A primeira dimensão do framework busca explorar como a literatura dominante em Gestão Estratégica se relaciona com o ordenamento geopolítico, destacando a perspectiva da geopolítica do conhecimento, que, na era da globalização neoliberal, tem promovido condições favoráveis à expansão da corporação moderna, sendo por ela também influenciado. Serão exploradas perspectivas históricas, geográficas e geopolíticas do campo de conhecimento de GE, em especial através de literaturas descoloniais. A seção será iniciada tratando das origens da Geopolítica do Conhecimento.
Mignolo (2003), para quem a dependência estrutural-histórica é de grande importância para a configuração econômica e epistêmica do mundo, defende que a origem da geopolítica do conhecimento, sob a qual grande parte do mundo ainda vive, está na universidade medieval do século XII. Nessa momento da história, o aprendizado escolástico culminou no nascimento dessa instituição. Tendo suas raízes nas escolas de
34 monastérios e catedrais, a universidade é cúmplice tanto do universalismo filosófico quando do Cristianismo.
Na Renascença, o scholastic learning foi substituído pelo aprendizado humanístico, caracterizando uma nova era na história da universidade. Apesar do latim ainda ser a língua principal e os conhecimentos continuarem a ser organizados em torno do trivium (gramática, retórica e dialéctica) e do quatrivium (aritmética, geometria, astronomia e música), o humanismo antropocêntrico supera a hegemonia teológica. Um outro traço novo é, com a extinção do feudalismo, o controle progressivo das universidades passa o ser dos príncipes, marcando a vinculação da instituição ao Estado (TRINDADE, 1999).
Essa época também foi marcada pela colonização do Novo Mundo e, num estágio mais avançado, a criação das suas primeiras universidades – Universidad de
México e Universidad de San Marcos em Lima, que contribuíram para a criação da
relação de submissão do colonizado pelo colonizador. Os conhecimentos e as epistemologias maias, astecas e incas foram solenemente ignorados, tendo essas Universidades contribuído para a erradicação das instituições educacionais desses povos, havendo o deslocamento e subalternização das suas formas de saber: “Inca and Aztec knowledges, in the minds of missionaries and men of letters, were dictates of the devil and consequently should be eradicated. What the Spaniards called the ‘extirpation of idolatry’ was in fact an epistemic lobotomy” (MIGNOLO, 2003, p. 104 e 105).
O final do século XIX foi marcado pela Revolução Francesa e pela superação da teologia e retórica Cristã pela filosofia secular e a ciência, além da redistribuição e reconceituação do conhecimento. Nessa época, a universidade renascentista deu lugar à universidade Kantiana-Humboldtiana, a universidade em serviço dos recém surgidos Estados-nação, que surgiram em lugar dos regimes políticos despóticos:
The nineteenth century witnessed the birth of the social sciences — required by the need to organize government and civil society — and also the consolidation of political economy. Wilhelm Dilthey, at the end of the nineteenth century, conceptualized the distinction between the natural and the human sciences, between the nomothetic and the ideographic forms of knowledge, between explanation and understanding. Knowledge of nature became detached from knowledge of society and of human beings. Such a conception of knowledge is alien to the indigenous histories in the Americas, as well
35 as to concepts of knowledge and understanding beyond European modernity. (MIGNOLO, 2003, p. 106).
A mesma transição ocorreu na América, ao mesmo tempo em que as províncias coloniais eram transformadas em Estados-nação. Entretanto, na América Latina, o processo foi bastante diferente do europeu, uma vez que havia a diferença colonial, no sentido, não de que as pessoas nas colônias eram “diferentes”, mas sim “inferiores” e que deveriam ser “civilizadas”, “modernizadas” ou “desenvolvidas”. Para o autor, a criação de universidades públicas na América Latina foi um processo complementar na construção desses Estados-nação e na manutenção da lógica de colonialidade de poder e conhecimento: “Nation-states are not the end of coloniality; they are simply its restructuring” (MIGNOLO, 2003, p. 100). No século XIX e no início do século XX, a descolonização significava que descendentes de europeus e nativos tomavam o poder e reproduziam os padrões implantados pelos colonizadores, ou seja, uma nova forma de colonialismo, o “colonialismo interno”.
