6.3 Caractéristiques
6.3.2 Analogies avec le contrôle sensorimoteur
Reflectir sobre o próprio conceito de repetição e reprodução não é um processo isento de riscos, particularmente no momento actual, em que tal parece evocar de imediato o fenómeno técnico e todo o poder da tecnociência. Ainda que, de certo modo, se esteja a tratar algo que é intrinsecamente humano em todas as suas facetas, entramos em contacto, como diria Freud, com uma profunda estranheza. De onde deriva esta desconfortável posição? Em que espaço conceptual se encontra, lendo Benjamin, a interrogação sobre as consequências de introdução de uma lógica maquínica de reprodução e repetição em todos – ou praticamente todos – os domínios da experiência humana?
Dada a sua visibilidade imediata para o conjunto dos membros de um dado grupo social, a comunicação é um dos sectores mais dinâmicos e competitivos, “responsável” por grande parte das trocas informativas e culturais da sociedade actual, essencial para a disseminação e conservação do conhecimento – cada uma das sucessivas tecnologias (a escrita, o registo de som, de a imagem, a sua convergência no multimédia) capturando e amplificando os efeitos da outra.
A cultura é, de facto, uma indústria que assenta, hoje em dia, sobre as mesmas infra-estruturas físicas e formais que a comunicação de massas. O mercado concebeu, de certa forma, uma estrutura político-económica para englobar comunicação e cultura. A ciência, por seu lado, nascendo de uma franja empirista e pragmática da filosofia, transformou-se definitivamente numa potência definidora da sociedade e da cultura. O resultado foi uma ramificação do saber e da técnica, erigida em múltiplas formas tecnológicas independentes, mas com origens científicas metodologicamente semelhantes.
57 Os Capítulos 5 e 6 resultam da reformulação da comunicação «Reprodutibilidade e Reprodução Técnica», apresentada ao 4.º Congresso da Sociedade Portuguesa de Ciências da Comunicação.
Importante para tal amálgama é a existência de suportes que permitem a confusão de forma é conteúdo – hoje em dia, aponta-se como cultura aquilo que pode não ser mais do que comunicação socializada, ou seja, fluxos de informação e dados que fazem sentido apenas num âmbito restrito e determinado por comunidades de sentido relativamente fechadas. Os “suportes” referidos são políticos, jurídicos e económicos – a democracia de massas, a igualdade de direitos e a economia de mercado – mas também, e sobretudo, tecnológicos: o livro, a fotografia, a gravação de som e imagem, o multimédia e, em particular, a Internet, cuja centralidade é evidente na actualidade, no âmbito da emergência das redes de comunicação. Como Marshall McLuhan defendia, o
medium determina a forma das mensagens que pode suportar e transmitir – o que
justifica o estudo conjunto dos dois fenómenos. Levando este aforismo a sério (embora apenas até um limite razoável – a criatividade humana encarrega-se, habitualmente, de explodir as fronteiras do possível para o exterior das suas formas tecnológicas) e o relacionarmos com os suportes, percebe-se como a massificação, no século passado, da indústria cultural e dos meios de comunicação teve consequências extremamente importantes para o conjunto da sociedade e, por outro lado, assenta quase exclusivamente na introdução constante de inovações tecnológicas.
Tentar compreender essa ligação tão próxima – entre a repetição, o sector dos
mass media e os problemas que pode introduzir uma tecnologia que tem na
reprodutibilidade dos resultados um dos seus pilares – é fundamental na interpretação da relação da sociedade actual com a própria tecnologia, agora cada vez mais debruçada sobre campos outrora exclusivamente humanos – a cognição, a estética, a política58. Como é evidente, não é possível deixar de reflectir sobre as biotecnologias, sobre o inevitável tema da clonagem humana, ou a propósito do modo como a realidade tecnológica parece, muitas vezes, seguir a ficção e a imaginação. Como base primeira da descoberta, a existência da repetição, enquanto regularidade natural, está no cerne da própria aventura humana pelo saber. O progresso científico é real em termos cumulativos (diacrónica e tendencialmente), ainda que não seja acompanhado por – nem origine – um progresso social paralelo em todos os momentos da História; se a noção de progresso pode ser criticada, do ponto de vista semântico e político, a acumulação de conhecimento nas ciências experimentais e puras está fora de qualquer dúvida.
