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IONIZATION CHAMBER DOSIMETRY SYSTEMS

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CHAPTER 2. DOSIMETRIC PRINCIPLES,

3.3. IONIZATION CHAMBER DOSIMETRY SYSTEMS

A agroecologia é entendida como prática agrícola anterior à Revolução Verde. Representa um conjunto de conhecimentos, técnicas e saberes que incorporam princípios ecológicos e valores culturais às práticas agrícolas que, com o tempo, foram desconsideradas, e até mesmo ridicularizadas frente ao projeto capitalista (Revolução Verde) voltado para a agricultura. Nesse sentido, a agroecologia se configura por meio de um campo de saberes práticos voltados para agricultura mais sustentável, orientada ao bem comum, ao equilíbrio ecológico do planeta, ao respeito ao meio ambiente e como ferramenta para a soberania alimentar. “É o caldeirão onde se amalgamam saberes e conhecimentos, ciências, tecnologias e práticas, artes e ofícios no forjamento de um novo paradigma produtivo” (LEFF, 2011, p. 37).

A Agroecologia rememora os tempos em que o solo era suporte da vida e dos sentidos da existência, onde a terra era torrão e o cultivo era cultura; onde cada parcela tinha a singularidade que não só lhe outorgava uma localização geográfica e suas condições geofísicas e ecológicas, senão onde se assentavam identidades, onde os saberes se convertiam em habilidades e práticas para lavrar a terra e colher seus frutos. Os saberes se confundiam com os sabores: o vinho era um produto da carícia ardente do sol sobre a dourada e redonda uva; seu fruto era transformado em um elixir de amor, marcando seu corpo em danças rituais, abraçando-o com mãos artesanais, colocando seus sucos em perfumadas barricas e destilando-os para convertê-los em água da vida. O vinho se degustava saboreando os saberes da produção e formando os saberes do gosto. A maestria da arte da colheita permitia um vínculo do produtor e do consumidor com os dons da terra. A cultura brincava com a evolução, reproduzindo e diversificando nas formas e nos

tempos os sabores do milho, da batata, da mandioca. A cultura coevolucionava com a natureza, hibridando-se e diversificando- se, multiplicando os sentidos da vida e as formas da natureza. Eram tempos em que o camponês extraía os sucosos e gostosos frutos da terra trocando seus excedentes em relações de complementaridade e reciprocidade e não por um mero interesse mercantil. (LEFF, 2011, p.37).

Nesse sentido, para se pensar uma nova sociedade a partir de processos produtivos, é preciso partir do princípio de que os sistemas de produção com base agroecológica são complexos, diversificados e integrados, sendo, portanto, intrínsecos à pequena escala. Os camponeses com base agroecológica é a única forma de fazer com que esses sistemas se perenizem. Diferente da lógica urbano-industrial, a qual pondera que quanto maior a escala, mais próspero é o sistema produtivo, quando na verdade é o contrário. Portanto, a agroecologia está relacionada à agricultura de pequena escala, caracterizada pela policultura, voltada, primeiramente, para a reprodução social, à valorização das práticas agrícolas e socioculturais dos agricultores.

A agroecologia concretiza o esforço de construção de um modelo de agricultura e de sociedade que atribui grande importância à agricultura camponesa, a partir de práticas que proporcionam o desenvolvimento humano, qualitativo e que não implicam em perdas ecológicas e socioculturais.

Candiotto e Meira (2014, p. 155) colocam que a agroecologia procura trabalhar com estratégias apoiadas em metodologias participativas, sob o enfoque interdisciplinar e de comunicação horizontal, a fim de compreender os sistemas de significação, os valores ideológicos, os estilos de vida, enfim, enfrentar os problemas agrícolas e agrários contemporâneos. Nessa perspectiva, os camponeses são considerados eficientes disseminadores de conhecimentos em suas redes de socialização.

Portanto, vale advertir que a organização da produção agroecológica é ligada a múltiplas dimensões: econômica, social, religiosa, afetiva e ética, logo, não privilegia a dimensão econômica; nutre-se dos saberes, dos conhecimentos e das experiências dos próprios agricultores. A reprodução da vida dos camponeses agroecologistas possui subjetividade e identidade que diverge da lógica de acumulação do capital. Num sentido mais amplo, segundo a Embrapa (2006), a agroecologia

[...] se concretiza quando, simultaneamente, cumpre com os ditames da sustentabilidade econômica (potencial de renda e trabalho, acesso ao mercado), ecológica (manutenção ou melhoria da qualidade dos recursos naturais e das relações ecológicas de cada ecossistema), social (inclusão das populações mais pobres e segurança alimentar), cultural (respeito às culturas tradicionais), política (organização para a mudança e participação nas decisões) e ética (valores morais transcendentes). (EMBRAPA, 2006, p.12).

