10.3 Contexte automobile
11.1.2 Sûreté de fonctionnement
Como tem sido sublinhado, as representações construídas pelo cérebro são necessárias para uma qualquer forma de acção, num sentido lato. Realizar um movimento ou pronunciar palavras são acções complexas, que pressupõem o correcto funcionamento do sistema nervoso central e periférico, sistemas motores e sensoriais, para que ocorra uma boa articulação (sequencial ou simultânea) de todos os passos. Para além da própria maturação do sistema nervoso, é necessária uma aprendizagem prévia da articulação – caso não se trate de algo de inato –, passando depois aos passos anteriormente referidos de activação das representações para a execução. A tecnologia expande e amplia a capacidade de acção e o valor das representações construídas.
Também já foi verificada a importância dos estados corporais para a realização de acções e para a decisão. António Damásio resume as bases de uma unificação da seguinte forma: «(...) Corpo, cérebro e mente são manifestações de um organismo vivo. Embora seja possível dissecar estes três aspectos de um organismo sob o microscópio da biologia, a verdade é que estes três aspectos são inseparáveis durante o funcionamento normal do organismo.» 144
A representação de estados internos ou externos depende desta integração completa, e vê-se diminuída em eficiência, clareza ou operatividade quando esta é posta em causa. Para além deste aspecto, compreende-se que é das imagens dos objectos (representações), e da qualidade destas que depende o estabelecimento de um campo cultural comum na sociedade; a função reguladora das representações internas e externas (i.e., dos estados do corpo e do ambiente) permite ao organismo subsistir, mantendo um estado de homeostase, embora estas também operem como a base simbólica da experiência humana, da interacção social e da acção sobre o mundo – que, todavia, adquirem uma complexidade maior, na medida em que são construídas em intersubjectividade.
144 DAMÁSIO, 2003:220. Para uma iteração completa e clara da hipótese de Damásio sobre a construção de “imagens”e a emergência da consciência, cfr. pp. 218-20.
Um dos problemas apontados à versão forte da Inteligência Artificial145, segundo a qual é possível criar uma máquina (computador) cujo funcionamento mimetize perfeitamente o do cérebro humano, é a especificidade emocional que faz com que a mente humana funcione deste modo e não de outro, ou seja, não totalmente determinado pela capacidade de calcular racionalmente as relações entre as representações. O carácter formal e sintáctico do funcionamento de computadores e programas esconde o problema da necessidade de acrescentar semântica para uma aproximação à mente humana; assim, a programação dos computadores, feita por seres humanos, responde a necessidades exprimíveis sob a forma de conteúdos semânticos, mas é decomposta e analisada em substância, justamente para que o computador possa operar sobre o código. Para um computador, uma carta de amor ou uma equação são absolutamente não significantes. Mesmo o mais complexo programa de xadrez não conhece o significado da derrota ou da vitória. Consiste em cálculos e não em acções significativas.
Ao contrário do código maquínico (decomponível em código binário), as representações com que o sujeito opera (fruto das interacções neuronais) têm significados precisos, ainda que subjectivos. Uma das marcas dessa subjectividade é a emoção, que atribui "etiquetas" de valor aos objectos representados (que podem ser praticamente tudo), e faz com que seja possível, de facto, dirigir os estados mentais, a cada momento, a alguma coisa específica, que se sabe nomear e classificar – ainda que nem sempre comunicar claramente.
A definição de estado intencional é bastante complexa. Todavia, como foi dito no final do capítulo anterior, é um estado sobre algo que se encontra junto do indivíduo, i.e., com que este entra em contacto no mundo. Nas palavras de John Searle, no início da sua obra Intencionalidade, «(...) a intencionalidade é a propriedade de muitos estados e eventos mentais pela qual eles são dirigidos para ou acerca objectos e estados de coisas no mundo»146. Ocorre, portanto, sempre que o ser humano efectua um juízo ou sempre que se apreende algo sobre o mundo, mas não no contexto de um acto reflexo (ou, por exemplo, de um susto com algo que surge de repente do escuro).
