Procurou obter‐se respostas às questões colocadas através da análise das entrevistas realizadas, de acordo com a metodologia já enunciada. Para a apresentação dos resultados seguem‐se as categorias determinadas durante a análise das entrevistas.
89 A. TIPOS DE PROJECTO, PROMOTORES E PARTICIPANTES
Reuniram‐se nesta primeira categoria os aspectos não musicais que podem ser considerados como envolventes e determinantes na implementação de projectos musicais em estabelecimentos prisionais.
Podem definir‐se nesta categoria os vários tipos de projectos (no que diz respeito à duração e aos destinatários), os promotores, os dinamizadores e os participantes.
Assim:
a) Sobre a duração dos projectos:
No EPY, todos os projectos musicais existentes são de longo prazo – um coro para reclusas preventivas e uma hora quinzenal de música na Casa das Mães, para reclusas que têm os seus filhos a viver consigo no estabelecimento prisional.
Em contraste, todos os projectos realizados no EPX têm uma duração que não ultrapassa as 7 semanas.
Em relação ao EPZ, surgem curtos projectos encabeçados, sobretudo, pelas próprias reclusas para apresentação em festas comemorativas, que decorrem em espaços de tempo de cerca de duas a três semanas. O projecto mais longo durou cerca de dois anos. Na entrevista com uma técnica educativa que exerce funções naquele estabelecimento, tem sido muito difícil, ao longo dos anos, consolidar qualquer tipo de projecto musical neste EP. As razões para este facto prendem‐se com a escassez de meios financeiros e com a falta de autonomia da Instituição em relação aos Serviços Centrais. Qualquer projecto que se queira implementar tem que ser à custa de trabalho de voluntariado, uma vez que não existem verbas para despender no pagamento de técnicos especializados. Assim, a falta de outro tipo de projectos musicais neste estabelecimento prisional pensa‐se poder dever‐se ao seu isolamento geográfico de instituições promotoras que os possam promover. Por outro lado, não têm aparecido voluntários com propostas de projectos, com excepção de uma voluntária estrangeira que esteve a trabalhar expressão musical naquele estabelecimento prisional entre Janeiro e Junho de 2009 e que acabou por regressar ao estrangeiro.
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b) Sobre os destinatários:
Considerando que as mães reclusas com filhos na prisão são uma minoria quando olhamos a toda a população prisional feminina, é natural que a maior parte dos projectos tenha como principais destinatárias as mulheres reclusas, sem distinção do facto de estarem ou não naquela condição de mães.
Mesmo na “Hora da Música”, do projecto “Dia do Gil”, que, segundo os promotores, tem como principais destinatárias as crianças, as sessões são dedicadas quase exclusivamente às mães: O nosso objectivo é sempre a criança. Sempre. Sendo que, em Tires, nós percebemos que tínhamos que trabalhar a mãe. Portanto, a criança estaria em primeiro lugar mas através da mãe (promotor de projecto, em entrevista realizada em 21/4/2011). Os restantes projectos deste estabelecimento prisional destinam‐se exclusivamente às mulheres reclusas, sem participação de crianças.
Assim, não se encontraram, ao longo da investigação, projectos musicais que envolvessem mães e respectivos bebés com excepção para aquele que irá constituir o Estudo de Caso, apresentado na última parte do presente trabalho. c) Sobre os promotores: Todo o trabalho realizado nos estabelecimentos prisionais é feito em regime de voluntariado, individual ou através de Instituições como a Fundação do Gil ou a Casa da Música. Não existe, no orçamento dos diferentes estabelecimentos prisionais, qualquer verba destinada a projectos artísticos. Afirma uma das responsáveis entrevistadas: Há uma verba que nós temos que gerir para o ensino, uma verba que nós destacamos para as mulheres carenciadas que ronda uns mil e alguns euros por ano, mas depois não há mais nada (entrevista realizada em 23/3/2011). Esta afirmação é corroborada por outra das responsáveis entrevistadas: Antes de haver os cortes, tínhamos. Tínhamos projectos. Nós, todos os anos nos candidatávamos aos Serviços Centrais projectos quer da escola quer das actividades, portanto tínhamos de apresentar o projecto e uma [previsão] dos gastos. Tínhamos normalmente um plafond por EP. Agora, se calhar, nós temos sorte por termos… por estarmos num EP com uma gestão partilhada em que o novo acórdão, celebrado por mais cinco anos, prevê mesmo isso: que o lucro das
91 cantinas… depois é distribuído por itens, por actividades, e há sempre uma parte que podemos gastar nestes projectos artísticos, culturais…Claro que não são verbas astronómicas, mas dá sempre para aqueles gastos que nós temos, como foi […] oferecemos um lanchinho, são coisas modestas… E acrescenta: Porque o EP, em si, neste momento, não tem verba própria para isso. No ano passado [2010] foi quando saiu um despacho conjunto entre o Ministério da Justiça e das Finanças… e que… ficou tudo em standby (entrevista realizada em 7/6/2011).
