10.3 Contexte automobile
11.1.1 Evolutions du modèle
Do que foi escrito nos capítulos anteriores, destaca-se uma forte relação de continuidade e contiguidade entre o cérebro e o resto do corpo. O organicismo materialista pós-cartesiano não se coíbe de uma hibridação entre ser humano e tecnologia. Pelo contrário, não só a vê como metáfora útil, mas também como suplemento e apoio, quer da capacidade criativa do Homem, quer da sua curiosidade científica. Galileu Galilei, com o seu experimentalismo pioneiro, define a estrutura paradigmática da epistemologia desta hibridação – ou simbiose –, embora ainda muito longe, em termos fenomenológicos e ontológicos, da sua fase industrial. Contudo, é necessário não desprezar as formas internas de construção deste conhecimento e estrutura. É nestas que se dá essa construção criativa, simbolizadora e artificializante, onde assenta a capacidade colonizadora da criatividade humana.
Através de António Damásio, verificou-se a existência ligações que, em sentido literal, associam as diversas partes do cérebro entre si, i.e., um conjunto de relações que coloca os sistemas em contacto e permite um trabalho em rede essencial para a optimização do processamento de sinais e comando de e para o resto do corpo. Contudo, há aspectos algo intrincados das ideias propostas por Damásio e outros autores que têm grande relevância na presente discussão.
Tendo já sido descrito, em traços breves, o sistema que permite a criação das imagens ou representações, importa tornar claras as distinções entre os fenómenos conscientes e inconscientes, pelo menos nos seus efeitos sobre o aparelho cognitivo humano. No inconsciente recaem todos os fenómenos que não são elaborados com um conhecimento imediato pelo sujeito. O indivíduo não está ciente dos processos que ocorrem a todo o momento, como a percepção visual ou auditiva: por serem contínuas, a atenção a cada uma delas é descontínua. Apesar de todas elas darem entrada no sistema nervoso, não se tornam relevantes para as representações conscientes, caindo normalmente no esquecimento, no conjunto dos fluxos de dados das sensações e representações.
À consciência correspondem processos melhor enraizados; apesar de também possuírem base neural e perceptual, ocorrem devido à relevância atribuída à informação, reclamando uma grande parte dos recursos da percepção e cognição. Assim acontece, por exemplo, ao sentir uma dor: esta é comunicada ao cérebro, que a localiza e classifica, obrigando o indivíduo a modificar o seu estado para responder ao estímulo de modo conveniente. Se muitas vezes, este processo é desencadeado pelo reflexo, noutras ocasiões é necessário tomar decisões, para as quais são muito importantes informações previamente armazenadas acerca da dor e de maneiras de a evitar em situações específicas.
A percepção sensorial do próprio corpo é extremamente importante, como se pode depreender do exemplo acima dado. Os estados internos do corpo, correspondentes às modificações sofridas pelas vísceras – oscilações entre os estados normais e "anormais" – informam o cérebro e ajudam a conhecer de diversas formas os estados internos e externos. Estes estados, quando associados a situações de vida, ajudam o indivíduo a determinar o seu posicionamento em face dessas situações. Mais uma vez, a dicotomia entre prazer e dor assume um papel extremamente relevante – aquilo que se designa em inglês por gut feeling –, por ajudar a tomar decisões com base na memória passada de um estímulo particular. A libertação de endorfinas, adrenalina e outros químicos ajuda a construir um "vocabulário" importante para a acção, e advém da reacção do próprio corpo às diversas circunstâncias em que se encontra, como a doença que altera o funcionamento de um órgão, mas também com experiências mais inócuas do quotidiano, como o susto que acelera o ritmo cardíaco e a respiração.