Ao mesmo tempo, o Sul da Ásia e a África caíam sob o controle colonial europeu. O estudo de Viswanathan (1989) mostrou que, na Índia do século XIX, a universidade foi, de forma similar ao México do século XVI, crucial para a introdução e deslocamento das formas de conhecimento existentes, eram medidas contra a “modernidade” da filosofia secular europeia e rotuladas de “tradicionais”.
Faria e Wanderley (2013) articularam as contribuições de diversos autores sobre os efeitos da modernidade eurocêntrica, que estabeleceu uma distinção abissal entre o moderno e o não-moderno. A história local europeia foi transformada em “desenho global” e os tipos de “não-moderno”, de fora da Europa, foram associados a barbarismo e primitivismo. As ciências sociais construídas na perspectiva eurocêntrica, no século XIX, estabeleceram definições e teorias para a prática e avaliação de política, sociedade e economia. O conhecimento científico eliminou, subalternizou ou reformou os diferentes tipos de conhecimento ao redor do mundo, por meio da universalidade eurocêntrica.
O pós-World War II foi o período em que se observou a ascensão dos Estados Unidos ao papel antes representado por Inglaterra, França e Alemanha. Foi a era em que as ciências sociais ganharam preeminência sobre as humanidades, e foram incluídas em um projeto de desenvolvimento e modernização do terceiro mundo.
36 Segundo Mignolo (2003), essa foi a época do surgimento de um novo modelo de universidade:
[…] this was also the period when the corporate university began to displace the Kantian-Humboldtian model. The more technologically oriented social sciences (economics, political science, and sociology) remained the exemplars of rigorous and useful knowledge, while the humanities and the interpretive social sciences (history, cultural anthropology, and interpretive sociology) lost their previous standing in the hierarchy of efficient knowledge required by corporate values associated with knowledge. (MIGNOLO, 2003, p. 108).
Após o colapso da União Soviética, o modelo da corporate university foi imposto aos países do “terceiro-mundo”, junto com princípios guiadores de excelência e eficiência na produção de conhecimento, em especial, o que o autor caracteriza como uma nova faceta da colonialidade. Como consequência, ocorreu a deterioração das universidades públicas de vários países latino-americanos e das condições de trabalho nelas, além da consequente migração dos intelectuais, acadêmicos e cientistas para os EUA e a Europa. Ao mesmo tempo, proliferaram-se universidades privadas, a maioria das quais sendo apenas centros de treinamento técnico e profissional, de onde são excluídas as disciplinas humanísticas. O autor defende que esse novo modelo está associado aos valores gerais do estado liberal, às necessidades das corporações e às concepções hegemônicas de conhecimento universal, em uma era de globalização, quando alguns Estados-nação estão perdendo relevância.
Em contraposição aos argumentos de que o “colonialismo” não é mais uma descrição válida da era “pós-moderna”, o autor argumenta que vivemos na era da “colonialidade global”:
[…] although ‘colonialism’ as a system of historical and geographical structures of power may have ended, ‘coloniality’ is alive and well. ‘Global coloniality’ is an appropriate description, in my view, of the current restructuring of the colonial patterns (e.g., coloniality) that have shaped the modern/colonial world, from the sixteenth to the twenty-first century. ‘Global coloniality’ doesn’t imply a global university but, rather, the reproduction of coloniality at a global scale under neoliberal values and principles of education. (MIGNOLO, 2003, p. 99).
37 O filósofo e semiólogo argentino Walter Mignolo compõe, junto com o seu compatriota Enrique Dussel e o sociólogo peruano Aníbal Quijano, a seleção de principais autores do projeto modernidade/ colonialidade/ descolonialidade (MCD), que informa a opção descolonial. O projeto se considera herdeiro das contribuições originais da América Latina para o pensamento crítico e das teorizações descoloniais, em especial, a teoria da dependência, a teologia da libertação e a pesquisa-ação participante (ESCOBAR, 2007). Quijano (1992) foi o primeiro a propor que modernidade e colonialidade são partes inseparáveis do mesmo fenômeno. Para Mignolo (2011), a “colonialidade” é o lado sombrio e constitutivo da modernidade eurocêntrica, originado, não como um fenômeno derivado da modernidade nos séculos XVII e XVIII, mas com a “descoberta” da América por Cristóvão Colombo, em 1942 (DUSSEL, 1993). Faria e Wanderley (2013) estressam a perspectiva histórica de long durée:
‘Colonialidade’ é um conceito criado pelo projeto MCD para designar a dominação de poder, do ser, e do conhecimento. Sob uma perspectiva histórica da longa duração, como nas teorizações de capitalismo de Braudel, Wallerstein e Arrighi, colonialidade difere de colonialismo por não se referir a um período histórico fixo estabelecido arbitrariamente por analistas. Colonialidade é uma estratégia de dominação que se baseia na distinção racial entre conquistadores e conquistados e na estrutura hierárquica correspondente de divisão de trabalho e de geopolítica de produção de conhecimento. (FARIA; WANDERLEY, 2013, p. 572).