Talvez por causa das limitações financeiras, a iniciativa de implementação dos projectos é sobretudo, exterior ao estabelecimento prisional. São os voluntários, ou as instituições, que propõem ao estabelecimento prisional a concretização dos diferentes projectos. No entanto há, por vezes, uma iniciativa do próprio estabelecimento prisional para a promoção de actividades artísticas. Uma das responsáveis entrevistadas refere a realização de dois concertos no estabelecimento prisional: um com elementos da orquestra da Fundação Calouste Gulbenkian e outro com a Orquestra Ligeira do Exército. Também o responsável pelo Serviço Educativo da Casa da Música refere que as próprias direcções dos estabelecimentos prisionais os contactam no sentido de solicitarem projectos musicais para os seus reclusos.
Nota‐se, assim, vontade dos responsáveis pelos estabelecimentos prisionais em promover actividades musicais para as reclusas, embora se sintam sempre constrangidos pela falta de meios financeiros. Uma das responsáveis entrevistadas refere: […] os recursos, como sabe, nem sempre são suficientes e, na área das artes, como nós não temos técnicos especialistas para tal – o técnico do serviço de educação o que faz é o acompanhamento do recluso desde o primeiro momento em que entra até à sua saída promovendo um bocadinho o investimento nestas áreas do trabalho, formação profissional e ensino e competências pessoais e, no fundo, perde muito tempo na organização destas coisas. […]. E, portanto, esta questão de dinamização cultural – animador cultural – não existe. É um bocadinho ao som daquilo que as pessoas vão tendo a percepção. Mas recorremos muito aos voluntários (entrevista realizada em 23/3/2011).
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d) Sobre os dinamizadores:
No que respeita a este aspecto, podemos considerar dois tipos diferentes de dinamizadores: os voluntários individuais e os que chegam através das diferentes Instituições colaboradoras.
Embora exista um perfil que se considera adequado ao exercício de voluntariado no sistema prisional (quadro 6), definido no “Manual de Gestão de Voluntariado em Meio Prisional”, publicado em 2009, o recrutamento de voluntários para a liderança de projectos em estabelecimentos prisionais era, no período estudado, centrado no próprio projecto sendo os voluntários aceites no estabelecimento prisional desde que os respectivos projectos fossem aprovados pela DGSP. Quadro 6 – Perfil do voluntário em meio prisional (retirado de http://www.dgsp.mj.pt/, acedido em 22 de Agosto de 2012) Características Gerais Características Específicas Maturidade Responsabilidade Disponibilidade / compromisso Facilidade de relacionamento Predisposição para uma aprendizagem permanente Atitude solidária e empática Capacidade para perceber a situação social e a realidade da outra pessoa Saber utilizar a escuta activa Capacidade para trabalho em equipa Linguagem cordial e acessível Estabilidade emocional Saber distinguir o que é da sua competência e o que não é Disponibilidade para estar ao serviço dos outros Capacidade para manter o relacionamento e o apoio, mesmo na ausência de diálogo ou do diálogo desejado Saber articular rigidez e realidades imprevisíveis Ser capaz de conjugar a relação solidária com a neutralidade judicativa Privilegiar o trabalho com grupos, em detrimento do trabalho individual e nestes casos (visita e outro apoio individual) ser capaz de o enquadrar num trabalho de equipa em conjunto com o EP Há volta de cinco anos, eu veio cá tocar num grupo de músicos, tocar a uma festa de Natal. E durante aquele dia, naquela reunião, eu falei com algumas reclusas e perguntei: “Vocês têm música cá? […] Vocês têm um coro?” “Não, não temos nada.” […] E como queria fazer qualquer coisa tipo voluntariado, eu pensei: “Talvez eu possa começar um coro, um grupo coral” E escrivei [sic] um pedido e… e esperei quase dois anos – ano e
93 meio… Eles precisaram enviar para a Direcção Geral… (americana a viver em Portugal, promotora de projecto no EPY, em 21/4/2011).
