2.3 Reconstruction
2.3.1 Reconstruction par algorithmes it´ eratifs
visível possui, ele próprio, uma membrana de invisível, e o invisível é a contrapartida secreta do visível, não aparece senão nele, é o Nichturprasentierbar que me é apresentado como tal no mundo – não se pode vê-lo aí, e todo o esforço para aí vê-lo o faz desaparecer, mas ele está na linha do visível, é a sua pátria virtual, inscreve-se nele (em filigrana). (Merleau-Ponty, 2000, p.200)
3.4 EXPERIÊNCIA E APARÊNCIA
A maioria dos fenomenologistas, pelo que percebemos, adotou Husserl na busca de um estilo de investigação que privilegiava a descrição pura. Ou seja, a premissa de Husserl para a célebre frase - "Voltar às coisas mesmas.", ganhou repercussão e adeptos ao longo do tempo. Para o filósofo alemão Martin Heidegger essa “escola” ganhou uma nova ramificação e extrapolou uma linha de pensamento, assim, surgiram algumas diferenças entre o discípulo e o mestre (Husserl). Na busca de respostas para “o sentido do ser”, Heidegger afirmou que a fenomenologia é capaz de tornar aparente o que está geralmente oculto na experiência cotidiana.
Em sua obra, Ser e Tempo (2008), Heidegger procurou apresentar o que titulou de “estrutura do dia-a-dia” ou “ser-no-mundo”, que em suas descobertas demonstrou ser um múltiplo sistema de conexões de equipamentos, códigos sociais e intenções abertas. Para Heidegger, cada indivíduo é aquilo que pratica no mundo, a redução fenomenológica é impraticável para a experiência privada, muito provavelmente devido a origem da ação humana que consiste na direta apreensão da “coisa” e/ou da imagem59. Para ele não é
59 Quanto à palavra imagem, devemos pensar na reprodução de alguma coisa. Um Weltbild seria, portanto, como um
quadro do ente em sua totalidade. No entanto, Weltbild diz mais. Pois assim entendemos o Mundo (Welt) ele mesmo, o ente em sua totalidade, assim como nos impõem suas diversas ordens de medidas. Imagem (Bild) designa, por conseguinte, não um simples decalque, mas o que se faz entender na forma alemã: Wir sind über etwas im Bilde (literalmente: “somos quanto a qualquer coisa, na imagem”, ou seja, “somos ou estamos no fato desta coisa”). (…) Fazer a ideia de alguma coisa de maneira a ser fixada, é, portanto pôr o ente ele mesmo diante de si para ver de que se trata, e tendo assim o fixado, o manter constantemente nesta representação. (…) Lá onde o Mundo se torna imagem concebida (Bild), a totalidade do ente é compreendida e fixada como aquilo sobre o qual o homem pode se orientar, como aquilo que ele quer por conseguinte levar e ter diante de si, aspirando assim a pará-lo, em um sentido decisivo, em uma representação. Weltbild, o mundo na medida de uma “concepção”, não significa, portanto, uma ideia do mundo, mas o mundo ele-mesmo apreendido como aquilo que se pode “ter-ideia”. O ente em sua totalidade é, portanto, tomado agora de tal maneira que ele é só e verdadeiramente ente na medida em que é parado e fixado pelo
imprescindível apresentar uma “entidade mental especial”, chamada de “sentido”, para explicar a intencionalidade.
Para Heidegger, discutir e aspirar aos trabalhos de respeitáveis filósofos da história da Metafísica era uma tarefa necessária, enquanto Husserl repetidas vezes ressaltou a importância de um princípio radicalmente novo para a filosofia e, com escassas ressalvas (Descartes, Hume, Locke e Kant), queria restaurar a história do pensamento filosófico. Heidegger adotou uma nova linha, focada na preocupação fenomenológica dedicada ao que está oculto na experiência do cotidiano.
Em sua crítica, Heidegger ponderou pontos essenciais da fenomenologia husserliana sobre o conceito de “intencionalidade”, a expansão do conceito de “intuição categorial e a priori”. Situando toda sua atenção na analogia entre “intuição sensível” e “intuição categorial”. Utilizando pressupostos abertos por seu mestre, Heidegger descobriu um novo campo para reformular a mais antiga tese filosófica e evocou uma nova fronteira para o conceito de percepção. Michel Haar (1998, p. 128-129) demonstra, em sua anotação, que não há, de acordo com Heidegger, percepção bruta, factual. Toda percepção “pressupõe que seja dado e compreendido um mundo, com seus reenvios significantes e um modo de doação ou um sentido do ser dos entes que podem ser reencontrados [...]”.
