Klein, Riggenbach-Hays, Sollenberger, Harney e McGarvey (2018) (EUA) reforçam que a fadiga por compaixão pode levar ao burnout e a uma diminuição da qualidade de vida profissional, e que a satisfação por compaixão está associada a sentimentos positivos que a pessoa experimenta enquanto cuidadora, no papel de cuidadora. Já a fadiga por compaixão está associada a sentimentos negativos. Esta é descrita como um percurso de desenvolvimento de burnout. As componentes centrais do programa da resiliência são a autoconsciência e o autocuidado contínuo. Educar para o autocuidado traz benefícios. Os participantes identificam que o programa é bom e que ensina habilidades importantes; que há necessidade de autoreflexão, necessidade de sessões de acompanhamento e/ou discussões em grupo ou atualizações periódicas. O impacto do programa na prática clínica e de vida é relatado como moderadamente alto pelos participantes. Com a aplicação consistente de práticas de autocuidado é possível aumentar a satisfação por compaixão nos profissionais de saúde. Ou seja, Klein, Riggenbach-Hays, Sollenberger, Harney e McGarvey (2018) destacam o efeito
notório do programa de resiliência na qualidade de vida e, em conjunto com aaplicação consistente de práticas de autocuidado, é possível aumentar a satisfação por compaixão nos profissionais de saúde.
Da mesma forma, os profissionais da amostra de Perez et al. (2015) manifestam interesse em treinar habilidades mente- corpo (respiração, ioga, meditação, educação em saúde sobre os aspetos do stress e estratégias cognitivas para reduzir pensamentos ruins e conversas negativas), reconhecendo-se a necessidade de estratégias que possam ser integradas no local de trabalho.
3.7.1. Alguns programas com vista ao aumento da resiliência
Lee et al. (2015) defendem que são necessárias várias intervenções para atingir todos os sujeitos. Neste sentido, apresentam-se algumas dessas intervenções:
- treino de mindfulness: tendo por base que a medicina paliativa pode causar sofrimento, trauma e burnout, para aumentar a resiliência dos profissionais de cuidados paliativos, o treino, aplicado por Gerhart et al. (2016), contou com uma amostra de 21 profissionais de serviços locais de cuidados paliativos e do hospice, via e-mail. E concluiu-se que otreino de mindfulness reduz o sofrimento dos profissionais de cuidados paliativos, uma vez que a participação no treino foi associada a níveis mais baixos de sofrimento, isto é, foi observada uma redução significativa nos sintomas de depressão, na despersonalização. O treino em grupo de
mindfulnessdesenvolveu-se durante 10 sessões, no período de 10 semanas,
incluindopráticas formais de meditação, dramatizações de comunicação e exercícios de esclarecimento de valores;
- programa educativo: no estudo de Klein, Riggenbach-Hays, Sollenberger, Harney e McGarvey (2018), participaram 15 profissionais da área da saúde num programa educativo composto por três sessões educativas de 90 minutos. Estes completaram um programa de resiliência, focado na educação sobre fadiga por compaixão e autoconsciência, o seu impacto individual e esperado que desenvolvesse práticas contínuas de autocuidado para prevenir os efeitos adversos, isto é, pretendeu-se perceber a eficácia de um programa de resiliência em profissionais de cuidados paliativos de um grande Centro médico académico do meiooeste. Apesar da reduzida
amostra, concluiu-se que a fadiga por compaixão é prevalente nos profissionais de saúde e que com o tempo pode resultar em burnout, em stress traumático secundário e numa diminuição geral na qualidade profissional. Após a conclusão do programa, os participantes notaram que o programa da educação para o autocuidado se traduz num aumento da satisfação por compaixão e uma pequena redução do burnout, este programa teve impacto positivo na sua vida pessoal e profissional - benefícios de prestação para o autocuidado;
- multidisciplinar: Mehta et al. (2016), no seu estudo de coorte multidisciplinar a 16 profissionais de CP, num centro médico académico no hospital Universitário de Massachussets, pretenderam testar a viabilidade do programa (de resiliência) de resposta ao relaxamento para clínicos de CP, um programa destinado a diminuir o
stress e aumentar a resiliência, sendo as componentes relevantes para os provedores
