Méthodologie de l’enquête et principaux résultats statistiques
1.1. Structure des questionnaires et construction des variables explicatives
Além da leitura evento e ato, observamos através do projeto, e nos fóruns, o desenvolvimento de um sistema de bens simbólicos, uma tendência mercantil que tem permeado cada vez mais a educação conforme aponta Bourdieu em seu trabalho “ Escritos de Educação”. Nesta obra ele levanta discussões e questões que nos conduzem a uma reflexão sobre a função e o funcionamento do ensino nas sociedades contemporâneas, a partir de sua experiência de pesquisa no sistema de ensino francês. O mais importante para esta pesquisa e para a compreensão do sujeito leitor no fórum é o que Bourdieu & Pesseron (2011) indica como as diferentes relações que os grupos sociais mantêm com a escola e com o saber. Conforme a posição do autor, na verdade, há um reflexo do processo de globalização que influencia a concepção do que se compreende por escola e saber. Também outro conceito do autor é muito rico para o querer dizer deste trabalho, a ideia que constrói sobre o poder simbólico que, segundo Pierre Bourdieu (2007), se caracteriza quando a um objeto ou ação é atribuído valor mercadológico e, assim, métodos, materiais, objetos, tendências e até pensamentos ganham status de mercadoria, e para tais é criado um grupo consumidor e outro produtor desses bens simbólicos. Sendo assim, os bens
simbólicos sempre irão refletir e refratar os desejos, as necessidades, as opiniões de grupos sociais.
Desde a popularização da internet no Brasil, nos anos 90, houve o acesso acentuado de jovens aos meios de comunicação ofertados por esta via. Segundo um estudo feito pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em 2013, naquele período no Brasil, cerca de 32,1 milhões de brasileiros, dentre os quais 21,9% da população acima dos 10 anos de idade, já utilizavam a rede mundial de computadores. Isso se torna ainda mais abrangente quando sabemos que o celular, nos últimos três anos, tem sido considerado o meio mais comum de acesso à internet23 e também é um item popularizado. Os dados e a realidade imediata revelam a tendência de um mercado consumidor forte e emergente que tem atingido os processos escolares e a produção de materiais didáticos e instrumentos didáticos diversos. Portanto, a criação de plataformas online para depósito de atividades, os cursos EAD e até os denominados projetos de leitura têm demonstrado esta produção dos bens simbólicos no sistema de educação. As próprias editoras com salas de discussão sobre leituras literárias – os clubes de leitura-, fóruns de discussão e agora os projetos digitais de leitura, como resultado dessa tendência e da adesão do mercado editorial nacional e internacional24.
[...]o sistema de produção e circulação de bens culturais e simbólicos define-se como o sistema de relações objetivas entre diferentes instâncias definidas pela função que cumprem na divisão do trabalho de produção, de reprodução e de difusão de bens simbólicos (BOURDIEU, 2005, p. 105)
Conforme Bourdieu(2005), tudo se passa como se os sistemas simbólicos estivessem destinados pela lógica de sociação e dissociação, ou seja, uma conjuntura definida pela estrutura social e ao mesmo tempo difundida por ela e para ela. Um processo no qual a sociedade, com seu sistema de significações, expressa os elementos constitutivos desta estrutura, grupos ou indivíduos e, dessa forma, estabelece os bens simbólicos. Pela apreciação do sociólogo em “A economia das trocas simbólicas”, houve uma formação histórica do mercado de bens culturais e simbólicos e tais formulações agregam bastante à compreensão sobre a constituição destes novos sujeitos leitores,
23 Dados da ANATEL( Agência Nacional de Telecomunicações) em 2015
24 Com a globalização do mercado editorial, tem-se estabelecido relações mercadológicas representativas
do que Bourdieu chama de bens simbólicos, à exemplo da união entre as editoras Companhia das Letras e Pearson para a divulgação e representação do Projeto Digital Leitura e Companhia.
principalmente, quando se observa o projeto de leitura sob a ótica dos bens simbólicos. Também é interessante estabelecer uma relação entre a produção destes produtos(projetos digitais de leitura) e o sistema de ensino que acaba reproduzindo determinados comportamentos que, de alguma forma, estão ligadas ao mercado de bens simbólicos em detrimento de todo a conjuntura da sociedade contemporânea.