Esta percepção relativa aos estados do corpo trabalha em conjunto com a percepção externa, dos sentidos. Esta refere-se ao mundo exterior, e assenta sobre os cinco sentidos clássicos, cada um deles com uma grande relevância para a actualização permanente do cérebro em relação ao estado do ambiente em que vive. De facto, a informação recebida por estas vias tem a particularidade de se referir a objectos potencialmente nocivos ou benéficos e, logo, ajudar à tomada de decisões relativas ao futuro. A junção dos dois tipos de percepção (e da memória) tem a vantagem de ser um cruzamento de informação suficiente para tomar uma decisão orientada para o longo prazo, abdicando de benefícios imediatos em favor de outros mais distantes, ainda que especulativos. Ao permitir a construção de representações, que não estão directamente 145
relacionadas, mas podem ser cruzadas pelo cérebro, o aparelho neural prepara uma "base de dados" disponível, vasta e muito dinâmica, cujos elementos podem ser mobilizados. Ainda que nem todas acedam à consciência, e até se possam perder, são indispensáveis, e explicam bastante bem a forma como o ser humano pensa. Obviamente, a maquinaria associativa é importante, na medida em que é a responsável pela articulação de ideias, imagens e sensações; mais: partindo de hipóteses de acção diversas – também fornecidas como representações, mas de acções ainda não levadas a cabo –, exclui todas menos uma, implementando-a em harmonia com o conjunto de estímulos internos, externos e representacionais.
Para que esta hipótese faça sentido, é necessário compreender que este fluxo contínuo nunca inibe a decisão, embora não escamoteie a sua complexidade prática. Pelo contrário, os indivíduos com lesões em sectores do cérebro responsáveis pela adição da componente "visceral" ao processo de decisão podem estar inibidos de tomar decisões sãs, ainda que racionalmente fundamentadas. Aliás, é bem possível que o uso da "razão pura" entre em colisão com os sistemas propriamente humanos de decisão e, assim, deixe de parte algo de essencial. Portanto, não é possível descartar a subjectividade como algo de negativo – antes pelo contrário, é esta que concede à acção humana a sua capacidade pragmática, e permite ao indivíduo ser criativo com as "suas" representações. A hipótese avançada por Damásio postula a existência de "marcadores somáticos", que permitem o uso das emoções induzidas pelas trocas de informação entre corpo e cérebro para a tomada de decisões.
«A emoção é a combinação de um processo avaliatório mental, simples ou complexo, com respostas disposicionais a esse processo, na sua maioria dirigidas ao
corpo propriamente dito, resultando num estado emocional do corpo, mas também dirigidas ao próprio cérebro (...), resultando em alterações mentais adicionais»139. A percepção das mudanças provocadas pelas respostas dá origem ao sentimento e, como se percebe, pode ter diversas proveniências, de acordo com a justaposição dos estados corporais ao mapa geral disposicional. Aqui, surge a interessante hipótese de um
mecanismo ficcional neuronal, cerebral, que permitiria a este fazer uma simulação
representacional dos efeitos de uma determinada acção no seu futuro estado. A incapacidade de construir este tipo de representações estaria no cerne do problema de
139 DAMÁSIO, 1995:153. Os destaques são do autor do livro.
Phineas Gage, por exemplo. É esta simulação que informa o cérebro acerca da preparação do corpo para uma determinada acção. No caso de ser encontrada uma decisão aceitável para a homeodinâmica, ela é implementada no circuito "real", paralelo a este.
Como já foi dito, nesse processo intervém mais do que a "razão pura". As sensações viscerais e não-viscerais (dos "sentidos externos") constituem importantes balizas para a tomada de decisões. A relevância destes elementos é bem ilustrada quando surge a ocasião em que é necessário tomar uma decisão rápida e não é possível tomar em consideração todos os prós e contras. Mas, por outro lado, quem ainda não viveu uma ocasião em que a hesitação na consideração das consequências impede, prejudicialmente, uma tomada de decisão? Ora, são as representações gravadas na memória que vão auxiliar nesse processo, e não há dúvida que as emoções e sentimentos são essenciais, já que representam estados anteriores, autênticos exemplos.
