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Signaling pathways activated downstream of c-Kit

IV. KitL/c-Kit signaling

IV.2. Signaling pathways activated downstream of c-Kit

Para Foucault, é a palavra que constitui a coisa, o objeto. Este é formado pela fala que se faz sobre ele, de modo que é o discurso que, num movimento de linguagem, constrói algo pelo que diz dele. Se faz necessário, pois,

não mais tratar os discursos como conjuntos de signos (elementos significantes que remetem a conteúdos ou a representações), mas como práticas que formam sistematicamente os objetos de que falam. Certamente os discursos são feitos de signos; mas o que fazem é mais que utilizar esses signos para designar coisas. É esse mais que os torna irredutíveis à língua e ao ato da fala (FOUCAULT, 2007, p. 55).

O discurso é muito mais do que um relato sobre algo mas, mais propriamente, a condição de existência de algo. O discurso encerra uma relação de forças importante na conformação de seu tema. Mas é necessário, também, que observemos como Foucault pensa este conceito:

o discurso, assim concebido, não é a manifestação, majestosamente desenvolvida, de um sujeito que pensa, que conhece, e que o diz: é, ao contrário, um conjunto em que podem ser determinadas a dispersão do sujeito e sua descontinuidade em relação a si mesmo. É um espaço de exterioridade em que se desenvolve uma rede de lugares distintos” (FOUCAULT, 2007, p. 61).

Nos interessa, portanto, não reviver toda a arqueologia do saber, mas deixar pairando o feixe complexo de relações que envolve o discurso, afinal, “em toda sociedade a produção do discurso é ao mesmo tempo controlada, selecionada, organizada e redistribuída por certo número de procedimentos que têm por função conjurar seus poderes e perigos, dominar seu acontecimento aleatório, esquivar sua pesada e temível materialidade” (FOUCAULT, 1999, p.9).

Sem fazer conexões causais, Foucault demonstra que a revolução industrial coincidiu com o surgimento de “novos métodos para administrar” a população urbana com seus grandes contingentes de trabalhadores, estudantes, prisioneiros, pacientes hospitalares e outros grupos. Na medida em que indivíduos foram sendo arrancados dos antigos regimes de poder, da produção agrária e artesanal e das grandes estruturas familiares, novos

arranjos descentralizados foram concebidos para controlar e regular essas massas de sujeitos relativamente livres e abandonados à sua sorte. Para Foucault, a modernidade do século XIX é inseparável da maneira pela qual mecanismos de poder dispersos coincidem com os novos modos de subjetividade (CRARY, 2012, p. 23).

Foucault vai chamar de “disciplina” os métodos que controlam minuciosamente o corpo em busca de uma “relação de docilidade-utilidade”. “Muitos processos disciplinares existiam há muito tempo: nos conventos, nos exércitos, nas oficinas também. Mas as disciplinas se tornaram, no decorrer dos séculos XVII e XVIII, fórmulas gerais de dominação” (FOUCAULT, 2004, p. 118). O surgimento da disciplina não visa apenas o aumento das habilidades do corpo humano, nem tampouco o aprofundamento de sua sujeição, mas a possibilidade de torná-lo obediente e útil. Isso não aconteceu de forma súbita, mas por uma multiplicidade de processos de diferentes origens e localizações, “que se recordam, se repetem, ou se imitam, apoiam-se uns sobre os outros, distinguem-se segundo seu campo de aplicação, entram em convergência e esboçam aos poucos a fachada de um método geral” (FOUCAULT, 2004, p. 119).

A disciplina age sobre e sob alguns pressupostos. O primeiro deles, a “distribuição dos indivíduos no espaço”: através dos conventos, dos quartéis, dos colégios, dos hospícios, dos hospitais, das fábricas, entre outros espaços ordenadores – ou “instituições disciplinares”. Essa ordenação se dá pelo espaço que o indivíduo ocupa, mas não de modo fixo, pois eles podem ser intercambiáveis. Através da divisão – do grupo em subgrupos, dos processos em etapas, dos estudantes em classes e assim por diante – o indivíduo passa a fazer parte de uma categoria, de uma posição numa fila, “o lugar que alguém ocupa numa classificação”. “A disciplina, arte de dispor em fila, e da técnica para a transformação dos arranjos. Ela individualiza os corpos por uma localização que não os implanta, mas os distribui e os faz circular numa rede de relações” (FOUCAULT, 2004, p. 125). O controle através do tempo se dá pelas noções de pontualidade, de marcações finais, conclusões, tudo em busca da eficiência de um corpo disciplinado.

