ACCORD PORTANT CREATION DE LA
PRINCIPES DE GESTION
Possui Graduação em Filosofia pela UFRN e Mestrado em Filosofia pela UFPB. É Professor e Diretor de Pesquisa e Inovação do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Norte (IFRN) - Campus Natal Central. Coordenador do Grupo de Estudos da Transdisciplinaridade e da Complexidade (GETC) do IFRN. Fez seu doutorado pelo Programa de Pós-graduação em Educação, ligado ao GRECOM, tendo defendido a tese: Pedagogia da fraternidade ecológica e formação transdisciplinar para um ensino educativo.
Minha experiência no GRECOM foi muito interessante. Cheguei ao grupo quando havia terminado o mestrado em Filosofia e pouco tempo depois, em 2003 entrei no IFRN. Porém, eu já conhecia o GRECOM desde pelo menos 1997, quando fazia graduação na UFRN. Alguma coisa me chamava atenção naquele lugar e eu me sentia atraído para participar, fazer o mestrado e posteriormente o doutorado.
Eu conheci o GRECOM e Ceiça por ocasião de uma das visitas de Edgar Morin. O GRECOM estava em total ebulição. Nessa época, procurei Ceiça para ver como eu poderia fazer parte do grupo. Na época só havia disponibilidade de mestrado nas Ciências Sociais. Para tanto, eu tive que fazer um preparatório para a prova, pois não sendo da área, eu precisaria me apropriar das leituras. Na verdade, eu queria fazer a seleção em Educação, mas não havia essa possibilidade. Ceiça me deu umas dicas do que ler para conhecer melhor o viés epistemológico do grupo, daí me debrucei sobre o Método 1. Esse foi o primeiro contato com as obras de Edgar Morin. Como eu já vinha da Filosofia, aquela leitura era prazerosa. Eu já havia lido outros autores que mantinham confluência com o pensamento de Morin.
A partir daí me veio então o desejo de fazer uma arqueologia na filosofia buscando os pontos de confluência com o pensamento complexo. Eu construí um texto e mostrei a Ceiça, posteriormente ela me retornou dizendo
que meu escrito estava muito bom. Fiquei empolgado e mais interessado ainda em realizar pesquisas no grupo. Minha única alternativa era encarar o mestrado em Ciências Sociais. Fiz então a seleção e não passei. Fiquei triste e voltei para a Filosofia, onde tentei a seleção na Paraíba e conclui por lá. Retornei em 2002, nessa época eu era professor do Estado do RN e ministrava aulas na Escola Estadual Winston Churchill. Ali criei um grupo de estudos na área de complexidade e meio ambiente chamado Terra Pátria. Nesse grupo eu comecei a trabalhar com alunos do ensino médio. Não chegamos a ler nenhum texto de Edgar Morin na época, porque a leitura era muito pesada para trabalhar com eles. Trabalhamos com outros autores como Fritjof Capra e Leonardo Boff. Nessa época ocorria o evento dos 10 anos do GRECOM com a presença de Edgar Morin. Na ocasião o Terra Pátria estava em pleno funcionamento e tivemos uma oportunidade, junto a outros grupos de complexidade, para mostrar o que estávamos discutindo e produzindo. Na ocasião criamos uma camisa e a colocamos à venda para arrecadar dinheiro para a compra de livros para o grupo. Estávamos muito estimulados. Naquele mesmo ano fui aprovado no concurso do IFRN e ali criei o Grupo de Estudos da Transdisciplinaridade e Complexidade. Reuníamos alunos e professores da licenciatura para discutir o pensamento complexo no IFRN. Daí em diante eu fui me preparando para a inserção no GRECOM.
Participei no IFRN do processo de reforma dos currículos das licenciaturas e revisão do projeto político pedagógico do instituto. Já comecei a introduzir nesse projeto as ideias de complexidade tanto discutidas no GETC como no GRECOM. As ideias que circulavam no GRECOM eram referência para mim. Aquele foi o momento da empolgação máxima. Daí eu pensei no meu projeto de doutoramento e, de 2003 a 2006, até entrar no doutorado passei por um processo de incubação. Foi um momento de inserção total
Eu vivi uma fase fantástica no GRECOM, com pessoas incríveis. Foi a época do convênio com a UESB/BA, quando vieram os colegas Carlos Alberto, Renato Figueiredo e Walmir. Tudo era novo, empolgante,
emocionante. Muitos projetos começaram a acontecer. E começamos a fumar muito (risos) Ceiça fumava e eu fumava junto, embora eu detestasse cigarro. Eu tinha até medo que acontecesse alguma coisa com ela devido ao cigarro. Porém, junto dela eu superava minha aversão ao cigarro e dali foi surgindo meu grande amor por Ceiça. Me lembro agora do que escrevi no agradecimento da minha tese sobre Ceiça: ela foi a incendiária da minha alma. Isso fazia com que a gente suportasse até os momentos de mal humor e os estados emocionais a cada dia daquela mulher forte e contagiante. Para mim ela é a energia do GRECOM. Eu não cheguei a estar muito próximo nas atividades do dia a dia com Ceiça, outros assumiram esse papel. O GRECOM era um caldeirão onde todo mundo é consumido da melhor forma possível. Ceiça estava sempre cobrando nossa presença e, no início, eu não entendia bem o porquê. Mas ela tinha que fazer isso, pois aquilo só pulsava se houvesse gente. Eu tinha dificuldades para estar mais presente pois o IFRN não havia me liberado para cursar o doutorado, então eu tinha que me revezar. Eu sinto muita falta daquilo tudo. Sei que, se hoje eu voltasse, não seria a mesma coisa, pois agora são outras pessoas, novas realidades, novos projetos. Ali vemos a dinâmica da complexidade, diferentemente de outros grupos que ficam dentro da caixa a fazer a mesma coisa. No GRECOM isso não ocorre.
