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STOPPING POWER

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CHAPTER 2. DOSIMETRIC PRINCIPLES,

2.6. STOPPING POWER

Neste trabalho, analisa-se a realidade a partir da teoria do espaço enquanto totalidade de Milton Santos (2006), pois as mudanças ocorridas nos lugares só podem encontrar explicações na totalidade, em movimento permanente. Essas condições relacionais se dão no espaço, são resultados materiais acumulados a partir das ações humanas. Portanto, o espaço está sempre em transformação, em virtude das bases materiais e imateriais indissociavelmente. Assim sendo, “o enfoque do espaço geográfico, como resultado da conjugação entre sistemas de objetos e sistemas de ações, permite transitar do passado ao futuro, mediante a consideração do presente” (SANTOS, 2006, p. 100). Nesse sentido, para a compreensão dos fenômenos contemporâneos, assim como para a leitura crítica das relações entre objetos e ações, recorre-se às seguintes categorias de análise propostas por Santos (2006): território usado, verticalidades e horizontalidades, tecnosfera e psicosfera e território como recurso e território como abrigo (Figura 2).

Figura 2- Diagrama das categorias de análise da pesquisa

Elaboração: a autora, 2017

O território usado, entendido como espaço banal, espaço de todos, permite-se visualizar os diferentes agentes, e não somente os hegemônicos. Em outras palavras, considera não somente as formas de dominação, mas também as de resistências (CATAIA, 2011). Nesse sentido, o território usado, visto como totalidade, é muito significativo para análises da realidade contemporânea; revela a estrutura global da sociedade e a própria complexidade dos seus usos. O território é, hoje, passível de ser usado, com o conhecimento simultâneo das ações empreendidas nos diversos lugares, por mais distantes que eles estejam. Isso permite, também, a implantação de sistemas de cooperação bem mais largos, amplos e profundos, agora associados mais estreitamente a motores econômicos de ordem não apenas nacional, mas internacional. De fato, os eventos são, hoje, dotados de uma simultaneidade que distingue das simultaneidades precedentes, pelo fato de ser movida por um único motor, a mais valia no nível mundial, que é, em última análise, responsável, direta ou

•Indissociabilidade entre sistemas técnicos e sistemas de ações. •Local/global •Uso do território a partir de práticas agroecológica e orgânica •Espaço banal (Espaço de todos) Território Usado Território como recurso e Território como abrigo Tecnosfera e psicosfera Verticalidade e horizontalidade

indiretamente, pela forma como os eventos se dão sobre os diversos territórios. Essa unificação se dá em grande parte, através do nexo financeiro e conduz a uma reformulação do espaço em escala mundial. (SANTOS, 2006, p. 137).

Portanto, a partir dos usos do território, é possível compreender como se edificam as materialidades, a partir dos processos produtivos, das diferentes intencionalidades dos diversos agentes sociais, das relações de poder e dos conflitos.

Nesses termos, o território como recurso e como abrigo, discutido por Santos (2006), a partir das ideias de Jean Gottmann, se apresenta como par teórico analítico relevante para compreensão do uso agrícola do território no Rio Grande do Norte. De acordo com Santos (2006), o território representa recurso para as empresas e abrigo e recurso para a população local. O território no Rio Grande do Norte tem uso e sentido diferenciado pelos agentes hegemônicos. Por esses agentes, o uso do território se realiza por meio da apropriação de terras, de água, da produção voltada para a exportação.

Portanto, o território é usado pelas empresas de acordo com as suas finalidades e seus interesses. Já a noção de território como abrigo está pautada em uma relação com a natureza que, embora também seja recurso, supõe a relação mais harmoniosa, que preserva os elementos da natureza e as relações sociais. No entanto, “o território como abrigo como aquele que abriga a solidariedade, não é cuidado pelo poder público, pelo poder do Estado, de tal forma que essa disjunção é causa de desordem” (SANTOS, 1997, p. 22). Dessa forma, “na realidade, a mesma fração do território pode ser recurso e abrigo, pode condicionar as ações mais pragmáticas e, ao mesmo tempo, permitir vocações generosas. Os dois movimentos são concomitantes” (SANTOS, 1997, p. 112).

Ressalta-se que a modernização da agricultura é marcada pela união vertical dos lugares. Os vetores de modernização do espaço agrário (empresas de insumos químicos, bancos, capital internacional, exportadoras, entre outros) “trazem desordem aos subespaços em que se instalam e a ordem que criam é em seu próprio benefício” (SANTOS, 2006, p. 287). Por outro lado, têm-se as horizontalidades expressas nas ações locais que não possuem vínculos ou interesses em servir à lógica vertical. Nesse sentido, os recortes espaciais

denominados verticalidades e horizontalidades contribuirão para a compreensão dos diferentes nexos que ocorrem no território do Rio Grande do Norte.

