Muitas vezes a célula, unidade de base do ser vivo, foi comparada a uma fábrica automática extremamente aperfeiçoada. A “[...] célula, no caso do unicelular, se depende evidentemente de um ecossistema externo de que faz parte e onde alimenta sua complexidade, baseia sua complexidade no próprio sistema generativo, isto é, na sua auto-organização” (MORIN, 1998, p.293). Esta comparação entre a célula e a fábrica, como toda comparação cibernética, elimina, entretanto, o núcleo da complexidade biológica, que é a auto-organização.
Todo ser vivo pode ser concebido como uma organização auto-(geno-feno)- eco-reorganizadora; trata-se de concebê-la:
[...] a) como reorganização permanente de um sistema que tende a desorganizar-se; b) como reorganização permanente de si, isto é, não apenas organização, mas auto-reorganização; nos seres vivos, essa organização está duplamente polarizada, por um lado, em geratividade (a organização genética comportando a pretensa programação do ‘genótipo’), por outro, em fenomenalidade (a organização das atividades e comportamentos do ‘fenótipo’). Em outras palavras, trata-se de uma organização auto-(geno-feno)-reorganizadora (MORIN, 1998, p.266).
Além destas características internas, uma organização realiza trocas com o ambiente que, por sua vez, fornece organização (alimentos) e potencial de organização (informações), constituindo um ecossistema. “Assim, desde o ser vivo menos complexo (o unicelular) até a organização das sociedades humanas, toda organização é, pelo menos, auto-(geno-feno)-eco-reorganização” (MORIN, 1998, p.266).
Quando se trata da complexidade biológica, é importante discutir a complexidade da relação ecossistêmica, pois, esta comporta ao mesmo tempo duas noções complementares, porém, antagônicas: as noções de autonomia e de dependência.
O conceito de autonomia, ao contrário do que poderia supor o paradigma da simplificação, só pode ser concebido a partir de uma teoria dos sistemas ao mesmo tempo aberta e fechada: [...] um sistema que funciona precisa de uma energia nova
para sobreviver e, portanto, deve capturar esta energia no meio ambiente. Conseqüentemente, a autonomia se fundamenta na dependência do meio ambiente e o conceito de autonomia passa a ser um conceito complementar ao da dependência, embora lhe seja, também, antagônico (MORIN, 1998, p.184).
Aliás, Morin (1998, p.184) afirma que [...] um sistema autônomo aberto deve ser ao mesmo tempo fechado, para preservar sua individualidade e sua originalidade, [...] no universo complexo, é preciso que um sistema autônomo esteja aberto e fechado, a um só tempo. É preciso ser dependente para ser autônomo.
Assim, ao pensar a relação ecossistêmica considerando as noções de autonomia e dependência, complementares e antagônicas ao mesmo tempo, Morin (1998, p.294) afirma que quanto mais “[...]evoluído for o ser vivo, mais autônomo será, mais extrairá de seu ecossistema vivo energia, informação, organização. Mas mais dependerá, pela mesma razão, de seu ecossistema. O ser vivo é, portanto, ao mesmo tempo, autônomo e dependente e, em se tornando mais autônomo, torna-se mais dependente. É, portanto, auto-organizador sem ser auto-suficiente”.
Uma comparação interessante entre o autômato artificial (o computador, por exemplo) e o autômato natural (o ser vivo mais rudimentar, o unicelular) foi realizada por Von Neumann, introduzindo a comunidade científica no âmago da complexidade biológica. A diferença entre eles manifesta-se sob três aspectos interdependentes: a confiabilidade entre as partes e o todo, e a relação ordem/desordem, a relação entre autonomia das células e entropia.
2.1.6.1 Confiabilidade partes-todo
Uma máquina artificial é composta por elementos extremamente confiáveis individualmente. No entanto, em seu conjunto,
[...] a máquina é de confiabilidade muito reduzida, ou seja, pára e sofre avaria logo que um único de seus componentes se degrada. É tanto menos confiável quanto mais numerosos e interdependentes forem os seus componentes.[...] Em contrapartida, o ser vivo é composto por elementos muito pouco confiáveis; as moléculas de uma célula, as células de um organismo degradam-se incessantemente e têm duração efêmera [...]. Todavia, o conjunto é muito mais confiável do que seus constituintes, e sua confiabilidade não diminui com o aumento do número e das inter-relações desses constituintes (MORIN, 1998, p.294-295).
No ser vivo, apesar da degradação definitiva de certos constituintes, apesar dos acidentes que o podem atingir, o conjunto continua funcionando. Para Morin (1998, p.295) “a eqüifinalidade é a atitude dos seres vivos que lhes permite realizarem seus fins (seu ‘programa’) por meios desviados, apesar de carências, de acidentes ou de obstáculos, enquanto a máquina, privada de um dos seus elementos ou de um dos seus alimentos, se deteriora, pára ou fornece produtos errôneos”.
2.1.6.2 Relação ordem/desordem
A confiabilidade pode ser vista em termos mais gerais se for considerado a relação entre ordem e desordem. Assim, os constituintes de uma máquina sofrem desgastes, deformações que
[...] perturbam e degradam sua ordem e podem ser considerados elementos ou fatores de desordem. [...] a máquina artificial não apenas sofre em pouco tempo desordem, ruído, erros (por causa de sua fraca confiabilidade), mas também não os pode tolerar. Quando muito, pode diagnosticar o erro e parar imediatamente, a fim de limitar o curso da desordem [...] (MORIN, 1998, p.296).