O que move estes voluntários individuais é, quase sempre, o desejo acalentado de trabalhar com populações reclusas, relacionando a acção do voluntariado, muitas vezes, com o foro religioso: Eu tinha o sonho de ir fazer trabalho voluntariado nas prisões, especialmente para as mulheres. É mais confortável, como eu sou mulher… E como sou música, queria na “gama” da música. Queria adicionar valores às mulheres. Que eu acho que nós somos todas iguais. Nós fazemos erros, todos nós. E às vezes as consequências são mais graves do que outras. E… é pelo amor de Deus que estamos a fazer isto e para amor das pessoas. Mesmo que nós não conhecemos elas. […] Eu sou missionária. Baptista. É uma associação, americana também, e eu sou americana‐brasileira. Então, nós somos enviados por essa associação para outros países para trabalhar com voluntariado. E ajudar as outras pessoas. Então… eu sempre tive desejos em ser voluntária nas prisões (promotora e dinamizadora de projecto, em entrevista realizada em 21/4/2011).
Quando se trata de projectos promovidos e supervisionados por instituições, a escolha dos dinamizadores é feita com critérios que obedecem a determinadas regras, determinadas pelas próprias instituições.
Para a responsável por um dos projectos no EPY, o dinamizador tem que ser, antes de mais, uma boa pessoa. Porque eu não quero ter bons profissionais se não forem antes boas pessoas. […] Ser disponível para os outros, ser uma pessoa honesta, ser uma pessoa disponível, de cabeça aberta, com o coração tranquilo, de preferência. Uma pessoa que não venha para estas coisas à procura de resolver os seus próprios problemas.[…] Pessoas que sejam íntegras, que sejam disponíveis, que sejam altruístas de alguma forma, que sejam voluntariosas, que tenham espírito de missão. […] Pessoas que criem empatia, pessoas que percebam o que é que naquele sítio está a ser preciso naquele momento (entrevista realizada em 24/3/2011). No entanto, a entrevistada referiu que, para a Hora da Música daquele projecto, só eram destacados músicos profissionais.
Também nos projectos promovidos e liderados pela Casa da Música os dinamizadores são, exclusivamente, músicos que colaboram com aquela instituição. O Serviço Educativo da Casa da Música enquadra os projectos que realiza nos estabelecimentos prisionais no seu projecto intitulado “A Casa vai a casa” – projecto
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concebido para comunidades que não se podem deslocar à Casa da Música e que pressupõe a visita de formadores do Serviço Educativo a instituições diferenciadas. O responsável pelo Serviço Educativo, no período referente a este estudo, refere que ser dinamizador num estabelecimento prisional requer um conjunto de skills de relacionamento de pessoas (em 24/3/2011). Sobre estes dinamizadores, as técnicas do EPX referem: [São] especialistas […], que as envolvem como iguais, que as põem a tocar instrumentos – nem elas sabem muito bem como, em meia dúzia de sessões lá estão elas... […] Os formadores tratam‐nas de uma forma muito próxima, sem preconceito nenhum, envolvem‐se com elas nas actividades… (entrevista realizada em 7/6/2011).
Assim, percebe‐se que, para se ser dinamizador de um projecto musical comunitário, nomeadamente em estabelecimentos prisionais, é dada importância não só às competências artístico‐musicais mas, sobretudo, às qualidades empáticas e despreconceituosas em relação à estigmatização de que é alvo este tipo de populações e que já se referiu em subcapítulo anterior.
A preocupação de que sejam especialistas/músicos a liderar estes projectos é partilhada pelos responsáveis dos estabelecimentos prisionais: Eu achava que os estabelecimentos prisionais deviam promover envolvendo especialistas, não podem ser curiosos, que somos nós, não é? questiona uma das responsáveis entrevistadas.
