Tratando‐se de uma investigação sobre o impacto de projectos musicais em estabelecimentos prisionais, cujos dados para análise assentam, essencialmente, na interpretação de sensações, comportamentos e sentimentos dos diferentes agentes implicados nos vários projectos, optou‐se por um método de análise qualitativa.
O método principal de toda a presente investigação é baseado na Grounded Theory, não se descartando, no entanto, a hipótese de conjugação de vários métodos para a obtenção de um resultado de maior qualidade.
A Grounded Theory é um método interpretativo que apareceu com os sociólogos Glaser e Strauss, entre 1965 e 1967, ano em que os seus princípios foram publicados, no livro intitulado The Discovery of Grounded Theory.
Este método permite o desenvolvimento de teorias sustentadas em dados recolhidos e analisados de forma sistemática e em que a indução de novas teorias é feita a partir da análise do ponto de vista dos participantes envolvidos na investigação. Assim, na aplicação deste método, o investigador faz a aproximação ao assunto a ser investigado sem uma teoria preconcebida a ser testada, mas antes com a intenção de entender uma determinada situação, como e porquê os seus participantes agem de certa maneira e como e porquê determinado fenómeno se desenvolve desta ou de outra forma. A Teoria não é aquilo com que o investigador inicia o seu trabalho, mas antes como o encerra depois de uma pesquisa e da análise dos dados dela resultantes. Assim, “Grounded theory specifically attempts to investigate the real world, usually through interview data. It discovers the concepts grounded in the data and uses those concepts to build theory” (Allan, 1991, p.9)
Este método tem como princípios: a) o envolvimento simultâneo da recolha de dados e da sua análise; b) a construção de códigos analíticos a partir dos dados e não de hipóteses preconcebidas; c) a utilização constante do método comparativo em todas as fases da análise; d) o desenvolvimento das teorias durante cada etapa da recolha de dados e respectiva análise; e) a tomada de notas para a elaboração de categorias, especificação das suas propriedades, definição de relações entre categorias e identificação de lacunas; f) a construção da amostra à medida que se constrói a
81 teoria e não como representação da população; e g) a condução da revisão bibliográfica depois do desenvolvimento de uma análise independente dos dados. Resumindo, a investigação procura obter dados, descrever os acontecimentos observados, responder às questões fundamentais sobre o que está a acontecer e, finalmente, desenvolver categorias teóricas para explicar o fenómeno.
Para o estudo consignado no presente capítulo, a recolha de dados foi realizada através da elaboração e aplicação de entrevistas semi‐estruturadas – o meio mais apropriado para o efeito no preconizado pela metodologia já descrita – a vários agentes implicados quer na promoção quer na concepção de projectos musicais nos Estabelecimentos Prisionais em estudo.
A problemática desta parte da investigação podia sintetizar‐se na questão: de que forma é vista a implementação de projectos musicais nos estabelecimentos prisionais femininos pelos agentes responsáveis dos próprios estabelecimentos prisionais e pelos promotores desses projectos? Ou melhor: segundo estes agentes, porquê, para quê e como implementar projectos musicais neste tipo de instituições? E que tipo de projectos musicais?
Foram realizadas, entre Janeiro e Maio de 2011, onze entrevistas (a catorze pessoas), com duração média de 60 minutos cada. No Quadro 5 apresenta‐se um resumo dos agentes entrevistados em cada estabelecimento prisional, sendo que, para preservação do anonimato, se substituíram os nomes dos Estabelecimentos prisionais por siglas.
A definição destes dois grupos teve por base a separação entre agentes envolvidos de forma indirecta nos projectos musicais, como é o caso dos responsáveis pelos estabelecimentos prisionais, por exemplo, e agentes promotores e músicos que implementam os próprios projectos musicais. Quando se iniciou o trabalho, pareceu‐ nos que as questões que poderiam ser levantadas por estes dois tipos de entrevistados poderiam ser suficientemente diferentes para levar à distribuição dos mesmos pelos referidos grupos.
82 Quadro 5 – Agentes entrevistados em cada estabelecimento prisional EP Grupo A (responsáveis e agentes dentro dos EP’s) Grupo B (responsáveis/promotores/monitore s de projectos musicais nos EP’s) EPX ‐ Directora Adjunta ‐ Duas técnicas Educativas (entrevista conjunta) ‐ Uma guarda ‐ Dois promotores de projectos EPY ‐ Directora Adjunta ‐ Uma guarda ‐ Três promotoras de projectos (duas delas em entrevista conjunta) ‐ Um monitor EPZ ‐ Directora e técnica educativa (entrevista conjunta) Para as entrevistas foram elaborados os dois guiões (Anexos A e B), que tinham como preocupação central, para além de conhecer o que tem sido feito nos estabelecimentos prisionais femininos ao longo dos cinco anos em estudo, a recolha de dados sobre os seguintes aspectos:
a) No que diz respeito à perspectiva dos responsáveis dos estabelecimentos prisionais e respectivos técnicos (grupo A):
Principais intenções/objectivos/expectativas na promoção deste tipo de projectos;
Forma como se procede à implementação de projectos musicais (inclui: contactos com os responsáveis/promotores dos projectos, forma como são escolhidas as participantes nos vários projectos; as reacções das reclusas aquando das apresentação de cada projecto no que respeita à sua adesão);
Reacções de interacção das reclusas durante o decorrer dos projectos; Forma como são vistas as apresentações públicas dos projectos
83 e de público e opinião sobre a importância destes actos públicos de apresentação do trabalho realizado);
Avaliação dos projectos na perspectiva do estabelecimento prisional, dos seus responsáveis e das reclusas; Perspectivas para o futuro. b) No que diz respeito à perspectiva dos responsáveis técnico‐artísticos dos projectos (grupo B): Indutores/razões que os levam a conceber e propor projectos musicais em estabelecimentos prisionais;
Principais objectivos/expectativas para a concepção deste tipo de projectos;
Tipos de estruturas e materiais musicais utilizadas para os projectos; Formas de contacto/interacção com os responsáveis e com as participantes; Perspectiva perante as apresentações públicas dos trabalhos realizados; Avaliação dos projectos (inclui indicação das maiores dificuldades,
apreciação da qualidade artística resultante, análise da forma como foi aceite pelas reclusas participantes, opinião sobre duração);
Perspectivas para o futuro.