de cuidados paliativos: stress percebido, afeto positivo/negativo, tomada de perspetiva, otimismo, satisfação com a vida, autoeficácia. Apósaintervenção, os participantes mostram redução no stress e melhorias na tomada de perspetiva; verificam-se mudanças no stresse percebido, afeto positivo/ negativo, tomada de perspetiva, otimismo, satisfação com a vida eautoeficácia. Na pré-intervenção, um maior tempo de trabalho foi associado com uma maior autoeficácia, enquanto a idade avançada foi associada com menor perspetiva. Como se vê, neste estudo, Mehta et al. (2016) testaram a viabilidade do programa de resiliência de resposta ao relaxamento para clínicos de cuidados paliativos, um programa destinado a diminuir o stress e a aumentar a resiliência. A intervenção foi viável e, após a mesma, todos os participantes mostraram redução do stress percebido e melhorias na tomada de perspetiva. Houve pequenas melhorias no afeto positivo, otimismo e satisfação com a vida global, ou seja, uma intervenção baseada na equipa pode ajudar a promover a resiliência e a proteger contra as consequências negativas do stress dos profissionais de cuidados paliativos. Em conclusão: de acordo com os resultados de Mehta et al. (2016), a intervenção de um programa de resiliência traduz-se num aumento da autoeficácia, pequenas melhorias no afeto positivo, otimismo e satisfação com a vida em geral.Após a intervenção, de facto, todos os participantes mostraram redução do
stress percebido, aumento na tomada de perspetiva, pequenas melhorias no afeto
- arteterapia (intervençãoinovadora, ainda na fase de colheita de dados) : tendo em conta a intensa natureza emocional a que estão sujeitos os profissionais que prestam cuidados de fim de vida, este estudo foi aprovado pelo conselho de revisão institucional da Nanyang Technological University Singapore (IRB-2015-04-021) e visa testar aeficácia de uma nova intervenção psicossocioespiritual, mais concretamente, pretende avaliar a efetividade da terapia de arte de compaixão consciente (MCAT) no apoio a profissionais. Trata-se de uma intervenção que visa reduzir o stress relacionado com o trabalho e promover a resiliência, assim como o bem-estar. Este é o primeiro estudo conhecido que engloba a meditação da atenção plena à arteterapia para conseguir uma única intervenção estruturada. Desta forma, apesar de apresentar algumas limitações, Ho AHY et al. (2019), no estudo controlado randomizado, em Singapura, a 60 profissionais de atendimento de cuidados de fim de vida (médicos, enfermeiros, assistentes sociais e assistentes pessoais) dão-nos conta da estrutura deste modelo de intervenção da arteterapia. Este assentanaseguinte estrutura: 1ª semana - trabalha-se o autocuidado, a respiração, a autobondade. Isto é, os participantes são convidados a explorar o tema do autocuidado positivo: começam com os conceitos de prática da atenção plena e arte expressiva para a cura, segue-se a meditação respiratória e uma visualização sobre o tema da autobondade e terminam com a observação reflexiva da arte, partilhando em grupos; 2ª semana - gere-se o
stress corporal, apoiado por uma meditação compassiva de varredura corporal, uma
visualização sobre o tema do stress corporal e termina com uma sessão para aliviar o
stresscom a partilha de grupos; 3ª semana - assistência positiva ao doente: meditação
da bondade, pontos fortes e progresso no atendimento ao paciente; 4ª semana - desafia-se o atendimento ao doente: meditação da bondade, fraqueza e estagnação no atendimento ao paciente.As semanas 3 e 4 dizem respeito à parte cognitiva dos participantes, de modo a que estes se possam concentrar no tema de experiências de atendimento ao doente e desenvolver habilidades. As duas semanas principiam com uma meditação da bondade, seguida por uma visualização sobre uma interação positiva de atendimento ao paciente e por uma sessão sobre o tema “pontos fortes e progressos na semana 3”; na semana 4, segue-se uma visualização sobre o tema “desafios na interação paciente-cuidado” e uma sessão sobre o tema “fraquezas e estagnação”. Estas duassemanas terminaram em atividades criativas de partilha entre grupos; 5ª semana - perda e luto meditação - os participantes aprofundam as emoções,
exploram o tema perda e sofrimento. Para tal, começam com uma meditação, com uma visualização sobre o tema da morte de um doente. Termina igualmente com uma actividade coletiva de pequenos grupos e partilha dos mesmos; 6ª semana - meditação sobre dar e receber compaixão - sabedoria aprendida e significado do trabalho. Os participantes são convidados a fortalecer todas as suas experiências e aprendizagens e a aplicá-las na exploração do tema “propósito profissional”. Isso começa com uma meditação sobre dar e receber compaixão, uma visualização sobre o tema da sabedoria aprendida e o significado do trabalho e termina com uma actividade coletiva e partilhada em grupo. De salientar que cada sessão semanal tem a duração de três horas e visa promover aauto-reflexão, a expressão criativa, a partilha autêntica e a expansão de perspetiva.
Em síntese, os estudos em campo aqui apresentados comprovam que os cuidados paliativos favorecem a resiliência nos doentes, mas que, para tal, é necessário que as instituições implementem estratégias, programas e treino de habilidades que assegurem cuidadores/ profissionais de saúde resilientes, com reflexos positivos no funcionamento dos serviços de cuidados paliativos e no bem-estar de todos, proporcionando o acesso aos cuidados paliativos por cuidadores/profissionais de saúde “saudáveis” e não vulneráveis/ vítimas de burnout.