Nesse sentido, a agroecologia se caracteriza como sendo as horizontalidades denominadas por Santos (2006), se expressa nas ações locais, não possui vínculos ou interesses em servir à lógica vertical presente na vida cotidiana. A agroecologia está relacionada a soberania alimentar. Desse modo, privilegia os camponeses, que criam as suas próprias normas, as quais valorizam os processos produtivos mais humanos, ecológicos e éticos. O objetivo não se restringe ao mercado, mas à produção de alimentos saudáveis para todos e em harmonia com o meio ecológico, por meio da valorização da biodiversidade, da valorização do saber local, a partir de sistemas diversificados, complexos e integrados. Seus ideais são relacionados à política baseada em concepções ecológicas de autogestão, de cooperação e de solidariedade (Figura 6).

Figura 6- Enfoques da Agroecologia

Fonte: elaborado pela autora, 2017.

Deve-se ressaltar que a agroecologia, embora exista antes da “modernização” da agricultura, surgiu, como estratégia de produção contrária a este processo, no início do século XX, na Europa (EMBRAPA, 2006). Enquanto ciência, a Agroecologia se concretiza na década de 1970, com o objetivo de estabelecer a base teórica para diferentes movimentos de agricultura alternativa, que ganhavam força com os sinais de esgotamento da agricultura moderna quimificada/tecnificada. Portanto, para alguns autores, a Agroecologia é ciência que busca o entendimento do funcionamento de agroecossistemas complexos, bem como a compreensão das diferentes interações presentes nesses, tendo como princípio a conservação e a ampliação da biodiversidade dos sistemas agrícolas (ASSIS e ROMEIRO, 2002).

Desse modo, a Agroecologia é considerada disciplina científica que transcende os limites da própria ciência, ao pretender incorporar questões não tratadas pela ciência clássica (relações sociais de produção, equidade, segurança alimentar, produção para autoconsumo, qualidade de vida, sustentabilidade). Logo, de acordo com a Embrapa (2006), a agroecologia traz,

• Saberes locais • Horizontalidades

• Solidariedade/cooperação

Social

• Equilíbrio ecológico do planeta • Biodiversidade

Ambiental

• Reprodução social

• Alcance espacial: local e regional • Normas consuetudinárias

Econômico

de novo, o embasamento conceitual e a abordagem metodológica, que permitem articular diversos ramos do conhecimento para o avanço de estudos sobre os fundamentos da sustentabilidade e dos sistemas agropecuários.

Assim sendo, a agroecologia, nos anos 1980, apresentou-se com enfoque científico na tentativa de mostrar novas maneiras de integrar a Agronomia com a Ecologia, em seguida, mostrou a importância do saber popular, sobre o ambiente e sobre o manejo dos recursos naturais nos processos produtivos agrícolas ou extrativistas, acumulado pelas comunidades tradicionais ou camponesas ao longo dos anos. Nesse processo de construção da Agroecologia como nova ciência, foram sendo incorporados aportes de outros campos do conhecimento: Sociologia, Antropologia, Física, Economia Ecológica, História, Geografia e tantas outras que ajudam a entender e a explicar a crise socioambiental gerada pelos modelos de desenvolvimento e da agricultura quimificada/tecnificada. Na verdade, então, a Agroecologia, no seu sentido mais comum, corresponde à ciência que ajuda a articular diferentes conhecimentos científicos e saberes populares para a busca de mais sustentabilidade na agricultura (CAPORAL e COSTABEBER, 2008). É uma alternativa diferenciada de organização produtiva e social.

Vale ressaltar que, no Brasil, a agroecologia enquanto movimento contra hegemônico se dá de forma restrita a espaços específicos e insipientes em várias regiões. No entanto, representa e questiona a atual lógica produtiva e a hegemonia de poder no espaço agrário, além de contribuir com a concretização e a manutenção do modo de vida de agricultores familiares brasileiros, sugerindo perspectivas alternativas de reprodução social (SAQUET et al, 2005).

Nota-se que está ocorrendo cada vez mais a popularização da agricultura ecológica, a partir dos meios de comunicação e informação, havendo, com isso, o aumento das feiras livres, isto é, de organizações comerciais que primam pelo contato direto, pelo estabelecimento de relação de confiança entre produtores e consumidores. No Brasil, “Já são 639 feiras orgânicas espalhadas em todo o país”. (MONTEIRO; LONDRES, 2017, p.74).