Os locais e datas para as diferentes entrevistas foram sempre determinados pelos entrevistados, a pedido da investigadora, que foi a executora de todas elas. Assim, todos os encontros foram concretizados nos respectivos locais de trabalho dos entrevistados, a maior parte das vezes nos próprios estabelecimentos prisionais. No decorrer das entrevistas foram, muitas vezes, utilizadas, pela entrevistadora, expressões e interjeições, no sentido de incentivar os entrevistados a desenvolver as suas ideias. Tentou‐se, em cada entrevista, explorar exaustivamente as diferentes questões, a fim de evitar inúmeras visitas aos entrevistados, nem sempre facilmente contactáveis.
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Tentou negociar‐se a gravação de todas as entrevistas, o que foi conseguido com excepção para as das guardas e para a entrevista realizada em Odemira. Nestes casos, todas as entrevistadas basearam a justificação da sua não‐autorização no facto de se sentirem desconfortáveis quando eram gravadas, o que levou a entrevistadora a tomar notas escritas ao longo da entrevista.
À medida que se iam transcrevendo as entrevistas que tinham sido gravadas, procedeu‐se à sua análise e comparação dos dados dos vários entrevistados sobre os mesmos temas ou do mesmo entrevistado em momentos diferentes da entrevista, o que contribuiu para o desenvolvimento do processo de amostragem teórica. Ao longo da análise das entrevistas segundo o método de comparação constante, optou‐se por uma codificação aberta, através da evidência de pontos‐chave, defendida por George Allan (2003) por ser menos morosa e menos ambígua do que a codificação através da micro‐análise (linha a linha), referida por Glaser e Strauss. Allan utiliza um tipo de análise que é realizada sobre o significado das frases completas das entrevistas e não no significado de pequenos segmentos das mesmas frases, permitindo que os conceitos sejam mais facilmente detectáveis.
Depois da identificação das categorias centrais passou‐se a codificar somente aspectos que pertenciam a essas categorias, de acordo com o procedimento apontado para a codificação selectiva.
Durante todo o processo foram produzidos memorandos com o registo das ideias da investigadora acerca dos dados, das categorias emergentes e das relações entre elas.
A saturação das categorias foi considerada a partir do momento em que não foram encontrados mais dados susceptíveis de as modificarem.
O processo de análise dos dados recolhidos nas entrevistas e respectiva codificação realizou‐se com a utilização da aplicação informática “QSR NVivo 8”.
A análise das entrevistas permitiu a sua organização nas seguintes categorias centrais: A. Tipos de projecto, Promotores e Participantes; B. Objectivos, Intenções e Expectativas; C. Estruturas, Estratégias e Materiais Musicais utilizados nos Projectos; D. Apresentações; E. Avaliação do impacto dos projectos nas reclusas.
85 Na primeira categoria, foram codificados todos os elementos que permitirão conhecer os projectos musicais que têm vindo a ser implementados nos estabelecimentos prisionais estudados no que diz respeito a aspectos extra‐musicais: duração dos projectos, destinatários, aspectos organizativos e administrativos (promotores, dinamizadores, caracterização dos participantes)
Através da análise dos resultados incluídos na categoria B. encontraremos as razões para a existência de projectos musicais nos estabelecimentos prisionais femininos em Portugal.
Na categoria C. foram codificados todos os conceitos relacionados com os próprios projectos musicais, a fim de se obter uma caracterização do que tem sido implementado nos vários estabelecimentos prisionais femininos portugueses.
As razões e pertinência da existência ou não de apresentações periódicas do trabalho que vai sendo realizado pelas reclusas durante os projectos musicais implementados são apresentadas sob a categoria D. Embora se pudesse ter incluído esta categoria noutras das existentes, nomeadamente na C. ou na E, nas respostas encontradas nas entrevistas realizadas verifica‐se que esta temática mereceu considerações que, por si só, se mostraram suficientemente importantes para serem tratadas em categoria separada.
Finalmente, na categoria D. encontramos respostas para a pertinência da continuidade deste tipo de projectos artísticos.
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