que acompanhavam o grupo de exiladas eram feministas engajadas, e logo nos puseram a par da instigante campanha “Mein Bauch gehört mir!” 71 (Figura 1), cujo objetivo era a retirada do § 218 do Código Penal

Alemão, que criminalizava as mulheres que faziam aborto. O objeto daquela luta não me era estranho: conhecia brasileiras e latino-americanas que haviam interrompido a gravidez, inclusive submetendo-se a situações precárias em termos de integridade física e segurança. Em 1976, as alemãs ganharam a luta, abolindo a criminalização do aborto e conquistando garantias de assistência médica e social gratuitas para aquelas que praticavam a interrupção de uma gravidez indesejada.

Figura 1 – Foto ilustrativa do artigo de Alice Schwarzer

Fonte: Schwarzer (2016).

71 Alice Schwarzer, em seu artigo Abtreibung - noch immer ein Tabu!, publicado em 6 de junho de 2016, retoma

a discussão do aborto na Alemanha pelas forças conservadoras, dizendo o de sempre: “[...] Die griffige Parole ‘Mein Bauch gehört mir’ war eine provokante, doch relativ gesehen moderate Reaktion auf die Anschuldigung, abtreibende Frauen seien ‘Mörderinnen’.” Die Frauenbewegung war nie für Abtreibung – im Gegenteil: sie hat dank Aufklärung und Selbstbestimmung sehr viel dagegen getan. Die Frauenbewegung war immer nur für das Recht auf Abtreibung, also pro Frauen in Not. Es ging und geht uns bei der Abtreibungsdebatte ausschließlich darum, dass ungewollt schwangere Frauen nicht länger entmündigt werden und ihnen medizinische Hilfe gewährt wird. Schwanger warum auch immer: weil die Verhütung versagt hat, weil beide unachtsam waren oder weil die Frau zum Verkehr gezwungen wurde.” (SCHWARZER, 2016, n. p). Traduzindo: “O aderente slogan, ‘minha barriga me pertence’, foi uma resposta provocativa, porém, ainda, relativamente moderada, das mulheres que faziam aborto, à acusação de que seriam assassinas. O movimento de mulheres nunca foi a favor do aborto – pelo contrário: ele tem prestado um grande serviço contra, graças à sua posição de esclarecimento e autonomia. O movimento de mulheres tem sido sempre e, simplesmente, a favor do direito ao aborto, ou seja, a favor das mulheres em dificuldades. Para nós, em última instância, o debate sobre o aborto sempre girou e gira no sentido de que as mulheres portadoras de uma gravidez indesejada não sejam mais interditadas de pedir e receber assistência médica. Grávida por qualquer razão: porque a prevenção falhou, porque ambos foram descuidados, ou porque a mulher foi forçada a ter relações.”

A ideia de trabalhar com mulheres amadureceu e, finalmente em 1978, participei da criação do primeiro grupo feminista intitulado Mulheres Brasileiras na Alemanha, cujo formato se aproximava do Ciclo de Mulheres Brasileiras em Paris.

O lançamento desse coletivo foi realizado em uma livraria feminista em Colônia, no oeste da Alemanha. Para a ocasião, algumas brasileiras exiladas ou mulheres apenas ali radicadas prepararam um artigo sobre as mulheres no Brasil intitulado Die Frauen in

Brasilien: ein versuch der historischen interpretation,72 no qual se afirmava que em nosso país havia uma história tríplice envolvendo as mulheres: a história das indígenas, a das negras e a das brancas. Participaram mais efetivamente da elaboração desse texto: Neuza Solis, Lúcia de Castro, Claudia Toni e eu. Ali, naquele ano de 1978, eu firmava mais um compromisso e aprofundava a minha visão de mundo. A leitura da célebre entrevista feita por Alice Schwarzer (1985), figura proeminente do Feminismo alemão, com Simone de Beauvoir, na qual esta última, como já citado, faz uma autocrítica por não ter sido feminista há mais tempo e convida as mulheres a abraçarem a dupla militância: Feminismo e esquerda. Esse texto funcionou como um calmante para as minhas inquietações.

Durante os anos de 1978 e 1979, a comunidade brasileira se movimentava fortemente pela anistia. A feminista Ruth Escobar tinha livre trânsito para cruzar o Atlântico e, assim, visitou vários países para conversar com as pessoas exiladas, dentre os quais a Alemanha Federal. Sua simples presença propiciou um maior engajamento das mulheres na linha de frente de um processo de realização de eventos sobre o Brasil. Na Alemanha, especificamente, foi celebrada a Semana pela Anistia, com uma série de conferências e discussões políticas, nas quais foram palestrantes, dentre outros, o ex-governador de Pernambuco Miguel Arraes, o ex-governador pelo Rio Grande do Sul Leonel Brizola, o historiador Moniz Bandeira, o físico José Leite Lopes.

Marcando a presença feminista na programação, o grupo de Mulheres Brasileiras na Alemanha incluiu uma palestra sobre a mulher no Brasil, proferida por Nina Magalhães, pernambucana militante do Círculo das Mulheres Brasileiras em Paris. Em todos os eventos em prol da anistia, havia também uma parte cultural. Em Colônia, foi o cantor Raimundo Fagner quem fez um show, interpretando canções da música popular brasileira.

Ainda em 1978, foi realizado outro grande debate sobre o Brasil, o que reuniu na Suíça grupos de exilados residentes em diferentes países europeus, no qual as exiladas

72 O trabalho foi escrito em alemão e recebeu o título, em português: As mulheres no Brasil: uma tentativa de

interpretação histórica. Seu conteúdo está dividido em três partes: uma histórica, outra sobre a situação

econômica e a última sobre as tendências do Feminismo no Brasil. Ele não foi publicado por falta de interesse das próprias autoras. Guardo até hoje seu original.

organizaram, igualmente, uma discussão sobre as mulheres. A citada Lei da Anistia permitiu o retorno imediato ao Brasil da maioria de mulheres e homens exilados, dissolvendo-se assim as organizações criadas no exterior. É importante ressaltar, desde já, que alguns anos antes as mulheres no Brasil já se movimentavam no campo feminista e haviam criado organizações no Rio de Janeiro e em São Paulo desde 1975. No Recife, especificamente, fundou-se em 1978 o Grupo Ação Mulher,73 nos moldes dos coletivos feministas de reflexão, no qual iniciei minha

militância feminista no Brasil e sobre o qual dissertarei na seção 7 desta tese. A Figura 2 é uma reprodução de um cartaz feito pelo Grupo Ação Mulher em 1980.

Figura 2 – Reprodução de um pôster feito em 1980 pelo Grupo Ação Mulher

73 Com a dissolução do Grupo Ação Mulher, a maioria das feministas que nele militavam deslocou-se para criar

as ONGs feministas, sendo a primeira delas a Casa da Mulher do Nordeste. Fonte: Casa da Mulher do Nordeste, 2001.

Pôster do primeiro grupo feminista pernambucano da Segunda Onda para ilustrar o calendário comemorativo dos 20 anos de história da Casa da Mulher do Nordeste.