Resgatando ainda Bourdieu (2007, p.17-18), a linguagem e as roupas, ou melhor, certas maneiras de tratar a linguagem e as roupas, introduzem ou exprimem desvios diferenciais no interior da sociedade, sob forma de signos ou insígnias da condição ou da função das coisas. De maneira análoga isso também ocorre com a produção de Materiais Didáticos e de instrumentos didáticos, estes últimos aqui representados pelos projetos de leitura ou lousas digitais com acesso à rede, dentre outros recursos de um modo geral. Estes instrumentos constituem maneiras de tratar a linguagem e a leitura em nossas salas de aula, de forma concreta exprimem nuanças presentes na sociedade e, sob forma de signos ou insígnias, constituem o bem simbólico na educação e no mercado editorial.
O Projeto Literário Leitura e Companhia, assim como o Fórum sujeitos Leitores são bens simbólicos que emergiram ora das necessidades de uma sociedade tecnológica e midiática, ora das imposições mercadológicas no campo da educação e da produção de livros (editoras), especificamente, relativas às práticas de ensino e aos modos de consumo social. Dessa forma, as estruturas sociais e mercadológicas que foram se consolidando cada vez mais no Brasil e no mundo moldaram-se à luz das novas tecnologias da comunicação e ganharam propulsão sob a justificativa do desenvolvimento das habilidades leitoras, com o pressuposto de atender os sistemas de avaliação oficiais, como foi o caso do projeto de leitura.
Bourdieu & Passeron (2011) desenvolveram uma análise daquilo que denominaram de ‘habitus’25 de classe, o capital cultural e social, daí lançaram à discussão e contribuíram para uma compreensão destas relações sociais e das consequências para o campo educacional. Para os estudiosos, este ‘ habitus’ está ligado às práticas dos
25 Conforte os pesquisadores, o conceito de habitus é utilizado como uma possibilidade de caracterizar a
relação do sujeito com a família em um primeiro momento e posteriormente com a escola, pois o indivíduo acaba reproduzindo o habitus familiar, geralmente filhos de famílias das classes média à alta tendem a ser mais estudiosos do que filhos de famílias de classe desfavorecida ( não é via de regra), pois na perspectiva de Bourdieu, os sujeitos referidosno primeiro caso têm a possibilidade deacumular maior capital cultural ao longo de sua vida, este acúmulo de capital cultural está ligado ao habitus de classe e da família, como por exemplo, o gosto pela arte, conhecimento científico, literatura, leituras diversas, etc, e isto está ligado ao conceito de habitus.
indivíduos na família e na escola que é onde o sujeito aprende a produzir e reproduzir a valores, ideias e práticas.
“O habitus como indica a palavra, é um conhecimento adquirido e também um haver, um capital (de um sujeito transcendental na tradição idealista) o habitus, a hexis, indica a disposição incorporada, quase postural -, mas sim o de um agente em ação: tratava-se de chamar a atenção para o “primado da razão prática” (BOURDIEU, 2007, p. 61) Assim compreendido, o habitus é formado historicamente e diz respeito ao acúmulo de informação (conhecimento) nos seus diversos aspectos, social, artístico, político, literário etc., e acompanha a vida tanto do indivíduo como do grupo no qual ele pertence. Em O Poder Simbólico, Bourdieu (2011) realiza alguns apontamentos sobre a educação e que são importantes para conduzir-nos à compreensão do projeto e do fórum como um bem simbólico. Na citada obra, a educação é afirmada como instrumento fundamental da continuidade histórica e, por isso, consolida certos comportamentos e culturas. Sendo assim, considerada:
como processo através do qual se opera no tempo a reprodução do arbitrário cultural, pela mediação da produção do hábito produtor de práticas de acordo com o arbitrário cultural (isto é, pela transmissão da formação como informação capaz de “informar” duravelmente os receptores. (BOURDIEU, 2011, p. 54)
Partindo da leitura bourdieudiana, é preciso salientar um ponto crucial sobre a questão dos bens simbólicos, há de se perceber uma linha tênue entre a produção e o consumo desses bens. Os campos de produção são muitos – tecnológico, midiático, religioso, educacional, etc – e seus bens simbólicos são infinitos também (literatura, práticas leitoras, música, teatro, cinema, etc.), nestes espaços produção e consumo funcionam intimamente. O que se quer destacar é o fato da escola produzir seus bens simbólicos a partir dos comportamentos sociais vigentes, pois aquela acaba reproduzindo determinadas relações sociais próprias da sociedade capitalista, além de produzir bens simbólicos específicos desta relação social, como a inserção da tecnologia na produção de instrumentos de aprendizagem escolar.
Os livros digitais, as lousas eletrônicas, os diários online, as plataformas online de atividades, dentre tantos outros recursos que foram incorporados à educação e que tiveram origem nos comportamentos sociais predominantes, representam agora os bens simbólicos e a intrínseca relação entre produção e consumo destes bens.