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  Trevarthen  e  Malloch  (2002)  desenvolveram  uma  teoria  que  apelidaram  de  communicative  musicality,  e  que  definem  como  um  princípio  organizativo  inato  de  todas as interacções entre pais e filhos. Traverthen e os seus colegas acreditam que o  ser  humano  nasce  já  com  capacidades  comunicativas  de  partilha  de  emoções,  sentimentos e afectos. “Intersubjectividade” significa, para este investigador, estar vivo  com  os  Outros,  fazendo  coisas  que  ambos  entendem,  juntos,  com  mútua  atenção  e  respeito.  Assim,  acredita‐se  que  os  bebés,  desde  que  nascem,  conseguem  comunicar  com as suas mães, através de gestos, atitudes e vocalizos, de forma diferente de acordo 

45  com  a  idade  desenvolvimental  da  criança,  numa  “conversa”  em  que  são  transmitidas  emoções  nos  dois  sentidos.  Com  base  na  teoria  do  IMP  (Intrinsic  Movement  Pulse)  demonstra‐se que o movimento tem um ritmo intrínseco, passível de ser observado desde  as primeiras horas de vida, em resposta a estímulos visuais ou sonoros. Para Trevarthen,  para  além  de  ritmo,  o  movimento  possui  também  características  expressivas.  Assim,  é  notada  a  existência  de  características  musicais  na  protoconversação,  comprovadas  por  análises  espectrográficas  de  gravações  que  permitem  perceber  a  estrutura  do  diálogo  estabelecido entre mães/pais e bebés. 

  Nas primeiras relações sociais, o denominado “child‐directed speech” toma um  lugar muito importante, pois faz parte das primeiras abordagens comunicativas entre  as crianças e os restantes seres humanos que as rodeiam. O referido termo é utilizado  para  definir  a  “forma”  de  falar  que  os  adultos  adoptam  quando  comunicam  com  bebés.  De  acordo  com  O’  Grady  (2005),  as  características  fonológicas  deste  tipo  de  discurso  são  a  entoação  exagerada  com  utilização  de  uma  alargada  gama  de  frequências, uma forma de falar mais pausada, intervalada por pausas mais ou menos  longas e envolvendo uma grande percentagem de comandos, perguntas e respostas. O  vocabulário  utilizado  é  relativamente  restrito  e  as  frases  são  normalmente  curtas  e  gramaticalmente simples. 

  Sobre  a  referida  entoação  exagerada,  os  estudos  de  Trehub,  Dowling  e  outros  demonstraram que o contorno melódico é, efectivamente, a característica musical mais  importante para os bebés, que conseguem detectar semelhanças e diferenças de altura  mesmo com base em apenas trinta segundos de retenção (Levitin, 2007, p. 234). 

  Goleman (2006, p. 60) refere que, 

mais uma canção do que propriamente uma frase, o “maês”4 inclui prosódia, 

melodias  de  um  discurso  que  transcendem  a  cultura  e  são  muito  semelhantes  quer  a  mãe  fale  mandarim,  hurdu  ou  inglês.  O  “maês”  soa  sempre doce e brincalhão, com tons [agudos] por volta dos 300 Hertz e sons  curtos, sincopados, de contornos deslizantes ou ondulantes. 

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  Trehub  (2003)  faz  referência,  ainda,  ao  facto  de  a  música  ter  um  papel  dominante  no  próprio  desenvolvimento  emocional,  cognitivo  e  social  da  criança  e  Trehub  e  Trainor,  citados  por  Peretz  (2001),  confirmam  esta  ideia,  afirmando  que  a  música  tem  um  importante  papel  na  regulação  das  emoções  e  na  comunicação  emocional entre a criança e os seus cuidadores. Talvez por  essa razão, desde tempos  remotos, se cante para as crianças desde o seu nascimento. 

  Nos  últimos  anos,  estudos  de  investigadores  como  Lorch  et  al.,  Cassidye,  Standley  e  Moore  vieram  comprovar  que  a  música  tem  um  efeito  muito  salutar  nos  recém‐nascidos no controle do seu grau de excitação (Shenfield et al, 2003). De acordo  com os estudos daqueles investigadores, a música estabiliza o batimento cardíaco e os  níveis de oxigénio e reduz a necessidade de sedação. Peretz (2001) afirma que a forma  como se varia o canto (mais forte ou mais piano, mais agudo ou mais grave, mais lento  ou mais rápido) estará ligada à percepção instintiva dos cuidadores de como a música  influencia o estado emocional da criança para quem se canta. 

  Os  diferentes  contextos  em  que  os  pais  utilizam  determinado  tipo  de  música  com as suas crianças, o sexo da criança e a educação dos pais influenciam também a  forma como os pais utilizam a sua voz quando cantam para os seus bebés (Ilari, 2005),  se  bem  que  se  poderão  apontar  três  características  quase  sempre  presentes:  a)  frequências mais agudas; b) andamento mais lento; e c) indicadores acústicos de maior  emotividade (Shenfield et al, 2003). Outros factores apontados por Beatriz Ilari (2005)  como condicionantes da forma como os pais e seus bebés interagem musicalmente são  a cultura, a etnicidade, a imigração e os níveis de inserção na nova cultura, a ocupação,  o nível de escolaridade e o tipo de linguagem. 

