Geógrafa e professora do Departamento de Geografia da Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Fez mestrado, doutorado e atualmente o pós- doutorado no GRECOM. No mestrado, defendeu a dissertação Retalhos da cidade: revisitando Caicó (1996), e no doutorado a tese Fotografia & complexidade: a educação pelo olhar (2003).
Testemunhar não é fácil. Quando eu escrevi minha tese de doutorado, eu trabalhei com fotografia e um dos argumentos era tratar a fotografia como testemunho. Eu defendia que todo testemunho é parcial. Também aqui, por mais que eu tente ser fiel àquilo que me chega nesse momento, tenho consciência de que coisas foram deixadas de lado, não por escolha minha, mas porque nossa memória não é um bloco que acessa tudo na hora que você quer, da forma que você quer e para atender aquilo que o outro quer. A memória para mim é esse campo, que mais recentemente eu tenho entendido como um espaço de esquecimento, por vezes intencional e por vezes involuntário, além de ser um espaço de lembrança. A memória opera nessa condição de esquecer e lembrar, condição ao mesmo tempo incompleta e parcial. Eu estou num campo, num espaço, num contexto temporal, mas tudo que está acontecendo ali não impregna, não chega para mim em sua totalidade devido à forma como eu decodifico e experimento. Essa memória vai dar um tom de singularidade, é realmente aquilo que está em combustão, em compartilhamento, e com isso o espaço do GRECOM ocupa uma parte da minha memória. Nessa perspectiva de esquecer e lembrar, não necessariamente para falar da história do GRECOM ou para falar da minha experiência nele, escolho aquilo que vazou para minha vida profissional, para as diversas esferas em que eu me faço um ser no mundo.
Quando eu falo do GRECOM eu o considero internalizado e que, portanto, pode ser objetivado. Quando eu falo do GRECOM hoje, não tenho a necessidade de voltar, porque o que falo hoje é aquilo que foi internalizado
durante a minha trajetória. Esses cortes temporais e espaciais servem para me situar na narrativa, torná-la mais compreensível, mas eles não são necessariamente fundamentais para que essa condição possa acontecer. Essa condição testemunhal não acontece nessa narrativa agora, ela se dá num percurso, numa vida que não foi interrompida. Eu não interrompi minha vida no dia que entrei no GRECOM, eu não interrompi minha vida no dia em que terminei minha tese de doutorado. Essa experiência integrou, ampliou, foi internalizada. Como diz Ceiça “isso serve para você se alimentar e para regurgitar”. Portanto, isso não serve para ser aplicado na minha tese, isso transborda. Então, essa condição testemunhal me remete às minhas passagens, a exemplo da minha dissertação de mestrado quando eu tive um contato mais direto com o GRECOM, nos idos de 1993.
Depois desses 25 anos, eu vejo esse grupo como um corpo, com força e vitalidade. Naquela época em que eu entrei, estávamos na juventude do GRECOM, aliás uma adolescência. Aquilo que era muita combustão, muita força, vitalidade e efervescência acontecia porque Ceiça trazia para nós a inovação, a provocação teórica que precisávamos e que favorecia deslocamentos, a busca de novas passagens, a busca de novas interações, e isso mantinha o grupo em combustão. Nós, nesse estado “adolescente”, tínhamos aquele ímpeto de conseguir, de vencer tudo, mesmo que não tivéssemos a real dimensão teórica e epistemológica que já levávamos à efeito.
O GRECOM se insere para mim nesse contexto de produção de uma dissertação de mestrado que, já naquela época, era desafiadora pois eu trabalhava com uma cidade do interior do estado e com alguns conceitos que só pareciam dar conta de outros espaços. Era como se eu só pudesse falar daqueles conceitos como eu queria se eu estivesse em outro espaço e isso era um desafio. Eu precisava fazer um deslocamento, uma religação, de forma que fosse compreensível. Trabalhar com o conceito de polifonia e de flaneur numa cidade como Caicó, em que o espelho eram coisas que estavam sendo ditas para Paris. Como seria isso? Soava absurdo. Esse desafio, ao
invés de nos fazer congelar, refletia no contrário, no maior desejo de fazer. Essa condição estava posta, não no nível apenas individual, mas no coletivo.