Sobre as verticalidades, entende-se o surgimento de novos processos, formas-conteúdos, e funções distintas, os comandos das normatizações, da certificação (vetores da modernidade), representados na regulação do território, na exclusão econômica e social dos camponeses. Por outro lado, há as horizontalidades fundadas na solidariedade orgânica, em relações sociais de proximidade geográfica e confiança, na cooperação entre os camponeses locais como respostas às verticalidades impostas pelas empresas exógenas, as quais se instalaram no território ou não, mas o regula por meio de suas normatizações, no período contemporâneo.

Para evidenciar tais horizontalidades, analisam-se as práticas agroecológicas, as organizações, as bases materiais, as intencionalidades que são diferentes das empresas, do grande produtor de produtos orgânicos, entre outros. Em outras palavras, quando se analisa o uso do território no Rio Grande do Norte a partir das verticalidades e horizontalidades, verifica-se a sobreposição de diferentes agentes sociais, que possuem interesses diferenciados, que estão em cooperação ou em conflito. Essa análise contribuiu para o entendimento das contradições do processo de produção e reprodução do capital, a natureza do capital que produz a agricultura orgânica, como esse capital age, como se dá as contradições exercidas pelo poder do Estado nesse processo.

Considerando que “[...] objetos criados deliberadamente e com a intenção mercantil são movidos por uma informação concebida cientificamente, por meio de um sistema de ações subordinado a uma mais-valia mundial [...]” (SANTOS, 2006, p. 216), a agricultura orgânica tanto carrega informação como necessita de informação para se legitimar. Portanto,para se entender as contradições que estão relacionadas ao processo de produção e reprodução do capital, a partir da agricultura orgânica e da agroecologia, recorre-se também ao par dialético tecnosfera/psicosfera, uma vez que a agricultura orgânica se realiza a partir de ambas, indissociavelmente. A psicosfera cria condições para a aceitação da tecnosfera.

A agricultura orgânica utiliza-se de técnicas, tanto tradicionais, como de sistema de comunicação moderno e de informação. Assim, a agricultura orgânica se dá por meio do que Santos (2006) denomina de ordem da forma

técnica, ordem da forma jurídica e ordem do simbólico. Essas são criadas para agilizar o mercado e controlar o território. Dessa forma, como já aludido, os produtos advindos da agricultura orgânica precisam de um selo atestando sua qualidade, mas também necessitam da retórica, do convencimento, para que ocorra a aceitação da racionalidade do objeto, sem grandes questionamentos. Nesse caso, o discurso não revela que a agricultura orgânica pouco altera a lógica da produção da agricultura convencional. Os discursos atrelados à legitimação da agricultura orgânica tentam passar a ideia de que os produtos são mais perfeitos que a própria natureza. Assim, os objetos modernos nascem com a enorme carga de informação, com função predeterminada, indispensáveis para produção e reprodução do capital (SANTOS, 2006). Por outro lado, a agroecologia se coloca como possibilidade, outro caminho, utopia realizável, oposição à psicosfera posta pelos agentes hegemônicos.

A utopia é sinal de que você vive como um homem – não como um animal. A diferença maior entre o homem e os animais não é o dedo não viu? Formiga trabalha, mas não tem utopia. Essa ideia de que utopia é irrealizável é companheira da vontade de brutalizar a vida social, de transformar o homem numa coisa. O que distingue o homem dos animais é exatamente a construção de temáticas para o futuro. Se eu não tenho capacidade de construir um futuro na minha mente, tenho que renunciar a ser um homem. Esse sistema é que nos tacha de “sonhador” (Milton Santos, entrevista ao Estado de Minas – 28 de maio de 2000

apud. DANTAS, TAVARES, 2011).

A agroecologia é entendida como alternativa, possibilidade e também oposição ao modelo da agricultura tecnificada/quimificada, enquanto que a agricultura orgânica está voltada para os nichos de mercados. A agroecologia consiste em nova abordagem, enquanto concepção de modo de vida, de sociedade, de regulamentação dos recursos naturais. Constrói-se a partir de aspectos da conservação de recursos naturais, com base na agricultura tradicional local, e ao mesmo tempo na incorporação de conhecimento e de métodos ecológicos modernos. Por conseguinte, trabalha na perspectiva da interação complexa entre todas as dimensões: ecológicas, técnicas, social, econômica e científica.

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