Nesse sentido, crescem os grupos de consumidores que desejam alimentos mais saudáveis. Assim sendo,

[...] a sociedade e as instituições reconhecem a agricultura alternativa, e procuram cada vez mais os produtos livres de insumos químicos, de modo que a partir da ampliação do interesse social, ‘[...] a institucionalização da agricultura ecológica, enquanto uma forma de produção é fomentada pelos aparelhos governamentais’ (BRANDENBURG, 2002, p. 23).

Segundo Hespanhol (2008), a partir dos anos 1980, houve o esgotamento do padrão de modernização da agricultura brasileira. Os governos mundiais, inclusive o brasileiro, passaram a ser pressionados pela população e por diversas organizações a adotarem medidas de controle ambientais, pois com a modernização da agricultura a natureza sofreu graves danos. Assim sendo, no momento atual, mais especificamente a partir da década de 1990, os produtos “ecológicos” tornaram-se reconhecidos pelo Estado. Consequentemente, deu-se início da normatização em relação à produção ecológica nacional. Portanto, os produtos ecológicos, a partir de então, precisam ter certificação, seguir normas de produção apresentadas nas embalagens para serem comercializadas no mercado convencional. Como consequência, há o aparecimento de empresas interessadas. Essas geram competição, seja em termos de preço, qualidade, processos e embalagens (BRANDENBURG, 2002, p. 21).

A produção de alimentos certificados, que não utilizam de produtos químicos advindos da revolução verde, tem sido confundida com a agroecologia. Essas interpretações expressam enorme reducionismo do significado mais amplo do termo agroecologia. De acordo com a Embrapa:

Observa-se, porém, que as Agriculturas Ecológicas nem sempre aplicam plenamente os princípios agroecológicos da Agroecologia, já que parte delas está orientada quase que exclusivamente aos nichos de mercado, relegando a um segmento plano as dimensões ecológicas e sociais. Isso fica claro quando analisamos o desenvolvimento das Agriculturas Ecológicas “de mercado”, onde se observam: simplificações dos manejos, baixa integração entre tais elementos, especialização da produção sobre poucos produtos, simples substituição de insumos químicos e biológicos e exígua preocupação com a inclusão social e criação de alternativas de renda para os agricultores mais pobre (EMBRAPA, 2006, p. 24).

Nesse contexto

,

vários autores estabelecem conceitos sobre a agroecologia. É entendida por Assis e Romeiro (2002) como ciência que busca

compreender o funcionamento de agroecossistemas complexos, com o princípio de sustentabilidade das atividades, por meio da conservação dos recursos naturais e menor dependência de insumos externos, a partir do potencial endógeno, isto é, presente no local. Altieri (2002) não considera a agroecologia como prática agrícola de produzir. Para o autor, ela consiste na ciência capaz de compreender os processos produtivos de maneira mais ampla. É definida como ciência ou disciplina científica apresentando uma série de princípios, conceitos e metodologias para estudar, analisar, dirigir e avaliar agroecossistemas, numa perspectiva de sustentabilidade que seja produtiva e viável economicamente.

Seguindo a mesma linha, Gliessman (2009) considera que a agroecologia se constitui em ciência; a agroecologia proporciona o conhecimento e a metodologia necessários para desenvolver a agricultura que é ambientalmente consistente, a qual responde bem a objetivos ambientais, sociais e econômicos.

Para Caporal; Costabeber; Paulus (2009), a agroecologia é entendida como a ciência portadora de enfoque metodológico próprio, mas com contribuições teóricas de diversos ramos do conhecimento. A agroecologia, para os autores, contempla a visão complexa, indo além do aspecto meramente técnico produtivo ou agroeconômico.

A agroecologia se consolida como um enfoque científico na medida em que este campo do conhecimento se nutre de outras disciplinas científicas, assim como de saberes, conhecimentos e experiências dos próprios agricultores, o que permite o estabelecimento de marcos conceituais, metodológicos e estratégicos com maior capacidade para orientar não apenas o desenho e manejo de agroecossistemas sustentáveis (CAPORAL e COSTABEBER 2004, p.13).