O GRECOM tinha a condição de ser da aproximação entre as pessoas que estavam naquele momento desenvolvendo seus trabalhos de dissertação e tese. Então, naquela época havia uma ligação muito forte entre mim, Josineide e Alex. Nos reuníamos para falar das nossas dúvidas, inquietações, inseguranças e, ao fazer isso, um contaminava o outro. Cada um estava num canto a desenvolver suas pesquisas, mas desse canto o que era feito fluía para o outro, e isso voltava para nossos trabalhos porque reverberava. Essa condição do GRECOM é muito forte em mim. Tudo o que as pessoas vão me dizendo, eu tenho a necessidade de buscar uma religação entre uma coisa e outra. Talvez essa tenha sido a marca mais forte que o GRECOM deixou em mim. Eu sempre tento fazer uma constelação com esses pontos que se ligam uns aos outros, e isso pode ser na perspectiva teórica ou em outras situações.
O GRECOM favorece essa mestiçagem, essa contaminação, essa aproximação. E eu acho que Conceição tem essa força. Depois de 25 anos a vejo com o mesmo vigor para mergulhar em coisas que ela acredita. Eu fui sua orientanda no mestrado e no doutorado e agora estou no pós-doc. Em todo esse tempo, eu nunca recebi um retorno de Ceiça em que o trabalho não tivesse a mão dela. Eu recebia textos riscados, páginas e parágrafos reescritos, e isso eu achava extraordinário. Hoje é muito difícil eu pegar um texto de um orientando meu e não ter a necessidade de mexer, e me parece que isso veio do aprendizado com ela. É claro que eu não tenho sua destreza, mas eu tento imitá-la. Ela é capaz de colocar um texto nas alturas, basta estar seduzida por ele. Hoje nossos orientandos não entendem que isso nos faz aprender. Eu queria imitá-la, mas não me refiro a imitar no sentido de copiar e nem ao sentido perverso da vaidade e da inveja, mas no bom sentido de fazer o que admiro, eu queria imitar aquilo que eu achava lindo. Para mim, a pessoa que sabe escrever bem tem um diferencial e Ceiça trazia isso pra mim. A escrita para ela é algo fundamental. Hoje, lendo Michel Serres eu entendo que a imitação é fazer para depois compreender.
Nem sempre o que eu faço eu compreendo, mas eu não posso abandonar o que tenho que fazer. A compreensão é muito mais e nem sempre ela ocorre naquele momento. Eu percebia que era aquilo que deveria ser feito. O GRECOM facilita a condição de compartilhamento, de contaminação, um poder de dialogar um com o outro. Nosso erro é sempre querer compreender primeiro para depois fazer. Eu aconselho meus alunos que não façam assim, que procurem imitar, ouvir, ampliar o olhar.
Esse grupo de pesquisa é diferente de outros porque ele aproxima tudo. Ele tem uma base teórica epistemológica clara e definida, e então você já vai se contaminando com isso e ampliando seus horizontes. Nem sempre a gente precisa compreender tudo para poder agir, aliás nós não fazemos isso. Não quer dizer que eu vou fazer do jeito que eu quero e aí a coisa da responsabilidade do que você vai fazer é muito maior. As pessoas entendem que a imitação é fazer de qualquer jeito, mas não, é o contrário disso. Eu não estou copiando eu estou olhando e tentando me aproximar daquilo. É uma combinação possível. Para mim, as coisas acontecem no campo dos possíveis, o impossível é meu horizonte, é um devir. A minha tese é o possível, que diz das minhas condições, do meu investimento, do que eu abri mão. O GRECOM tem essa exigência, ele não é uma experiência fácil, é uma experiencia desafiadora.
Quando observamos o que se produz no GRECOM nos damos conta das muitas exigências. O GRECOM se alimenta do transbordamento. Vemos o que foi feito e precisamos fazer no mínimo próximo ou melhor, mas isso não acontece no sentido da competição, porque o GRECOM se alimenta da criatividade, daquilo que é mais consistente e ousado. Comumente, essa criatividade era confundida como modo alternativo, mas o GRECOM não tem nada de alternativo. Ele trabalha com uma ciência original porque está no seu tempo. Sobre nós pesa uma exigência de estarmos no limite entre a criação e a repetição, entre o padrão e o desvio. É muito fácil viver no padrão e ou no desvio, mas o desafio é viver no limite entre um e outro. Esse espaço é o espaço que precisa ser criado, habitado, gestado por essas duas condições ou por algo que já existe. O GRECOM exige deslocamento.