Segundo a perspectiva articulada pelos autores, a colonialidade eurocêntrica iniciada no século XVI criou condições para a extraordinária trajetória de expansão do “fundamentalismo da gestão”. Para que a “história local” do management alcançasse a universalização, foi muito importante a sua elevação ao nível de “científica” nos EUA, no início do século XX, além da sua associação com o modelo de corporação industrial e capitalismo gerencial. A atribuição do êxito das grandes corporações, representadas por Chandler, como o motor do crescimento econômico americano, à gestão, prestou grande impulso à administração científica. A capacidade de adaptação de estruturas e estratégias explicava a superioridade da grande corporação, em detrimento de outras explicações, por exemplo, seu poder político-econômico relativo ou sua vinculação ao poderio militar e geopolítico americano. São princípios importantes da gestão científica,
38 também, a neutralidade tanto quanto ao binômio capital/ trabalho (SPECTOR, 2006), quanto ao binômio público/ privado (MIZRUCHI, 2004).
A partir da construção dessa gestão científica nos EUA e do estabelecimento dos princípios normativos que diferem a gestão daquilo que não é gestão (moderna), diferentes tipos de práticas, conhecimentos e histórias locais foram eliminados ou subalternizados por representar não conhecimento ou subconhecimento, vinculados a ‘tradições’, ‘crenças’ ou ‘culturas’ de bárbaros ou primitivos. Os ‘diferentes’ nos EUA foram, então, classificados como vinculados à ‘má gestão’ – que deveriam, então, ser analisados, classificados e corrigidos pela ‘gestão científica’ e pelo conhecimento correspondente. (FARIA; WANDERLEY, 2013, p. 573).
Os processos de americanização em diferentes países e regiões, ao longo da Guerra Fria, permitiram o início da universalização. A grande divisão ideológica entre as duas grandes potências nucleares suprimiu o surgimento de alternativas; a não- conformidade à gestão científica poderia permitir a disseminação do comunismo, socialismo e anarquismo, movimentos que emergiram como resposta às contradições do capitalismo no final do século XIX (MERKLE, 1980).
Com o fim do conflito, o processo teve grande impulso pela imposição da globalização neoliberal e do fundamentalismo de mercado. Para Faria (2011), “apesar do significado dominante na literatura de gestão de que a globalização é meramente econômica e desprovida de questões políticas e ideológicas que marcaram o período da Guerra Fria” (FARIA, 2011, p. 1168), o fim da Guerra Fria e o advento da globalização foi caracterizado tanto pela maciça transferência de políticas e desenhos institucionais neoliberais a partir dos EUA, além das instituições multilaterias lideradas por essa potência, quanto pela vasta disseminação de conhecimento científico da área de gestão.
A gestão científica foi transformada, primeiramente, em um bem nacional nos EUA; em seguida, foi traduzida como bem ocidental durante a Guerra Fria; e, posteriormente, no contexto da globalização neoliberal, foi tida como bem universal. (FARIA; WANDERLEY, 2013, p. 574).
39 Baseando-se em Ibarra-Colado (2006), Faria e Wanderley (2013) defendem que o reconhecimento da gestão estratégica da geopolítica do conhecimento permite a visibilidade do quadro de dominação em diversas áreas do conhecimento pelos defensores da universalidade eurocêntrica, inclusive gestão.