Nessa perspectiva, para esses autores, a agroecologia não descarta o progresso técnico e o avanço do conhecimento científico, mas propõem a criação de técnicas mais racionais e equilibradas, que levem em consideração o respeito ao meio ambiente, as especificidades de cada lugar, assim como as questões sociais, que não se restringem somente ao que é mais econômico. Candiotto et al (2008) concordam que cabe à agroecologia pensar na produtividade agrícola a partir da dinâmica de cada ecossistema, e de sua transformação em agroecossistemas sustentáveis, buscando compatibilizar benefícios ambientais, econômicos e sociais, sobretudo para os agricultores familiares envolvidos. Em

outras palavras, a agroecologia pressupõe o uso de tecnologias heterógenas, adequadas às especificidades locais e à cultura das populações e comunidades rurais que vivem em determinada região. Qualquer escolha técnica deve colocar em primeiro plano a perspectiva multidimensional, ou seja: social, ambiental, econômica, afetiva, cultural, política e ética.

Sevilla Gúzman (2000), a agroecologia não está atrelada somente à proposição técnica a ser adotada pelos agricultores familiares, trata-se, também, de uma proposição política, visto que há formação de base concreta de contestação à lógica da racionalidade econômica empregada pelo modo de produção capitalista.

O objetivo da Agroecologia não é, simplesmente, contribuir para uma produção mais sustentável, dentro dos mecanismos do desenvolvimento limpo, ou para ocupar nichos de mercado de produtos "verdes" dentro das políticas da globalização econômico-ecológica. O saber agroecológico contribui para a construção de um novo paradigma produtivo ao mostrar a possibilidade de produzir “com a natureza”, de gerar um modo de produção fundado no potencial ecológico-tecnológico da natureza e da cultura. O saber agroecológico se inscreve, assim, nas estratégias de poder, no saber pela sustentabilidade, que implicam à necessidade de uma política científico-tecnológica que favoreça seus processos de inovação e consolide suas práticas produtivas, pondo em jogo um complexo processo de recuperação, hibridação e inovação de saberes, em uma política de reapropriação cultural da natureza (LEFF, 2011, p. 44).

A agroecologia valoriza conhecimentos desprezados pela agricultura moderna e, ao contrário do que muitos dos seus críticos colocam, ao invés de representar a volta ao passado, procura utilizar o que há de mais avançado em termos de ciência e tecnologia para criar agroecossistemas sustentáveis e de alta produtividade, que apresentam características mais semelhantes quanto seja possível às dos ecossistemas naturais (GLIESSMAN, 2009), e não tecnologias possíveis de serem universalizadas, vendidas como “modelos”. Gliessman (2013) sustenta que:

La agroecología es más que un modo de practicarla agricultura, como la producción orgánica o ecológica. La agroecología es también un movimiento social con una fuerte base ecológica que fomenta la justicia, las relaciones, el acceso, la adaptación, la existencia y la sostenibilidad (GLIESSMAN, 2012, p.19).

O que se apresenta como primordial na agroecologia é que, além do diálogo entre diferentes ciências, fundamenta-se em saberes tradicionais de comunidades camponesas, em práticas e costumes locais, entre outros aspectos, internos às comunidades e aos estabelecimentos rurais. Na visão dos autores aludidos, a agroecologia apresenta-se hoje como a ciência que articula diferentes conhecimentos científicos e saberes populares para a busca de sustentabilidade na agricultura.

Os saberes agroecológicos são uma constelação de conhecimentos, técnicas, saberes e práticas dispersas que respondem às condições ecológicas, econômicas, técnicas e culturais de cada geografia e de cada população. Estes saberes e estas práticas não se unificam em torno de uma ciência: as condições históricas de sua produção estão articuladas em diferentes níveis de produção teórica e de ação política, que abrem o caminho para a aplicação de seus métodos e para a implementação de suas propostas. Os saberes agroecológicos se forjam na interface entre as cosmovisões, teorias e práticas (LEFF, 2011 p. 37).

É necessária a busca por novos enfoques que tenham a concepção inclusiva do ser humano no meio ecológico e que, além do conhecimento científico, reconheçam a importância da diversidade cultural, dos saberes e das experiências tradicionais dos agricultores, isto é, o saber fazer acumulado historicamente.

Neste sentido, deveríamos falar, sobretudo, de ‘saberes agroecológicos’, que envolvam o sujeito do conhecimento, como nos tempos dos saberes tradicionais, em que a vida cotidiana e produtiva estava arraigada nas artes e ofícios, na maestria própria da execução de práticas guiadas por regras, mas onde a criatividade individual não estava submissa a um mecanismo tecnológico e científico imposto de cima e de fora do âmbito dos mundos de vida das pessoas (LEFF, 2011, p.28).

