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Biólogo, professor do Departamento de Práticas Educacionais e Currículo do Centro de Educação da UFRN. Fez mestrado e doutorado no Programa de Pós-Graduação em Educação ligado ao GRECOM. Defendeu a dissertação e a tese, intituladas respectivamente: Compreensão da natureza e formação do biólogo (2013) e A experiência como ordenação da realidade: uma estratégica orgânica para a educação (2015). É organizador, junto com Conceição Almeida, do livro Francisco Lucas da Silva: um sábio na natureza (2016).
Experiências de metamorfose:
pegadas do tempo de vida no grupo de estudos da complexidade
Cara Juliana,
Ser convidado para falar sobre a experiência viva no GRECOM me fez exercitar movimentos de reconhecimentos e estranhamentos. Para fazer esse exercício, percebi que não só se recruta da memória, mas se criam novas histórias, interpretações, sentidos e significados. Obrigado por me facultar essa possibilidade e me ajudar a contar e a pensar melhor sobre a minha experiência.
Sou bastante afeito a uma ideia de Jorge Larrosa sobre esse falar de si. Para ele, “a experiência não se faz, mas se padece”, isso porque o sujeito que narra “é como um território de passagem, como uma superfície de sensibilidade em que algo passa”. Quando falo da minha experiência não falo daquilo que passa, mas daquilo que me passa. Falo daquilo que “ao passar por mim ou em mim, deixa um vestígio, uma marca, um rastro, uma ferida”, diz Larrosa no texto Experiência e alteridade em educação, publicado na Revista Reflexão e Ação (2011).
Nesse sentido, tomo o seu roteiro como trilha (que enumerei em pontos) para falar sobre minhas percepções parciais, incompletas e pontuais – assim como as marcas, vestígios, rastros e feridas dessa trajetória.
Certamente, para falar sobre o que me passa durante minha experiência no GRECOM, precisarei fazer movimentos de ‘ir e vir’, para pensar também sobre como cheguei nesse espaço, porque cheguei nesse espaço, o que fiz nesse espaço e o que ele fez em/de/por/para mim.
Ainda na graduação em biologia, antes de começar a trabalhar com educação em ciências (que foi no ano de 2008), tive passagens por alguns projetos em áreas distintas. Minha percepção até esse tempo era que o professor orientador era uma figura enigmática, arauto do conhecimento, que se respeita de maneira religiosa. Ele corrigia, delegava, constatava, prescrevia e sumia. Quem for da minha época vai lembrar – parecia o Mestre dos Magos, da animação caverna do dragão. Essa percepção perdurou até entrar em um projeto sobre ecologia do semiárido. Lá, entrei em contato com uma dinâmica que não conhecia – a reunião de orientação coletiva.
Basicamente, cada bolsista tinha um recorte da pesquisa – alguns cuidavam de analisar qualidade da água; outros, zooplancton; outros, macrófitas; outros, sedimento. Na orientação coletiva cada um iria dizer ao professor o andamento do trabalho e esperar a sentença – se estava fazendo errado e iria refazer, ou se já poderia passar para a próxima leitura.
Nunca soube o objetivo do projeto. Nunca soube qual eram e como se comunicavam as dinâmicas ecológicas que cada uma daquelas partes testemunhava. Essa informação privilegiada – esse superconhecimento, como fala Morin, era algo que só dizia respeito ao orientador. Não havia parceria e diálogo, no sentido de colaboração na produção do conhecimento.
Um tempo depois, comecei a trabalhar diretamente com educação e com ideias da complexidade, em parceria com a professora Márcia Adelino. Naquele tempo, nascia o GRECOMVIDA (UEPB), semeado por Ceiça e Bosco e contaminado com as ideias da complexidade. Ali tive minha segunda experiência de orientação coletiva, diferente. Existiam dias de estudo, onde um texto era lido e debatido por todas as pessoas – não apenas pelo
orientador. Havia possibilidade de falar as ideias e de ter um feedback dos colegas. O ranking do mérito estava dissolvido nos espaços de troca.
Avançando no futuro, em Natal, tive minha terceira experiência com orientações coletivas, no GRECOM, durante o mestrado e o doutorado (nos quais fui orientado por Ceiça).
Aqui foi necessário abrir diálogo com colegas de outras áreas de formação, uma vez que o grupo é heterogêneo. As reuniões de estudo para mim também eram como orientações coletivas. Ali cada fala era diferente demais do que eu estava acostumado a escutar e essa estranheza esgarçou meu vocabulário e testou ao máximo a minha flexibilidade, a minha resiliência para ideias. Naquele espaço, exercitei bastante a Onivoria das Ideias - noção que construí para pensar sobre essa adaptabilidade necessária para exercitar o diálogo dos saberes e o pensamento em redes.