Clegg e Carter (2007) chamam a atenção para a disseminação global dos MBAs, exemplo característico do que acadêmicos críticos consideram como dominação neocolonial do modelo educacional americano, em escala global:
[…] the cultural logic of the MBA, from its beginning in the neo- classical architecture and green pastures of Harvard University, has developed in the latter part of the twentieth century to become the model of management education. As such it is the principal vehicle for the normalization of disciplined expectations in the managers of tomorrow, while offering practical opportunities for the consultants of today to enrol others who will soon be influential to their ideas and to expound them in settings that proffer great legitimacy and legitimation. The interconnections become almost seamless; the managers in training are normalized into the idea that consultancy is a solution provider; the consultancies gain exposure to attract the brightest and the best from the top MBAs. The MBA-speak of PowerPoints and spreadsheets prepares the student of today for the consulting and management presentations of tomorrow. Thus, the MBA acts as a rationalizing device. […] What it certainly does do is to allow them to communicate with other managers in a global management. […] The MBA curriculum and skills are fast becoming the Latin of the modern world. (CLEGG; CARTER, 2007, p. 280).
Essa disseminação oferece o ambiente para uma homogenização do conhecimento em negócios, exacerbado ainda pelas acreditações acadêmicas necessárias para a legitimação de uma business school, como a AASCB (Association for the Advancement of Collegiate Schools of Business). Tal instrumento leva estudantes de todo o mundo a serem ensinados de maneira similar.
Apesar das crises da ordem neoliberal e a ascensão das economias emergentes, o processo exponencial de crescimento e expansão do conhecimento em gestão persiste sendo caracterizado pela hegemonia anglo-americana, resultado do advento da globalização neoliberal ocidental (FARIA; WANDERLEY, 2013). Faria e Sauerbronn (2008) ressaltam o poder do discurso da estratégia e da “indústria da estratégia” sobre os próprios acadêmicos, em especial, em países menos desenvolvidos. O Brasil é citado como exemplo de onde traços culturais dificultam a reflexão crítica
40 sobre o papel social e político da grande empresa e sobre os atores e instituições que moldam a área de estratégia, tendo como consequência relevante o favorecimento na pesquisa acadêmica dos modelos e conceitos produzidos em outros países, em especial nos EUA.
Para os autores, problemas advindos dessa influência da grande corporação, intensificados pelo avanço da globalização, ajudam a explicar o surgimento de críticas à hegemonia do conhecimento produzido nos EUA. No Brasil, eles se somam aos autores como Guerreiro Ramos e e Maurício Tragtenberg, respeitados pela comunidade acadêmica local, mas com o reconhecimento limitado, devido ao desinteresse da área por questões de política e poder. Tendo em vista promover o equilíbrio de interesses, os autores defendem a busca de formas de participação da sociedade civil e do Estado nos debates de estratégia, contrabalançando a centralidade da grande corporação nos seus processos de constituição e “legislação” do mercado.
Para Espírito Santo (2014), literaturas de relações internacionais, ignoradas pela GE, dominadas pelos EUA e secundadas pela Europa, contribuem para a compreensão da proliferação da área de gestão e a preocupação das potencias européias em conter o avanço estadunidense:
A ideia neoliberal de mudança de um mundo bipolar [da Guerra Fria], onde as relações de duas superpotências governavam a política internacional e definiam as relações com e entre outros países, para um mundo multipolar extremo [no pós-Guerra Fria], governado pelo mercado e por corporações modernas tornou-se uma ilusão. (ESPÍRITO SANTO, 2014, p. 33).
O argumento é baseada em Huntington (1999), para quem a política global da virada do século, ou pós-Guerra-Fria, pode ser definido como um sistema uni- multipolar, em que a decisão de resoluções das questões internacionais importantes envolve a superpotência, mas sempre em combinação com outras potências. Para o autor, americanos deveriam parar de agir como se estivessem em um mundo unipolar, e abandonar a ilusão de que existe congruência entre os seus interesses e valores e aqueles do resto do mundo. Reconhece (naqueles últimos anos, anteriores a 1999) que os Estados Unidos tem tentado, ou é percebido como quem tenta, entre outras práticas:
41 [...] promote American corporate interests under the slogans of free trade and open markets; shape World Bank and International Monetary Fund policies to serve those same corporate interests; [...] [além de] bludgeon other countries to adopt economic policies and social policies that will benefit American economic interests [...] (HUNTINGTON, 1999, p. 38).