• Aucun résultat trouvé

O feminismo Negro permanece importante, porque as mulhe- res Negras norte-americanas constituem um grupo oprimido. Como coletividade, as mulheres Negras norte-americanas parti- cipam de uma relação dialética que liga a opressão das mulheres afro-americanas e o ativismo. Relações dialéticas deste tipo sig- nificam que duas partes estão opostas e opõem-se. Enquanto per- sistir a subordinação das mulheres Negras, intersectando-se dentro delas as opressões de raça, classe, género, sexualidade e

nacionalidade, o feminismo Negro, como ativismo em resposta a esta opressão, continuará a ser necessário.

Do mesmo modo, o principal objetivo do pensamento femi- nista Negro norte-americano é também resistir à opressão, seja às suas práticas, seja às ideias que a justificam. Se não existissem opressões interseccionais, o pensamento feminista Negro e os co- nhecimentos oposicionais similares seriam desnecessários. Como teoria social crítica, o pensamento feminista Negro visa empode- rar as mulheres afro-americanas no contexto da injustiça social sustentada por opressões interseccionais. Como as mulheres Ne- gras não podem ser plenamente empoderadas a menos que as pró- prias opressões interseccionais sejam eliminadas, o pensamento feminista Negro apoia princípios amplos de justiça social, que transcendem as necessidades particulares das mulheres Negras norte-americanas.

Uma vez que muito do feminismo Negro norte-americano foi filtrado através do prisma do contexto norte-americano, os seus contornos foram bastante afetados pela especificidade do multi- culturalismo norte-americano (Takaki 1993). Em particular, o pensamento e a prática feminista Negra norte-americanos res- pondem a uma contradição fundamental da sociedade norte-ame- ricana. Por um lado, promessas democráticas de liberdade individual, igualdade perante a lei e justiça social são feitas a todos os cidadãos americanos. Por outro lado, e ainda assim, per- siste a realidade do tratamento diferenciado de grupos com base em raça, classe, género, sexualidade e estatuto de cidadania. Gru- pos organizados em torno de raça, classe e género não são neces- sariamente por si só um problema. No entanto, quando Afro-americanos, pessoas pobres, mulheres e outros grupos dis- criminados veem pouca esperança de progredir como grupo, esta situação constitui uma injustiça social.

Dentro desta contradição abrangente, as mulheres Negras norte-americanas enfrentam um conjunto distinto de práticas so- ciais que acompanham a nossa história particular dentro de uma matriz única de dominação, caracterizada por opressões intersec- cionais. A raça está longe de ser o único marcador significativo da diferença de grupo – classe, género, sexualidade, religião e o esta-

tuto de cidadania são muito importantes nos Estados Unidos da América (Andersen e Collins 1998). No entanto, para as mulheres afro-americanas, os efeitos do racismo institucionalizado perma- necem visíveis e palpáveis. Além disso, o racismo institucionali- zado que as mulheres afro-americanas enfrentam liga-se fortemente à segregação racial e às práticas discriminatórias a ela associadas, destinadas a negar um tratamento equitativo aos Ne- gros americanos. Apesar dos importantes passos para dessegregar a sociedade americana desde 1970, a segregação racial permanece profundamente arraigada no que respeita ao acesso à habitação, à educação e ao emprego (Massey e Denton, 1993). Para muitas mulheres afro-americanas, o racismo não é algo que existe à dis- tância. Enfrentamos situações de racismo em locais de trabalho, lojas, escolas, à procura de casas e nas interações sociais diárias (St. Jean e Feagin 1998). A maioria das mulheres Negras não tem a oportunidade de ter relações de amizade com vizinhos, mulheres ou homens, Brancos, nem os seus filhos frequentam a escola com crianças Brancas. A segregação racial continua a ser uma carac- terística fundamental do cenário social norte-americano, deixando muitos Afro-americanos com a crença de que “quanto mais as coi- sas mudam, mais elas permanecem iguais” (Collins 1998a, 11-43). Encobrir estas desigualdades persistentes é uma retórica de dal- tonismo, projetada para tornar invisíveis estas desigualdades so- ciais. Num contexto em que muitos acreditam que falar de raça promove o racismo, a igualdade consiste supostamente em tratar a todos da mesma forma. No entanto, como Kimberle Crenshaw (1997) aponta, “é bastante óbvio que tratar coisas diferentes como se fossem iguais pode gerar tanta desigualdade quanto tratar coi- sas iguais de maneira diferente” (p. 285).