Ora, dessa forma, pode-se conceber que a imagem, enquanto produto resultante da percepção se define pelo sentido do que percebemos e não o inverso.
Heidegger debruça toda sua atenção ao caráter intencional da consciência, no qual encontra o caminho que permite e dá acesso a uma sensibilidade que de modo algum é “cega”. É a “intencionalidade através da sensibilidade que possibilita o acesso ao objeto sensível”.
Assim, o fundamento do objeto não pode ser formado a partir de simples dados sensoriais, já que os dados sensoriais não existem “per si”, antes se descobrem desde sempre, como que animados por uma finalidade de pacto com a qual são percebidos, e são momentos da “coisa” para a qual reenviam. Para Heidegger, uma cor é “sempre a cor de uma superfície para a qual nos
homem na representação e na produção. (…) O ser do ente é agora buscado e descoberto no ser-representado do ente. (Heidegger, 1962)
reenvia” e “é o caráter do ato que anima”. A percepção fazendo-a ser “tal ou tal”, bem como percepcionar o objeto de “tal ou tal” maneira.
De acordo com Heidegger, o que é percebido pela consciência é um objeto60, uma “coisa”, mas não o objeto em si que, embora não possa ser percebida pela sensibilidade, é proporcionada na sensibilidade.
Na alegação de Heidegger sobre a construção da “objetualidade do objeto”, tal ação seria elucidada a partir da intuição categorial, ou melhor, é partindo da intuição categorial que Heidegger sugere que “um objeto é para Husserl não um utensílio com a sua serventia própria, mas sim um objeto que funciona enquanto exemplo de um simples objeto”.
Se na percepção sensível o objeto se localiza atualizado por ele mesmo, por meio de um ato simples, isso não pode de modo algum significar que ele seja “um dado bruto e indiferenciado, visto que o objeto sensível é sempre presente enquanto tal ou tal”. Diz Husserl:
[…] um objeto individual não é algo meramente individual, um “isto aí”, indiferenciado, ele tem enquanto “em si mesmo” assim ou assim constituído a sua peculiaridade (Eigenart), a sua efetividade de predicáveis essenciais que lhe devem convir (enquanto ente tal como ele é em si mesmo) para que lhe possam convir outras determinações secundárias ou acidentais. (Heidegger, 1929, p. 173)
Assim, segundo a estrutura enquanto “tal ou tal”, o objeto sensível é presente. Parece-nos muito oportuno observar tal pensamento; se o objeto sensível nunca comporta um conhecimento absoluto, se por meio das prováveis perspectivas em que o mesmo pode ser apontado ele sempre é mais visado, logo, o objeto sensível é apenas presente enquanto “tal ou tal” e é mesmo esta estrutura “enquanto que” que vai permitir a Heidegger o acesso à possibilidade de conhecimento acerca do objeto.
Apelando à linguagem da escolástica, podemos afirmar que na “intuição sensível a estrutura enquanto que” nos conduz à distinção, no objeto dado, entre objeto material e objeto formal. Ainda que tal distinção implique que o
“ser” (é) esteja já pressuposto - como o próprio Husserl sugestiona reconhecer e de que já tenha uma interpretação apofântica61 do enunciado.
Observamos que a “intuição categorial” se caracteriza, assim, por libertar o “ser” da união do juízo, considerando-o como fenômeno, e se tal distinção levou Heidegger a apresentar a questão “que significa ser?” ou “qual o sentido do ser?” tais questões, que são o fio condutor de todo o pensamento heideggeriano, nos levam a crer que não foram formuladas por Husserl, haja vista que segundo Heidegger, para Husserl “(…) não havia aí sombra de uma questão possível, porque para ele era de si compreensível que “ser significa ser – objeto.” Dessa forma, se em “Ser e Tempo” (2008) não deparamos com um objeto senão como resultado de ser dos utensílios, também não encontramos uma consciência em concordância aos modelos que Husserl a formulou.
Assim, no lugar de Bewußtsein62 passamos a ler Dasein, um ser
acessível que não se encontra recluso na imanência de uma consciência que jamais é inquirida quanto ao seu “ser”. Dessa forma, concluímos que, para Heidegger, a questão sobre o “ser” evoca as condições de possibilidade presentes nas próprias ontologias que precedem e instituem as chamadas ciências ônticas. “A investigação ontológica [...] confere à questão do ser um primado ontológico que vai muito além de simplesmente reassumir uma tradição venerada e um problema até agora sem transparência.” (Heidegger, 2008, p. 47).