145 Cfr. SEARLE 2002. 146 SEARLE, 1999:21.
Os estados intencionais são, portanto, estados mentais dirigidos, constituídos por um conjunto de operações realizadas sobre representações existentes na mente, produzidas pelo cérebro. A solução do problema corpo/mente, para John Searle, é justamente evitar o fisicalismo ou mentalismo extremos, já que a sua compatibilidade pode ser estabelecida «(...) os estados mentais são, não só causados pelas operações do cérebro, como também realizados na estrutura do cérebro (e no resto do sistema nervoso central)»147. Falar de uma relação causal é errado, uma vez que não é claro quanto à completa interdependência. Os estados cerebrais não causam os estados mentais, e vice-versa – não são separáveis, no estrito sentido da palavra. São as propriedades físicas do cérebro que fazem com que ocorram estados mentais e cerebrais. Esta é, aparentemente, e tanto quanto se sabe, a origem dos estados intencionais. Se for tomada em consideração a sua relação intrínseca com os objectos do mundo, percebe-se a importância do carácter referencial das representações.
A realização de um movimento, por exemplo, pode ser caracterizada como a concretização prática de um estado intencional (por exemplo, a necessidade de pegar na escova de dentes). Os elementos conceptuais, lógicos e físicos têm de estar presentes, explícita ou implicitamentente e, obviamente, a realização do movimento através das vias motoras e dos músculos vai ter consequências sobre o estado posterior. Todo o processo se serve de mecanismos físicos fisiologicamente explicáveis, quer ao nível do cérebro, quer dos músculos. Obviamente, a divergência mais importante é a da conjuntura experiencial do indivíduo que executa a acção (pelo menos, enquanto não for estudada com precisão a natureza das relações entre as condições físicas e os estados mentais nos indivíduos). Apesar de poder parecer paradoxal, esta "emanação" de realidades não físicas de um conjunto de partículas organizadas, os estados mentais não podem ser negados meramente postulando uma dualidade entre mente e matéria, embora, por outro lado, a sua complexidade dificilmente possa ser reflectida somente através da consideração das interacções das representações.
Uma vez que, no cérebro, não parece ser possível separar processamento e armazenamento de informação, a resolução da questão terá de passar por um estudo mais profundo do sistema nervoso. Os níveis físico e mental não podem ser separados, caso a intenção seja uma compreensão integrada do humano. «O que é
147 Idem, p. 329. Os destaques são do autor do livro.
psicologicamente relevante acerca do cérebro é o facto de que ele contém processos psicológicos e tem uma neurofisiologia que causa e realiza esses processos»148. Não há dúvida que é o aparelhamento neuro-sensorial que fornece a matéria para esse conhecimento, muito embora esse mesmo conjunto de sistemas seja conferido geneticamente, e tenha sido desenvolvido durante a evolução como espécie do ser humano.
Dada a multiplicidade de indivíduos e formas de experiência integradas em culturas díspares, a possibilidade de construção de conhecimento objectivo, passível de transmissão, parece quase milagrosa. Pode dizer-se que a intencionalidade e a estrutura da acção supõem uma operatividade das representações mentais, para além de referencialidade. Ou seja, se os estados mentais têm de dizer respeito a algo, também têm de permitir o seu uso para a construção posterior de representações mais complexas, incluindo aquelas que dão origem a acções sobre o mundo. A elaboração de uma visão do mundo – incluindo uma visão estética – tem origem na capacidade de representar os estados do mundo, de tal forma que isso vá permitir uma forma de acção sobre ele.
É aqui que a filosofia pode ajudar ainda mais profundamente. O ser humano possui, inatamente, um aparelhamento que permite apreender o mundo e fazer um trabalho produtivo sobre as suas percepções, adquirindo progressivamente experiência e memória – aprendizagem cumulativa essencial. A linguagem assume, neste aspecto, um papel essencial. É ela que permite a acumulação comunitária de conhecimentos, a partilha e a construção, dependendo também da plasticidade dos sistemas cerebrais. Este está concebido de forma a "processar" os dados dos sentidos e usá-los para permitir construções mais ou menos abstractas que possibilitem a sobrevivência do organismo, mas é também o centro cujas capacidades e plasticidade dão origem a todas as realizações humanas.