De acordo com o exposto, a agroecologia é entendida como a possibilidade de um “novo” paradigma de organização produtiva e social, que reúne ciências, técnicas e saberes para a produção ecologicamente sustentável no campo e envolve diferentes sujeitos com propostas e princípios diversos. Não privilegia a dimensão econômica, combina racionalidade com subjetividade.

Para concretização da agroecologia, acredita-se ser necessário o aprimoramento das teorias para explicar a heterogeneidade dos sujeitos

ecológicos. Para tanto, a agroecologia deve buscar construir conhecimentos a partir das experiências reais ocorridas nos territórios. É no território que os sujeitos constroem suas histórias, se reproduzem socialmente, economicamente, politicamente, culturalmente.

Assim sendo, é preciso avanços conceituais para compreender a agroecologia. Cada realidade constrói sua própria forma de concretização do marco teórico e metodológico, constituindo sempre novas referências. Nesse sentido, as construções teóricas e metodológicas sobre a agroecologia no estado do Rio Grande do Norte poderão contribuir para o entendimento de outras realidades.

3. 1. 2 A agroecologia no Brasil: a trajetória do movimento agroecológico e a institucionalização das políticas públicas voltadas para a agroecologia

No Brasil, na década de 1970, já se observava sinais de esgotamento do modelo da agricultura moderna. Nesse período, a agroecologia “surgiu” como forma de estabelecer a base teórica para diferentes movimentos de agricultura alternativa que então ganhavam força com os sinais de esgotamento da agricultura moderna. No entanto, nesse período, o ambientalismo no país ainda era insipiente; as ONGs existentes, até então, tinham poucos militantes, baixo orçamento e atuação apenas local. Essa situação mudou radicalmente após a Rio-9215 (CRESPO, 2003, p.62).

Os primeiros fatores que impulsionaram a agroecologia, no Brasil, enquanto movimento social, ciência, modo de vida estão relacionados principalmente a força das Comunidades Eclesiais de Base, que culminou na criação da Comissão Pastoral da Terra (1975). Essa teve grande relevância para que os camponeses refletissem suas realidades e privações.

Nesse momento, o que se discutia sobre agroecologia ainda era denominada de tecnologias alternativas. O trabalho era voltado para a criação de técnicas ecológicas, a exemplo da adubação orgânica, adubos verdes, práticas e conservação do solo, valorização das plantas medicinais, métodos de controle de insetos e doenças. (MONTEIRO; LONDRES, 2017)

15 É nesse contexto que ocorre o momento maior do debate ambiental- a Conferência das Nações Unidas

Vale ressaltar que os movimentos populares foram sufocados no regime ditatorial. Somente após a redemocratização que esses movimentos foram ganhando expressividade. Nesse contexto, há o surgimento de movimentos contestatórios à industrialização da agricultura, com destaque à Associação dos Engenheiros Agrônomos do Brasil e à Federação dos Estudantes de Agronomia do Brasil. Essa reorganização dos movimentos populares pós redemocratização contribuiu para um marco importante: a implementação da Lei de Agrotóxicos de 1989. Significando que por lei não é correto utilizar-se do eufemismo “defensivo agrícola”, o que representou uma conquista para o movimento agroecológico.

É pertinente apontar que apesar da gênese da Agroecologia, no Brasil, apresentar raízes na década de 1970, foi após a Rio-92, que a agricultura alternativa foi fomentada por associações, organizações não-governamentais e entidades públicas de Assistência Técnica, como a Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural (EMATER), sob a rubrica de agricultura sustentável (BRANDENBURG, 2002).

Após a Eco-92, chegou-se à conclusão de que os padrões de produção e atividades humanas em geral, notadamente a agrícola, teriam que ser modificados. Assim sendo, houve movimentos no sentido da implantação de maior qualidade dos produtos agrícolas. Aparece, então, no cenário mundial, a agroecologia, conhecida ainda por agricultura alternativa.

O surgimento da agricultura alternativa, no Brasil, coincide com o ressurgimento dos movimentos alternativos nos Estados Unidos e na Europa. No entanto, vale salientar que nos demais países a agricultura alternativa não tem o mesmo sentido. Nos Estados Unidos, por exemplo, a agricultura alternativa é entendida como revalorização da pequena propriedade familiar. Na Europa, a agricultura alternativa foi defendida pelos movimentos de contracultura e de contestação à sociedade capitalista e de consumo. (BRANDENBURG, 2002). No Brasil, a agricultura alternativa, embora inspirada nos modelos europeus, surgiu em um contexto diferente, ou seja, como resposta à política agrária excludente

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