Apesar de a segregação racial estar agora organizada de ma- neira diferente do passado (Collins 1998a, 11-43), o facto de se ser Negra e mulher nos Estados Unidos continua a expor mulheres afro-americanas a certas experiências comuns. A similitude das experiências de mulheres Negras norte-americanas no trabalho e na família, bem como a nossa participação em expressões diver- sas da cultura afro-americana, significa que, em geral, as mulhe- res Negras, como grupo, vivem num mundo diferente daquelas pessoas que não são Negras e mulheres. Para as mulheres, con-

sideradas individualmente, as experiências particulares que advêm de viver como uma mulher Negra nos Estados Unidos podem estimular uma consciência distinta relativamente às nos- sas próprias experiências e à sociedade em geral. Muitas mulhe- res afro-americanas compreendem esta conexão entre o que se faz e o modo como se pensa. Hannah Nelson, uma empregada domés- tica Negra, idosa, discute como o trabalho molda as perspetivas das mulheres afro-americanas e Brancas: “Como eu tenho de tra- balhar, eu na verdade não tenho que me preocupar com a maior parte das coisas com as quais a maioria das mulheres brancas para quem eu trabalhei se preocupam. E se estas mulheres fizes- sem o seu próprio trabalho, elas pensariam como eu – em relação a isto, pelo menos” (Gwaltney 1980, 4). Ruth Shays, uma mora- dora Negra do centro empobrecido da cidade, nota como as varia- ções entre as experiências de homens e mulheres levam a diferenças de perspetiva. “A mente do homem e da mulher são iguais”, observa ela, “mas a vida faz as mulheres usarem as suas mentes de modos que os homens não têm sequer necessidade de fazer” (Gwaltney 1980, 33).

Um reconhecimento desta conexão entre experiência e cons- ciência, que molda a vida individual quotidiana das mulheres afro-americanas, permeia frequentemente os trabalhos de mulhe- res Negras ativistas e académicas. Na sua autobiografia, Ida B. Wells-Barnett descreve como o linchamento das suas amigas teve tal impacto sobre a sua visão de mundo, que ela dedicou poste- riormente grande parte da sua vida à causa do antilinchamento (Duster 1970). O desconforto da socióloga Joyce Ladner com a dis- paridade entre os ensinamentos da escola convencional e as suas próprias experiências enquanto jovem mulher Negra no Sul, levou-a a escrever Tomorrow’s Tomorrow (1972), um estudo revo- lucionário sobre a adolescência feminina Negra. Da mesma forma, a transformação de consciência experimentada por Janie, a heroína de pele clara do clássico de Zora Neale Hurston (1937)

Their Eyes Were Watching God, de obediente neta e esposa a uma

mulher afro-americana autodefinida, pode ser traçada direta- mente a partir das suas experiências com cada um dos seus três maridos. Numa passagem, o segundo marido de Janie, irritado porque ela lhe servira um jantar de arroz queimado, peixe mal

passado e pão empapado, bate-lhe. Esse incidente estimula Janie a permanecer ali “onde ele a deixou por um tempo indefinido” e pensar. E, no seu pensamento, “a imagem de Jody caiu e despe- daçou-se... ele[a] tinha agora um interior e um exterior e de re- pente ela sabia como não os misturar” (p. 63).