Estas condições reflectem-se no comportamento “somático”, isto é, em condições corporais observáveis. É a isto mesmo que Damásio chama "marcadores somáticos". A sua utilidade na análise de situações e filtragem de possibilidades futuras é grande, uma vez que têm origem na experiência, «sob o controlo de um sistema interno de preferências e sob a influência de um conjunto externo de circunstâncias que incluem não só entidades e fenómenos com os quais o organismo tem de interagir, mas também convenções sociais e regras éticas».140 Todo um conjunto de representações entra na tomada de decisão, no raciocínio. Em particular, o sistema nervoso converge para elaborar, no cérebro, um mapa complexo do estado do corpo num determinado momento. Com esta representação, são avaliadas as condições de sobrevivência e manutenção da homeostasia (ou "homeodinâmica"), processo em que as áreas corticais são essenciais.
Sobre este mapa primário, mas dinâmico, são impressas as condições do ambiente, percebidas em cada momento dado, e as suas consequências sobre o estado do organismo. Isto implica uma representação altamente funcional e operativa do conjunto de factores que pode influenciar a homeodinâmica do organismo, bem como informação contínua. Um mau funcionamento das estruturas cerebrais envolvidas provoca uma diminuição nas capacidades que permitem ao indivíduo intervir no mundo,
140 Idem, pp.190-1.
ou mesmo proferir juízos verosímeis (de um ponto de vista lato, e não somente lógico) acerca do mundo.
O valor intuitivo de marcadores somáticos, como a condutibilidade eléctrica da epiderme, é extremamente importante, por exemplo, na criação artística, mas não é de somenos a sua contribuição para o "entusiasmo" da proximidade de uma descoberta científica, como o que é descrito por Einstein nos anos da teoria da relatividade, ou a irrupção de um momento de "iluminação" cognitiva – nem todos os marcadores somáticos (relativos aos estados do corpo) são conscientes. A complexidade dos sistemas cerebrais envolvidos é tal que, embora se saiba que a interligação dos sinais provenientes de níveis evolutivamente distintos do cérebro ocorra na região específica dos córtices pré-frontais ventromedianos, situados na zona interna dos lobos frontais, sobre as órbitas oculares, a sua descrição não é ainda completa. Contudo, o conhecimento de facto existente permite uma compreensão geral do seu papel.
Todas as interacções e representações associativas são elaboradas em processos de “construção” de imagens ficcionais. A sua implementação, enquanto passagem à “prática”, é um objectivo sempre presente, mas há múltiplos processos a decorrer num momento dado: as associações dão origem a simulações de comportamento e acção, que podem ou não ser conscientes; estas, por sua vez, são testadas (analisadas) em processos de comparação com o mapa neural dos estados corporais e com a memória a longo prazo. Mais uma vez, tal pode não ser consciente. A decisão leva à acção, normalmente com o objectivo de melhorar a situação geral do indivíduo. A teleologia da representação neural é accional, e dirige-se à modificação dos estados do indivíduo e do mundo, para que ele possa subsistir e desenvolver os seus objectivos nessa acção. Evidentemente, esta é uma situação dinâmica, em que são necessários ajustamentos contínuos, pelo que, em termos evolutivos, a possibilidade de recurso à consciência, à capacidade de abstracção baseada na observação, à decisão racional orientada para objectivos de longo prazo e assente em mecanismos de aprendizagem, contribui para o aumento das possibilidades de sobrevivência. Se for tomada em consideração a forma como as tecnologias cumulativamente abstractas modificaram o habitat humano, é fácil compreender a importância da especificidade do sistema nervoso humano.
16.1: Representação, aprendizagem e socialização mimética: “neurónios- espelho”
Os “mirror neurons” (neurónios-espelho) são das mais recentes descobertas da neurociência. Este conjunto de neurónios, detectados pela primeira vez no lobo frontal de símios, mostra actividade em ocasiões suficientemente específicas para intrigar os especialistas: dispara quando um comando motor é executado, não apenas pelo próprio corpo, mas também no caso de o observar noutro indivíduo. Os "neurónios espelho" criam uma espécie de empatia automática com as acções observáveis de outros indivíduos, permitindo uma operação de simulação interna das suas intenções e objectivos. Mas este conjunto de neurónios tem ainda uma ligação com a área de Broca, relacionada com a capacidade expressiva e sintáctica da linguagem, o que faz pensar que também poderá estar intimamente relacionada com a aprendizagem dos movimentos da língua e dos lábios - ou seja, na aprendizagem mimética. Para alguns neurocientistas, a interligação destes sistemas e o seu papel nas capacidades de mimetização e empatia é essencial para o aparecimento das linguagens naturais e abstractas, e não pode ser desligada da evolução humana.