58 Fenómeno aqui designado por externalização. Cfr. Cap. 1.
Comum a muitos dos elementos já referidos é a origem tecnocientífica. De facto, a ciência moderna, definida nos seus traços gerais há já cinco séculos, assentou a sua própria construção à detecção e utilização das “máquinas naturais”, ou seja, dessas regularidades ou “repetições” causais que o observador encontra no mundo natural e pensa poder utilizar. Tal é a origem do “princípio da máquina”. O próprio método científico foi elaborado como forma reprodutível, aplicável a qualquer objecto: é um mecanismo para descobrir ou, dito de outra forma, legitimar o experimentalismo. O seu sucesso durante e após o século XVI mostra bem as potencialidades desta forma de abordagem do conhecimento, que abandona a especulação ao campo da Teologia e elabora, para si mesma, um espaço ilimitado de investigação.
Assim, esta forma de conhecimento está, desde o início, voltada para uma compreensão mecânica dos fenómenos naturais. Assente numa filosofia do sujeito que viria a ser posta em causa no século XX por autores como Foucault, Derrida ou Deleuze, adopta a causalidade como estrutura e a repetição de resultados, observações, movimentos e relações como fonte e resultado da construção do conhecimento. O seu valor cumulativo, que pode ser constatado nas possibilidades de integração de tecnologias introduzidas durante os últimos duzentos anos, foi responsável por uma autêntica conquista do mundo natural e num domínio de grande parte das “máquinas naturais”.
Conceptual ou prático, este conhecimento extenso da machina mundi estende-se da queda dos graves à química orgânica e ao ADN. Mesmo que uma verdadeira compreensão das leis – que passaria por uma forma de conhecimento profundo da existência do mundo – tenha sido posta de parte como algo de exterior às capacidades humanas (ou, na melhor das hipóteses, deste modelo de ciência), o conhecimento já adquirido é de natureza eminentemente pragmática59, e é tecnologicamente traduzível num excesso de intervenção no Mundo por parte do Ser Humano.
59 O projecto pragmático americano, de William James e Charles Peirce, aponta justamente a eficácia de um conceito como a medida para a sua verdade. Se uma lei ou processo resultam sempre, podem ser considerados verdadeiros, do ponto de vista operativo. A dúvida universal não é produtiva, porque (1) dificilmente alguém se pode libertar completamente de seus preconceitos e crenças prévios para encetar uma investigação; (2) investigar e filosofar a partir de uma dúvida artificial não é racional, i.e., quando se coloca algo em causa deste modo não existe uma razão efectiva para o fazer – mero cepticismo; (3) duvida-se de algo porque esse algo já existia previamente na mente, o que conduz a uma pequena investigação para confirmar a razão de ser dessa dúvida – e se, e só se, essa razão for confirmada a dúvida dá lugar a descrença. A dúvida não dá orientação para a acção, o que é essencial, uma vez que as teorias
A construção de uma máquina é um processo tão lógico quanto mecânico: não pode haver contradições, nem falhas. As suas limitações são esclarecidas pelas próprias leis que permitem a construção. À medida que o olhar humano penetra novos campos, novas realidades, descobrindo outras formas de usar a seu favor aquilo que vê na Natureza, surgem novos conceitos e são divisadas formas de os operacionalizar. Assim, o método científico “clássico”, experimentalista, modelo intelectual de uma terrível eficácia, tem um complemento lógico que é a aplicação. O que não equivale a dizer que o processo de invenção seja previsível.