A construção de conceitos a partir da experiência supõe a objectividade das representações, i.e., uma forma de as activar numa relação de correspondência com o mundo. É nesta medida (operatividade) que a noção de intencionalidade ajuda a compreender a articulação entre as representações, enquanto estados mentais, e a acção humana sobre o mundo: aquilo que tem origem na percepção e é "processado" pela mente é devolvido ao mundo depois de transformado pelas necessidades
148 SEARLE, 2000:63.
especificamente humanas. A hierarquia de valores é estabelecida pelo indivíduo, e é subjectiva, mas o facto de as representações encontrarem caminhos de volta para o mundo não engana quanto à sua utilidade para a sobrevivência e acção da espécie humana.
A perspectiva subjacente às ideias de António Damásio é, justamente, que o aparecimento evolutivo das estruturas neocorticais, extremamente importantes para as funções superiores do ser humano (como a linguagem, a expressão de emoções, entre outras), permitiu, a certa altura, um salto qualitativo na situação geral da espécie, num progresso a todos os níveis extraordinário. Foi essa evolução que tornou possível a auto- consciência que faz dos próprios processos de conhecimento generalizado um objecto de conhecimento.
Também não há dúvida que o aparelhamento inato dos seres humanos lhes confere as condições para conseguir construir uma concepção do mundo. As formas de representação que o cérebro permite dão origem a percepções ainda mais adequadas – porque informadas – do real e, assim, ampliar a complexidade dessa visão geral da experiência. Coloca-se, então, uma questão relevante: pode a compreensão do funcionamento do sistema nervoso e a dilucidação dos mecanismos do pensamento e criação conferir uma alternativa às ciências humanas, tal como as conhecemos? Alguma neurociência, de facto, coloca essa questão com alguma seriedade e resposta pronta.149 O questionamento da pertinência das questões e do valor heurístico da psicologia é mais profundo no que diz respeito à psicanálise, mas cada passo dado em direcção a uma explicação dos mecanismos biológicos do inconsciente (como a questão do papel dos marcadores somáticos) revela que, para lá do problema físico, persiste a necessidade de considerar os estados mentais.
É óbvio que a neurologia não assume, a este respeito, um papel totalizador. O conhecimento da anatomia e fisiologia do cérebro e do restante do sistema nervoso, por muito útil que se venha a revelar (ainda mais) no futuro, nunca poderá substituir completamente um conhecimento psicológico e "mental" do ser humano. Não se pretende substituir a filosofia por uma neurofilosofia exclusiva mas, pelo contrário, criar as condições para poder falar do humano de modo integrado e profundo, ampliando o conhecimento através da ciência biológica e das hipóteses avançadas pela especulação
149 Para uma breve discussão acerca desta temática, cfr. La Neurophilosophie, de Bernard Andrieu.
sobre o modo como a mente humana funciona – esforço que é, de resto, tão antigo quanto a própria espécie.
Importa, sobretudo, avançar para fora do senso comum que, ainda que admiravelmente certeiro no seu conhecimento intuitivo da mente humana, não serve para compreender a possibilidade de construir conhecimento. Aquilo que a neurobiologia acrescenta a muito do que as ciências humanas estudam não é só uma perspectiva objectiva e verificável, mas também um modo de ver a realidade que pode ser determinante para a construção de um conhecimento sólido acerca do próprio pensamento. E que forma melhor de o fazer, senão compreendendo a relação que o Homem consegue estabelecer, através dele, com a realidade?
Uma vez descoberto o assento do pensamento no cérebro, a decifração do seu funcionamento só poderá esclarecer o Homem acerca de si próprio. É importante implementar uma compreensão mais adequada da representação do mundo pelo ser humano, que abandone o dualismo e se coloque firmemente no domínio da cultura, estabelecendo ligações e jogos simbólicos com os diversos aspectos do mundo representado. Daqui se compreende a necessidade da reflexão sobre estes mecanismos de interacção entre o cérebro, o corpo e o mundo para o esclarecimento do posicionamento fenomenológico do Homem e da sua tecnologia, na criação de novas formas de existência. Em particular, torna-se possível conceber a interacção multímoda entre seres humanos e a máquina, através de uma fenomenologia de base neurológica, informacional. Em capítulos subsequentes, procura-se compreender como a introdução de mecanismos mediadores neste sistema implica alterações profundas, nem todas previsíveis ou desejáveis, na forma de elaboração, aquisição e comunicação do conhecimento.