No geral, estes laços entre o que uma pessoa faz e o que ela pensa, ilustrados por casos individuais de mulheres Negras, podem também caracterizar as experiências e ideias das mulheres Negras como um grupo. Historicamente, a segregação racial quanto à ha- bitação, à educação e ao emprego fomentou comunalidades de grupo, que incentivaram a formação de uma perspetiva coletiva e com base no grupo2. Por exemplo, a forte concentração de mulheres

Negras no trabalho doméstico, a par da segregação racial na habi- tação e nas escolas, levou as mulheres Negras norte-americanas a ter redes organizacionais comuns que lhes permitiram partilhar experiências e construir um corpo coletivo de saberes. Esta sabe- doria coletiva, a respeito de como sobreviver como mulheres Negras norte-americanas, constituiu uma perspetiva distinta das mulhe- res Negras sobre padrões de segregação racial específicos de género e as respetivas penalizações económicas.

A presença dos saberes coletivos das mulheres Negras desafia duas interpretações predominantes da consciência dos grupos oprimidos. Uma abordagem alega que os grupos subordinados identificam-se com os poderosos e não têm interpretação indepen- dente da sua própria opressão. A segunda, assume que os oprimi-

2 Para um debate sobre o conceito de perspetiva, ver Hartsock (1983a, 1983b), Jaggar (1983) e Smith (1987). Embora eu empregue as epistemologias da perspetiva como conceito organizador neste volume, elas permanecem controversas. Para uma crítica útil das epistemologias da perspetiva, ver Harding (1986). Veja-se a minha extensa discussão sobre a teoria da perspetiva (Collins 1998a, 201–28). A socióloga cana- diana Dorothy Smith (1987) também vê o mundo quotidiano das mulheres como uma teoria estimulante. Mas o dia a dia que ela examina é individual, uma situação que reflete em parte o isolamento de mulheres brancas de classe média. Por outro lado, defendo que os valores coletivos dos bairros Negros dos EUA, quando combi- nados com as experiências da classe trabalhadora da maioria das mulheres Negras, forneceu historicamente mundos quotidianos coletivos e individuais. Assim, a cul- tura Negra dos EUA criada continuamente por meio da experiência Negra vivida com a segregação racial proporcionou um contexto para o surgimento da perspetiva das mulheres Negras. Embora os contextos nos quais esta perspetiva coletiva se de- senvolveu esteja a mudar, o propósito ou a necessidade dela não está.

dos são menos humanos que os seus governantes e, portanto, são menos capazes de interpretar as suas próprias experiências (Rol- lins 1985; Scott 1985). Ambas as abordagens veem qualquer cons- ciência independente expressa por mulheres afro-americanas e outros grupos oprimidos, ou como não sendo da nossa autoria, ou como inferiores às dos grupos dominantes. Mais importante, ambas as explicações sugerem que a alegada falta de ativismo po- lítico por parte de grupos oprimidos decorre da imperfeição da nossa consciência relativamente à nossa própria subordinação3.

Historicamente, a localização do grupo das mulheres Negras em opressões interseccionais produziu experiências individuais comuns entre as mulheres afro-americanas. Ao mesmo tempo, se as experiências comuns podem predispor as mulheres Negras a desenvolver uma consciência de grupo, elas não garantem que esta consciência se desenvolverá entre todas as mulheres e nem que será articulada como tal pelo grupo. Como as condições his- tóricas mudam, o mesmo ocorre com os vínculos entre os diferen- tes tipos de experiências que as mulheres Negras terão e com qualquer subsequente consciência de grupo resultante destas ex- periências. Uma vez que os pontos de vista do grupo são situados, refletem e ajudam a moldar relações de poder injustas, estas pers- petivas não são estáticas (Collins 1998a, 201–28). Assim, desafios comuns podem promover ângulos de visão semelhantes, levando a um conhecimento ou perspetiva de grupo entre as mulheres afro-americanas. Ou não.

3 Scott (1985) define a consciência como símbolos, normas e formas ideológicas que as pessoas criam para dar sentido aos seus atos. Para Lauretis (1986), a consciência é um processo, uma “configuração particular de subjetividade... produzido na in- tersecção de significado com experiência... A consciência está fundamentada na his- tória pessoal, e o eu e a identidade são entendidos em contextos culturais particulares. A Consciência... nunca é fixa, nunca é alcançada de uma vez por todas, porque os limites discursivos mudam com as condições históricas” (p. 8). É impor- tante distinguir entre consciência individual e de grupo.

Respostas diferentes a desafios comuns no interior