Os Dias de Estudos eram momentos fantásticos, a serem registrados aqui. Eles eram como alimento para alma. Saíamos cheios de coisas para ler. Chegava até a dar angústia pelo pouco tempo e pela grande demanda. Cada Dia de Estudos era uma pulsão de vida e morte, que fazia construir e reconstruir várias coisas. Essa é uma experiência que o GRECOM não pode deixar nunca. Uma outra fundamental a se registrar foram as orientações de Ceiça em que não vejo em lugar nenhum. Nas Oficinas do Pensamento colocávamos na mesa o que estávamos produzindo e discutíamos as temáticas das nossas teses. Era muito conceitual e ali tínhamos a dimensão da compreensão daquele conceito em toda sua dinamicidade. Nas orientações coletivas, a conversa era entre Ceiça e o orientando, mas os outros assistiam sem interferir e o que ela dizia para o orientando vazava para nós que assistíamos... era um recado para todo mundo. Posso registrar
ainda a leitura compartilhada como prática relevante na produção acadêmica do grupo. Líamos os trabalhos uns dos outros, quando estávamos nos preparando para nossas defesas de qualificação ou antes mesmo das bancas. Ali surgiam insights relevantes e podíamos colaborar uns com os outros.
Durante minha trajetória, a experiência do meu projeto de pesquisa na Lagoa do Piató foi incrível. Conviver com Chico Lucas e com o pessoal da lagoa era um privilégio. Ali foram produzidos muitos trabalhos. Não era todo mundo que ia ao Piató, havia uma certa senha para se chegar lá. Às vezes eu me perguntava o porquê, depois fui compreendendo. Ceiça sabia que alguém errado no Piató poderia destruir ou atrapalhar todo um trabalho que vinha sendo feito. A maturidade dela era providencial nesse sentido.
Eu me lembro que já perto do fechamento da minha tese, no último ano, eu fui convocado no IFRN para ministrar uns cursos em outras cidades. Aquilo era tudo que Ceiça não queria naquele momento. Eu entrei numa crise existencial, num sofrimento terrível e o pior é que não tinha noção ainda com firmeza da tese que deveria defender. Eu levava a cada viagem uma mala cheia de livros. Foi numa dessas viagens que consegui dar um rumo a minha tese, foi quando eu dei o gás para escrever. No final do ano fiz outra viagem e ela estava muito chateada comigo devido as minhas ausências. Ela já não era mais a mesma pessoa comigo. Certa noite, trancado no quarto do hotel falei com ela por telefone. Eu não havia dito a ela que estava em Fortaleza, naquele momento, pois tinha medo de ser desligado de sua orientação. Comecei a falar com ela aos prantos e depois passei a noite toda em claro. No outro dia fui dar aula semelhante a um zumbi. Eu sofria porque não sabia como ela iria reagir, pelas minhas faltas e ausências.
Depois disso acabaram as viagens, voltei a frequentar o GRECOM e a tese saiu. O GRECOM tinha tudo isso, toda essa adrenalina. Depois da defesa tentei continuar, mas não consegui devido aos compromissos profissionais. Eu precisava voltar também ao GETC para manter a chama acesa. No IFRN fui convidado para ocupar um cargo de direção, o qual que
eu já havia rejeitado em outra oportunidade devido a tese, que era a prioridade. Faz quase dez anos que ocupo essa função. Já vejo que preciso respirar novos ares e fazer outras coisas, assim como alguém que viveu a experiência da complexidade.
A metáfora que eu uso para descrever o GRECOM é a aranha que vai tecendo vários fios da vida, da profissão, das áreas de conhecimento, criando uma teia que se amplia e que une a todos. Assim como Heráclito que associou o princípio originador de todas as coisas, o “vir a ser”, usando o fogo como elemento anunciador de todas as constantes mudanças. O GRECOM é também o grande fogo que queima tudo e reconstrói a partir do que já existiu.
Ceiça continua sendo a incendiária da minha alma. Ainda tenho muita coisa inacabada com ela que desejo retomar, a exemplo da minha tese que guardo o desejo de publicar com ela. Sinto saudades daquele imenso caldeirão no qual somos consumidos.