Digamos que os dias de estudo para mim eram orientações coletivas que não estavam assinadas para você. Elas eram para qualquer um, dependendo da sua capacidade de captar e atribuir sentido à leitura.
As reuniões de orientação coletivas onde se levavam os textos era o trabalho de refinamento, todos poderiam parar para pensar sobre aquela ideia, aquela hipótese, aquele trabalho. Eram bons termômetros para saber a pertinência e sustentabilidade das ideias da sua tese ou dissertação.
As orientações individuais eram como o trabalho em imersão nas ideias, de desconstrução, de rearranjo, de destilação. Não era raro completar um ciclo de orientação coletiva para a individual sem ter seu trabalho amadurecido ou completamente transformado. Se você se faz permeável, esses espaços podem causar mutilações criadoras importantes.
Sobre a orientação individual, uma das experiências mais raras e que me fizeram crescer muito como pensador foram as escritas a quatro mãos que pratiquei e aprendi com Ceiça. Quando escrevíamos trabalhos em parceria, escrevíamos em parceria. Do debate de ideias à contagem de caracteres, fazíamos tudo a quatro mãos. Para mim, essa é uma
demonstração muito forte de que a humildade deve ser característica primeira de qualquer intelectual.
Aponto também as oficinas do pensamento como parte desse ciclo de trabalho intelectual a várias mãos – ele está entre o dia de estudos e a orientação coletiva – tem foco na discussão de um conceito ou uma noção, mas está direcionado a algum trabalho. São espaços privilegiados, que eu ainda não conhecia, do trabalho colaborativo de conhecimento.
A Contaminação; A vida nas Ideias e as Ideias na Vida; os hologramas; o Diálogo de Saberes; a Implicação do Sujeito no Conhecimento, esses são só alguns dos princípios, eixos, noções caras às ciências da complexidade que consigo perceber e vivi nos projetos fora da academia. Mais especificamente na Lagoa Piató. Conversar com Chico Lucas como interlocutor, como intelectual é sinônimo do compromisso com a não tradução dos saberes tradicionais pela ciência. Esses diálogos abriram possibilidade para perceber as ciências como fenômeno da cultura mais alargado, as ideias de Chico Lucas vão para o currículo formal de ciências biológicas e pedagogia nas minhas aulas, do lado de Freire, Morin ou Prigogine.
Os estaleiros de saberes foram expressões de compromisso com o conhecimento implicado no contexto, e não da reflexão isolada – nem o moinho que gira sem grãos para moer da filosofia que nega o real nem o discurso factual desprovido de crítica das ciências que negam a reflexão filosófica, parafraseando Morin no livro Ciência com consciência (2005).
Os princípios transdisciplinares, a ideia de que não é possível fazer ciências sozinho e de que não existe apenas uma experiência (acadêmica, científica, burocrática, pessoal) são centrais e marcas muito fortes da minha experiência no GRECOM - esses princípios, para mim, são muito caros. Creio que fui contaminado ao longo da minha trajetória no GRECOM e hoje sou vetor. Coordeno um grupo com alunos da graduação, para trabalhar na interface culturas, educação em ciência e complexidade. Para mim, é um dos trabalhos mais prazerosos na universidade. É importante manter esse sentimento de troca, de construir reflexões, de provocar, de acompanhar a
evolução do pensamento (em trajetórias de ida e vinda) – tento fazer de mim esse professor doador de tensões, conforme Larrosa coloca em seu livro Pedagogia profana (2013).
Os seminários de qualificação são, também, momentos seminais para construção e modelagem das ideias. Em um desses seminários, levei uma ideia de capítulo para minha tese que tinha a ver com o universo de J. R. R. Tolkien, criador de Senhor dos Anéis. Nesse capítulo, propunha metáforas para pensar a noção de Natureza (no tempo, tema do meu projeto). Para falar sobre a noção de Natureza complexa, a imagem que recrutei foi o ENT – seres que possuem características comuns entre homens e árvores – apesar de possuírem raízes, caminham – são nômades, vivem e operam pela lógica do sensível. Acredito que os Ent são uma forte metáfora para o GRECOM, tendo em vista que quebram a ideia de certeza, retidão, dureza e rigidez atribuída à noção de verdade – ao contrário, são caminhantes, questionam, mesmo sabendo das suas determinações.