Ao se analisar o conjunto dos estudos relacionados à higiene do trabalho agrícola, percebe-se uma gama de pesquisadores preocupados principalmente com a questão da ocorrência das doenças conhecidas como LER/DORT - Lesões por Esforços Repetitivos/Distúrbios Ósteo-musculares relacionados ao Trabalho - entre os agricultores, ou com aspectos ocupacionais desta categoria profissional. Estes temas foram os principais entre os doze trabalhos em Ergonomia Agrícola6
apresentados no Congresso da Associação Internacional de Ergonomia, realizado na Finlândia em 1997 (cinco dos doze artigos).
Calisto, Kleisinger e Landau (1997) investigaram a freqüência deste conjunto de doenças entre os produtores de frutas alemães, analisando os fatores de stress relacionados e avaliando a carga física e mental do trabalho através da utilização de medidas fisiológicas, tais como, o batimento cardíaco e a eletromiografia.
Vrielink, Kleemans e Van Dieën (1997), por sua vez, analisaram uma tarefa repetitiva na horticultura holandesa, relacionando-a a uma alta prevalência de
6 Artigos apresentados na sessão Agricultura e agroindústrias, dos quais desconsiderou-se aqueles relacionados à Ergonomia aplicada a reflorestamentos e às agroindústrias.
queixas de dores nos ombros e pescoço. Embora o procedimento-padrão neste tipo de levantamento seja a aplicação de um questionário junto aos trabalhadores envolvidos na tarefa, os autores consideram insatisfatórios os dados obtidos apenas por este procedimento. Aliam, então, este questionário à técnica da eletromiografia (EMG).
Já Jensen e Pilegaard (1997) estudaram na Dinamarca o trabalho com garfo durante a preparação da silagem, com o objetivo de comparar seis modelos biomecânicos distintos em relação às cargas depositadas na região lombar, nos ombros e cotovelos destes trabalhadores.
Pinzke (1997) defende o método WOPALAS7, sistema computadorizado
baseado em OWAS8, como um bom método para se analisar posturas no trabalho e
cita exemplo de sua utilização na agricultura sueca.
Ainda neste grupo de autores cujos estudos relacionam-se com à higiene do trabalho agrícola, embora anterior ao Congresso de 1997, encontram-se também os estudos efetuados por Robin (1987), que fez um levantamento dos trabalhos realizados internacionalmente a respeito dos problemas de saúde dos tratoristas. O autor afirma que estes problemas são decorrentes principalmente da vibração de tratores agrícolas, e que são agravados pela má postura que o operador assume ao monitorar os implementos acoplados e pelas condições adversas do meio ambiente. Já Juliszewski e Zalewski (1997, p.30), pesquisadores poloneses, chamam a atenção sobre a dificuldade em se avaliar as vibrações e ruídos aos quais o operador de trator está exposto, quando em condições reais de uso (com um implemento acoplado, por exemplo). Salientam, no entanto, que “(...) o impacto de ruído e vibrações geradas pelos tratores em suas operações vem sendo significativamente reduzido através da aplicação de designs de construção modernos”.
Ainda, neste grupo, pode-se inserir o estudo de Nevala-Puranen e Sörensen (1997) realizado em uma unidade de produção agrícola cujo agricultor era portador de uma incapacidade física. Eles introduziram medidas de re-design ergonômico como forma de potencializar a independência para o trabalho em agricultores com incapacidades físicas, relacionando esta capacidade de trabalho também à motivação dos agricultores para exercê-lo.
Outra linha de pesquisa acerca da higiene do trabalho agrícola é aquela relacionada à utilização de agrotóxicos pelos agricultores. Bryson (1982), ao estudar a questão, afirma que os produtos químicos utilizados mais recentemente na agricultura são menos tóxicos do que os antigos, no entanto, provocam efeitos crônicos a longo prazo sobre a saúde dos agricultores. Em seu artigo, o autor fornece algumas diretrizes que permitem determinar os efeitos dos produtos químicos nas pessoas e investiga as diferentes vias de penetração dos produtos químicos no organismo humano.
Bruat e Delemotte (1989), por sua vez, abordam a utilização racional dos produtos fitossanitários, a partir da constatação de que o método tradicional de proteção do agricultor que usa estes produtos - o uso de EPIs (equipamentos de proteção individual) - é mal conhecido. Verificam que com este tipo de procedimento não haverá progresso em relação à prevenção e fazem uma opção por uma nova estratégia: a educação para a saúde integrada à uma concepção mais abrangente, visando a competência profissional.
Sznelwar e See (1991) relatam as discussões realizadas no âmbito de um seminário sobre a contribuição da ergonomia para a análise do risco tóxico na agricultura, introduzindo a ergotoxicologia - uma abordagem que, ao invés de definir a toxicidade em termos de normas, o faz em termos de atividade e de estratégias de utilização dos produtos fitossanitários, relacionando-as com o discurso do produtor.
Sznelwar (1992) em sua tese de doutorado, realizou um estudo comparativo sobre o uso de agrotóxicos entre o Brasil (região metropolitana de São Paulo) e a França (região dos arredores de Paris), com produtores de verduras e de flores, chegando às seguintes conclusões: os agricultores do Brasil estão mais expostos aos biocidas9 devido ao fato de a colheita durar o ano todo, o que não ocorre na
França; existem diferenças fundamentais entre as grandes e pequenas propriedades analisadas. Enquanto que na pequena propriedade a pessoa que vai aplicar os biocidas é escolhida por critérios de sexo e idade, na grande propriedade esta escolha é determinada pela divisão do trabalho, recaindo sobre um trabalhador não qualificado; e, ainda, que a diversidade e quantidade de biocidas utilizados, e a duração e freqüência das sessões de aplicação são maiores nessas propriedades.
8 Ovako Working Posture Analysis System.
Com relação à análise do discurso dos diversos operadores entrevistados que trabalhavam nestas propriedades, percebeu-se a importância da representação mental do risco que estão expostos. E para que possam adquirir as informações sobre esse risco, verificou-se a importância da sua inserção no meio social em que vivem. Este último fator é mais representativo no Brasil do que na França, devido aos problemas com o idioma que os trabalhadores deste último enfrentam, pois, são na maioria imigrantes de Portugal ou do Magreb (Tunísia, Marrocos e Argélia).