Entra-se, aqui, no campo mais delimitado da técnica. Todavia, parece precipitada a divisão entre teoria e prática, uma vez que foi justamente a negação dessa divisão que permitiu à ciência nascente, durante os séculos XV e XVI, os primeiros progressos no seu espaço. Exactamente por isso, prefere-se, hoje em dia, falar em tecnociência. Palavra que, de resto, evoca imediatamente o paradigma tecnológico da existência, do conhecimento e da investigação: o computador, a electricidade, a clonagem e a viagem espacial, e não a lei da gravidade, o electromagnetismo e a linguagem binária. No entanto, esquecer a estreita articulação entre a aplicação e a teoria é fechar os olhos a um problema estruturante: a passagem da teoria à prática como concretização.
Este problema epistemológico conduz à interrogação do próprio funcionamento da mente humana: a percepção está mais alerta para as repetições, para as regularidades da envolvente. É uma forma de encontrar sentido no quotidiano, tanto ao nível do senso comum, como da filosofia. Quando se alcança a ciência, este questionamento tornou-se, progressivamente, uma vocação profissional, sistemática. Bacon afirmava que antes de dominar a natureza é preciso compreendê-la. Galileo Galilei usa uma imagem medieval, o “Livro da Natureza”, para defender que a realidade natural está escrita em caracteres matemáticos, que é necessário compreender para escapar à ignorância e escuridão da condição humana.
pragmatistas afirmam a inerência da acção à crença (ou seja, a crença é algo a partir do qual agimos e que construímos a partir da nossa acção no mundo). Ainda no seguimento desta crítica ao «espírito do cartesianismo» na perspectiva peirceana do «espírito do experimentalismo», encontra-se uma negação da capacidade individual de decidir acerca da verdade de uma ideia. Se Descartes afirma que a certeza é como uma decisão individual, o pragmatista considera que, deste modo, qualquer pessoa se pode afirmar convencida do que quer que seja, já que não tem de submeter a sua crença a qualquer outra prova. Obviamente, isto insere-se no projecto de Peirce de tornar a filosofia uma ciência em que haja confronto de ideias e discussão científica em comunidade, colocando a intuição e a introspecção num plano secundário.
Esses caracteres matemáticos estão para a tecnociência como o alfabeto fonético para a imprensa, e é a percepção e compreensão da sua repetição que permite a passagem do primeiro para o segundo. Por outro lado, surgem como bases para a abordagem da técnica e do artificial como parte integrante do mundo humano.
Heidegger, no texto fundamental já mencionado60, não hesita em apontar a arte, enquanto retorno a um modo primordial de relação criativa com o mundo (poiesis), como a alternativa por excelência à instrumentalização da Natureza e do próprio Homem pela tecnociência moderna. Todavia, e apesar das insuficiências da teoria de Gilbert Simondon, parece mais adequado pensar a tecnologia como algo de incontornável, indispensável e, sem dúvida, globalmente positivo para a construção de uma humanidade em relação cada vez mais próxima com o seu ambiente. A verdade, porém, é que essa proximidade tem de ser reconstruída, e será certamente tecnologicamente mediada – no mínimo, porque a gestão do mundo, na sua globalidade, é um empreendimento tecnológico, mas sobretudo porque a minimização dos grandes riscos ambientais (aquecimento global, fugas de radiação, derrames de petróleo, entre outros) depende, cada vez mais, da capacidade de desenvolver e implementar tecnologias correctivas que, por outro lado ainda, assegurem uma sustentabilidade real. Corre-se, sem dúvida, o risco de perder o Homem, tal como ele é definido no seu
rapport mais ou menos ruralizante com a natura mais originária; mas não será este um
horizonte perdido a partir do momento em que o ser humano tentou medir forças com os elementos, procurou conhecer a sua forma de funcionamento e forçar a Terra a render- lhe os seus tesouros?