Veja meu exemplo, eu sou geógrafa e não saí da geografia, mas eu me desloquei com ela para construir o “entre geográfico”, que não é só o que eu carrego, mas aquilo que vem de outros campos. O GRECOM está nessa condição entre o padrão e o desvio. Isso tenciona, provoca aflição, riso e choro. Como se chega a produzir algo teoricamente consistente e esteticamente belo? A mistura da imagem com a palavra, com o gesto, essa é a condição da ciência. Quando eu fiz minha dissertação produzi um vídeo na cidade de Caicó com seus personagens e apresentei para a banca. Nesse vídeo eu me tornei a locutora da minha tese. Eu não reproduzi o convencional, fui para um estúdio e gravei. Parece que a gente vive no limite do que vamos criar no momento. Essa condição é importante e isso contamina. A gente não passa pelo GRECOM fazendo sempre a mesma coisa. Você repete imitando, sem ser a mesma coisa, sendo o que transborda, o que ultrapassa.
Para mim, o GRECOM é esse espaço de montagem de experiências que são teóricas, epistemológicas e afetivas. Eu não entendo a minha afetividade longe dessas coisas. Quando eu escrevo um texto, eu quero me emocionar com ele e essa é minha expectativa. Ali é o transbordamento das minhas emoções e o GRECOM permite isso, permite que você construa, elabore e transborde. Esse transbordamento não é o distanciamento de um rigor científico, é o contrário. Eu só posso transbordar se eu tiver rigor. O que me faz transbordar? O meu transbordamento acontece quando eu pego as noções que me guiam e dialogam com o mundo da escrita, por isso não pode ser qualquer coisa. Michel Serres nos ensina que esse deve ser um encontro muito fino, raro. Daí a condição das teses que aqui são apresentadas trazerem um pouco dessa raridade.
Eu não sou boa na construção de metáforas, mas acredito que o GRECOM é um espaço em que está sempre faltando uma gota de água, de vida que o faça transbordar. É essa coisa sempre aberta e fechada, sempre no limite. É como se eu tivesse um copo com água no limite e quando você coloca uma gota o copo transborda. O líquido se espalha e de novo precisa de outra gota. A água volta e realimenta o que ficou, por isso que ele não
pode ser parado, deve ter essa dinâmica de chegadas e partidas. No GRECOM as coisas fluem, mas deixando seus rastros. Pense numa estrada de barro, passamos, deixamos rastro, vem o vento e cobre nossos rastros de novo e você até imagina que nada por ali passou. Mas, sim, por baixo do pó há os rastros. porque quem por ali passou deixou rastro. Eu vejo assim. Por isso há uma vitalidade, uma vida, uma alimentação permanente. Por isso é preciso ter essa condição de espiral contínua e dinâmica, onde você tem um hoje, um presente que se altera. Eu sai e me afastei duas vezes e quando voltei percebi as mesmas inquietações e forças, porém, nas vozes de outras pessoas. Precisamos manter em certa medida o oxigênio do GRECOM, para que cada um possa vazar para o outro as suas ideias, seus enredos, suas narrativas, seus desejos.
Quando eu estive no GRECOM há alguns anos, ainda naquela sala grande do Setor I, havia uma organização da sala do GRECOM que já apresentava o desejo de surpreender, buscando mostrar que o espaço acadêmico pode se estabelecer de uma forma diferente, e as pessoas que por ali passavam, os objetos, os projetos vão se constituindo nessa memória física, espacial e documental. Essa é uma forma de testemunhar. A própria forma de organizar a sala é uma forma de testemunhar, são banners, documentos, fotos, objetos. A minha experiência com o GRECOM foi no mundo das ideias e isso me satisfaz. Eu adoro pensar. Para mim, pensar é um exercício pragmático. Conceição é uma pessoa que tem um pensamento muito ativo, criativo... ela tem uma capacidade grande de transitar e isso para mim é uma característica brilhante em alguém. É isso que faz um intelectual. Para mim, o intelectual ocupa outro patamar. Ele tem que ser aquele que interfere no pensamento do outro, e eu acho que poucos hoje fazem isso. Fazer com que você queira imitar. Conceição é uma intelectual. A gente não passa pela orientação de Ceiça sem ser tatuado. Há uma forma de tatuar mais difícil de ser, quando ela incomoda. Ela forma e interfere, e se você estiver aberto a essa interferência, você cresce e evolui muito. Ela é muito provocativa. Ela tem um refinamento teórico que muitas vezes nos assusta, porque nos leva a pensar que não conseguimos acompanhar, enquanto que para ela é tão simples! Ceiça chega sempre trazendo um
conjunto de ideias que é possível transgredir em relação aos padrões estabelecidos.