A disciplina também se dá pelo controle da produção do discurso, ou, dizendo por outro ponto de vista, é um dos caminhos para tanto. Foucault refletiu sobre a possibilidade de um controle através de mecanismos externos e internos ao discurso, ou seja, aqueles que resultam de articulações de poder e exclusão e outros que dizem respeito ao controle exercido pelo próprio discurso. A palavra interdita, a partilha da loucura e a vontade de verdade seriam

sistemas de exclusão: aquilo que não deve ser dito, o discurso daquele que não goza de faculdades mentais condizentes com o estabelecido como coerente e os valores positivos da verdade, respectivamente. Os dois primeiros, segundo Foucault, convergem para o último, pois “cada vez mais, o terceiro procura retomá-los, por sua própria conta, para, ao mesmo tempo, modificá-los e fundamentá-los” (FOUCAULT, 1999, p. 19). A vontade de verdade reforça a linha que exclui a possibilidade de determinados discursos. Tais procedimentos acontecem de modo externo ao discurso, mas também existem outros que possibilitam ao próprio discurso ser responsável por seu controle, agora no sentido de dominar a dimensão do acontecimento e do acaso. O comentário, o autor e a disciplina são princípios que se opõem entre si, mas que atuam no mesmo sentido de ordenamento do discurso.

Tem-se o hábito de ver na fecundidade de um autor, na multiplicidade dos comentários, no desenvolvimento de uma disciplina, como que recursos infinitos para a criação de discursos. Pode ser, mas não deixam de ser princípios de coerção; e é provável que não se possa explicar seu papel positivo e multiplicador, se não se levar em consideração sua função restritiva e coercitiva (FOUCAULT, 1999, p. 36).

A disciplina, com suas normas, delimitações e, principalmente, padrões e serializações, visa a eficiência, a produtividade. Ela trata de uma produção massificada, unificada, reproduzível. O resultado de um procedimento disciplinado não estaria em algo singular, mas homogêneo, padronizado. Nem mesmo o comentário, embora tenha a aparência de um acréscimo, de uma interpretação – que, em si, tem algo de criativo –, significa a busca por algo novo, mas pelo sentido correto, pelo real significado do texto.

O comentário não tem outro papel, sejam quais forem as técnicas empregadas, senão o de dizer enfim o que estava articulado silenciosamente no texto primeiro. Deve, conforme um paradoxo que ele desloca sempre, mas ao qual não escapa nunca, dizer pela primeira vez aquilo que, entretanto, já havia sido dito e repetir incansavelmente aquilo que, no entanto, não havia jamais sido dito (FOUCAULT, 1999, p. 25).

Um outro “princípio de rarefação do discurso” é o autor. Não no sentido do indivíduo que fala ou escreve um texto, mas “como princípio de agrupamento do discurso, como unidade e origem de suas significações, como foco de sua coerência” (FOUCAULT, 1999, p. 26). Ao observar o autor com essa responsabilidade de ordenamento, Foucault nos dá a entender o peso dessas camadas sobrepostas ao conceito de autor que vão além do ato de produzir algo, seja uma fala, um escrito. Tais sobreposições se fizeram pelos acúmulos e

negociações do tempo, pela sedimentação e revisão de estruturas sociais, nas relações comerciais – como já vimos – mas também por novos regimes jurídicos e políticos. Não podemos dissociar a autoria de uma rede complexa de articulações cujos nós passam não apenas pelo desenvolvimento da cultura impressa e seus desdobramentos, mas também por alterações no estatuto do sujeito e na organização de uma sociedade moldada pela disciplina.