Segundo V.S. Ramachandran141, cerca de cinco por cento das vítimas de
acidentes vasculares cerebrais no hemisfério cerebral direito negam veementemente, não apenas a sua incapacidade de mover um braço paralisado, mas, curiosamente, também a de outros pacientes com incapacidades semelhantes. O reconhecimento da limitação é bloqueado pela lesão nos "neurónios espelho", e o indivíduo não consegue finalizar uma comparação entre a intenção de mover o braço e a acção efectivamente realizada – não reconhece nem confirma a efectividade do estado intencional correspondente.
Para além deste aspecto do papel dos neurónios-espelho, alguma pesquisa efectuada com autistas mostrou uma possível ligação entre o mau funcionamento destes neurónios com condições patológicas:
141Cfr. RAMACHANDRAN 2004, passim.
«(…) Numerous converging lines of evidence suggest that the mirror
neuron system is involved in processes such as imitation, language, theory of mind, and empathy. As ASD [autism spectrum disorder] is defined by behavioral deficits in many of these areas, there is reason to believe that impairments in the mirror neuron system may play a role in the social and communicative deficits associated with ASD.»142
Ora, esta possível associação comportamental revela não apenas a extraordinária importância deste centro cerebral na aprendizagem linguística e social (isto é, na construção de representações operativas), mas também para a capacidade linguística, incluindo a sua relação com as funções motoras. Como já fora explicado na abordagem das hipóteses de António Damásio, estes fenómenos ilustram a estreita interdependência entre o comportamento simbólico (ou simbolizante) do ser humano e a sua sociabilização motora, i.e., a interacção com os outros.
«Once another individual’s actions are represented and understood in
terms of one’s own actions, it is possible to predict the mental state of the observed individual, leading to theory of mind abilities. Furthermore, it has been proposed that theory of mind is the core deficit in autism, which leads to the inability to understand others’ thoughts and behaviors. Similarly to theory of mind, empathy requires the ability to understand another individual’s internal mental state.»143
Estas asserções, prenhes de consequências para as ciências da comunicação e da educação, trazem à luz do dia o papel da empatia como “função” simbólico-motora, que influencia tanto a capacidade lógica (verbal e intelectual) como prática (comportamental) do estar-no-mundo. Isto vai de encontro à ideia de uma ligação estreita entre a representação e a acção humana, e corresponde ainda à possibilidade de ligar o desenvolvimento das capacidades comunicacionais e cognitivas humanas com o processo de hominização e artificialização do habitat do Homo Sapiens.
142 RAMACHANDRAN et al., 2005:196. 143 Idem, p.191.
É a este conjunto de capacidades simbolizantes que se atribui grande importância no processo de acção sobre o mundo, ou seja, de construção de um ambiente ecotecnológico, em que o ser humano vive, trabalha e comunica. Um dos aspectos fundamentais das ideias expostas por Ramachandran, como se pode verificar na citação anterior, é o papel da empatia nos processos de aprendizagem, nomeadamente como capacidade de compreender ou, no mínimo, de teorizar as razões e emoções dos outros, expressas simbolicamente de forma verbal ou não verbal.
Parece evidente que, na ausência desse tipo de capacidade, ficam comprometidas as capacidades social e simbolizante do indivíduo. Por outro lado, compreende-se que deverá ser equacionada uma capacidade equivalente para a compreensão do mundo, isto é, que permita ao ser humano a observação e compreensão das regularidades do mundo, condição essencial para a passagem a qualquer forma de conhecimento.