Já o funcionamento do ser vivo tolera, até certos limiares, uma parte de desordem, de ruído3, de erros. A degradação contínua das moléculas e das células
de um organismo, por exemplo, é a desordem permanente. Além disso, há um certo grau de autonomia das células num organismo: “a integração das células entre elas, dos órgãos entre eles é extremamente frouxa e, portanto, comporta margem de incertezas e de aleatoriedades” (MORIN, 1998, p.296).
No autômato artificial, as relações entre os elementos constituintes ou subsistemas dependem de um ajuste perfeito entre eles. Qualquer alteração neste ajuste provoca desordem e perturbações, que desviam o autômato artificial de seu programa, provocando erros.
Já o autômato natural incorpora a desordem na sua ordem. Observa-se que “[...] na ordem do ser vivo, as relações entre elementos ou subsistemas, entre indivíduos ou grupos não dependem de um estreito ajustamento (fitting), de uma estreita complementaridade, mas também de concorrências, competições,
3 «[...]Toda fonte de erro, distúrbio ou deformação de fidelidade na transmissão de uma mensagem visual, escrita, sonora, etc. ; sinal indesejável que não pertence à mensagem intencionalmente transmitida» (Ferreira, 1999, p.1788).
antagonismos, conflitos, o que é, evidentemente, fonte de perturbações e desordens” (MORIN, 1998, p.296-297).
Para Morin (1998, p.297), este é um sinal de complexidade, “pois quanto mais evoluído for um ser vivo, mais complexo ele é e mais compreende em si desordem, ruído, erro. [...] Mais uma vez, a complexidade manifesta-se como ambigüidade e paradoxo, aqui na relação entre ordem e desordem”.
2.1.6.3 Autonomia das células e entropia
Morin (1998, p.297), em relação ao segundo princípio da termodinâmica, afirma que todo “sistema físico organizado sofre, sem remissão, o efeito do segundo princípio da termodinâmica, isto é, o aumento da entropia dentro do sistema, que se traduz pelo aumento da desordem em detrimento da ordem, da homogeneidade em detrimento da heterogeneidade (a diversidade dos elementos constitutivos), em resumo, da desorganização em detrimento da organização”.
A máquina artificial, cujo conjunto é pouco confiável, é rapidamente degenerativa; ela na verdade degrada-se a partir do momento em que é constituída. Além disso, não tem a capacidade de se auto-reconstituir: Assim, “só se pode lutar contra esta degradação externamente, isto é, reparando ou substituindo as peças gastas, o que significa que o poder regenerador está no exterior da máquina [e] [...] não é só a máquina que está sujeita à degradação, mas também a informação (o programa) que a controla e comanda [...]” (MORIN, 1998, p.297-298).
A máquina viva, por sua vez, é não degenerativa, pelo menos temporariamente; ela é capaz de renovar seus constituintes moleculares e celulares que se degradam. “[...] Bem entendido, o indivíduo vivo acaba por degenerar: envelhece e morre; a entropia vence-o, sob o efeito estatístico da acumulação dos ‘erros’ que se efetuam na transmissão da mensagem genética [...]” (MORIN, 1998, p.298). Mas, em contrapartida, o ser vivo dispõe do trunfo da geratividade:
[...] o autômato natural é auto-reprodutor, ou seja, capaz de gerar um novo autômato natural. [...] A complexidade biológica traduz-se por geratividade, que, por sua vez, se traduz por complexidade. [...] O princípio qualitativamente novo que se manifesta no autômato natural em relação ao artificial [...] se encontra na geratividade (MORIN, 1998, p.298-299).
Morin (1998, p.299) aponta para o seguinte paradoxo:
a confiabilidade, a não degeneratividade, a geratividade dos sistemas vivos dependem de certa forma da não confiabilidade e da degeneratividade de seus componentes. [...] Desordem, ruído, erro são mortais em diferentes aspectos, graus e termos para o ser vivo: mas também são parte integrante de sua auto-organização não degenerativa e são elementos fecundantes de seus desenvolvimentos generativos. [...] A ordem viva se alimenta da desordem [...], a organização do ser vivo é, essencialmente, um sistema de reorganização permanente.
Assim, para Morin (1998, p.300),
o nó da complexidade biológica é o nó górdio4 entre destruição interna permanente e
autopoiese5, entre o vital e o mortal. Enquanto a ‘solução’ simples da máquina é retardar o curso fatal da entropia pela alta confiabilidade de seus constituintes, a ‘solução’ complexa do ser vivo é ampliar a desordem, para dela extrair a renovação de sua ordem. A geratividade funciona com a desordem, tolerando-a, servindo-se dela e combatendo-a, em relação antagônica, concorrente e complementar.
Estas categorias - a reorganização permanente e a autopoiese - são aplicáveis a toda ordem biológica, inclusive à ordem sociológica humana. Pode-se dizer que
uma célula está em autoprodução permanente por meio da morte de suas moléculas. Um organismo está em autoprodução permanente por meio da morte de suas células [...]; uma sociedade está em autoprodução permanente por meio da morte de seus indivíduos [...]: ela se reorganiza incessantemente por meio de desordens, antagonismos, conflitos que minam sua existência e, ao mesmo tempo, mantém sua vitalidade. [...] Portanto, em todos os casos, o processo de desorganização – degenerescência participa no processo de reorganização - regeneração. A desorganização torna-se um dos traços fundamentais do funcionamento, ou seja, da organização do sistema. Os elementos de desorganização participam na organização (MORIN, 1998, p.300).