Sabemos bem que temos sempre que colocar algo na mesa para ser avaliado, mas nunca conseguiremos colocar tudo isso que vaza. Porque a vida é isso, é o que fica e o que vaza. O GRECOM para mim, então, é a experiência com a vida do conhecimento. E inclusive diria que a minha vida é conhecimento, porque esse conhecimento aqui não é o conhecimento apenas, é o conhecimento que me faz no mundo. Quando eu estudo eu quero viver aquilo que estou entendendo. A vida é um conhecido desconhecido. Eu não tenho controle desse conhecimento. A minha experiência com o GRECOM é uma experiencia com o conhecimento científico, com o poético e com o prosaico da vida, com a ordem, as desordens, a estética do transbordamento e com o recolhimento, com o silencio e o arauto. Eu mergulhei com intensidade nesse grupo. Essas coisas entraram em mim na zona de reserva e a memória pode ser essa zona. Eu quero esquecer isso para que essa outra coisa seja exaltada. Estar no GRECOM é um exercício com esse magma que transborda, incendeia e que também é rochoso, poroso e cheio de formações. E o não existe clareza sobre seu processo de acomodação. Mas com certeza eu terei formações que resfriam no interior da terra e outras no exterior. É esse movimento entre exterior e o interior, que estar no GRECOM representa, é se deparar com esse conteúdo que às vezes é poroso, às vezes é denso e eu não tenho ainda o código para decifrar, embora ele já esteja lá. Isso é o contato com o texto, com a leitura, com os desvios que são colocados. Isso é muito desafiador para todos nós.
Talvez a coisa que seja mais marcante em mim ainda sejam os estudos que fazíamos juntos eu, Alex e Josi. Estudávamos coisas diferentes, mas estranhamente elas se uniam de alguma forma e vazavam para os trabalhos. Registro ainda a vinda de Edgard Carvalho para as atividades, bancas e qualificações. Ele vinha com um olhar muito aquilino, forte e às vezes era muito duro. Fazia arguições muito boas. Aquilo era um combustível para nós. As vindas de Edgard estimulavam a construção de ideias.
Naquela época, quando éramos identificados como os “alunos da complexidade” recaia sobre nós uma grande carga, parece que tínhamos que provar mais do que os colegas de outras bases de pesquisa aquilo que nós defendíamos e os nossos professores nos colocavam em verdadeiras sabatinas. Ora, a complexidade faz trânsito com ciências consideradas duras, ela dialoga com os ares fechados da física, com a química, biologia permitindo esse diálogo, sem que esse diálogo provoque fusões. Como então, o sujeito fechado, que compreende a ciência da limpeza, do recorte e da análise poderia compreender as coisas dentro de um contexto? Hoje é tudo muito simples, mas naquela época nós precisávamos estudar muito para dar conta daquilo que não era compreensível. Quando a gente falava de religação, flutuação, ordem e desordem, as pessoas nos questionavam de onde vinham todas essas “novidades”. Tínhamos que fazer um esforço muito grande para nos manter com a coluna ereta.
Ceiça gosta de recordar a época em que eu estava para defender minha tese. Chegaram provocações de alguns professores que diziam que aquela ideia de trabalhar com conceitos de cidades grandes não se aplicava e não tinha sentido numa cidade como Caicó. Então, Ceiça chegou para mim e me disse essas palavras: “arranje a solução”. E aí a gente enxerga e vai encontrando os caminhos. O GRECOM hoje com toda essa produção não precisa se justificar. Ele construiu uma vida. Hoje é possível uma ciência feita nas brechas e aberturas. O GRECOM não precisa da validação, porque tudo acontece pela adesão aos requisitos que o validam. As ciências ditas como mais duras já entenderam tudo isso muito mais do que as ciências sociais.