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É razoável admitir que, como já foi sugerido, o carácter pragmático do conhecimento científico possa ser directamente relacionado com a sua aplicação na resolução de problemas práticos através da invenção ou do aperfeiçoamento. Aliás, G. Simondon43 defende que o objecto técnico é definido exteriormente, com possibilidades ou potencialidades limitadas pela própria adequação à função socialmente desejada, o que sugere uma participação axiológica da técnica na cultura, e vice-versa. Não é apropriado postular uma dicotomia entre cultura e técnica, já que, como Benjamin e McLuhan defendem, elas existem num jogo permanente de vasos comunicantes desde que o conhecimento era ainda mítico (e não científico) e a técnica era puramente empírica (não sistematizada). Elas encontram-se, assim, ligadas por sistemas de valores, e um dos problemas fulcrais da nossa época seria (Mumford dixit44) a determinação heterónoma da moral contemporânea pelos valores da máquina que, por sua vez, seriam já ideologicamente determinados externamente pela vontade capitalista de acumulação de energia e de poder45:

«Correntes pessimistas passaram a ver a técnica e o mercado capitalista como almas gémeas, propensas a estabelecer sobre a natureza uma racionalidade instrumental e excludente. Por exemplo, teóricos da Escola de Frankfurt, como Horkheimer e Adorno e depois Marcuse e Habermas, negam-se a considerar que a técnica possa se organizar de acordo com seus próprios condicionamentos. Para esses autores, que tiveram grande influência sobre o pensamento ambientalista, a técnica representaria acima de tudo a materialização do projecto heterónomo do capitalismo moderno enquanto racionalidade instrumental.»46

43 SIMONDON, 1958:11 segs. 44 Cfr. MUMFORD, 1980. 45 V. infra, Capítulos 30 a 34. 46 ANDRADE, 2001:2. 37

As determinações externas da técnica explicam, para Simondon, a fase de concretização em que os objectos técnicos se encontram. Se a lógica de acumulação de capital preside à orientação da concretização de um dado objecto técnico, podemos estar certos de que este será “aperfeiçoado” do ponto de vista de maximização da produtividade e do lucro final. O que não corresponde à visão de Simondon do processo de concretização: a unidade funcional dos objectos é perturbada sempre que a sua estrutura é alterada, pelo que a inclusão de uma forma abstracta deveria, idealmente, ir ao encontro da necessidade de concretização do próprio objecto, e não de um objectivo exteriormente definido.

Deste modo, seria a conjugação de diversos princípios num mesmo sistema que define o ritmo e direcção da concretização dos objectos técnicos. E também a sua eficiência, como é evidente. Quanto maior é a integração de princípios, melhor poderá um objecto cumprir a sua função, desde que se integre logicamente na sua função e não altere substancialmente a sua relação com o meio associado: as asas de um avião dão- lhe estabilidade, sustentação, capacidade de manobra, tanques de combustível, suporte para os reactores. Ou seja,

«A evolução do processo de concretização opera-se não por uma diferenciação das funções nem ocorre através da adaptação a um limitado número de funções, mas sinergicamente. É todo o conjunto das funções que é progressivamente integrado e que se encontra envolvido no todo indiviso e indistinto, no termo de um processo de síntese concretizante.»47

Curiosamente, para o objecto técnico industrial, é a separação e especialização de sistemas a montante que permite esta integração a jusante, conforme é possível observar numa qualquer linha de montagem. A informatização da produção ampliou de tal modo a capacidade de complexificação que, no presente, é inconcebível que o modo de integração de todos os objectos seja perfeitamente transparente – principalmente a nível da conjugação de elementos distintos num produto final – para qualquer indivíduo isolado.

47 RODRIGUES 1997:85

O que isto significa, na prática, é que é o próprio sistema tecnológico a criar as condições artificiais em que pode existir, dando origem a uma infraestrutura complexa que nem é auto-sustentável (necessitando de fornecimento contínuo de nova energia e informação) nem integrado (uma vez que todos os conflitos e incompatibilidades têm de ser resolvidos através da criação de novos dispositivos de mediação). Nesta linha de raciocínio, a introdução de qualquer tipo de artificialidade é prejudicial para o aperfeiçoamento dos objectos técnicos, o que é assaz contra-intuitivo. Na realidade, a concretização dos objectos técnicos não implica uma complexificação.

A compatibilização é uma importante fase da apropriação e construção de um dado objecto técnico. "Negociando" e mediando a compatibilidade de princípios abstractos, o Homem faz um conjunto de operações, em direcção a uma sistematização e síntese que afina a resposta aos objectivos pragmáticos do objecto técnico48. Este movimento responde àquilo que se designa como "hipertelia", ou superespecialização. Contudo, ainda que a referida operação tenha uma forte dose de determinação social, ao nível da escolha dos objectivos prioritários de desenvolvimento do processo de concretização, Andrew Feenberg alerta para o facto de se criar um vazio de consciência após a adopção de uma regra social em que, por exemplo, os objectos técnicos são vistos como isentos de carga simbólica social, sendo as suas regras de funcionamento internas vistas como uma questão de design individual, ou seja, um problema meramente técnico49. Assim, encontra-se uma posição de determinismo que se metamorfoseia lentamente na «inconsciência tecnológica» (menoridade), imaginando livre de influências e independente um processo de concretização técnica não separável da própria sociedade. Daí que seja extremamente importante traçar uma genealogia dos objectos técnicos, estudando o seu específico modo de surgir e agir no mundo.

Deste modo, compreende-se aquilo que é central em Simondon: os processos técnicos são construções sociais que congregam o esforço humano (intelectual e manual) com a mobilização de recursos naturais, resultando no estreitamento de laços entre engenho humano e Natureza. Todavia, é importante não esquecer que essa solidariedade crescente entre princípios abstractos e concretização tem impactos que vão muito além do previsível e controlável (é a este ponto que Feenberg, mas também

48 É necessário tornar claro que, neste capítulo, não se considerara como central a distinção entre objecto técnico artesanal e objecto técnico industrial. Não obstante, opta-se por usar um objecto técnico industrial como exemplo prático, sempre que tal possa ser útil.

49 Cfr. FEENBERG, 1992.

Simondon, não prestam atenção suficiente). Não se contesta a relevância do carácter criativo (poiético) do processo técnico, enquanto forma de fazer imergir as condições de intervenção humana no mundo. Mas esta construção conceptual revela-se insuficiente, seja a relação de menoridade ou maioridade com a técnica, para explicar a autonomia, real ou imaginária, que a instrumentalidade possui no seio da tecnologia, seja o meta- determinismo tecnocientífico – autonomizado pela especialização disciplinar necessária, num sistema industrial, para a individualização de objectos e sistemas técnicos. Se, com Simondon, se centrar na sociedade e no Homem a capacidade de controlo e harmonização (ainda que relativa) da técnica consigo própria e com o mundo natural, então (1) é necessário admitir que há um longo caminho a percorrer no sentido da sua concretização (caso em que "apenas" será necessário alterar qualitativamente a integração dos objectos técnicos) ou (2) existe uma autonomia em jogo no seio do desenvolvimento tecnológico e, nesse caso, seria necessário adoptar uma perspectiva completamente diferente para observar estes fenómenos, a saber: uma que veja no uso o factor central da evolução tecnológica. Tal invocaria uma concepção política e antropológica, colocando ênfase nos problemas essenciais do presente (a saber: a infiltração da tecnicidade em todos os sectores da existência, a artificialização do mundo e do humano e a externalização cognitiva no âmbito de novas políticas tecnológicas) e nas respostas concretas e /ou especulativas despertadas pela reflexão.