É neste ponto que começa o processo de concretização dos objectos técnicos, mas também do Homem. Tomando tal inevitabilidade como adquirida, revela-se como duplamente necessária, não um extremo de reserva como sugere a atitude Amish, nem um voltar de costas utópico heideggeriano, mas uma percepção dos riscos que uma atitude acrítica apresenta. Ou seja, compreender se os custos do abandono da tecnologia compensam os riscos e desafios que ela coloca à Humanidade. A economia industrial moderna e a arte são pontos de observação privilegiados para esse estudo e questionamento (como defende Lewis Mumford, na obra Arte e Técnica). E, em
60 «A Questão da Técnica», aqui consultado na sua versão em língua inglesa (HEIDEGGER 1977). Cfr. Caps 2 e 3 supra.
conformidade, questionar, com Heidegger, Simondon, Latour, McLuhan e outros, a vida humana em relação estreita entre a tecnologia, a arte e a Natureza.
Tal como é possível afirmar que a teleologia da técnica leva à destruição e esgotamento, não será também digna de consideração a hipótese de uma escatologia tecnológica conducente, em última análise, à harmonização e equilíbrio dinâmico entre tecnologia, Homem e Natureza (sem condenar esta última a uma integração total na esferaa administrativa tecnológica)? Mais uma vez, é essencial assumir uma relação de
maioridade com a técnica, percebendo que a capacidade de mobilização geral do mundo
sob a forma de reserva disponível, se traz benefícios, também passa a incluir i ser humano – o que condiciona tanto a visão dominante (instrumentalizante) do mundo como a definição do que é ser humano. É para esta realidade que Heidegger procura alertar: a clássica definição ecogenética do Homem é, a cada momento, posta em causa pela concretização técnica – o que está patente, sobretudo, nos medos despertados pela possibilidade de criação de clones e de manipulação dos genes constituintes da vida –, mas tem como pano de fundo uma atitude geral da metafísica ocidental, i.e., a filosofia do sujeito. Se a arte e o mito, enquanto atitudes criativas e reveladoras, são formas de expressão e construção muito diferente da instrumentalização do mundo pela tecnologia, pondo o Homem em contacto com o Ser através da mediação da linguagem, não o são, claramente, na mesma medida do valor operativo e explicativo da ciência tão valorizado na contemporaneidade. Trata-se um modo distinto de compreender o lugar do ser humano no Mundo como, aliás, Heidegger e Mumford defendem claramente nas suas obras. No caso deste último, a questão é colocada da seguinte forma:
«Todo o nosso poder e conhecimento, as nossas descobertas científicas e êxitos técnicos, têm vindo a perder sentido porque o homem ocidental voltou costas ao verdadeiro âmago e centro [sic] da sua vida (...) a vida espiritual do homem fica confinada à parte que, directa ou indirectamente, serve a ciência e a técnica.»61
O confinamento advém de uma subordinação da vida humana aos parâmetros da tecnologia, o que apresenta um conjunto de limitações muito sérias ao pontencial de
61 MUMFORD, 1980:16-7
expressão do indivíduo e, por outro lado, determina a sua existência no âmbito deste sistema de produtividade a todo o transe. Ainda que à custa da sua individualidade, o Homem é integrado na mesma intimação forçada do mundo natural – exactamente com o mesmo objectivo de reproduzir e perpetuar o dispositivo (Gestell) tecnológico.
Numa perspectiva puramente ecológica, é razoável que a concretização dos objectos técnicos percorra aquele caminho que leva ao melhoramento da relação entre técnica, sociedade e Natureza, conduzindo a um desvelamento/revelação menos destrutivo e, acima de tudo, menos distante. Mas, na realidade, seria mais indicada uma tomada de consciência crítica do modo como a tecnologia moderna se projecta no mundo e se apropria dele. Foi esse o objectivo da análise, nos capítulos que se seguem, do estatuto da repetição em relação, não apenas à actual tecnologia, mas ainda à produção e percepção humana do Mundo e seus fenómenos.