Outro aspecto a considerar, para além dos parâmetros já apontados, é o género (masculino ou feminino) do dinamizador em estabelecimentos prisionais femininos. Este é, muitas vezes, um factor de desconforto para os dinamizadores do sexo masculino. À questão colocada a uns dos dinamizadores sobre o facto de ter sentido alguma diferença por ter sido um homem a liderar um projecto com mulheres reclusas, a resposta foi afirmativa: Senti, senti. Aliás também já ía um bocadinho preparado porque sabia que havia esse tipo de … quase de olhar… de olhar… de olhar para além do olhar, sabes? E percebi logo aquelas coisas que elas fazem, de uma maneira muito pouco discreta, não sei se… numa atitude de provocação… […] Eu escolhi como parceira no projecto a F., para já porque tenho muita confiança nela para este tipo de coisas, mas também por ser mulher. Foi claramente, para mim, foi por ser uma mulher. Eu precisava de uma mulher comigo para… para também dissimular, ali, um bocadinho… Porque ir dois homens fazer este trabalho poderia ser um bocadinho mais complicado. Eu sinto que, nestes casos, como
95 aliás já vi, […] não se pode dar o mesmo espaço… […] Porque há logo… a reclusão leva‐nos à criação de expectativas logo muito diferentes e eu diria até muito descompensadas, não é? Se, por acaso, acabas por dispensar mais atenção a uma pessoa, ela vai começar a fantasiar a partir daí… e essa fantasia é do tamanho da vontade de querer sair dali e, portanto, acha que, de um momento para o outro, se ganhou ali uma porta, não é? E, portanto, com todas as reclusas, mantive, até praticamente quase o fim, uma distância calculada, sem dúvida (dinamizador de projecto no EPX, em 25/1/2011). Esta distância poderá ser ainda mais necessária quando se trabalha com etnias que têm culturas muito restritivas a nível de contacto: Ser homem, ser o facto de lhes estar a propor um conjunto de coisas que para elas não é normal, desde cantar até movimentar, até tentar aproximá‐las em termos do corpo, etc., ali há muitas situações complicadas, não é? Estás numa situação em que tens de andar pelo meio das pessoas, tens de tocar o corpo de outra pessoa, etc., como é que tu fazes isso no meio… no meio de um ambiente tão tenso e… as mulheres e os homens, e os ciganos e os outros, etc., tudo isso é um bocadinho complicado. Portanto foi sempre um bocadinho difícil mas progressivamente mais fácil. […] A partir do momento em que as pessoas começam a cantar, basicamente, ou a fazer ritmos, ou em que eu estou com um piano à frente, tudo fica mais fácil, percebes? Porque a música toma conta da coisa toda, não é? (dinamizador de projecto no EPX, em entrevista realizada em 14/1/2011). e) Sobre as participantes nos projectos: A constituição dos grupos de participantes conjuga sempre a vontade das reclusas com as determinações do próprio estabelecimento prisional. De acordo com todos os entrevistados, e falando de uma maneira geral, todas as reclusas gostam de música e ouvir música faz parte do seu quotidiano. Elas ouvem muita música […] Nós fizemos um inquérito e elas referiram que ouvir música é uma das ocupações que elas têm privilegiadas, em termos… na cela. […] E algumas referiram que cantavam, também, na cela (técnica educativa, em entrevista realizada em 7/6/2011). No entanto, uma das responsáveis entrevistadas refere que elas gostam de participar [nos projectos], embora também […] questione imenso porque é que elas não
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aderem mais. Há um pequeno grupo que adere a estas actividades mas há uma porção delas que fica lá dentro (em entrevista realizada em 23/3/2011).
A adesão das reclusas aos vários projectos que decorreram no período em estudo foi muito variável e também não se manteve constante ao longo de cada projecto. Verificou‐se que a motivação para as próprias reclusas participarem nos projectos depende de vários parâmetros, a seguir explanados.
Por um lado, a adesão aos projectos é maior sempre quando aqueles apresentam metas bem definidas: Elas têm que saber qual é o objectivo, qual é o fim… “Isto é para apresentarmos à família, isto é para irmos à Casa da Música, isto é para irmos ao Rivoli”… Têm que ter a meta. […] Não adianta: “isto é para aprender, isto é importante para vocês, vocês no fim até vão gostar.” Mas quando é que isso é? […] Tem a ver com a necessidade que elas têm do imediatismo. Elas precisam de um resultado (técnica educativa, em entrevista realizada em 7/6/2011).
Também o facto de o trabalho realizado durante o projecto poder ser apresentado à comunidade funciona como factor motivacional, discutido em secção própria, um pouco mais à frente, neste trabalho.