  De  acordo  com  Tooby  e  Cosmides,  citados  por  Shenfield  (2003),  as  motivações  estéticas, como é o caso da apreciação musical, podem agir como meios de fomentar o  desenvolvimento  de  adaptações  requeridas  à  optimização  funcional  dos  circuitos  cerebrais. Assim, o canto materno, uma vez que consegue captar e manter a atenção da  criança,  pode  regular  o  mecanismo  que  serve  as  competências  perceptuais  e  socioemocionais, pelo que é inegável a sua importância para o saudável desenvolvimento  da criança. 

47    Vários investigadores apontam para a relação que existe entre o tipo de música  que, normalmente, a mãe canta para o seu filho e a resposta que ela espera dele ao  nível comportamental. Todos eles concordam no facto de que a maioria das primeiras  canções para crianças se poderão separar em dois grandes grupos: canções de embalar  e canções “para brincar”. Ilari (2005) cita os trabalhos de Trehub e Schellenberg e de  Chen‐Hafteck para concluir que existe uma intenção específica das mães em regular o  comportamento  emocional  dos  seus  filhos  quando  escolhem  um  ou  outro  tipo  de  canção:  as  primeiras,  para  acalmarem  as  crianças  com  o  objectivo  de  lhes  provocar  sonolência;  as  outras,  com  a  intenção  de  as  manterem  alerta  e  despertas  para  a  interacção.  Efectivamente,  Rock  et  al.  (1999)  realizaram  duas  experiências  em  que  confirmaram que o comportamento da criança varia consoante a escolha da mãe. Na  primeira experiência, foi pedido às mães de cantassem para os respectivos bebés (de  cerca de 6 meses de idade), dois tipos de canções: uma que induzisse nas crianças um  estado  de  sonolência  e  outra  que  as  despertasse,  ambas  da  sua  própria  escolha;  seguidamente,  solicitou‐se  às  mães  que  voltassem  a  cantar  as  mesmas  canções,  mas  com intenções opostas. Ambas as canções foram gravadas e ouvidas por adultos, que  identificaram os dois grupos distintos de canções: um grupo de canções de embalar e  outro de canções “para brincar”. Na segunda experiência, as díades mãe/filho ou filha  foram  colocadas  frente  a  frente  enquanto  ouviam  gravações  de  quatro  pares  de  canções  gravadas  na  primeira  experiência.  Solicitou‐se  às  mães  que  fossem  minimamente  responsivas,  mas  que  agissem  com  naturalidade  às  vocalizações  das  crianças.  Os  filmes,  sem  som,  foram  observados  por  adultos,  que  conseguiram  identificar,  sem  dificuldade,  os  excertos  em  que  as  crianças  estavam  a  ouvir  canções  “para  brincar”;  seguidamente  registaram  as  observações  dos  comportamentos  particulares das crianças. Da análise de todos os dados das duas experiências, concluiu‐ se que os bebés, quando ouvem uma canção de embalar, tendem a focalizar a atenção  em  si  próprias,  vocalizando  mais  do  que  quando  ouvem  outro  tipo  de  canções,  pelo  que ficarão menos despertas para o que se passa ao seu redor. A música influenciará,  assim, o estado emocional, o comportamento e a actividade da criança.  

  É  discutível  se  as  crianças  são  mais  emocionais  que  os  adultos,  embora  não  possa  haver  dúvidas  que  elas  tendem  a  ter  menos  controlo  sobre  as  manifestações 

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emocionais  e,  portanto,  os  seus  sentimentos  são  expressos  e  observados  de  forma  mais imediata. O que também deixa dúvidas é que as emoções mais intensas devem  ser observadas no contexto das relações interpessoais, mais do que nas relações com  as coisas (Schaffer, 1999). Custodero et al. (2003) citam Dissanayake para referir que a  interacção  musical  entre  mães  e  filhos  tem  o  poder  de  coordenar  as  emoções  dos  participantes e, assim, promover a ligação entre os dois. Mais afirma que estudos de  vários  investigadores  apontam  para  o  facto  desta  prática  musical  ter efeitos  ao  nível  do aumento do grau de vinculação entre a mãe e o bebé, nomeadamente quando se  trata de mães depressivas. Nestes casos, verifica‐se muitas vezes falta de sincronismo  rítmico  na  comunicação  mãe/filho.  Os  autores  afirmam,  assim,  que  a  qualidade  do  sincronismo  das  interacções  vocais  varia  com  a  saúde  mental  dos  pais,  sugerindo  poder haver uma associação entre a frequência da prática musical e o stress emocional  dos  pais.  Os  pais  que  cantavam  ou  tocavam  música  para  os  seus  filhos  mostravam  menor grau de sintomas depressivos e de frustração, apresentando‐se mais responsivos  ao choro das respectivas crianças. E acrescentam: 

By playing and singing music with their children, parents may be accessing  a  parenting  strategy  that  enables  them  to  cope  with  the  pressures  and  everyday stress of parenthood through the mutual experiences of musical  communication  and  expression  with  their  young  children  (Custodero  et  al., 2003, p.568). 

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