Esta ideia é corroborada pela percepção que se tem da variação na afluência às aulas de música que são leccionadas como actividades extracurriculares para as reclusas que frequentam a escola no estabelecimento prisional: Uma vez por semana, meia hora, uma hora que seja, não dá para ver resultados muito rapidamente… elas vão desmotivando, vão desmotivando… e vão‐se perdendo. Ao meio do ano lectivo já temos muito poucas na aula de música (técnica educativa, em entrevista realizada em 7/6/2011). Também outra das técnicas educativas entrevistadas refere que, no âmbito do protocolo com a Escola Preparatória que envia docentes para a escola do estabelecimento prisional, tentaram implementar aulas de educação musical, mas sem grande adesão. Assim, percebe‐se que os projectos de longa duração tenham menor adesão que os de curta duração, em que os resultados são mais imediatos. O projecto encontrado com maior duração, por ser contínuo, foi o de coro, no EPY. A propósito, uma das dinamizadoras refere: Eram talvez doze nas primeiras sessões. E
97 quando elas viram que nós vamos fazer algumas músicas clássicas, aí elas…fugiram (em entrevista realizada em 21/4/2011).
Este relato levanta mais uma questão condicionante da motivação, relacionada com os materiais musicais que se utilizam nos projectos com este tipo de população, questão que será discutida mais à frente, no presente trabalho.
Outro aspecto relacionado com a adesão aos projectos por parte das reclusas diz respeito ao grau de ocupação laboral das mulheres enquanto estão em reclusão. Muitas delas trabalham e, normalmente, os projectos funcionam dentro do seu horário laboral. Quase todas as reclusas estão a trabalhar ou estão envolvidas em projectos da escola. Não têm tempo livre, ou pouquíssimo (técnica educativa, em entrevista realizada em 7/6/2011).
Assim, quando os projectos são de curta duração as reclusas ainda colocam a possibilidade de faltarem pontualmente ao trabalho para frequentarem as sessões, o que já não acontece nos de longa duração que implicariam a falta sistemática ao trabalho. Esta questão acaba por entroncar na questão seguinte, relacionada com a situação prisional de cada reclusa. Verifica‐se que existe distinção entre as reclusas preventivas e as condenadas no que respeita à adesão aos projectos, parte das vezes provocada pela calendarização dos mesmos. Questionada sobre possíveis projectos para as reclusas condenadas, uma das responsáveis entrevistadas afirma que para as condenadas já houve mas não há. Porque as condenadas estão a trabalhar fora do pavilhão. E, portanto, a minha perspectiva é que, naturalmente, elas estão a trabalhar e ganham consoante a produtividade. Logicamente que o que elas querem é aquela… vida norma, ganhar para as despesas delas… O que eu acho é que estes projectos deviam ser ao fim‐de‐semana. […] Penso que até apreciam bastante, se viessem ao fim‐de‐semana (em entrevista realizada em 23/3/2011). Também uma das dinamizadoras do projecto de coro naquele estabelecimento prisional refere que temos um grande desafio com o trabalho que o estabelecimento oferece. Elas querem ganhar dinheiro. E isto acontece no mesmo horário que a aula (em entrevista realizada em 21/4/2011).
Para além da vontade, ou falta dela, de participar das próprias reclusas, verifica‐se também que a política seguida pelos responsáveis dos estabelecimentos prisionais para o
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acesso aos diversos projectos é, também, variável. Se, num dos estabelecimentos prisionais a responsável afirma que podem vir sempre. Nós divulgamos a actividade, nós abrimos um período para inscrições, nós vamos falar com elas e dizemos o que é que vamos fazer… (em entrevista realizada em 23/3/2011), outra afirma: Claro que nós abrimos sempre e elas podem‐se todas inscrever nestas actividades, desde que sejam sempre internas, desde que não tenham que sair para o exterior. Se tiverem que sair para o exterior nós, desde logo, para não lhes criar expectativas, excluímos as preventivas e escolhemos sempre aquelas que já estão em regime aberto […] Quando é interno, damos sempre uma oportunidade àquelas que sabemos que, noutras iniciativas, não podem sair. E acho que vamos ter que as privilegiar (em entrevista realizada em 7/6/2013).
Também o factor cultural de origem influencia, por vezes, a percentagem de adesão das reclusas aos projectos. Se considerarmos a etnia cigana, por exemplo, a adesão